E se Woody Allen fosse mulher?

Atos pessoais bizarros não desmerecem obra genial do diretor. Mas teremos todos – e todas… – direito a esta distinção?

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Por Marília Moschkovick | Imagem: Antonio Montanaro

Uma história conhecida já há algum tempo por quem se liga em fofocas do meio cinematográfico (ou por quem milita pelos direitos sexuais das mulheres) veio à tona de maneira bombástica no fim da semana que passou: Dylan Farrow, filha adotiva de Woody Allen, falou abertamente sobre como teria sido abusada sexualmente pelo cineasta aos sete anos de idade. A denúncia aberta (que antes se restingia a certos círculos sociais) foi motivada, segundo ela, pela premiação de Allen na última edição do Globo de Ouro.

Há muito o que comentar sobre o caso. A questão que me tem sido colocada pelos leitores e leitoras da coluna, porém, é a seguinte: devemos parar de apreciar a obra de Woody Allen? Essa pergunta parece simples, mas evoca uma segunda indagação importante: teríamos a mesma reação se Woody Allen fosse mulher?

Pessoalmente sempre fui muito fã dos filmes de Allen. Descobri seu trabalho na adolescência, com “Trapaceiros” (Small Time Crooks, 2000), e cheguei no auge do meu amor por seus filmes quase dez anos mais tarde quando assisti “Tudo pode dar certo” (Whatever Works, 2009). Assisti quase tudo do diretor entre um lançamento e outro. O fato, pra mim, é que nunca liguei para a vida pessoal do diretor – mas também nunca vi com bons olhos, talvez por puro moralismo meu, o casamento dele com Soon-Yi, filha adotiva de Mia Farrow (mãe de Dylan, que está denunciando o cineasta no momento).

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Igualmente, já havia ouvido horrores de Lars Von Trier, Roman Polanski e Charles Chaplin, três outros grandes gênios do cinema de que sempre gostei, assisti, acompanhei, e em cujas obras submergi para tentar entender o que se dizia ali. A obra de Allen não muda com a notícia. Continua sendo, sim, genial. Continua tendo transformado o cinema e a cultura pop. Continuam sendo bons roteiros, atuações hilárias, direções incríveis. Assim como a obra de Chaplin não é menos importante para o cinema (nem pior, nem menos engraçada, nem menos deliciosa de assistir).

Pelo jeito Hollywood e o meio cinematográfico concordam comigo, já que nenhum desses diretores sofreu qualquer tipo de punição profissional ou moral por erros cometidos na vida pessoal ou familiar. Por que?

É difícil comparar diretores homens e diretoras mulheres porque simplesmente não há mulheres dirigindo filmes do calibre das obras desses diretores que mencionei. A atriz Geena Davis até criou o Instituto Geen Davis sobre Gênero na Mídia, que monitora os efeitos do machismo e a desigualdade de gênero na TV e no cinema nos EUA. Sendo assim, tomo como exemplo algumas atrizes.

Whitney Houston é um dos maiores exemplos de quem teve sua carreira completamente estragada por erros que cometeu em sua vida pessoal – ou, melhor dizendo, pela reação da indústria cinematográfica e da mídia de massas a tais erros. Além dela, outros exemplos mais recentes são Lindsay Lohan e Katherine Heigl. Se nos esforçarmos um pouco, com certeza conseguiremos expandir essa lista em dezenas de nomes ao longo da história de Hollywood.

Deixo Chaplin de lado para que ninguém venha com argumentos de que “os tempos eram outros”: Por que o mesmo não acontece com Woody Allen, Lars Von Trier ou Roman Polanski?

A resposta é simples: privilégio masculino.

Não é nenhum segredo que as mulheres são julgadas com critérios mais rígidos do que os homens em todas as profissões e espaços de trabalho (uma passada rápida no Google Acadêmico buscando artigos sobre desigualdades de gênero na carreira e no mercado de trabalho é recomendável para quem ainda duvida). Quando se trata de setores em que quase não há mulheres em posições de poder, esse julgamento diferenciado é ainda mais forte.

