Nariz, síntese da França

Chéri à Paris investiga a protuberância facial que define a identidade dos franceses e ajuda a explicar sua proverbial intolerância

Por Daniel Cariello

Se você fosse escolher um gesto — um só — para definir o brasileiro, qual seria? Pra mim, seria o drible do futebol. O drible é a síntese do que fazemos de melhor.

No futebol, é o Garrincha deixando seus marcadores sentados no chão (aliás, você sabia que a última vez que o Brasil bateu a França em uma Copa do Mundo foi nos 5 x 2 de 1958, com Garrincha e Pelé em campo?). Na vida, é o cidadão se virando pra pagar as contas, acumulando trabalhos, fazendo bicos. Na música, são os escravos enganando os senhores de engenho e batucando temas religiosos africanos, criando o que no século XIX virou uma das raízes do samba. E olha que ainda nem falei do famoso jeitinho, a derivação do drible em forma de acochambramento.

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E o francês, qual o gesto que o define?

Eu diria que é o ato de assoar o nariz, apreciadíssimo em terras gaulesas. Tão valorizado que — vejam bem — você pode fazê-lo em qualquer lugar, seja na rua, no metrô, na fila do açougue, no batizado da sobrinha ou à mesa, que ninguém se choca. Por outro lado se, ao invés de expirar, você inspirar, se você fungar, aí estará cometendo uma tremenda falta de educação. É quase certo que em troca receberá uma bela bufada.

Assoar o nariz seria a síntese do francês porque significa a expulsão de um treco que incomoda, enquanto o fungar seria a sua absorção. E os franceses são ótimos em expulsar trecos que incomodam, como monarcas, americanismos, seleções brasileiras e invasores diversos (vamos esquecer os alemães da Segunda Guerra, ok?, consideremos aquilo uma fungada histórica). Essa questão de o Sarkozy mandar árabes, africanos e ciganos embora, então, é apenas um reflexo atávico, a repetição de um gesto ancestral. A culpa não é só dele, mas em grande parte da avantajada napa que carrega entre os olhos.

Outra prova: um francês irritado se sente no direito de expulsar da cabeça dele tudo o que o enerva. E se ele estiver bravo com você, pior ainda, pois esse grande fluxo — não mais nasal, mas cerebral — vai na sua direção. É uma catarse quase hipnótica e o mais próximo que os racionais conterrâneos de Voltaire chegam do nirvana.

Portanto, da próxima vez que vir um francês assoar o nariz, fique atento! Pode ser uma conspiração revolucionária em curso. Ou uma descarga verbal daquelas.

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Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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