Ser pobre e leitor no Brasil: um manual prático
Hoje, o preço médio do livro é de R$56. Não se trata de bater num mercado editorial em crise, mas buscar saídas para acessar um bem básico. Neste esforço, há os mapas digitais de bibliotecas públicas, os “traficantes de livros”, as “gelotecas” e o universo dos sebistas
Publicado 03/04/2025 às 17:53

Por Pedro Marin, na Revista Opera
Jeito de andar, jeito de falar, jeito de vestir ou o jeito de faltar roupa, jeito de chegar – de onde não devia ter vindo –, e jeito de ir embora – pra onde nunca devia ter saído. Embora transitem incontestes nos ambientes que lhes são próprios, os jeitos do pobre brasileiro não passam nunca despercebidos quando desfilam nos salões onde a pobreza é incomum. O pobre, no entanto, é muito mais do que seus jeitos. E o pobre, muitas vezes, é leitor mais voraz que os frequentadores de salões onde ele não é bem-vindo.
Uma boa metáfora para a distância que vai entre as visões que esses jeitos suscitam nos bem-postos e as riquezas que os pobres guardam, mesmo na maior penúria, está em O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020), quando o personagem Pedro recorda das lições de seu pai sobre o racismo – que, no Brasil, sempre morou na mesma rua da pobreza:
“Você sempre dizia que os negros tinham de lutar, pois o mundo branco havia nos tirado quase tudo e que pensar era o que nos restava. É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único.”
A obra do escritor Jeferson Tenório, vencedora do prêmio Jabuti de 2021, foi ela mesma vítima dos olhares daqueles que não conseguem ver nada além de músculos, órgãos e veias onde há avessos; capas, ao invés de miolos. Importando a histeria contra os livros que começou a frutificar nos Estados Unidos, uma diretora de uma escola do Rio Grande do Sul publicou um vídeo na internet atacando o livro como impróprio para o ambiente escolar, selecionando passagens da obra que tratam do racismo invadindo a relação amorosa e sexual dos personagens. As secretarias de Educação de Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná acudiram à campanha da diretora, recolhendo os exemplares de O avesso da pele de suas escolas. A premiada obra chegara às bibliotecas escolares por meio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), e era voltada para os estudantes do Ensino Médio; um dos muitos detalhes ignorados por aqueles que moviam a campanha contra a distribuição de um livro “com termos sexuais para nossas crianças”. Para quem confunde jeitos com o que as coisas realmente são, sejam pobres, negros ou livros, o pecado de afastar obras de leitores bem pode passar como virtude moralizante. “A impostura será conhecida como cultura; a verdade será a mentira e a mentira consagrada como verdade. É a degradação da linguagem”, como escreveu Sodré acerca do nazismo.

Em Walden (Edipro, 2018), Thoreau fala de um homem analfabeto que, como comerciante, enriquece, e passa a frequentar os tais salões onde homens de sua trajetória não são comuns. Depois que é admitido nesses “círculos dos ricos e elegantes”, “inevitavelmente ele acaba se voltando para aqueles círculos ainda mais elevados mas ainda inacessíveis do intelecto e do gênio, e se torna sensível apenas à imperfeição de sua cultura e à vaidade e à insuficiência de todas as suas riquezas, e comprova ainda mais seu bom senso com o esforço com que empenha em garantir aos filhos aquela cultura intelectual cuja falta ele sente tão agudamente; e assim ele se torna o fundador de uma família” escreve Thoreau.
Dizia este autor sobre os livros: “são o tesouro das riquezas do mundo e a herança apropriada para todas as gerações e todos os países”. Monteiro Lobato teria dito que um país se faz com homens e livros. Bertolt Brecht aconselhou: “Frequente a escola, você que não tem casa! Adquira conhecimento, você que sente frio! Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.”