Nesse jogo, há um critério aplicado quase exclusivamente para as mulheres, que é ter uma vida pessoal moralmente impecável segundo o pensamento dominante (que é machista e conservador, claro). As mulheres que são excelentes profissionalmente mas são consideradas moralmente reprováveis frequentemente têm suas carreiras boicotadas – e não apenas por homens. Estruturalmente, nossa sociedade exige que as mulheres, para chegarem ao mesmo lugar social dos homens, sejam muito superiores em termos de suas classificações e – tcharam! – de suas vidas pessoais.

Esse fenômeno do machismo estrutural faz com que as mulheres sejam excluídas de espaços profissionais de todo e qualquer tipo. Quando olhamos grandes empresas, desenvolvimento tecnológico, carreira científica, esse efeito é evidente. Na política também: quantos votos Marta Suplicy perdeu em São Paulo simplesmente porque se divorciou de Eduardo?

A saída, porém, não me parece ser replicar o comportamento moralista usado contra as mulheres para também os homens. Pelo contrário! De moralismo o mundo está cheio. Penso que a produção profissional de qualquer pessoa deva ser julgada, na medida do possível, por suas qualidades, e não pela vida pessoal ou por comportamentos que, individualmente, possamos julgar reprováveis.

É impossível esquecer, porém, que essa dissociação entre vida pessoal e produção profissional precisa ser feita com muito mais urgência e com muito mais força (com a força de políticas públicas, de preferência) especificamente para mulheres e outras pessoas de grupos socialmente oprimidos (como a população negra, por exemplo, que sofre com o mesmo tipo de julgamento diferenciado).

Não é, nem jamais será a mesma coisa reprovar individualmente o comportamento de Woody Allen ou de Chaplin, gênios bem estabelecidos no mercado do cinema: suas carreiras não foram destruídas por nada do que fizeram em suas vidas pessoais, e isso já é prova suficiente do privilégio masculino de que puderam gozar numa indústria completamente machista. Fossem mulheres, não teriam passado do primeiro filme. Se é que teriam conseguido se tornar diretoras.

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15 comentários para "E se Woody Allen fosse mulher?"

  1. Gostei muito da sua análise, Marília. As pessoas (incluindo mulheres) tendem a reduzir ou anular o machismo na nossa sociedade, mas obviamente estamos muito distantes de uma real igualdade entre os sexos. E me parece profundamente arraigado em valores morais de muitos milhares de anos. Certamente existe uma certa condescendencia com Woody Allen, que pode muito bem estar atribuída à máxima já não dita, mas percebida “o homem pode”. Por mim, ele continua sendo um profissional sensacional, mas tem algo que me incomoda em pagar por uma obra dele. Talvez seja meu próprio moralismo que não consegue separar direito as coisas.

  2. Dio disse:

    Perfeito. Só que usar Allen como carro-chefe é um equívoco. O folclore ao redor do que Mia Farrow o acusou é gigante, porém partindo para fatos, os fatos pendem mais para uma grande invenção da cabeça de Farrow para desmoralizar o ex-companheiro mesmo. Nessa história em específico, saíram ilesos homem e mulher, sobrando pra a criança a pertubação toda.

  3. Benito disse:

    Olha, a Elis Regina era uma tranqueira de pessoa. A Rita Lee, então, é um caminhão de vícios. E a Madonna? Uma vida pessoal caótica. Grace Kelly não deixava nem o assistente de cenário em paz. Queria seduzir todos ao seu lado. Mas elas são e sempre serão geniais, lindas e talentosíssimas.

  4. Laura disse:

    “É difícil comparar diretores homens e diretoras mulheres porque simplesmente não há mulheres dirigindo filmes do calibre das obras desses diretores que mencionei. ”
    Opa, opa, falou besteira aí. Margarethe von Trotta, Vera Chytilová, Chantal Akerman, Helke Sander, Helma Sander-Brahms, Larisa Shepitko, Marguerite Duras, Jane Arden, Ana Carolina, Naomi Kawase, Maya Deren, Agnès Varda são MUITO, MUUUUUITO superiores a qualquer Lars von Trier ou Woody Allen, isso porque mencionei só as mais conhecidas.

