Saturno no laranjal

“De tal maneira era feito aquilo que ficávamos de boca aberta com habilidade dele. Nosso pai fazia isso em silêncio”.

 

“De tal maneira era feito aquilo que nos ficávamos de boca aberta com a habilidade dele. Nosso pai fazia isso em silêncio”

Um conto de Jeferson Assumção

Nosso pai era um exímio descascador de laranjas. Com velocidade e precisão, ele deslizava a faca afiada entre o amarelo da casca e o branco do bagaço, sem nunca feri-las ao ponto de aparecer alguma parte da polpa. O que nos encantava era como se formava uma espiral comprida, que ia descendo de sua mão a cada volta da lâmina afiada e que só terminava quando a tampinha da outra ponta também estava feita. A casca, então, despencava, dali, inteira para a grama. A gente se acotovelava pra chegar primeiro e era sempre eu, o mais velho, que as pegava antes, para brincar. Pareciam, à minha imaginação, pequenos móbiles ou baralhos de mágico que se abriam em sanfoninhas perfumadas. De tal maneira era feito aquilo que nós – que nunca conseguíamos nem uma coisa nem outra, ou seja, nem retirar a casca intacta nem fazê-lo sem esfolar – e consequentemente sangrar – a laranja aqui e ali, ficávamos de boca aberta com a habilidade dele. Nosso pai fazia isso em silêncio. Uma, três, cinco vezes, embaixo da laranjeira. Às vezes se esticava todo e puxava um galho para baixo para pegar as mais maduras. Nós três ficávamos ansiosos querendo saber para quem ele daria, primeiro, a laranja tão habilmente descascada. Mas ele sempre nos desapontava. Não digo que apenas no começo ele tenha gerado esse sentimento e que depois a gente tenha se acostumado. Nós sentávamos a uma pequena distância a vê-lo comendo, sozinho, cada uma daquelas laranjas. Com a já referida habilidade, nosso pai chupava-as inteiras e jogava fora os bagaços intactos, como se fossem cabeças de crianças murchas.

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3 comentários para "Saturno no laranjal"

  1. daniel santos disse:

    Estava observando o senhor descascando a laranja, cheguei até a sentir o cheiro cítrico e feliz, quando me dei conta de que se tratava de um conto, não de uma experiência real! Maravilhas da ficção, mas de uma ficção com inspirada assinatura de um escritor que sabe sentir, sabe descrever e valoriza preciosos momentos de um cotidiano que, à maioria de nós, passa batido. Que venham mais contos desse escritor capaz de instalar contemplação e serenidade neste mundo em que a velocidade espalha superficialidade para todos os lados.

  2. Iolanda Nogueira disse:

    Que lembrança boa… não era só meu pai, minha mãe, minha avó, descascava laranja assim, e eu ficava pensando, como eles consegue fazer isso?? Eu dizia quero com tampinha…

  3. aNE disse:

    ODIEEEEEIIIIIIIIIIIIIIII SATURNO E AMARELO E CADE OS ANEISSSSS.

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