Dois filmes belos e estranhos

Em "Colo", a  história da implosão de uma família de classe média no mundo globalizado

Em “Colo”, a história da implosão de uma família de classe média no mundo globalizado

“Não devore meu coração” inquieta e estimula, mas escorrega na busca de um realismo psicológico. “Colo” confirma a impressão de que o cinema português tornou-se um dos melhores do planeta

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

Não devore meu coração, de Felipe Bragança, é um filme desconcertante. Sua originalidade começa na ambientação geográfica – a região de Bela Vista, na fronteira entre o Mato Grosso do Sul e o Paraguai – e se estende ao roteiro, que entrecruza ao menos duas linhas narrativas, e à construção formal, com suas referências a gêneros e cinematografias díspares.

É faroeste, filme de gangue de moto, romance de formação, fábula política, história de amor, alegoria histórica, tudo misturado de um jeito nem sempre harmônico, a partir de contos do livro Curva de rio sujo, de Joca Reiners Terron.

Violência secular

São basicamente duas histórias, mais sobrepostas do que propriamente entrelaçadas: a do garoto Joca (Eduardo Macedo), de 14 anos, apaixonado pela índia guarani Basano (Adeli Benitez), que mora no Paraguai, do outro lado do rio Apa; e a de seu irmão mais velho, Fernando, o Príncipe (Cauã Reymond), membro da Gangue do Calendário, grupo de motoqueiros que rivaliza com seus congêneres paraguaios, autodenominados República Guarani.

Trata-se, já se vê, de uma insólita atualização de uma violência histórica secular, ressaltada já nas primeiras imagens: detalhes do célebre quadro “Batalha do Avaí”, de Pedro Américo, retrato de um dos mais sangrentos episódios da Guerra do Paraguai. A imagem seguinte, que joga de chofre a narrativa nos dias de hoje, é ainda mais eloquente: um jacaré atropelado, estendido atravessado numa rodovia, por onde vem chegando em alta velocidade uma moto que, ao desviar do bicho, tomba no acostamento.

TEXTO-MEIO

Em poucos minutos, os elementos básicos com que o filme vai trabalhar estão dados: a memória histórica, a vastidão do horizonte, a natureza selvagem, a velocidade, a solidão, o sangue. Mais do que o enredo, o que se impregna na sensibilidade e na memória do espectador é esse território conturbado, pulsante, pleno de fantasmas e ameaças. Os corpos boiando no rio, o fogo nas plantações.

Mas não há um determinismo, um fatalismo imposto pela história ou pela geografia. Dentro do mesmo contexto, os dois irmãos protagonistas têm posturas opostas: Fernando parece imbuído de uma missão de vingança e aniquilação do inimigo guarani; seu irmão caçula acredita no amor e entrega (quase literalmente) seu coração à altiva e inflexível Basano, la Tatuada.

Estilos contrastantes

Cada um desses personagens puxa a narrativa para um diferente gênero, um diferente estilo. O mundo de Fernando é o da velocidade, da brutalidade dos motores e das armas, das mulheres-objeto, do asfalto selvagem: “gasolina e música”, na frase do ambíguo líder de sua gangue, Telecatch (Marco Lori). O mundo de Joca é o do rio, da mata, dos vagalumes, das trilhas de terra percorridas de bicicleta, da princesa guerreira guarani. Do ponto de vista das referências cinematográficas, é uma mistura improvável: uma configuração remete a Walter Hill; a outra, a Apichatpong Weerasethakul.

A progressão narrativa, com sua montagem aos saltos, indiferente às regras convencionais de continuidade, abole a certa altura as coordenadas temporais, numa montagem paralela de dia e noite, ou numa sucessão aparentemente aleatória de crepúsculos e auroras. Também a geografia se desconcerta: não sabemos, por exemplo, se a fazenda do pai dos protagonistas é próxima ou distante, ou se determinado personagem está indo em direção ao lado paraguaio ou ao lado brasileiro.

Tudo isso é inquietante e estimulante. O que talvez enfraqueça um pouco o conjunto é a vertente, digamos, do realismo psicológico, que busca dar conta das relações conflituosas no seio da família: os irmãos, a mãe depressiva e ressentida, o truculento pai ausente. Alguns diálogos (como o primeiro entre os irmãos) são demasiado explicativos. Inversamente, não se entende bem o papel do personagem Mago (Ney Matogrosso), espécie de braço-direito do pai dos rapazes. A mim, pelo menos, sua presença pareceu dispensável.

De todo modo, é um filme de rara complexidade e riqueza – de ideias, de imagens, de invenção audiovisual –, com uma trilha musical inusitada, que reúne a ópera “O guarani”, de Carlos Gomes, a popular guarânia “Índia” em sua versão original em guarani, e uma curiosa interpretação em espanhol de “Objeto não-identificado”, de Caetano Veloso. Aliás, a mistura de línguas – português, espanhol, guarani – é um dos encantos de Não devore meu coração.

Colo

Outro filme belo e estranho, mas numa direção diferente, é o português Colo, de Teresa Villaverde, em cartaz no IMS Paulista e no IMS Rio. Para definir em poucas palavras, é a história da implosão de uma família de classe média no mundo globalizado. Mostra-se ali, de modo fragmentado, o dia a dia de crescente penúria de um pai desempregado (João Pedro Vaz), uma mãe estafada pela dupla jornada (Beatriz Batarda) e uma filha ainda em plena adolescência (Alice Albergaria Borges), mas já destituída de sonhos e perspectivas.

A luz do apartamento é cortada por falta de pagamento, a comida escasseia, os afetos se encerram. Em algum momento, alternadamente, um dos três não volta para casa por algum motivo. Há passagens em que, ora a filha, ora o pai, saem do universo urbano e perdem-se num mundo arcaico, atemporal: uma praia deserta, um barraco solitário de pescador, uma mata fechada. É como se saltássemos do drama social realista para uma dimensão de parábola ou alegoria, mas sem “mensagem” ou moral da história.

A câmera de Teresa Villaverde observa, impassível e implacável, esses seres que, quando na cidade (e sobretudo no apartamento), se movem em quadriláteros delimitados, quadros dentro do quadro: janelas, espelhos, vãos de portas, corredores, molduras diversas. Os chamados tempos mortos não poderiam aqui ser mais cheios de vida – ainda que de uma vida sufocada, oprimida.

Questões urgentes – desemprego, corte de direitos sociais, gravidez adolescente, baladas movidas a drogas sintéticas, mudanças de papéis de gênero – são abordadas de modo transverso, como quem não quer nada, e as coisas parecem se encaminhar de modo fortuito até um desfecho surpreendente.

Os assuntos são deprimentes, mas o frescor e o vigor com que a diretora os plasma em cinema são animadores. E confirmam a impressão de que o cinema português é hoje um dos melhores do planeta.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.