  5. alice disse:

    Marília, uma pergunta: você se sentiria à vontade financiando um pedófilo? Quando você vai ao cinema, paga o ingresso para ver o filme do Woody Allen, não é isso o que está fazendo?

  6. Dario disse:

    Cara Marília,
    Você cita os supostos “erros cometidos na vida pessoal” de Woody Allen como se já tivesse sido comprovado o ato de pedofilia que ele teria cometido e a sentença contra ele já tivesse sido consumada. Nem uma coisa nem outra. À época, a junta médica da Universidade de Yale formada para esse fim não encontrou nenhuma evidência de que a menina teria sido molestada. Woody Allen sequer foi formalmente acusado por Mia Farrow (por que será?).
    O suposto abuso teria ocorrido após a separação do casal durante uma visita de Woody às crianças na casa da Mia. Mia já sabia do caso dele com a filha adotiva dela, Soon Yi há algum tempo. Retaliação?
    Moses Farrow, um dos filhos adotivos de Mia com Woody, declarou que sofria lavagem cerebral de Mia e posteriormente retomou o contato com Woody e Soon Yi. Considerando isso, não devemos considerar a carta aberta de Dylan Farrow (criada no mesmo ambiente de Moses) como uma verdade irrefutável, pois a mesma cresceu no mesmo ambiente de Moses e pode ter sido exposta a mesma “lavagem cerebral”.
    Essas são apenas algumas incongruências dessa história mal contada… Assim como não podemos proteger uma celebridade por seus equívocos, também não podemos ser injustos com elas pelo mesmo motivo — por serem celebridades.
    Por fim, uma falsa analogia foi feita entre Woody Allen, Whitney Houston e Lindsay Lohan. Ambas fazem parte de um outro universo, outras circunstâncias, em que elas são totalmente auto-destrutivas. Whitney Houston admitiu abusar de drogas. Lindsay Lohan vive internada e tendo recaídas. Elas trouxeram os holofotes aos problemas pessoais delas. Sabemos como a mídia é carniceira, é certo. Mas elas colaboraram com o calvário delas. Elas sempre viveram dessa maneira, é o perfil delas; a extravagância atrai a mídia, naturalmente. Existe UMA — e ainda assim duvidosa — acusação pontual contra Woody Allen. Não condiz com o perfil dele. Ninguém cai no ostracismo por uma acusação isolada. Além do mais, homens também já caíram em desgraça pública por seus atos, Ian Watkins, para citar um exemplo recente.
    Acho, sim, que existem muitas diferenças na maneira como as pessoas julgam homens e mulheres na mesma situação, mas não podemos “paranoizar” isso. A citação de que Marta Suplicy perdeu votos por ter se separado do Eduardo Suplicy me parece bastante equivocada. Perdeu a reeleição em 2004, sim, mas se elegeu ao Senado em 2010 — algo bem mais difícil, principalmente considerando o Estado ao qual ela concorreu.
    Abraços!

  7. Thelma disse:

    Faço minha as palavras do Benito e da Laura!