No entanto, seja como uma arma, para cultivar e preservar o avesso, para fundar famílias ou fazer um país, o livro no Brasil não é coisa de alcance fácil a todas as mãos. Embora não seja justo repetir a simplificação de que o livro é caro demais no País – o preço médio do livro no Brasil em 2025 é de 56,77 reais –, também convém não esquecer que para a imensidão de brasileiros que não têm garantidas as suas necessidades mais básicas, comprar livros pode parecer – e até ser – um gasto fútil. Quando a voracidade da leitura encontra esta ausência de meios, ter o que ler – ou encontrar o que efetivamente se quer ler – pode ser desafiante. Daí este pequeno manual, cujo autor, dentro dos limites do publicável, e reconhecendo que as distâncias entre as mãos pobres e as estantes são muito variadas caso a caso, busca oferecer ao menos um punhado de dicas aproveitáveis a qualquer um.
1 – “Aqui encontro todos os amigos que tenho ou tive”: as bibliotecas
As bibliotecas públicas são a forma mais óbvia de acesso gratuito a livros. Seja para empréstimo – que costuma exigir só uma carteira da biblioteca em questão, que pode ser obtida, normalmente, com um documento com foto e um comprovante de residência –, seja como espaço de leitura em si, cerca de 34 milhões de brasileiros frequentam as bibliotecas, de acordo com a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Um dos principais fatores para que número de frequentadores de bibliotecas não seja maior é a inexistência de aparelhos do tipo perto de casa: 46% dos entrevistados pela pesquisa disseram não existir bibliotecas públicas na sua cidade ou bairro, e outros 9% disseram não saber se há ou não uma biblioteca nas proximidades. Nos últimos dez anos, o Brasil perdeu 1418 bibliotecas públicas: eram 6057 em 2015, de acordo com o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), e hoje são 4639.
Apesar dos desafios e limitações, as bibliotecas têm duas características valorosas: por um lado, oferecem um espaço tranquilo para a leitura e estudo, em tempos em que as atenções se dispersam tão facilmente; por outro, são espaços gregários, onde sempre é possível conhecer um outro leitor. Além disso, cada vez mais têm se transformado em centros culturais, realizando eventos e debates voltados ao público. O site da SNBP disponibiliza um mapa em que é possível conferir as bibliotecas públicas existentes por Estado em todo o País.

2 – Garimpe: bazares beneficentes, brechós, bancas
Além de uma dica óbvia, as bibliotecas no geral não permitem o tipo de liberdade que ter os próprios livros dá ao leitor. Ler um livro recostado ou deitado, anotando a lápis ou caneta, fumando, bebendo ou comendo, devagar ou enquanto se lê outro livro são formas de intimidade reservadas somente aos livros que são nossos.
Muitas vezes, no entanto, o melhor lugar para achar livros é justamente onde não se supõe. É inesquecível a sensação de, caminhando pela rua, bater o olho numa velha banca de jornal e, ao me aproximar, constatar que aquilo que tanto me chamara atenção debaixo de uma pilha de livros realmente era um livro de que precisava a meses: acabei levando para casa uma edição do clássico A New History of Korea (Uma nova história da Coreia, em tradução livre), de Ki-baik Lee, editado pela Harvard University Press, pela bagatela de 4 reais – a versão digital do livro, na data de publicação deste artigo, está saindo a 124 reais.
Repetir feitos como esse, no entanto, não é só uma questão de sorte. Além de antigas bancas de jornal que por acaso têm livros empoeirados à venda, bazares beneficentes e brechós de igrejas e organizações sociais são também excelentes locais para comprar bons livros a preços escandalosamente baixos.
