“Chinesices”, traço oculto de nossa história colonial

Em pelo menos 30 cidades brasileiras, há influência da China na arte e arquitetura. Trazidas pelo portugueses, obras vão além do exotismo, comungam sagrado e profano e inspiraram escritores como Guimarães Rosa e Cora Coralina

Igreja Nossa Senhora do Carmo em Diamantina, MG, onde tem as ruas Macau de Cima, Macau do Meio e Macau de Baixo. Foto: divulgação prefeitura

Intuição certeira que a marca deixada
pela China e por outras civilizações asiáticas
sobre o Brasil não é um arranhão superficial,
mas sim uma cicatriz profunda”.
Gilberto Freyre, sociólogo e escritor,
 

“O Brasil ocupou uma posição única no mundo no que diz respeito à influência chinesa”, segundo o escritor José Roberto Teixeira Leite.

Chinesices na literatura revelam que a identidade com o orientalismo vai além de pinturas, esculturas e arquitetura de inspiração chinesa no Brasil colonial. Em diferentes épocas, a literatura reaviva esta história.

Mais estudos estão sendo realizados. Um dos mais recentes vem da Companhia de Jesus de Embu das Artes, em São Paulo, que pesquisa influências orientais na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Esta pesquisa poderá complementar a análise de 200 anos das obras jesuíticas do Brasil, realizada pelo arquiteto Lúcio Costa, que projetou Brasília.

Novos documentos poderão surgir se Portugal e China fizerem parte de pesquisas históricas e literárias. A dissertação Eça de Queiroz e o Extremo Oriente mostra uma visão plural sobre o tema. A chinesice poética de Machado de Assis é imitação da imitação. Guimarães Rosa pode ter se inspirado em lenda chinesa para criar amor entre dois homens.

Chinesices no Brasil é uma história viva, com registros artísticos em pelo menos 30 municípios brasileiros de nove estados. Mais do que imitação de costumes europeus, o fascínio pelo exotismo oriental resultou em características bem brasileiras, como a comunhão entre elementos sagrados e profanos em igrejas. O dragão combatido por São Jorge e São Miguel mudou de representação, mas não se associou à prosperidade chinesa.

O ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, comenta sobre a harmoniosa religiosidade católica, africana e chinesa: “Nas ilhargas do presbitério da Igreja de Santa Efigênia de Ouro Preto, templo dos negros forros e da legenda de Chico Rei, aparecem painéis com fascinantes chinesices delicadamente pintadas. São narrativas de histórias fabulosas. Santa Efigênia foi construída sob a regência do estilo barroco, e assim acolheu as chinesices, além de africanismos agora desocultados por estudiosos da talha de seus retábulos. Os africanos e seus descendentes viveram o impacto da cultura barroca, que prontamente os absorveu em suas volutas”.

Brasileiros não gostam de santo feio. Na Revista do IPHAN (Instituto Brasileiro do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) de 1942, o padre e historiador Serafim Leite fala sobre chinesices na Bahia: “Em nenhum exemplar de arte portuguesa no Brasil, vemos como ali a influência exata, nítida, inconfundível, da beleza oriental. Parece que os pintores estavam possuídos do segredo de todas as chinesices e queriam transmitir-nos, não a floração movimentada e ciclópica, que nos é peculiar, mas o apaziguante de uma iluminura quase irreal, tocada do sentimento de miragem universal das coisas”.

Belezas prontas e recriadas

A literatura complementa a história das chinesices. Segundo o entrevistado Angelo Oswaldo, que já foi duas vezes secretário estadual de Cultura em Minas Gerais, “o gosto oriental lembrava aos portugueses de além e além-mar que tinham sido eles os senhores do Oriente, ‘dilatando a fé e o Império’, como diz o verso de Camões”, (morto em 1580).

O entrevistado acrescenta: “as ‘chinoiseries’ ou chinesices foram moda na Europa e, em especial, no mundo português, entre os séculos 16 e 18, assim como o japonismo assinalou o final do século 19, na França. A conquista do caminho marítimo para o Oriente por Vasco da Gama, em 1498, fez de Lisboa uma porta levantina, pela qual a Europa passou a acolher influências da Índia, da China e do Japão. Os famosos painéis ‘Nambam’ procedentes do Japão, a porcelana da China e os contadores indianos (móveis de gavetinhas), vistos no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, dão testemunho desse gosto pelas formas e cores orientais”.

