“Nada como um dia após o outro”

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“Da Ponte pra cá”, rap dos Racionais lançado em 2002, é grande painel das transformações vividas pelas periferias brasileiras, seus habitantes e artistas

Por Antonio Eleilson Leite, editor da coluna Literaturas da Periferia

(Parte final de ensaio sobre o rap “Da Ponte pra cá”, dos Racionais MCs e as transformações vividas pelas periferias brasileiras, seus habitantes e artistas. Leia aqui o segundo e o terceiro segmentos)

Pretendo neste artigo fazer uma análise deste rap nos seus aspectos internos, contextualizando-o também no conjunto de composições do CD Nada como um dia após o outro dia e na obra mais recente dos Racionais, focando também a interpretação, difusão e recepção deste Rap, apontando conexões com a produção literária da periferia de São Paulo, tema ao qual me dedico nesta coluna. Para isso farei uso de dois produtos artísticos de Mano Brown que antecipam boa parte dos elementos desta composição. São eles o texto “A número 1 sem troféu”, publicado no livro Capão Pecado, do escritor Ferrez em 2000 e do depoimento “Privilégio 2 – O tempo é rei” dado pelo rapper para o CD Na Batida Vol. 3 – Equlíbrio, trabalho solo de K L Jay lançado em 2001. Além desses materiais, utilizo-me da performance ao vivo deste rap no DVD Mil trutas, mil tretas, lançado em 2006 pelos Racionais MC’s. Escrito originalmente em quatro capítulos, este ensaio será publicado em três etapas ao longo de março.

I. Em cada favelado, um universo em crise

“Da ponte pra cá” é a última faixa do CD 2 do álbum Nada como um dia após o outro dia, gravado em 2002 pelo grupo de Rap Racionais MC’s. Lançado em julho do mesmo ano pelo Selo Cosa Nostra Fonográfica e distribuído pela Zambia, é o quinto e último CD do grupo. O Racionais que a partir de 1993 alcançaram lugar de destaque na cena do Rap nacional com o CD Raio X do Brasil, lançado naquele ano1, expandiram seu prestígio no universo mais amplo da música brasileira quatro anos depois com o CD Sobrevivendo no Inferno que tinha como principal faixa o rap “Diário de Um Detento”, obra que aborda o episódio conhecido como o Massacre do Carandiru. Este rap foi tema de um videoclipe lançado em 1998, que venceu o Festival VMB da MTV daquele ano, ampliando assim a visibilidade do grupo apesar de sua postura arredia à mídia comercial, especialmente à TV aberta2. Dez anos depois de sua criação o Racionais MC’s alcançava a consagração.

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Junto com o sucesso, vieram a elevação do poder aquisitivo e uma nova condição social para seus integrantes. Essa mudança, a meu ver, causa uma série de conflitos na alma de cada um deles e nas suas relações dentro contexto social das periferias onde residem e com a sociedade de maneira geral. Tal crise parece ser o tema central das composições do CD Nada como um dia após o outro dia, um álbum duplo onde cada CD tem um título distinto: CD 1: Chora agora; CD 2: Ri depois.

Essa dicotomia de sentimentos – chorar e rir – esclarece o sentido do título do CD. Expressão corriqueira da fala popular “nada como um dia após outro dia” é utilizada comumente para enfatizar o revide, a desforra ou vingança que aconteceu ou está na iminência de se realizar. Algo como “deixa estar”. Um recuo tático para preparar o bote fatal. É um apelo para não desistir como fica claro na voz do “radialista” (Mano Brown) que abre o disco:

Sou mais você nessa guerra. A preguiça é inimiga da vitória. O covarde morre sem tentar. É a selva de pedra. Eles matam os humildes demais. Você é do tamanho de seu sonho. Junte seus pedaços e desça para a arena. Mas não se esqueça. Aconteça o que acontecer: nada como um dia após o outro dia

Não se trata de deixar que o destino se encarregue de assegurar um bom lugar aos justos e condenar os “vermes e traíras”. A condenação é algo que se estabelece nas relações concretas. E o veredito do condenado é ter que admitir o vitória do “Negro Drama”. É constranger-se em ver o filho querendo ser preto: Inacreditável, mas seu filho me imita (Negro Drama). É insultar o “Zé Povinho” que cresce os zóio pro dinheiro que eu ganho, pro carro que eu uso (“Negro Drama”). Esse clima de ressentimento e dor com calúnias, inveja e injúrias percorre várias composições, principalmente aquelas escritas por Mano Brown3. São emblemáticas dessa condição a citada “Negro Drama”, além de “Vida Loka I”, “Vida Loka II” e “Jesus Chorou”. Quatro composições onde predominam a forma lírica com acentuada presença de visão e reflexão daquilo que é vivido e experimentado 4. Junta-se a essas o rap “Da ponte pra cá, também de autoria de Mano Brown.

