Por quem os sinos dobram na Europa

Num continente perdido, sem projeto e obcecado com a Rússia, eleições francesas confirmam risco de avanço da extrema direita

Por Flavio Aguiar, na Carta Maior

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Num continente perdido, sem projeto e obcecado com a Rússia, eleições francesas confirmam risco de avanço da extrema direita

Por Flavio Aguiar, em Carta Maior

O fracasso do Partido Socialista francês no primeiro turno das eleições municipais francesas (dia 23; o segundo turno acontece no dia 30) trouxe à tona mais uma vez o jogo perigoso que se faz com a situação política, econômica, social e cultural do continente e, portanto, do mundo. Se o PS fracassou, curiosamente  quem colheu os louros da vitória não foi a UMP da direita, ex-Sarkozy, que ameaça voltar ao cenário político francês, mas sim a FN, de extrema-direita, de Marine Le Pen, com seus 7% de votos e a eleição de um de seus membros já no primeiro turno, fato inédito na história política do partido e do país.

A FN está afiando os dentes para, junto com outros partidos de extrema-direita, conseguir eleger pelo menos 25 deputados em 7 países diferentes para o Parlamento Europeu, em maio próximo, e assim poder compor um bloco autônomo naquele espaço.  Estarão na mira os eleitores da Holanda, Áustria, Polônia, Hungria, Finlândia, Suécia, Noruega, além da França e do Reino Unido, junto com outros países.  Este conjunto de partidos se anima cada vez mais, enquanto a União Europeia, movida por uma vertigem anti-Rússia, com a crise na Ucrânia, olha para o outro lado.

Políticos mais experientes, como o ex-chanceler alemão Helmut Schmidt, criticaram a atitude da UE diante da crise ucraniana e da logo depois inevitável cessessão da Crimeia e sua “absorção” pela Rússia, chamando-a de “dummes Zeug”, algo como “um disparate estúpido”. Mas tais vozes parecem murmúrios do passado, diante da torrente de defesa dos “heróis da praça Maidan”, em Kiev, contra os supostos “cúmplices de Moscou”. A torrente vem engrossada pelo esforço de Obama em isolar, pelo menos retoricamente, Vladimir Putin, embora o presidente norte-americano tenha sido muito cuidadoso em evitar ameaças de escalada militar.

Já o mesmo não se pode dizer do comando da OTAN, que trovejou sobre a possível ameaça de uma invasão russa da Ucrânia – e portanto da “Europa” –   para além da Crimeia.  Nem o fato de na quarta-feira se noticiar o confronto entre a polícia ucraniana e um dos líderes destes “heróis” – na verdade comandos para-militares fascistas – que provocou a morte deste último arrefecem tais arroubos em defesa da “liberdade”. Os líderes europeus continuam repetindo a necessidade de fazer duras “sanções econômicas” contra a Rússia, ao lado de retaliações políticas de toda a sorte. Tal retórica não vai demover Putin da anexação da Crimeia. Mas, talvez (vamos dar este desconto) inadvertidamente fica jogando água no moinho de toda a sorte de direitas e direitas extremas pela Europa afora.

Uma demonstração disto foi a declaração da líder ucraniana Julia Timoschenko, recém liberta da prisão, de que queria a morte de Putin, fato que mereceu reprovação da própria chanceler Angela Merkel.

Este açular do extremismo direitista contém, inclusive, um perigoso componente histórico. Recentemente houve manifestações na Letônia – país que já integrou a ex-órbita soviética – louvando a memória daqueles que lutaram ao lado dos nazistas na Segunda Guerra, como “heróis” que enfrentaram o “imperialismo soviético”.  O evento terminou provocando uma crise no governo daquele país, porque o então ministro do Meio-Ambiente declarou que iria participar da demonstração, o que provocou um pedido, pelo Primeiro-Ministro, de que renunciasse ao cargo.

Enquanto isto, as esquerdas se dividem, e até o momento mostram-se incapazes de apresentar um programa alternativo –ou mesmo uma atitude política de envergadura em plano continental. Mais do que nunca é necessária alguma forma de promoção da união destas esquerdas, mais propensas a administrar seu enfraquecimento do que a abrir novas frentes comuns de luta. Parece uma paródia do nosso conhecido samba-canção, dizendo que “é preferível chorar separados do que brigar juntos”…

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