Potências e desafios da Bolívia pós-golpe

Governo Luiz Arce avança na defesa dos recursos naturais, distribuição de renda e de um Estado plurinacional, mas enfrenta a ressaca da crise política – e ultradireita revanchista que, mesmo fragmentada, tenta cavar brechas para voltar

Por Gabriela Montaño, no CELAG, com tradução na Revista Opera

A ruptura da institucionalidade democrática na Bolívia em 2019 levou o país a uma profunda crise política, econômica e social. As eleições presidenciais de outubro de 2020 e as eleições regionais de 2021 encerram (por hora) esta crise, reorganizando o mapa eleitoral e restituindo algo essencial para a recuperação democrática: a legitimidade das autoridades para reconduzir o barco do Estado. Contudo, a ferida não está totalmente fechada, muito menos cicatrizada.

A grande conquista destes seis meses em termos políticos é a recuperação da institucionalidade democrática. O erro mais torpe e míope da direita boliviana, logo após tomar o poder de assalto em 2019, foi menosprezar a vontade democrática do povo boliviano. E, além disso, se convenceram de outra grande mentira: que conformar governo de facto era equivalente a ser verdadeiros representantes da maioria. E, depois, aconteceu o que todos já sabem: foram às urnas e ficaram distantes, inclusive de forçar um possível segundo turno. 55% dos eleitores escolheram outra alternativa, a mesma que eles haviam acreditado equivocadamente que tinha desaparecido da face da terra após o golpe de Estado. A maioria boliviana, mais uma vez, deu as costas para o modelo neoliberal.

Tanto Luis Arce hoje, como Evo Morales durante seus mandatos, têm na defesa do público e na nacionalização sua principal conexão com o povo, embora a pressão midiática se esforce para mostrá-la como uma qualidade negativa, sem entender que o sentimento nacionalizador no povo boliviano é tão amplamente majoritário que inclusive uma grande parte do eleitorado que votou em Mesa e Camacho pensa assim. É um sentido comum na Bolívia.

A aposta pelo Estado presente e forte é outro traço característico, com grande respaldo dos cidadãos, do novo governo de Luis Arce. Algo similar acontece com López Obrador no México e Alberto Fernández na Argentina. Hoje em dia, segundo dados levantados pelas pesquisas do CELAG, Arce, López Obrador e Fernández são três dos presidentes melhor avaliados por seu povo na região latino-americana.

E qual é o papel da oposição boliviana neste cenário? Primeiro, é preciso ter clara uma obviedade após as eleições regionais: não existe nenhum opositor com projeção nacional; não existe outra força ou estrutura política, além do MAS, que tenha caráter nacional.

Por exemplo, Luis Fernando Camacho, com uma imagem relativamente baixa (29%), marca uma diferença extrema segundo a zona geográfica. Em La Paz, sua imagem negativa é de 85%, enquanto em Santa Cruz sua imagem positiva é superior aos 50%. Dito de outra forma: fora de Santa Cruz não há espaço para sua radicalidade.

A oposição, fragmentada e heterogênea, possui dois caminhos: trabalhar conjuntamente com o governo nacional para resolver problemas sociais e econômicos urgentes ou, pelo contrário, caminhar pela rota do conflito e de maior enfrentamento contra Luis Arce. Certamente, um setor mais radical tomará este segundo caminho e buscará tensionar novamente com discursos “duros”, apelando ao sentimento regionalista como fórmula identitária. Esta estratégia pretende, por sua vez, sintonizar-se com duas ideias que podem estar presentes em algumas regiões: a) os problemas econômicos sofridos agora são culpa deste governo, e apenas nosso modelo, o neoliberal, poderá resolvê-los; e b) as eleições não curaram as feridas abertas na Bolívia de maneira definitiva e, portanto, devemos seguir lutando a partir desta trincheira regional.

Frente a esta possibilidade de um potencial conflito que apenas nos levaria a um cenário de “perder-perder”, a melhor maneira que o atual governo possui para neutralizá-lo é levar adiante uma gestão eficaz e justa das questões econômicas e sanitárias, chegando em todas as regiões sem exclusões e, na medida do possível, trabalhando de mãos dadas com quem queira trabalhar, com os governos locais e regionais que assim desejarem, de modo que sejam isolados aqueles que optarem pela via violenta e conflitiva de destruir por destruir. Ou seja, evitar entrar em um jogo que não nos leva a lugar nenhum.

Em relação a este desafio, Luis Arce tem de sobra atributos que pressagiam um bom desempenho. Por um lado, a maioria considera que ele possui grande capacidade de diálogo; por outro lado, a sociedade civil não o vê de nenhuma maneira como um político autoritário; e, por último, mas não menos importante, existe uma grande expectativa e confiança de que ele poderá resolver o problema econômico (52%).

A tudo isso, devemos somar outra variável fundamental latente na sociedade boliviana: considera-se importante conhecer a verdade sobre tudo o que ocorreu entre outubro e novembro de 2019. Isto é transversal para toda a população; é o mesmo para eleitores de Arce, Mesa ou Camacho. Todos querem saber, ainda que existam posições divergentes. Uma maioria está a favor de que a Justiça atue, porém, ao mesmo tempo, pouco menos de um terço tem confiança no Órgão Judicial. Como, então, resolver essa complexa equação? Como evitar que exista impunidade frente a um golpe de Estado sem que isso seja assumido como perseguição judicial?

Aqui está o grande desafio que enfrenta o governo de Luis Arce. A gestão da ressaca de um golpe de Estado nunca é tarefa fácil se o que se pretende é avançar na normalidade democrática. A impunidade não cabe em um Estado de Direito. É hora de Memória, Verdade e Justiça para poder seguir construindo o presente e o futuro democrático do país.

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