Quem disse que os indígenas não debatem agenda LGBT?

Preconceito e intolerância à diversidade de gênero e orientação sexual atinge também povos originários . Entenda papel da colonização neste processo. Conheça o grito dos jovens contra o fundamentalismo cristão — e pela liberdade de ser quem são

Katrina Malbem é a primeira candidata transgênero do Miss Indígena em MS. Foto: Organização do Miss Indígena/Reprodução

Por Emilly Dulce, no Brasil de Fato | Artes Gráficas: Fernando Badharó

O preconceito que fere LGBTs (sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros) que vivem em área urbana também atinge as etnias indígenas brasileiras. Antes da invasão dos portugueses às suas terras, os povos originários já experienciavam relações homoafetivas.

A intolerância à diversidade de gênero e à orientação sexual não é um golpe novo: a primeira vítima de homofobia registrada no país foi Tibira, assassinado em 1614 com o apoio dos jesuítas em São Luís (MA). Amarrado pela cintura à boca de um canhão, o indígena Tupinambá teve o corpo destroçado sob o pretexto de “purificar a terra do abominável pecado da sodomia”, em um episódio de espetacularização da morte de um “pecador”.

“Sendo indígena, eu já recebo preconceito. Sendo uma transexual, eu recebo preconceito dobrado. É crítica toda hora, não só na minha sociedade, aqui na aldeia ou na minha cidade, mas em todos os lugares”, conta Katryna Malbem, mulher trans da etnia Guarani. A jovem de 17 anos nasceu na Aldeia Jaguapiru, mas vive desde os dois anos de idade na Aldeia Bororó, em Dourados (MS).

Katryna, que nutre os sonhos de estudar medicina e seguir a carreira de modelo, foi coroada como Miss Diversidade no concurso de beleza indígena de seu estado no último dia 27. Ela foi a primeira transgênero a participar do Miss e Mister Indígena de Mato Grosso do Sul desde que ele foi criado, há nove anos.

Katryna afirma que seu esforço e coragem em participar do concurso organizado pela Ação Jovens Indígenas (AJI) refletem sua luta constante por igualdade e respeito.

“Aqui, na aldeia, tem bastante homossexuais, mas [eles] não chegam a se expor como eu estou me expondo para a sociedade. A faixa que eu recebi não é só uma faixa para mim, isso me representa. Eu estou gritando em nome da minha família LGBT e indígena, que também são transexuais e homossexuais”.

Apesar da pouca idade, a vida de Katryna tem sido de resistência e enfrentamentos contra o duplo preconceito. “As pessoas não se expõem por medo”, resume.

Aos 10 anos de vida, o processo de reconhecimento veio à tona por Katryna não se sentir bem com a identidade masculina. Com 14, a indígena Guarani começou sua transição de gênero e aguarda completar a maioridade para iniciar a terapia hormonal.

Para o antropólogo Estevão Rafael Fernandes, os colonizadores do passado e do presente têm uma obsessão histórica em controlar existência e subjetividade do indígena através do corpo. Ainda hoje, a imposição da moral cristã de jesuítas e portugueses se reflete na invisibilidade e marginalização dos sujeitos indígenas, avalia o professor da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

Em uma ótica de renúncia à ideia do “objeto colonizado”, o grito e a afirmação dos povos originários transcende diversidade de gênero e orientação sexual. É o que explica Estevão, que também é autor do livro “Existe índio gay?”: a colonização das sexualidades indígenas no Brasil.

“Acaba sendo um grito de independência, de liberdade, de anticolonização que também passa pelos corpos, desejos e afetos. Então, é deles tentarem se ‘ressenhoriarem’ de si, quer dizer, eles tentarem voltar a ser donos de todo esse complexo que é corpo, emoção, sentimento, afeto e desejo. É uma forma de refutar não só essa imposição colonial histórica sobre os corpos e as almas deles, mas também uma forma de se afirmarem coletivamente contra a enxurrada de coisas que vêm acontecendo recentemente no tocante à própria política indigenista”.