Além de quatro leões funerários na Igreja jesuítica de Embu das Artes, a sacristia tem pinturas em chinesice nos caixotões e um retábulo com imagem de Cristo crucificado. Foto: Jéssica Carvalho Silva

Quando Salvador foi capital do Brasil, entre 1549 e 1763, houve vínculos com a Carreira da Índia, que trazia mercadorias do Oriente e movimentava a produção artística e arquitetônica das ordens jesuítica, carmelita e franciscana. “As imagens sacras de marfim, originárias de Goa, na Índia, influenciaram os mestres santeiros da terracota brasileira do século 17, na Bahia e em São Paulo. O chamado vermelho de Macau desde sempre encantou o olhar luso- brasileiro”, informa Angelo Oswaldo.

O jesuíta francês Charles Beleville morou dez anos na China e mais de duas décadas na Bahia, até 1730. Pesquisadores defendem que ele desenvolveu chinesices em Salvador, no município Cachoeira e no distrito Belém. O livro O conjunto do Carmo de Cachoeira, publicado pelo IPHAN, não atribui ao francês a autoria dos famosos sete cristos chineses. O alerta foi registrado pelo arquiteto e urbanista Luiz Philippe Torelly, no ensaio O imaginário chinês no barroco brasileiro, no portal vitruvius.

O educador Eron M. Bittencourt, que participa de pesquisas na Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Embu das Artes, SP, fala de uma ligação entre a Bahia e São Paulo: “É possível que algum padre que atuou em Embu tenha tido contato com o seminário ou mesmo com o próprio Belleville. Parte da pintura floral existente em nossa sacristia assemelha-se à pintura do irmão Carlos, como era conhecido no Brasil.” 

“Além disso”, continua Eron, “suspeitamos que a chinesice da sacristia de Embu seja uma forma de relembrar os jesuítas que atuaram no Oriente, sobretudo aqueles que foram martirizados. Essa interpretação é compatível com o tema principal dos caixotões, que trazem no centro símbolos da Paixão de Cristo – ou Arma Christi, como são denominados”.

Na Bahia, predominaram paisagens orientais. Na chinesice de Minas Gerais há cenas da vida cotidiana na China, a partir de uma visão europeia.  Segundo o arquiteto Lúcio Costa (1902-1998), em artigo para a Universidade de São Paulo, enquanto na Europa a arquitetura jesuítica se associava à exuberância das construções barrocas, no Brasil foi reproduzida uma beleza pronta, com intervenções marcadas por uma profunda sobriedade. Em Minas Gerais, o uso do galbo de contrafeito confere uma elegante inclinação aos telhados, segundo Angelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto por três mandatos e grande conhecedor da arte regional.

“Os olhos amendoados das esculturas em madeira ou pedra sabão, como se vê na obra do Aleijadinho, e os penteados à moda oriental das imagens sacras são também um destaque. A pequena Santa Cecília, no Museu Arquidiocesano de Mariana, um rei mago no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, e a Santa Luzia da Matriz do Bonsucesso, em Caeté, evidenciam o toque oriental incontornável na arte mineira do século 18. No Museu Aleijadinho, em Ouro Preto, uma imagem de roca de São Francisco de Paula, atribuída ao mestre, mais parece uma escultura de antiga dinastia chinesa”.

Um dos sete cristos chinesices no Museu Ordem Terceira do Carmo, Cachoeira, BA. Foto: Luiz Philippe Torelly

No livro A China no Brasil, Teixeira Leite indica nove estados brasileiros com chinesices: Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Pará, Paraíba Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. Minas Gerais tem quase vinte municípios e distritos com pinturas, esculturas e arquitetura chinesice, incluindo decorações de estilo oriental em Conceição do Mato Dentro.  

Os dois estados mais representativos da diáspora chinesa no Brasil não possuem tantas chinesices. “Em São Paulo, não houve intensa atividade artística nesse período, ao passo em que, no Rio de Janeiro, a valorização da cidade, por sua transformação em capital do vice-reinado (1763), coincidiu com o advento do estilo rococó, mais afrancesado e menos sintonizado com a herança lusitana. A Vista Chinesa do Rio é um mirante de certo modo recente (1903)”, finaliza Angelo Oswaldo.

Lembranças imperecíveis

Machado de Assis (1839-1908) ainda não tinha publicado romances quando lançou o livro Falenas (1870), do qual faz parte a Lira Chinesa, com oito poemas livremente traduzidos do polêmico Le Livre de Jade, da francesa Judith Gautier. Ao analisar esta chinesice poética, a portuguesa Marta Pacheco Pinto conclui que tanto a tradução francesa como a versão brasileira de Machado não são literais. É uma apropriação de conceitos e imagens.