Por esses estabelecimentos viverem de doações, é muito comum encontrar uma boa quantidade de livros populares. Num desses lugares, encontrei um exemplar em perfeito estado de Admirável mundo novo (2016, Biblioteca Azul), de Aldous Huxley, por 2 reais. Mas, precisamente por não serem comércios especialmente dedicados aos livros, títulos raros ou semi-raros não costumam ser mais caros, e tendem a ficar bastante tempo nas estantes à espera de algum felizardo que saiba reconhecer seu valor. Num brechó beneficente de um lar de idosos, por exemplo, acabei encontrando Ideology and Culture – an introduction to the dialectic of contemporary chinese politics (Ideologia e Cultura – uma introdução à dialética da política chinesa contemporânea, em tradução livre), de John Bryan Starr, publicado em 1973, por 4 reais.
Ainda por viverem de doações, é comum, de tempos em tempos, encontrar nestes lugares coleções inteiras ou partes de coleções sobre um mesmo tema. Certa vez, consegui A Coluna Prestes, de Anita L. Prestes, Da insurreição armada (1935) à ‘União Nacional’ (1938-1945): a virada tática na política do PCB, da mesma autora, e a biografia Luís Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis, numa só compra de 18 reais: sinal de que a biblioteca de alguém que se interessa ou se interessou pelo Cavaleiro da Esperança fora recentemente doada. Portanto, convém frequentar esses lugares com uma certa recorrência: nunca se sabe que doação chegou na última semana.
3 – Os traficantes de livros: sebos e sebistas
Os sebistas são, acima de tudo, especialistas na difícil arte de estimar o valor dos livros. Muito dificilmente será possível encontrar um livro raro a preço de banana em um sebo, como ocorre em locais não-especializados. Por outro lado, livros populares, de grande tiragem, abundam a preços baixos: o que inclui também grandes clássicos da literatura nacional, como Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector, etc. É certo: qualquer pequeno sebo tem tantas edições disponíveis em estoque de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, que, se o leitor pedir um exemplar, é capaz de o sebista simplesmente dá-lo de graça para abrir espaço nas estantes.
Entre os livros raros que os sebistas conhecem bem demais para vender barato e os livros baratos – porém não por isso menos valiosos – que eles têm aos montes, há um universo enorme de livros interessantíssimos, nos estados mais variados de conservação, que simplesmente não são encontrados a não ser em um sebo e por acaso.

Os sebos e os sebistas são, acima de tudo, conservadores da diversidade bibliográfica da humanidade. Nos seus pequenos empreendimentos empoeirados, constroem a ponte não só entre o que não é mais publicado e os leitores de hoje, mas também entre o que é desconhecido e aqueles que, sem saber, precisam conhecer. Por exemplo, onde mais alguém poderia encontrar obras como Rosário de Capiá, que reúne a poesia caipira de Nhô Bento? Publicado em 1946 com prefácio de Monteiro Lobato e ilustrações de Belmonte, A. Esteves, Bilú, Amaro e Nino Borges, os versos escritos em caipirês paulista nunca foram reeditados desde então. Onde mais alguém poderia conhecer um livro como La estrategia del comunismo hoy, de Gregorio Rodríguez de Yurre, publicado em 1983 na Espanha? O tomo de mais de 500 páginas é um estudo aprofundado sobre a história da União Soviética e suas relações internacionais… escrito por um padre basco que era professor de Filosofia na Faculdade de Teologia de Vitoria. Não conhecia G.R. de Yurre até achar seu livro num sebo, e só pude conhecer seu pensamento porque algum homem decidiu fazer de seu ofício conservá-lo ao longo do tempo, em estantes empoeiradas, em troca de alguns trocados.
Livrarias e editoras são elementos fundamentais da cadeia do livro; mas são os sebistas que, no geral por rendimentos muito menores, conservam e flanqueiam o acesso, para a posteridade, a um universo muito maior de títulos que, seja por nunca terem sido publicados no Brasil, seja porque nunca mais serão republicados, ficariam nas lixeiras do esquecimento, não fossem os sebos. E o fazem, ainda, por valores muito mais acessíveis: pelo preço médio do livro no Brasil (R$ 56,77), o leitor tranquilamente poderá sair de um sebo munido de dois ou cinco títulos.
