Precisa surgir o Movimento dos Sem Jeito

Sujeitos ocultos. Frequentam listas de desempregados, alimentam filas intermináveis de postos de saúde periféricos, são assíduos do hábito de caminhar e, às vezes, passageiros de transportes públicos superlotados.

Por Washington Araújo, no blog Cidadão do Mundo

Foto de Lunaé Parracho. Clique na imagem para mais fotos.

Sujeitos sem predicado, ocultos, formam o MSJ, aqueles que teimam em sobreviver, começam a pensar seriamente o porquê de a corda arrebentar sempre do mesmo lado, e anunciam em alto e bom som que a direção está mudando, e que ‘o jeito’ que o mundo precisa somente poderá partir daqueles que nasceram com tudo para serem na vida

Por Washington Araújo, no blog Cidadão do Mundo

E, então, eis que a chuva voltou a São Paulo depois de quase 70 dias da segunda maior estiagem da história, quando uma desconcertante regularidade de incêndios pipocou em suas 1.650 favelas, habitadas por quase 1,5 milhão de pessoas.

E mais de 40 arderam desde janeiro; 70, incluídos os focos menores.

O descaso das “autoridades” com os “sem jeito”, que são aqueles que teimam em sobreviver, morando em condições precárias, distantes dos benefícios urbanos, de sistemas de água e esgoto, de segurança para suas moradias, de acesso a alimentos para suas famílias, migra da crônica urbana para se transmutar em impressionante evidência de descaso governamental, criminoso e francamente delinquente.

E enquanto não ganha as ruas o Movimento dos Sem Jeito, ou simplesmente MSJ, começo a pensar seriamente sobre o porquê de a corda continuar arrebentando sempre do lado mais fraco.

Os miseráveis, deserdados dos bens, que não dispõem de dinheiro em banco, teimosos como mulas, insistentes em não entregar os pontos da vida, renitentes e perseverantes na arte de viver, são os grandes sujeitos da história humana.

Sujeitos de deveres e privados de direitos. Eles são os Sem Jeito, mesmo não sendo assim reconhecidos, assim continuam tratados. São Sem Jeito porque não se conformam em ter a miséria como sua riqueza, nem a pobreza como seu estigma, a doença como sua marca, a fome como punição diária, exterminando geração a geração.

Sujeitos sem predicados. Geralmente entram na história oficial pela porta dos fundos. Não são de ostentação: nem diplomas, nem feitos, nem terras, nem sobrenomes bimestrais quanto mais quatrocentões. São anônimos em um sociedade que preza o reino dos nomes, das alcunhas valiosas, dos pomposos pronomes de tratamento.

Sujeitos ocultos. Normalmente engrossam estatísticas nada lisonjeiras: freqüentam listas de desempregados, alimentam filas intermináveis de postos de saúde periféricos, são assíduos do velho hábito de caminhar e, muitas vezes, passageiros habituais de transportes públicos superlotados.

Sujeitos invisíveis. São encontrados em shows ao ar livre, “de grátis”, associados a alguma data comemorativa da nacionalidade ou apenas da cidade ou rincão onde vivem. A invisibilidade lhes cai bem como roupa feita sob medida. Não são encontrados em mesas onde se discutem o futuro do município, o desenvolvimento da cidade, o progresso do Estado, e muito menos onde se lança o olhar em direção ao futuro do país. É uma invisibilidade social, porque só se verifica em uma sociedade em que o valor está intimamente associado à propriedade de bens móveis e imóveis, à conquista de bens culturais, à sorte de ostentar algum sobrenome luminoso. Na estrada da vida, há muito lhe subtraíram a condição humana, deixando-lhes ostentar apenas a condição de sinal de trânsito, árvore plantada à margem da estrada, imenso outdoor anunciando a nova promoção da semana. Estão ali, e também por toda a parte. Mas, no fundo, se confundem facilmente com a paisagem: são placas, são postes, são semáforos, são árvores. Menos gente, seres humanos.

Foto de Lunaé Parracho. Clique na imagem para mais fotos.

Sujeitos teimosos. Têm tudo para não existir e nem mesmo deixar rastros de suas existências. Mantém aquela fé inabalável digna de um Moisés retirante abrindo mares e caminhando avante por toda a trajetória da vida rumo à terra prometida. Renitentes, são alvos prediletos das forças de segurança. Praticam tudo o que estiver à margem da lei para conseguir se evadir da realidade insuportável e sufocante.

É quando começa a tomar forma o Movimento dos Sem Jeito, o movimento que abarcará essa massa desfocada para os velhos cabeças-de-planilha, todos herdeiros do pensamento expresso em tabelas Excel. Os velhos antagonistas de sempre, estes mesmos que disfarçados de protagonistas enfermaram a maioria da população, perdem seu chão, se confundem na noção do tempo em que vivem.

Os que chegam ao MSJ sabem que chegou a sua vez. A vez de freqüentar escolas, a vez de ter alimento sobre a mesa, a vez de se alvo de cuidados médicos. A vez de conduzir consigo uma sempre adiada carteira profissional, a vez de planejar seu futuro e o futuro dos seus descendentes.

O MSJ começa a anunciar aos quatro ventos que os muros seculares separando as casas grandes das grandes senzalas começaram a ser derrubados. O cimento da hipocrisia social já não mais mantém os tijolos da discriminação e do preconceito ordenados em forma de muros, fronteiras imaginárias que resistem a desaparecer nos horizontes da cidadania plena, total e abarcadora.

O MSJ entende que o que não tem jeito ajeitado está – assim como o que não tem remédio, remediado está. E percebe que os tempos mudaram de direção – as pressões que vinham de cima para baixo agora se levantam com força e rara intensidade no sentido baixo para cima.

O MSJ não se informa pelos meios de comunicação tradicionais, monopólios midiáticos que se mantém às custas da desinformação e da informação intencionalmente truncada, notícias plantadas e fatos divulgados pela metade. Agindo assim, o MSJ lhes subtrai legitimidade para falar em nome deles, cassando seu autoconferido direito de usar a surrada expressão “opinião pública”.

O MSJ declara em alto e bom som que chegou a hora da abolição da escravatura mental, a libertação das amarras do pensamento único, exclusivo e excludente. E sua palavra de ordem é um libelo contra toda forma de colonização de um pensamento sobre os demais pensamentos.

O MSJ surge no horizonte auriverde não como miragem, nem utopia, nem sonho de velhas noites de verão, encharcados de perdidas esperanças. Surge sim como os primeiros raios de sol emitidos após tenebrosa noite de privações e suplícios. Noite que ultrapassando contadas horas se espraiam por anos, décadas e séculos, interrompendo vidas aos milhões, encerrando na degradação inteiras gerações de seres humanos.

É porque ‘o jeito’ que o mundo precisa somente poderá partir daqueles que nasceram com tudo para serem na vida… sem jeito.

Foto de Lunaé Parracho. Clique na imagem para mais fotos.

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