Na dissertação Eça de Queiroz e o extremo oriente, o doutor em Letras José Carvalho Vanzelli analisou a obra do português. Durante a diáspora chinesa em Havana, o cônsul Eça de Queiroz denunciou o trabalho escravo dos chinos. Ao mesmo tempo, registrou superioridade eurocêntrica: “É incontestável que o chino inspira uma aversão instintiva à nossa civilização superior”.

Autor de O Mandarim e outros romances que abordam o Extremo Oriente, Eça destacou chinesices como objetos de personagens decadentes da elite portuguesa, que buscavam refinamento na sociedade europeia oitocentista. Na análise do pesquisador, “Eça revela um incômodo na relação entre ocidente e oriente e aponta uma impossibilidade de convívio harmonioso que nem a arte, e as imitações chinesices, conseguiram resolver”.

Guimarães Rosa (1908-1967) publicou Grande Sertão: Veredas em 1956. A personagem Diadorim se passa por homem e conquista o amor de um sertanejo. O escritor mineiro pode ter se inspirado na lenda chinesa The Butterfly Lovers, ambientada em 377 a.C. No conto Orientação, Rosa levou um chinês para o sertão brasileiro e justificou: “Tudo cabe no Globo”.

A goiana Cora Coralina estreou na literatura em 1965 e até hoje faz sucesso com o poema O prato azul-pombinho, criado a partir de desenhos em porcelana chinesa. A poetisa traduziu o encantamento brasileiro por histórias desenhadas em utensílios chineses, mesmo que não tenham sido produzidos na China. “Lembrança imperecível”, define a autora.

Sobreposição de imagens e chinesices na Igreja Nossa Senhora do Ó, em Sabará. Fotos de Eduardo Tropia para a exposição no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

Monteiro Lobato (1882-1948) criticou este modismo no Brasil: “…dragõezinhos de alabastro chinês – tudo quanto o negociante de miçanga importa a granel para impingir ao comprador boquiaberto”. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) reverenciou chinesices na igreja de Nossa Senhora do Rosário, na mineira Itabira, onde o poeta nasceu: “Olha o dragão na igreja do Rosário / Amarelo dragão envolto em chamas / Não perturba os ofícios”.

Da literatura às artes visuais. No período colonial, Debret, Fédora do Rego Monteiro Ferraz e outros artistas registraram construções de inspiração oriental que não existem mais. Guignard encontrou em Minas Gerais cenários ideais para pintar chinesices. Em 1984, quatro selos postais formaram a série Pinturas chinesices séc. XVIII, na Catedral de Mariana, MG.

O fotógrafo Eduardo Tropia produziu fotos sobrepostas de chinesices em igrejas mineiras para exposições no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Ele também participou da Bienal de Fotografia da China 2016 (6th Jinan International Photography), onde expôs uma imagem da Igreja de Santa Efigênia, dentro do tema O retorno à sabedoria oriental. Outras artes já complementaram e ainda vão enriquecer a história viva das chinesices no Brasil.

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4 comentários para "“Chinesices”, traço oculto de nossa história colonial"

  1. Katia C disse:

    Adorei esse texto! Não conhecia muito, embora suspeitasse a partir dos “olhos” das esculturas do Aleijadinho. Não imaginei que se estendesse a muitos lugares do Brasil. É a riqueza humana, coisa linda! Obrigada, por esse suspiro no meio dessa tempestade que vivemos neste país!

  2. LUIZ PHILIPPE P TORELLY disse:

    Bom dia! O autor nitidamente se inspirou do meu texto,”O Imaginário Chinês no Barroco Brasileiro”, publicado no site “Vitruvius” em abril, para escrever o seu. Deveria ter mencionado o fato e citado a fonte. Inclusive há uma foto, na qual a legenda registra minha autoria. Peço a gentileza de citar a fonte.

  3. Denise disse:

    In The Rough Guide to Brazil the author claims that Chinese artisans were imported to Brazil from Macau during the 18th century. This would explain the Chinese eaves on the architecture and the names of the streets Macau de Cima and Rua Macau de Baixo. I have seen many sculptures in Mineiro churches with Asian features and styling. Do you think this is true that Chinese from Macao were in Brazil that early?

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