Duas opiniões sobre novo livro de Vladimir Safatle

 

Filósofo e psicanalista refletem sobre “Grande Hotel Abismo – Por uma reconstrução da teoria do reconhecimento”

Por Newton Bignotto e Christian Ingo Lenz Dunker, na Revista Cult

 

1.A potência de indeterminação

Filósofo se debruça sobre a obra de Hegel a partir da “articulação fundamental entre sujeito e negação”

Vladimir Safatle tem marcado presença no cenário intelectual brasileiro por meio de um número expressivo de publicações em áreas variadas da filosofia. Seus livros e artigos se debruçam sobre psicanálise, marxismo, filosofia da linguagem e outras áreas do saber, que ele agencia num debate franco e vigoroso. Escritor por vezes polêmico, ele não evita o confronto com posições hegemônicas no pensamento contemporâneo, nem recorre a subterfúgios, para esconder seu pensamento.

Neste novo livro (Grande Hotel Abismo, Ed. WMF/Martins Fontes), depois de, em outros escritos, ter dedicado atenção ao pensamento de Lacan e ao que ele denuncia como um posição “cínica”, que tende a decompor “critérios normativos” em nome de formas de sociabilização, que fazem da anomia a condição de funcionamento das sociedades atuais, Safatle investe na construção de uma noção de sujeito que, ao mesmo tempo, critica as chamadas filosofias da “morte do sujeito” e encontra em Hegel o ancoradouro do qual é possível partir para uma viagem de reconstrução  do conceito.

O título já serve de indício do lugar que o autor pretende ocupar no debate contemporâneo. Grande hotel abismo era o local que o filósofo Lukács dizia ser a morada dos pensadores de Frankfurt, que, em seu apego pela crítica e pela negatividade, se mostravam muitas vezes incapazes de propor formas efetivas de participação na sociedade de seu tempo, preferindo contemplar da sacada de seus quartos a queda inevitável da civilização ocidental no abismo.

Safatle não se preocupa tanto em refutar Lukács quanto em mostrar que, ao recuperar Hegel e fazê-lo interagir com pensadores que dele se serviram, mas que também foram seus críticos, é possível pensar o problema do sujeito a partir do que ele chama de “articulação fundamental entre sujeito e negação”.

O percurso do livro se inicia com um retorno a Hegel. Esse movimento, no entanto, esconde algo mais do que o desejo de visitar as belas páginas da Fenomenologia do Espírito. O autor pretende mostrar os limites das muitas interpretações contemporâneas, que fazem do filósofo alemão o pensador do absoluto. Não podemos nos esquecer que é Hegel quem diz que “a parte que cabe à atividade do indivíduo na obra total do espírito só pode ser mínima”.

Ora, é contra uma interpretação corrente, calcada  em muitas passagens semelhantes, de que Hegel é o filósofo do absoluto, que Safatle se insurge.

Ele está consciente de quão provocadora é sua tese  central. Ao conceder à contingência uma parte maior do que a que muitos intérpretes estão dispostos a aceitar, sobretudo à luz das considerações do filósofo alemão em seu livro A ciência da lógica, nosso autor lança o desafio que estará presente em todo o livro: reconstruir uma teoria do sujeito a partir de Hegel para além das interpretações que pensam seu movimento de síntese como podendo se resolver na superação dos limites empíricos da vida dos indivíduos.

Dizendo com outras palavras, nosso autor pretende deixar em aberto a dialética do reconhecimento que na Fenomenologia do espírito é apresentada, na ótica de muitos intérpretes, como a superação do conflito entre o senhor e o escravo, que serve de paradigma para a compreensão da vida em comum como o terreno da luta e da divisão.

A chave para entender a proposta de Safatle está em seu retorno à noção de experiência e, sobretudo, de vida. Com isso, ele não pretende regredir a reflexão sobre o sujeito ao nível da experiência empírica, mas mostrar que em Hegel, a individualidade é sempre habitada por aquilo que ele chama de “potência de indeterminação”, que faz com que cada indivíduo esteja sempre imerso num movimento de busca do objeto de seus desejos, que o define pela falta e não pela posse ou pela renúncia do desejo.

Ora, esse indivíduo, definido pela negatividade, não pode se estabilizar num Eu idêntico a si mesmo e transparente aos olhos da razão. Nas palavras de Safatle, ele é “lócus de manifestação da infinitude”.

Nosso autor está consciente do caráter inovador e mesmo provocador de certos aspectos de sua interpretação do pensamento de Hegel sobre o sujeito e, por isso, se lança numa verdadeira esgrima conceitual na primeira parte do livro (mas não apenas nela) para expor suas teses.

O primeiro passo nessa direção é dado quando o problema do reconhecimento é encenado no campo das instituições políticas. Ao lado do processo de busca da identidade empreendido por todo indivíduo, Safatle se interroga sobre as formas sociais de acolhimento dessa demanda, em particular quando encenadas no campo do direito.

