Levante, primeiro capítulo

“O artista sofre dos nervos. Os nervos são de direita, o artista é de esquerda, o snob. O panelaço de gente de panela vazia porque não para de comer — esgota-lhe os nervos”

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Por Airton Paschoa | Imagem: William Kentridge, Secondhand reading, 2013

De cadência

Não precisamos rastejar. O jogo está perdido, quem não enxerga as bandeiras enroladas? e tentar virá-lo, nesta altura do campeonato, apenas apressa o apito final. Nem por isso devemos privar de espetáculo o público pagante. É imitar o futebol-arte, respeitar a tradição de cadência nacional. Um toque de graça e quão leve (em que pese a bola de chumbo) não parecerá a embaixada!

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Área de risco

Quando tudo faz água, mudamos debalde a contracorrente. Deixe estar, passar a aluvião. Um dia sai o sol e será hora de remover o entulho, munido de pá e paciência. A casa cai-não-cai, gostemos ou não, é o que restou da vizinhança. Agora é aguentar a encheção… ao menos até nova cheia.

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Mar de gente

Ao meu bom Brazil

Meu irmão quis lavar a alma. Berrou, espumou, dançou e cantou debaixo de uma chuva de palmas. A vaga humana afoga e afaga. Meu irmão cantoria que é doce morrer no mar e mergulha de cabeça. Quanto não o invejo em seu crawl-and-crowd! Braçada atrás de braçada, pernada atrás de pernada, cabeçada atrás de cabeçada…

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Gota-serena

Meu irmão não pode mais ler revista. Mal saio da janela e a atravessa feito bólido o hebdomadário. O vizinho pragueja. Podia ser uma pedra, uma pá, uma lápide! Podia, mas não foi. Não foi, mas podia. Tento em vão serenar os ânimos, cada vez mais exaltados, e apreensivo peço — paz! É a gota d’água.

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Marciano

Vô-m’imbora! Cansei, cansei dos marchistas, dos marxistas, dos marxianos, dos marciais, dos guerreiros, dos guerreiros do povo brasileiro, do povo brasileiro, do povo, do pô e do vô! Vô-m’imbora! E se não der Marte, que dê qualquer parte. Vou enfiar o saco na viola, podem dar parte, e gozar a toada à toa. Chana, chalana, é tudo a mesma água mesmo. Não me chamam de poeta? Pois podem me chamar de Marciano. Evoé, Taco! E se precisar de nome completo serve este, Marciano Taco, seu servo. E voemos!

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Retrato do artista quando esquentado

O artista sofre dos nervos. Os nervos são de direita, o artista é de esquerda, o snob. O panelaço de gente de panela vazia porque não para de comer — esgota-lhe os nervos. O artista quer parar a produção de panela no País, quer metralhar os panelhaços, quer meter a colher de pau no vau dos vizinhos, quer fazer greve de fome… (Pode roer as unhas?) O panelaço cozinha os nervos do artista. O artista se come inteirinho.

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2 comentários para "Levante, primeiro capítulo"

  1. Incrível, como tudo que o Paschoa escreve.

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