Esta composição, porém, tem um lugar distinto no CD. Sem nenhuma referência na relação de músicas no encarte, ela aparece como um apêndice. Todas as músicas estão agrupadas dentro de uma delimitação definida pela intervenção de um DJ de rádio: a Rádio Êxodos. Na abertura do CD 1 Chora agora, assim como no encerramento do CD 2 Ri depois, este DJ é o próprio Mano Brown. A saudação inicial é uma faixa específica do CD: Sou + Você. Já o anúncio da despedida se dá no final da faixa Trutas e Quebradas que, assim como a primeira faixa, não é uma música. Aqui, os Racionais repetem o que fizeram no CD anterior, ou seja, mandam um “salve” para uma extensa lista de pessoas e suas respectivas quebradas. Feitas as saudações, Mano Brown anuncia o fim da programação em um tom muito distinto do início das transmissões. Econômico nas palavras, poética e suavemente declama: “a dama mais glamourosa da noite é a própria noite”.

Sai de cena Mano Brown. Assume os microfones da mesma Rádio Êxodos, o DJ Nell, que manda mais vários salves para os manos num clima mais agitado, anunciando uma madrugada fria, 10 graus de temperatura aos 23 minutos de terça-feira. A partir dali, algo diferente começa (ou se anuncia): vem a faixa “Da ponte pra cá”: A lua cheia ilumina as ruas do Capão / Acima de nóis só Deus, né não? É um posfácio. Ao mesmo tempo é um rap que não se descola do restante das músicas do CD, na medida em que traz um forte acento no pertencimento local, apego a certos valores, afirmação de um código de ética determinado, valorização dos trutas, entre outros elementos que compõem o ethos de quebrada, lugar que está acima de qualquer questão, em relação ao qual o sentido de pertencimento não é dado a qualquer um que o queira. Não é para forasteiro ou para aqueles que, sendo de lá, não são dignos deste pertencimento: Nóis aqui, vocês lá / Cada um no seu lugar / Entendeu? / Se a vida é assim, tem culpa eu? Um rap que se insere em um conjunto de composições que têm como traço em comum o “rolê na quebrada” como definiu Leandro Pasini5 , autor que identifica outros dois raps dos Racionais com mesmo estilo, a saber: “Fim de Semana no Parque”(CD Raio X do Brasil) e “Fórmula Mágica da Paz” (CD Sobrevivendo no Inferno).

O aspecto local é fundamental para entender este rap, como fica sugerido no próprio título da composição. Nela, o Racionais cunha o termo “Da ponte pra cá” que, ao lado de “Vida Loka, repercutirá não só no rap brasileiro como em toda a sintaxe periférica incorporando-se ao vocabulário que define o sentimento e a condição dos que vivem nas periferias e se reconhecem como pertencentes a uma cultura com características definidas, antes de tudo, pela geografia: Mesmo Céu, mesmo CEP no lado Sul do mapa.

* Antonio Eleilson Leite edita Estéticas das Periferias. Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

> Leia também as 35 edições de Cultura Periférica, a seção que Antonio Eleilson Leite publicou, entre outubro de 2007 e dezembro de 2008, no Caderno Brasil do Le Monde Diplomatique.

1Este CD tem raps de sucesso como “O Homem na Estrada”, “Fim de Semana no Parque” e “Tá vendo aquele mano na porta do bar?”

2O Racionais, desde sua criação em 1988, nunca fez concessão à TV, tendo tido aparições somente na MTV onde o DJ K L Jay teve durante alguns anos o programa Yo! E na TV Cultura onde gravou o Programa Ensaio (2007) e no Programa Roda Viva no qual foi entrevistado Mano Brow (2006)

3Não há no CD uma informação sobre a autoria das músicas. Tradicionalmente no Racionais, os raps são compostos por Mano Brow e Edi Rock e cada um interpreta sua composição. Neste CD fica muito evidente essa distinção de autoria em função do teor autobiográfico de algumas letras ou com referências a locais que são sabidamente ligados a Mano Brow como a Zona Sul e o bairro do Capão Redondo. Na faixa Negro Drama, interpretada pelos dois há duas partes muito distintas que não deixam dúvidas sobre o que cada um compôs. Além disso, a familiaridade que se tem com a obra dos Racionais permite aos que a ele se dedicam uma percepção muito clara da distinção de estilo de composição e interpretação de Edi Rock e Mano Brown

4ROSENFELD, Anatol, O teatro Épico, (pag. 22), Perspectiva, São Pàulo, 6ª edição, 2011

5PASINI, Leandro:Mano Brown: Poesia e Lugar Social, in; Cultura e Pensamento, nº 3, dezembro de 2007, Ministério da Cultura/FAPEX, Brasília/Salvador.

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Antonio Eleilson Leite

Antonio Eleilson Leite é historiador, programador cultural, mestrando no Programa Estudos Culturais da EACH/USP, coordenador do Programa de Cultura da ONG Ação Educativa, diretor editorial da Coleção Literatura Periférica, da Global Editora. É coordenador geral do Encontro Estéticas das Periferias e da Agenda Cultural da Periferia.