  8. Marcio Ramos disse:

    … mandou bem Marília, entendo perfeitamente tudo o que você escreveu inclusive o seu sentimento de que tudo e todos deveriam ser julgados iguais independente do gênero. Só que isso não acontece e nunca vai acontecer. O julgamento moral é inevitável e é dai que começa todo preconceito, mas temos que lutar sim para que este moralismo não prejudique a vida das pessoas, não se torne algo desumano e caia na crueldade, etc… Para isso temos que entender a sexualidade além da idade das pessoas, o que eu duvido que tão cedo aconteça.
    … eu não entendo bulhufas de Allen, acho os filmes do tal gênio – não acredito em gênios – um saco, não gosto dos filmes, não tenho cultura para tanto “papo cabeça”, mesmo quando todo mundo diz que fulano é isso ou aquilo eu tenho dificuldades em aumentar o coro. ja tentei uns cds do deprimente Allen, mas não curti muito não e nunca fui tiete, não passei por esta fase nem na adolescência, não sei porquê.
    Você deve saber que ate pouco tempo atras e ainda em muitos lugares iniciação sexual de “crianças” começava em casa, com os parentes próximos e de repente a coisa muda, mas os “hábitos animais” continuam, é Marilia esta tal “construção social” parte de uma outra que foi ‘deus” quem construiu fazendo a natureza das coisas do jeito que são e não de outro… ou vc ja viu um peixe voar, um cachorro andar com a coluna ereta, um papagaio compor? A natureza não é “justa”? a sociedade muito menos… este mal estar da civilização é uma coisa nossa, dos que tem telencéfalo superior e dedão opositor… eita nóis!!!!
    … esta conversa de igualdade só pode ser produtiva ou construtiva se levar em conta que não somos iguais… por isso que a tal administração horizontal nunca vai dar certo, alguém precisa sempre bater o martelo e dar a ultima palavra; o multiculturalismo também não deu certo, precisamos de “limites culturais” para conviver em sociedade, como sentar a mesa para almoçar, fazer o quê? e por ai vai… generalizando precisamos de padrões, individualizando precisamos entender que não somos o padrão…
    … quando eu era pequeno adorava tomar banho com as tias que abusavam maravilhosamente bem de meu pequeno dote em crescimento constante e que iniciação boa quando depois brincava “de sexo” com a prima e com a amiguinha negra que me fez desde então pirar na pele preta… cresci “machista” graças a tupã, como todo bom selvagem… acho que todos nós…
    … resgatar o “feminista” que há em todos nós só vai enriquecer as relações de nosso “machismo”… é “ismo” ae! vamos misturar sem perder la individualidad… e o Allen não tem culpa de ser um infeliz até na sexualidade, apavorou a menininha ou a menininha criou tudo através de suas idéias “politicamente corretas”… vai saber da vida deles lá????
    Vida boa!!!
    .

  9. Lauro Rocha disse:

    Como eu digo, uma acusação como essa já é uma condenação. E a pessoa que acusa já sabe disso. Você comprou uma história e fez um texto todo errado baseado nisso.

  10. Martha disse:

    Marília, gostei muito do texto. Mas fiquei com uma pergunta, o Lars von Trier foi acusado de pedófilo também? Não sabia. Tem referência?

  11. Aline disse:

    Woody Allen continua sendo um pedófilo. Me solidarizo com a dor de Dylan. Por fim, vou pesquisar as diretoras de cinema que Laura citou, assistir seus filmes e espalhar por aí.

  12. Carlos disse:

    Para saber mais e provavelmente dirimir algumas dúvidas do caso, leia artigo (posterior ao revival) do documentarista Bob Weid que, além do histórico, também mostra as implicações e os meandros envolvidos.
    Título – Woody Allen: condenado por sensacionalismo.
    P.S.: Acho que Marta erra quando quer explicar os problemas só freudianamente…

  13. Se puede decir que esta Cassandra’s Dream –que debo entender que en castellano conserva el título original, lo que me parece una soberana estupidez- completa la trilogía londinense alleniana, última parada -tras Match Point y Scoop- antes del próximo estreno (puntual en 2009) del filme rodado en Barcelona. Y cabría decir que no es únicamente por razones geográficas que hablamos de trilogía londinense: las tres películas se sirven de un modo u otro de clisés del cine noir –por el que Allen siente devoción, como ya demostrara en anteriores títulos dispersos por su luenga filmografía- para presentar una tesis típicamente alleniana: en Match Point, una traslación de temas dostoyevskianos a un paisaje humano contemporáneo desolado; en Scoop, disfrazada de comedia insustancial o hasta torpe, una amable parábola sobre la propia despedida; en la presente Cassandra’s Dream, una historia de ambición y perdición con todas las letras cuyos malos hados recogen, ya deliberadamente, y de principio a fin, la herencia del cine negro clásico américano.

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