Crônica de uma trupe impedida de encantar

Com pandemia, artistas circenses acostumados a rodar cidades ancoram-se em praia de Paraty, no Rio. Sem plateia, os alimentos vêm de doações. A fazer, apenas zelar pelo circo, apresentações na internet e sonhar com o dia que subirão a lona…

Maria Abadia, fundadora do Monte Carlo Circo Show

Texto e fotos de Carolina Bataier

Depois do campinho de futebol, está o que sobrou do circo.

São onze quiosques no caminho do início ao fim da praia do Jabaquara, um dos pontos turísticos de Paraty-RJ. Na areia, folhas de árvores formam pequenos montes. Alguém tem rastelado, mas ninguém recolhe. Diante do mar, uma estrutura metálica guarda caiaques e remos empilhados. Do outro lado da avenida, restaurantes e pousadas mantém as portas fechadas.

No alto da lona branca, três bandeirinhas tremulam com a brisa do mar. Embaixo, onde antes funcionava a bilheteria e o hall de entrada, estão cinco veículos, entre eles o carro de som que anunciava as atrações do Monte Carlo Circo Show. Na avenida, uma carreta guarda a lona principal.

Abraão Ulisses Alves, 36, pendura um fio elétrico com pequenas lâmpadas, como os enfeites de espelho de camarim, diante do seu motorhome. Ali, ele vive com a companheira, Fernanda, e os três filhos, Gabriel, Miguel e Kaleo. A família tem uma casa em Nova Iguaçu-RJ, mas permaneceu na residência móvel acreditando que em breve seguiriam adiante com os espetáculos.

A trupe, com 30 artistas, chegou em Paraty no final de fevereiro para temporada de um mês. Depois, seguiriam para a vila de Mambucaba, no município de Angra dos Reis. Quando a pandemia mudou os planos do grupo, os artistas contratados apressaram-se para garantir vaga nos últimos ônibus intermunicipais e interestaduais.

Na praia do Jabaquara, ficaram os familiares de Maria Abadia, 58 anos, mãe de Abraão e fundadora do Monte Carlo Circo Show. Ela chega ao gramado segurando uma caneca de café. Oferece, sorri e aponta em direção ao mar: “Demos sorte de parar aqui”.

Moradores do bairro Jabaquara fizeram pequenas doações de alimentos, como leite e pães. “Felizmente a gente tinha uma reserva para ir se mantendo”, conta Abraão. Com o prolongamento do período de espera e o dinheiro cada vez mais escasso, foi preciso garantir outras formas de auxílio. Num grupo de Whatsapp, Abraão soube da possibilidade de realizar cadastro para ter acesso às cestas básicas viabilizadas pelo governo do Estado do Rio de Janeiro.

Do grupo acampado na praia, Abraão é o único com residência fixa. Maria nunca teve outra vida. De família circense, cresceu sob a lona e se aposentou recentemente, mas continua acompanhando as viagens ao lado do marido, Carlos, 61. Noutro veículo, estacionado debaixo de uma árvore, dormem Angélica, filha de Maria, o companheiro Fábio e os dois filhos, Gustavo e Angelina. Num caminhão debaixo da lona estão o casal Wagner e Rayane, primos de Abraão.

O Monte Carlo Circo Show existe há cerca de 20 anos e, pela primeira vez, tem as atividades paralisadas. “A gente nunca tira férias. Até no Natal, Ano Novo, mesmo sabendo que não vem ninguém, a gente trabalha”, conta Maria, que agora dedica o tempo às pequenas tarefas do dia a dia enquanto espera o retorno da normalidade. “A gente olha…” – diz ela, com o olhar passeando pelo gramado – “…Um dia desses, tava tudo montado, tinha espetáculo”.

O Homem Aranha, desenhado em uma das carretas, é uma das atrações principais, junto com outros personagens de filmes e jogos. “Tem Backyardigans, Patrulha Canina, os Super herois”, Abraão enumera.

“Quando tinha os animais, vinha muita gente. Mas isso acabou faz tempo”, lembra Maria. “Tem que ir renovando”, explica Abraão.

Na terceira semana de abril, quando completavam quase dois meses sem espetáculos, os artistas encenaram mais uma inovação: o palhaço Pepito, personagem de Fábio, fez sua primeira apresentação ao vivo no Facebook, com participação do filho, Gustavo, malabarista. Tiveram quase 3 mil visualizações. Além dos números e brincadeiras, usaram a apresentação para pedir ao público doações de cestas básicas para a rede de artistas circenses, que segue organizada no Whatsapp para troca de auxílio.

“Uma moça que passou aqui falou que vai ver se libera o wifi de uma pousada” conta Fábio, apontando os imóveis de porta fechada do outro lado da avenida. “Dai, quem sabe, a gente vai fazendo outras”. 

Por enquanto, os artistas permanecem na praia sem saber quando poderão reerguer a lona principal.

*As fotos foram feitas em dois dias: 21 de abril, quando estava nublado e 26 de abril, um dia de sol em Paraty.

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