4 – Fazendo parte do mercado: leia e troque, compre para trocar
Convém lembrar, ao leitor pobre, que os estoques dos sebos hão de ser fornecidos aos sebistas de alguma forma, afinal. Os sebos, no geral, não só compram livros usados, como aceitam trocar livros trazidos por leitores por crédito para compras em seus estabelecimentos – e normalmente oferecem um valor maior em crédito do que em dinheiro.
O leitor que não faz questão de crescer sua própria biblioteca sempre pode, portanto, trocar os livros já lidos, ou aqueles que não o interessam mais, por novos livros velhos. Certa feita, precisando com certa urgência da obra Maldita guerra, de Francisco Doratioto, encontrei no site Estante Virtual um sebo próximo de casa que a tinha disponível. Levei até lá uma dúzia de livros de que não precisava mais e, além do livro em questão, voltei para casa com Jackal: the complete story of the legendary terrorist, Carlos the Jackal (Chacal: a história completa do lendário terrorista Carlos “O Chacal”, em tradução livre), de John Follain, sem gastar um centavo.
É também possível ao leitor comprar livros que não sejam do seu interesse particular, por exemplo nos brechós e bazares, com o fim de trocá-los por créditos em sebos. O estratagema, porém, envolve alguns riscos: para além dos sebistas, por óbvio, buscarem pagar o menor preço possível nos livros, há fatores subjetivos que recaem sobre a estimativa do preço. Um livro relativamente difícil de ser encontrado, por exemplo, pode ter baixa procura; inversamente, um livro com muita procura pode, por exemplo, ser fácil de encontrar.
Além disso, ainda que o livro possa ser ofertado por um bom preço, o sebista há sempre de levar em conta o fato de que os livros que compra podem demorar para serem vendidos, ou sequer serem vendidos. “Não é uma ciência exata. Não é como, por exemplo, vender vinhos; há uma quantidade finita de vinhos. Livro não é finito, é quase infinito na verdade. Então não é uma venda garantida, do tipo ‘comprei por 10, vou vender por 20, que cobre as despesas e tem uma margem de lucro’. Não dá para trabalhar desse jeito com livros usados”, diz o sebista José Carlos, do Sebo Augusto. “Se você tem uma lanchonete, você compra a coca-cola por 2 e vende por 5; toda coca-cola é igual, basta você fazer a conta do quanto pagou e por quanto pode vender. Com livros usados, essa conta é mais complicada” exemplifica. “Porém, pode ser um bom negócio [o leitor comprar livros para trocar]”, ele diz. “Mas ele tem que ter uma boa noção do mercado do livro. Quando a pessoa quer trocar, não vender, tendencialmente o sebo acaba subindo o preço da venda. Porque aí o sebista não fica com o dinheiro parado, não gasta dinheiro na compra; e ele sempre tem que contar que, de repente, não vai conseguir vender o livro; não tem garantia. Nesse sentido também é diferente da coca-cola.”
5 – Compre de ou troque com outros leitores
Uma outra forma simples de ter acesso a livros por preços mais acessíveis é comprando ou trocando diretamente de outros leitores. Há grupos dedicados à troca e venda de livros em redes sociais como o Facebook, bem como eventos presenciais como feiras de troca de livros. Com alguma frequência também há estudantes em grupos de universidades vendendo seus livros por alguns trocados.
6 – Faça você mesmo: gelotecas, saraus e slams
Há uma série de iniciativas culturais plantando árvores contra os crescentes desertos de bibliotecas no Brasil. Embora tantos brasileiros digam não terem notícia de bibliotecas públicas no seu bairro ou cidade, em metrópoles como São Paulo é possível pegar livros emprestados em estações de metrô, terminais de ônibus e até na rua, com a conveniência de quem abre a geladeira em busca de algo para matar a fome.
