O Manifesto Antropófago e seu papel crucial

 

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Documento de Oswald evoca comunismo, revolução e psicanálise, mas os enxerga em perspectiva radicalmente descolonizada e não-cristã

Por Oswald de Andrade | Imagem: Jean de Léry

Ei-lo, caraíbas, que surge esfomeado: o antropófago.

Como observa Benedito Nunes, no excelente ensaio, “Antropofagia ao alcance de todos”, o Manifesto da Poesia Pau-Brasilinaugurou o primitivismo nativo”, i ao passo que, no Manifesto Antropófago, esse outro documento básico do nosso modernismoii, já se introduz uma “apreciação da realidade sociocultural brasileira”. iii

TEXTO-MEIO

Assim, temos um estilo telegráfico, semelhante ao anterior, com os seus aforismos. Estes vêm misturados “numa só torrente de imagens e conceitos”.No texto, podemos acompanhar a “provocação polêmica”, em diálogo com a “proposição teórica, a piada às idéias, a irreverência à intuição histórica, o gracejo à intuição filosófica”. iv

E exatamente, nesse manifesto, escrito em maio de 1928, Oswald de Andrade lança a palavra “antropofagia”, provocando a sensibilidade do leitor com uma experiência decisivamente tabu em nossa cultura.

Em parte, seguindo de perto os caminhos de Bendito Nunes, somos lançados diante de uma imagem que não dará descanso, obsedante. Antropofagia. Ela virá cheia de “ressonâncias mágicas e sacrificiais”, ao mesmo tempo em que se afina com um repertório demolidor de “anedotas de almanaque”. v Isso ocorre enquanto a própria palavra postula funcionar como engenho verbal ofensivo.

Essa mesma palavra, antropofagia, é claramente um “instrumento de agressão pessoal e arma bélica de teor explosivo”. vi

É ainda um “vocábulo catalisador, reativo e elástico”, que mobiliza as mais profundas “negações numa só negação”: a prática do canibalismo. vii Agudamente enquanto metáfora cultural.

Assim, a devoração antropofágica – “Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem.”, como diz Oswald no manifesto – é o “símbolo cruento, misto de insulto e sacrilégio, de vilipêndio e de flagelação pública”. viii

Nessa palavra, que contém em si o próprio homem, podemos entender algo próximo a uma sucessão corrosiva verbal da “agressão física a um inimigo de muitas faces, imaterial e proteico”. ix

E que faces seriam essas? Está em Oswald e em Benedito:

o aparelhamento colonial político-religioso repressivo sob que se formou a civilização brasileira, a sociedade patriarcal com seus padrões morais de conduta, as suas esperanças messiânicas, a retórica de sua intelectualidade, que imitou a metrópole e se curvou ao estrangeiro, o indianismo como sublimação das frustrações do colonizado, que imitou atitudes do colonizador”. x

Bom alimento! (Theotônio de Paiva, editor da seção especial “Oswald 60”)

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

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Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

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O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

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Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

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Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

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Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

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Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade do ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

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Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Où Villegaignon print terre. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos.

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Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

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Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

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O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

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Só podemos atender ao mundo orecular.

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Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

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Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

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Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

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O instinto Caraíba.

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Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Kosmos ao axioma Kosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

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Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de Senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

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Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipejú.

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A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

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Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o.

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Só não há determinismo, onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

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Contra as histórias do homem, que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

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A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

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Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

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Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É a mentira muitas vezes repetida.

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Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

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Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

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Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

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As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

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De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

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O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + falta de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

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É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à ideia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

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O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

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Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

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Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

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A alegria é a prova dos nove.

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No matriarcado de Pindorama.

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Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

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Somos concretistas. As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as ideias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

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Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

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A alegria é a prova dos nove.

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A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura-ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modus vivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

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Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

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A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

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Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE

Em Piratininga
Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.
(Revista de Antropofagia: São Paulo, ano 1, nº 1, 1º de maio de 1928.)

 

iNunes, Benedito. “Antropofagia ao alcance de todos”. In: Andrade, Oswald. Do Pau-Brasil à antropofagia e às utopias: manifestos, teses de concursos e ensaios. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. xxxvi.

iiVale mencionar esse documento já se encontra, em forma reduzida, no livro de poesias Pau-Brasil (“Falação”).

iiiNunes, 1978, p. xiv.

ivNunes, 1978, p. xxv.

vNunes, 1978, p. xxv.

viNunes, 1978, p. xxv.

viiNunes, 1978, p. xxv.

viiiNunes, 1978, p. xxv.

ixNunes, 1978, p. xxv.

xNunes, 1978, p. xxv. Vale lembrar que o Manifesto Antropófago motivou a Revista de Antropofagia. Na sua primeira fase (maio de 1928 a fevereiro de 1929), foi dirigida por Alcântara Machado. Posteriormente, na chamada “segunda dentição”, circulou como página semanal do Diário de São Paulo e órgão do Clube de Antropofagia (março a agosto de 1929). Na época, tinha como secretários, que se revezaram, os “açougueiros”: Geraldo Ferraz, Jayme Adour da Câmara e Raul Bopp.

 

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.