Atento à desconexão conhecida em nossa sociedades entre direito e justiça, nosso autor não hesita em afirmar que é preciso “uma indiferença às diferenças” para fundar a noção de cidadania em um Estado voltado para a realização das “exigências de universalidade” presentes na busca pela igualdade entre seus membros. Por isso, à crítica dos excessos cometidos pelos jacobinos no curso da Revolução Francesa, deve-se seguir, segundo ele, o reconhecimento que é por meio das ações dos revolucionários que pontos essenciais da evolução moderna do direito, como a recusa da escravidão, puderam ser incorporadas ao vocabulário da liberdade na modernidade.

O retorno a Hegel se conclui não apenas com a afirmação do caráter indeterminado do sujeito, mas também do papel que essa indeterminação tem na construção de atores históricos, que não se conformam com a simples adequação aos parâmetros identitários norteadores das instituições estatais típicas dos Estados contemporâneos.

Na segunda parte do livro, Safatle recorre à psicanálise e a alguns de seus conceitos, como os de pulsão e de fantasia, para defender as mesmas teses da primeira parte. Não se trata de realizar um estudo comparativo da obra de autores como Hegel e Lacan, mas de mostrar que a afirmação do caráter indeterminado do sujeito pode ser iluminada pela constatação feita pela psicanálise de que a busca compulsiva pela identidade do Eu é fonte de sofrimento, e não de abertura, para o mundo dos outros e para o mundo da história.

A aproximação entre o pensamento de Hegel e a psicanálise, sobretudo em sua versão lacaniana, não deixa de ser surpreendente. Compreende-se facilmente que o recurso à teoria psicanalítica nos ajuda a pensar o sujeito em sua abertura e indefinição.

Mais difícil é fazer convergir essas observações para um terreno comum ao delimitado por Hegel em sua dialética do reconhecimento. Ao conceder um espaço importante à noção de desejo em Hegel e ao mostrar a parte irredutível da vida nos processos históricos, Safatle faz uma ousada aposta teórica.

O conceito base para realizar a aproximação com a psicanálise, mas também com o pensamento de Adorno, é o de pulsão. Por meio dela, nosso autor pretende “a reconstrução de um pensamento capaz de reconhecer dignidade ontológica à negatividade e de pensar as incidências materiais de tal ontologia”.

O desafio enfrentado pelo autor na segunda e terceira partes do livro passa então a ser o de mostrar que a referência à negatividade do sujeito nos três autores principais de seu trabalho possuem elementos de convergência suficientes para embasar uma nova teoria do sujeito e do reconhecimento.  Ele dá mostras de grande criatividade nesse percurso, no interior do qual o leitor é confrontado com desenvolvimentos vertiginosos de conceitos, que colocam em cena amplos cenários da reflexão contemporânea, nos quais autores como Kant e Freud se misturam a uma gama variada de autores contemporâneos.

O livro se encerra com uma apresentação de aspectos fundamentais da obra de Bento Prado Jr., de quem Safatle se declara devedor e com quem ele conversa direta ou indiretamente ao longo de todo seu escrito. Esse último capítulo afirma o pertencimento do autor a um debate que se iniciou entre nós com pensadores como Ruy Fausto, Paulo Arantes, além, é claro, do próprio Bento Prado.

Teria sido interessante se o autor tivesse alargado seu quadro de referências brasileiras, pois isso  ajudaria o leitor a situar melhor no panorama da filosofia nacional as ideias de um autor de cujas teses se pode discordar, mas que não nos deixam indiferentes. Com isso, ficariam ainda mais evidentes a originalidade e a força do livro.

Pensado pelo próprio autor como um passo a mais numa trajetória iniciada há alguns anos, esse escrito revigora o debate nacional ao combinar rigor conceitual com a abertura para questões candentes da atualidade política e filosófica.

Newton Bignotto é professor de Filosofia Política e História da Filosofia do Renascimento na UFMG.

 

2. Patologias sociais

Em Grande Hotel Abismo, Vladimir Safatle apresenta a filosofia como um exercício perigoso, presente em nossos atos de linguagem, desejo e trabalho

Por Christian Ingo Lenz Dunker

O novo livro de Vladimir Safatle aprofunda o programa de fundamentação iniciado com Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética (Unesp, 2005) e Cinismo e Falência da Crítica (Boitempo, 2008). Agora podemos avaliar melhor a força da articulação entre a tradição crítica de Adorno a Honneth, a filosofia hegeliana rejuvenescida por seus comentadores contemporâneos e a psicanálise de Freud a Lacan. O projeto de uma ontologia negativa, que se insinuava nos primeiros estudos de Vladimir, desdobra-se agora em uma filosofia da história baseada na relação do sujeito com o tempo que contempla o infinito, o indeterminado e o porvir.