Tratam-se das gelotecas: pequenas bibliotecas públicas feitas a partir de geladeiras usadas e reaproveitadas. Sem apoio público ou de grandes empresas, o Projeto GelotecaSP, nascido em Guaianases, no extremo leste da cidade, estima ser responsável pela circulação de mais de 100 mil livros por mês em mais de 450 geladeiras cheias de livros espalhadas pela cidade. Ao leitor, basta ir até uma, abrí-la, escolher um livro e levar. Obviamente também é possível – e bem-vindo – deixar livros como doação.
O projeto, que completa dez anos no próximo dezembro, foi uma iniciativa do professor e arte-educador João Belmonte, de 40 anos. Artista visual, João costumava fazer poemas escritos em muros, até que abriu um sarau no seu bairro – o Sarau da Quebrada. “O primeiro sarau foi em um bar e decidimos colocar livros em uma prateleira pras pessoas pegarem, também fazia encontros de graffiti no bairro que se chamava Graffizfesta, juntei tudo isso e fiz um ateliê de arte e literatura no bairro”, diz. O espaço funcionava em si como uma pequena biblioteca comunitária e, depois de fechá-lo, Belmonte começou a espalhar gelotecas. “Tive a ideia de fazer intervenções em geladeiras pelo bairro, mas só pelo bairro. A proposta era transformar o bairro em um bairro com um índice alto de leitura. Mas no primeiro ano já teve matérias na TV, então ficamos populares e recebendo pedidos de gelotecas em outros territórios. Depois vieram outros projetos que se inspiraram na gente, e hoje somos uma rede nacional”, diz ele.
Além de São Paulo, a rede abrange também Belo Horizonte, Rio Grande do Sul, Ferraz de Vasconcelos e Pará. Além destes projetos, há uma infinidade de iniciativas menores com o mesmo molde espalhadas por cidades de todo o Brasil.
Trocar livros com outros leitores, como já dito, é sempre uma possibilidade viável para ler mais por menos. E, embora todo leitor carregue como um membro-fantasma todo livro emprestado e nunca mais devolvido – uma condição que pode causar estresse, perda de memórias, pesadelos e, em casos extremos, agressões –, no geral os que lêem tendem a se tornar pessoas que com mais dificuldade recusam a alguém água, comida ou livros. Não é que não haja leitores mesquinhos ou de mau coração – há muitos –; é que pelos livros serem a “herança apropriada para todas as gerações e todos os países”, como disse Thoreau, são em si um convite à universalidade; um convite tão poderoso que tendencialmente conduz seu leitor a ter o mesmo espírito do objeto de papel em si. Certamente, há quem negue aos outros um bom livro que leu; mas não há quem o faça sem se envergonhar de si mesmo.
Saraus são bons lugares para encontrar outros leitores. Há muito tempo eles deixaram para trás o estereótipo de reuniões de bonvivants em apartamentos ornamentados por samambais, regados a vinhos caros e quitutes: invadiram os bares, vielas e quebradas do Brasil. O exemplo mais óbvio é o Sarau da Cooperifa, iniciativa do poeta Sérgio Vaz, um dos gênios vivos do País, que ocorria semanalmente no Bar do Zé Batidão, no extremo sul de São Paulo. Outro exemplo é o Slam da Guilhermina, uma batalha de poesias mensal que reúne dezenas de ouvintes, poetas e leitores numa praça anexa a uma estação de metrô. Como o Sarau da Cooperifa e o Slam da Guilhermina, há outros milhares espalhados pelo Brasil. E, onde não houver, basta fazer: tudo o que se exige é a reunião de pessoas dispostas a ler ou recitar em público.

7 – Livraria do Senado e Edições Câmara
O Senado Federal e a Câmara dos Deputados mantêm frentes editoriais que disponibilizam livros a preço de custo. Especialmente aos interessados em História e Política, ambas as casas editoriais disponibilizam obras importantes a preços baixíssimos.
