Talvez tenhamos nos focado na fábula errada

O quietismo de Pedro e o lobo ensina, mas o rebelde súdito de A roupa do Imperador inspira. Sem paranoias ou pós-verdades, ele ousa destoar da verdade socialmente aceita. Grita “o rei está nu” — e denuncia os cínicos do “eu não sabia”…

Todo mundo conhece um punhado de fábulas; crescemos amamentados por elas. Do seu modo rudimentar e essencial, elas servem como pequenas bússolas da tradição para as crianças, ajudando-as a navegar as situações em que se encontram oferecendo algum tipo de norte para elas, ético ou prático. É por causa disto que em países anglo-saxões elas são frequentemente chamadas de “histórias cautelares” (cautionary tales) e que muitas delas têm o que se costuma chamar de “uma moral”.

Artefatos muito próprios de uma cultura simbólica como a nossa, muito proficiente em narrar para entender e para ensinar, as fábulas são também instrumentos muito úteis para iniciar as crianças no universo dos adultos. Operando dentro da visão de mundo ainda encantada daquelas, as fábulas transpõem o limiar da realidade e adentram na dimensão da imaginação tentando mobilizá-la para funções pedagógicas e estéticas. Em outros termos, as fábulas funcionam porque nas crianças os limites entre o possível e o impossível, entre o verossímil e o inverossímil, estão ajustados de tal modo que seu efeito persuasivo é poderoso.

Parte do drama de nossa época tem a ver com isto. Quando mesmo aos adultos, dotados de faculdades racionais e cognitivas, o limiar entre possível e impossível foi borrado, não voltam a ser as fábulas uma bússola tentadora? Ou mesmo, para nosso pasmo, útil?

Para bem ou para mal, a resposta parece ser “sim”. Quantos dos chamados “fenômenos de pós-verdade” não podem ser explicados desse modo, recorrendo à chave explicativa dos comportamentos infantis? Muitos, tenho certeza. E então, quando parece que os terraplanistas, olavistas, anti-vaxxers e outros histéricos foram todos explicados e postos em seu curralzinho freudiano, vem um súbito temor: certamente há outros oportunistas de plantão, prontos para usar esse lusco-fusco de racionalidade a favor de projetos que em condições normais de bom senso não ficariam em pé. Pois bem, num mundo em que o inverossímil se passa por verossímil com muito mais facilidade, como denunciá-los sem correr o risco de adensar a paranoia geral? Afinal, se à noite todos os gatos são pardos, como posso dizer quais deles são mau agouro?

Sinto dizer que provavelmente teremos que nos sujar nesse lamaçal de meias-verdades e intenções dúbias, porque é debaixo dessa água turva que tem se escondido aqueles oportunistas e seus projetos. Se impõe que não nos furtemos ao risco de chapinhar ali em busca dos indícios e rastros. Nesse sentido, aliás, talvez tenhamos nos focado na fábula errada: aprendemos demais o quietismo de “Pedro e o lobo” e raramente admiramos o suficiente a pachorra daquele súdito genial de “A roupa nova do imperador”. Ou, pior, achamos que a primeira é a antítese da segunda.

Naquela, o pastorzinho de ovelhas se diverte dando o alarme de lobo ao povo da vila, somente para vê-los aparelhar-se todos, correr em seu socorro e não encontrar lobo nenhum. Nesta, conhecemos um sabichão que, dizendo-se alfaiate, vende ao rei, à preço de ouro, um cabide vazio dizendo que neste encontra-se uma roupa majestosa que somente os sábios conseguem ver. O rei, sem jeito, diz achá-la linda, e apresenta-se ao conjunto dos súditos trajando-a.

O destino do pastorzinho Pedro é trágico: quando o lobo de fato veio e o alarme foi soado, as pessoas não o ouviram. O destino do rei é cômico: ele expõe-se ao ridículo quando um dos súditos atesta o óbvio, “O rei está nu!” Na primeira aprendemos o dever de ser responsáveis quanto ao que dissemos, sob a pena de sermos desacreditados. Na última, instruímo-nos quanto às armadilhas da falta de humildade, no caso do rei, e quanto à necessidade de não ignorar o óbvio, no caso dos súditos.

À primeira vista pode parecer que as duas fábulas são auto excludentes: uma diz “não fale demais”, a outra, “não deixe de falar”. Não se trata disto. Gosto de pensar que o súdito que, em “A roupa do imperador”, rompe o silêncio é o Pedro mais velho, propenso a dar o alarme como outrora, mas tendo se tornado mais responsável quanto ao que fala. Se em “Pedro e o lobo” ele havia sido leviano, não observando se havia pegadas no chão ou ossadas antigas nos arredores para poder soar o alarme; em “A roupa nova do imperador” ele esfregou bem os olhos ao ver o corpanzil real pelado, somente então tendo-se recusado a participar na conspiração do silêncio (e da vaidade) dos pseudossábios.

A lição de Pedro, o desbocado, é instrutiva. Tivesse ele estado na corte e o rei teria economizado muito dinheiro e embaraço. O alfaiate falsário teria sido desmascarado no ato, e o ouro gasto no embuste teria sido aplicado na construção de uma ponte ou no aumento do celeiro comunal. É menos feérico do que gostaríamos, mas mais próximo do realismo de que precisamos.

É fácil atestar óbvios tais como a nudez do rei, no entanto, é bem menos fácil destoar de uma verdade socialmente aceita e pô-la em causa porque evidências apontam noutra direção. É fácil não soar o alarme de modo desnecessário, mas é bem menos fácil ter que enfrentar um lobo dentro da vila porque se duvidou do tocador de alarme. Há que se chamar os falsos alarmistas à responsabilidade sim, não resta dúvida!

Mas, tanto quanto, há que chamar à responsabilidade a ignorância dos “Eu não sabia”, o cinismo dos “Se eu soubesse…” e a covardia dos “Sabia, mas não quis criar caso”. Especialmente porque, para adensar a complicação, gritar “Pega ladrão!” antes do roubo pode dissuadir o criminoso e impedir o crime.

Voltamos ao dilema de antes: como podemos ser o Pedro adulto, súdito responsável, ao invés do Pedro criança, pastorzinho imaturo?

A resposta a essas perguntas passa por correr riscos, inevitavelmente, mas, antes de tudo, por assumir responsabilidade. Mesmo a pesquisa científica de método mais apurado e com diretrizes teóricas mais bem fundamentadas está sujeita ao risco da miopia ou da “visão de túnel”. Há margem de erro em todos os instrumentos de aferição estatística e laboratorial. Isso, no entanto, não pode ser entendido como salvo-conduto para charlatanice ou para simples preguiça.

A boa e velha labuta de pesquisador, sempre partindo da possibilidade de estar errado e não medindo esforços quanto a olhar debaixo de todas as pedras, continua sendo a recomendação mais sensata, talvez uma das únicas. É pouco glorioso, mas é necessário. Se o alarme que soamos com base na observação rigorosa fizer com que o esperado não se realize, teremos que nos conformar com a pecha de Cassandras frustradas. Não é algo confortável, e o risco do conspiracionismo histérico ronda, mas é melhor que engrossar o cemitério das boas intenções e a galeria das epifanias póstumas.

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