A reconstrução da teoria do reconhecimento é uma alternativa necessária para evitar a redução do sujeito moderno apenas à condição de indivíduo. Este projeto, que fez o apogeu e glória da antropologia humanista, mostra-se cada vez mais política e clinicamente inútil. Por outro lado, as teorias que simplesmente recusam a noção de sujeito também se mostram incapazes de nos oferecer uma resposta ao problema enunciado por Safatle, ou seja: como refazer a crítica da razão de tal forma a articulá-la com as patologias sociais e com as modalidades de sofrimento social que lhes são consoantes?

Nossas suposições correntes sobre o desenvolvimento cognitivo da criança, a observação comparada dos povos ditos “primitivos” e a psicopatologia do sofrimento individual estão longe de representar pilares realmente universalistas para enfrentar este problema.  Contra esta alternativa seria preciso incorporar nosso próprio retrato difuso, isso que se poderia chamar de inumano no sujeito, isto que está para aquém e para além do indivíduo, isto (diese) que ainda não tem nome.  Se não levarmos em conta esta espécie de exceção forte, que contraria o universal sem se incluir pacificamente em nossas estratégias racionais, discursivas e afetivas de identificação, não seremos capazes de reconhecer certas modalidades de sofrimento. Ao constrangê-las a serem reconhecidas por processos de racionalização identificadores, nos forçamos o apagamento de seu traço de indeterminação. E com isso multiplica-se o sofrimento inicial, agora acrescido de seu fracasso em se fazer reconhecer.

Sofremos com o excesso de experiências improdutivas de controle, alienação e determinação, promovidas pela família, pelas instituições e pelo Estado, mesmo que a interiorização destas experiências seja o que nos torna indivíduos. Safatle nos chama a atenção para um segundo tipo de sofrimento social, para o qual nossas estratégias de individuação nem sempre são operantes. Sofremos com a ausência de experiências produtivasde indeterminação. Ou seja, é tão violento não se incluir em parâmetros de individualização quanto ter que limitar a totalidade de nossa experiência apenas ao formato do indivíduo. Por isso é preciso uma teoria do reconhecimento que leve em conta aquilo o que em nós não é idêntico a nós: valores indiscerníveis, atos cuja significação ultrapassa a finitude de nossa época, formas de vida que não são autorreferentes, a história dos desejos desejados. Sem isso, não só teremos por horizonte uma vida incapaz de se realizar na integralidade de seus próprios termos, como postulamos uma noção de liberdade mutilada.

Contra a versão pobre e institucionalista do que Habermas chamou de direita hegeliana, Safatle nos traz um Hegel teórico das revoluções (americana, haitiana, francesa). O resultado é a inversão do diagnóstico de Weber-Durkheim sobre a gênese do sofrimento social. Este não é apenas insegurança derivada da percepção de anomia no interior dos processos de racionalização, assim como a vida moral não é apenas comparação entre caso e regra, entre ser e dever ser. Essa tese, escavada em Hegel, é plena de consequências éticas, políticas e clínicas. Casamento, filiação e amor, por exemplo, não deveriam ser pensados redutivamente como contratos. Esta generalização defensiva é uma patologia social que nos leva a experimentar a liberdade fora de suas condições de realização e a partilhar uma teoria insuficiente sobre o que vem a ser o processo e a gramática do reconhecimento.

O que se pretende com isso é também propor um modelo de anormatividade capaz de reconhecer o valor universal do pathos individual.  A dificuldade para incluir o inumano na teoria do reconhecimento, notadamente dos atributos do indivíduo tais como autonomia, autenticidade e unidade mostram que o humano é, antes de tudo, um projeto teológico político e o humanismo teologia realizada por outros meios. Por isso é importante incluir em nossa imagem do humano suas três anti-figuras fundamentais: a animalidade(perda da autonomia), o monstruoso (perda da unidade) e o impessoal (perda da autenticidade), atributos convergentes com o conceito lacaniano de objeto a.

O livro de Vladimir Safatle, originalmente sua tese de livre-docência no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), consegue ser um trabalho de pesquisa que reconfigura a importância da teoria para diferentes práticas sociais, da política à estética, da ética à clínica, da educação às formas jurídicas; não há dimensão na qual o sujeito esteja implicado que seja estranha à importância de uma teoria do reconhecimento. Quando entendemos que este tipo de teoria está implicitamente presente em todos nossos atos de linguagem de desejo e de trabalho, e que modifica diretamente nossa prática social, percebemos como a filosofia pode ser um exercício perigoso. Ela nos permite ver o abismo e, ao mesmo tempo, reencontrar nossa própria morada.

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista e professor livre-docente no Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP.

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