Na Livraria do Senado, por exemplo, é possível adquirir os três tomos de A História da Revolução Russa, de Leon Trotsky, totalizando 1137 páginas, por 80 reais. Obras como O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, saem por 8 reais; Da República, de Marco Túlio Cícero, por 7 reais. Mas não há só clássicos: Clevelândia, de Alexandre Samis, é vendido por 19 reais, e Influenciadores Sociais: o Feitiço, a Fama e a Fé por 9 reais. Há também romances, com o belíssimo Marphysa, de Dunga Rodrigues, e uma coleção dedicada a publicar obras de grandes escritoras da história do País, o “Escritoras do Brasil”.
A Edições Câmara, igualmente, tem em seu catálogo importantes obras por preços bastante acessíveis. As 412 páginas de Interpretação da Realidade Brasileira, de João Camilo de Oliveira Torres, por exemplo, saem pela bagatela de 19 reais; O voto feminino no Brasil, de Teresa Cristina de Novaes Marques, por 11 reais. E há também um catálogo de literatura, com obras como Iracema (16 reais), Macunaíma (13 reais) e Triste Fim de Policarpo Quaresma (16 reais).
8 – Os livros digitais
A ascensão da internet possibilitou uma maior circulação dos livros digitais, em formatos como .pdf, .epub, etc. Com os leitores digitais (e-readers), o desconforto da leitura em telas de computador foi superado. De acordo com dados da pesquisa Nielsen Book de 2023, os livros digitais representam atualmente 8% do mercado editorial no Brasil.
Há uma série de sites dedicados a disponibilizar, gratuitamente, e-books ou obras digitalizadas, como Domínio Público, Biblioteca Brasiliana, Open Library e Project Gutenberg. Há também sites que disponibilizam livros piratas, como o Library Genesis e o Ebooks Brasil.
Tratar dos ebooks impõe falar do mercado editorial como um todo. Dentro dos limites do publicável, como editor, posso dizer que não é a leitura de livros pirateados por leitores pobres o responsável pelos principais problemas do mercado editorial. Mas devo dizer, também: as editoras, no geral, não estão nadando em lucros. A ascensão dos mercados de ebooks impõe uma maior concentração do mercado editorial nas mãos de grandes companhias, no geral estrangeiras, e margens de lucro menores às editoras.
Ao leitor pode parecer ótimo, por uma assinatura mensal, ter acesso a um catálogo gigantesco de livros, mas ele deve estar ciente de que isso implica na precarização do trabalho editorial e num esquema de negócios em que a maior parte do lucro é apropriado por empresas que tratam os livros simplesmente como commodities em bytes – empresas que bem podem, no futuro, aplicar tecnologias como as IAs (inteligências artificiais) para realizar em massa e porcamente todo o trabalho feito com esmero, cuidado e dedicação pelas editoras e autores – desde a escrita, passando pela tradução, revisão, até a diagramação e projeto gráfico. Ao fim, como com qualquer produto, a commoditização do livro e a concentração de seu mercado implica não só em produtos de menor qualidade, mas também numa menor diversidade. O livro não é uma coca-cola, para repetir o sebista; mas certamente há quem deseje que seja.
Ao leitor cujo único meio de acesso a um determinado livro é a pirataria: absolva-se de qualquer culpa. Mas não da responsabilidade. Quando tiver os meios, lembre-se que os livros envolvem o trabalho de uma série de pessoas; autores, editores, revisores, tradutores, designers, ilustradores, livreiros e sebistas, que, embora façam seu trabalho com amor, não podem pretender pagar suas contas com ele.
Pedro Marin é fundador e editor-chefe da Revista Opera. É editor de Opinião de Opera Mundi, autor de “Aproximações sucessivas – O Partido Fardado nos governos Bolsonaro e Lula III”, “Golpe é Guerra – Teses para enterrar 2016”, e co-autor de “Carta no Coturno – a volta do Partido Fardado no Brasil”.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crítico: apoia.se/outraspalavras