Em poucos meses na presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL) coleciona posicionamentos ameaçadores à sobrevivência de comunidades tradicionais. Diego Andrade de Carvalho, do povo Puri, teme os próximos desdobramentos da atuação anti-indígena do presidente eleito, principalmente no tocante à soma de duas minorias políticas, sendo gay e indígena. Entre os parentes, no entanto, Diego conta que nunca sofreu ou presenciou qualquer ato homofóbico.

“A gente tem sempre que se precaver, de esperar que o pessoal possa responder de forma violenta ao nível de tentar nos matar. Porém, eu não tenho certeza se chegará a esse ponto, mas uma das coisas que acredito é em nosso poder de mobilização. Então, em parte, nós estamos fazendo todo um trabalho de conscientização dentro do meio indígena e também fora dele, porque temos que quebrar barreiras de preconceitos em diversos níveis. E, uma das coisas que eu, particularmente, acho muito interessante é de como a arte pode trabalhar a favor disso”.

O jovem de 21 anos estuda Letras, Português e Alemão na Universidade de São Paulo (USP), onde contribui na luta pelo vestibular indígena por meio do Movimento Levante Indígena na USP.

Nativo de contexto urbano, Diego nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e enxerga na arte uma forma de resistência. Autor de Mikrokosmos, Opus 5, publicado pela Editora Patuá, o jovem Puri explora poesia e prosa desde os 14 anos.

Ecos da colonização e relações de poder

Para Estevão, é mais do que urgente debater questões relacionadas às origens da LGBTfobia e do racismo no Brasil. Nas sociedades indígenas era comum — sem que houvesse estigma — um conjunto de práticas que o agente colonizador viria a se opor por não figurar seus modelos de sexualidade, moral, religiosidade, ciência ou divisão do trabalho. O que jesuítas e portugueses batizavam como promiscuidade era, muitas vezes, visto nas aldeias como um potencial xamânico sagrado.

“A homofobia veio de caravela, não tenha dúvida disso, a gente tem relatos extensos na literatura desde meados do século 16 sobre o que, na época, os cronistas e jesuítas chamavam de sodomia indígena. Mas, a gente não tem relato algum de indígenas que vissem essas práticas, o que quer que seja, com maus olhos. Quer dizer, não se tem uma posição dos indígenas que, ao nosso olhar, são fora do modelo heteronormado de sexualidade. Isso veio com a colonização”.

O professor observa que, nos Estados Unidos e Canadá, por exemplo, comunidades indígenas com orientações sexuais distintas do modelo predominante também foram perseguidas por ingleses, franceses e espanhóis. Nas aldeias, por outro lado, esses LGBTs ganhavam reconhecimento, sendo chamados de two-spirit (“dois espíritos”), que além de uma “maldição” também correspondia a um papel espiritual de benção.

A postura anticolonial, explica Estevão em sua pesquisa, joga luz à ideia de uma transição entre os mundos feminino e masculino, espiritual e terreno, indígena e não-indígena.

O antropólogo destaca que a discussão é essencial para entender os mecanismos de dominação sobre vida cotidiana, imaginário e memória dos povos da floresta, o que ele chama de “heterossexualização forçada” desses povos.

O fenômeno de controle também é lido por diversos autores pelos paradigmas científicos, teológicos, morais e raciais, que dão resguardo para que instituições burocráticas e administrativas, como o Estado, ditem regras sobre interação sexual e amorosa dos cidadãos, sem que eles mesmos percebam.

Ele completa que a homoafetividade indígena não é sinal de perda cultural, mas, sim, que os processos de invisibilização e subalternização são produtos de dinâmicas coloniais ainda em curso.

Em artigo no Jornal Porantim — arma, remo e memória na língua do povo Sateré-Mawé (AM) —, editado e publicado há mais de 40 anos pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o antropólogo sustenta que “nesse contexto, fica claro que, uma vez que expressões como ‘gay’, ‘bicha’, ‘veado’ e ‘homossexual’ alcançam as aldeias, também chega lá a carga de abjeção e preconceito que o modelo colonial impõe”.

