Sem alternativa energética, o terror das termelétricas

País está cada vez mais dependente de fontes de energia fósseis, altamente poluentes e custosas. Por trás da crise hídrica, as privatizações e o desgoverno Bolsonaro. Resultado: conta de luz do brasileiro já é uma das mais caras do mundo

Por Nádia Pontes, na DW Brasil

O Brasil nunca gerou tanta eletricidade em centrais termelétricas como em agosto deste ano. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que 14.143 gigawatts-hora (GWh) foram produzidos no período, 12% a mais que o total registrado no auge da última crise hídrica, em 2015.

Para suprir a queda de produção nas usinas hidrelétricas – que veem os reservatórios descerem a níveis extremamente críticos nas regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul –, o país tem atualmente em operação 3.099 centrais térmicas, segundo estimativa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Os parques eólicos, que também bateram recorde de geração em agosto com 8.200 GWh, não fizeram com que a dependência das termelétricas fosse reduzida.

“A necessidade de acionar as térmicas está fazendo com que os brasileiros paguem uma das contas de energia mais caras do mundo”, comenta Paulo de Barros Correia, professor aposentado da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp e sócio-diretor da Rege Consultoria.

Um monitoramento feito pelo Banco Mundial mostra que o quilowatt-hora (kWh) no Brasil já estava acima da média mundial em 2019. A eletricidade para os brasileiros está mais cara que em países como Noruega e Suécia, que também têm grande participação das hidrelétricas na matriz.

E o valor não para de subir: uma nova bandeira tarifária, chamada de “escassez hídrica”, chegou a ser criada pela Aneel e deve vigorar até 2022, o que vai praticamente dobrar a conta de luz dos brasileiros.

Das 3.099 usinas termelétricas em operação, a maioria (65,5%) queima fontes fósseis, que também são mais poluentes. O restante é movido à biomassa. Além do custo extra do combustível, as térmicas encarecem a conta por funcionarem como um backup do sistema. Ou seja, mesmo inoperantes, elas recebem por estarem disponíveis para o ONS, o que é embutido na tarifa.

“As térmicas foram acionadas consideravelmente nos últimos meses. Se for pra ser assim, é preciso usá-las de forma mais eficiente”, pontua Correia. “Com a mudança no padrão hídrico, parece que usar energia térmica muito eventualmente é coisa do passado.”

A queima de combustíveis fósseis nessas usinas emite gases que aumentam o efeito estufa natural da Terra e, dessa maneira, aceleram as mudanças climáticas. Como signatário do Acordo de Paris, o Brasil se comprometeu a cortar 37% das emissões desses gases até 2025.

A tendência registrada nos últimos anos, porém, é de alta: em 2019, o país emitiu 10% a mais que o ano anterior, puxado pelo aumento do desmatamento e dos setores de agropecuária e energia.

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