“No movimento indígena, são, principalmente, pautas da juventude, que vêm levantando a necessidade de se discutir homossexualidade, homoafetividade e transexualidade dentro das etnias e dos movimentos indígenas, entendendo também que a cultura, por mais que seja nas aldeadas, não pode ser estática e precisa acompanhar o processo do tempo. E eu acho que são duas coisas que caminham juntas: tanto o machismo quanto a LGBTfobia. Então, são duas pautas que caminham juntas: o feminismo indígena e as vertentes dos LGBTs”, comenta Helena Joaquina, da etnia Puri.

Nascida em Bugre, no Vale do Rio Doce (MG), a jovem de 20 anos se sente como alvo de diferentes formas de opressão por ser mulher, lésbica e indígena. Estudante de Geografia na Universidade Federal de Viçosa (UFV), Helena fala da urgência de diálogo e união entre todas as minorias políticas, especialmente em um governo de extrema direita.

A indígena Puri cita um agravante: os estereótipos obsoletos em torno dos povos nativos na sociedade contemporânea, o que ela acredita ser a base das ações de invisibilidade. O principal deles se respalda na ideia de que os indígenas foram todos dizimados e extintos do país.

Katryna Malbem critica como o atual governo lida com essas questões. “O Bolsonaro, além de ser um presidente preconceituoso e machista porque critica muito as mulheres e homossexuais, ele também fala mal dos indígenas. Além de tudo isso, ele ainda quer liberar posse de armas, que, eu acho, que não deveria ser liberado para a população. O povo brasileiro já não joga o lixo direito na cesta, imagina com posse de armas, vai acontecer um terrorismo no Brasil”.

Helena, ou Zengoa Ariaacòn Puri (nome de mato), aponta as doutrinas religiosas hegemônicas como um dos aspectos determinantes dos processos de colonização e catequização contemporâneas. Estevão concorda.

“Suicídio de LGBTs indígenas tem uma alta taxa, só que não se consegue notificar isso ainda, a migração forçada de jovens LGBTs indígenas e o último ponto é justamente a questão do avanço das igrejas neopentecostais e a forma como isso interfere no aumento de preconceito dos jovens indígenas”.

O antropólogo afirma que a cultura da colonização não é abstrata e, atualmente, se manifesta também pela “bancada da bíblia” no Congresso Nacional brasileiro. Segundo ele, evangélicos e políticos tentam propagar, dentro e fora das aldeias, a ideia de que o sujeito LGBT é “menos indígena” e interfere na preservação da identidade cultural.

O entendimento conservador da homoafetividade como doença ou contágio provoca assassinatos notificados e subnotificados. Para o antropólogo, a maior lição que a sociedade contemporânea pode aprender com os povos nativos é resistir, o que eles fazem há mais de 519 anos.

Como forma de popularizar a luta dos indígenas LGBTs, diversas iniciativas vêm surgindo por parte do movimento e de colaboradores, em plataformas como YouTube e Instagram.

Na rede social, um perfil com o nome de Tibira homenageia a primeira vítima de homofobia no Brasil. Em menos de uma semana no ar, a conta no Instagram já conta com mais de dois mil seguidores e tem o objetivo de fomentar um espaço para troca de experiências e informações entre indígenas e aliados da causa dentro e fora do território nacional. Tibira é a primeira mídia social brasileira idealizada por indígenas LGBTs e se pauta no fortalecimento e protagonismo dessas minorias políticas.

Também é o caso do documentário biográfico Majur, que fala sobre representatividade LGBT e indígena através da vida pessoal e profissional de Gilmar. Conhecido como Majur, o Bororo LGBT é chefe de comunicação na Aldeia Pobore, no interior do estado de Mato Grosso.

O curta-metragem, dirigido por Rafael Irineu, foi gravado em segredo a pedido de Majur e apenas o cacique central sabia do destino das filmagens. Lançado em junho do ano passado no Festival Internacional de Diversidade Sexual e de Gênero, em Goiânia (GO), o filme Majur já acumula mais de sete prêmios e permanece em circuito de festivais.

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