Peru: o triunfo da “novidade calculada”

A economia cresce a 8% ao ano, mas os eleitores estão fartos de continuidade. O novo Humalla os seduziu, por rejeitar o radicalismo de antes mas insistir na redistribuição da renda. Por Jaqueline Paiva, em seu blog

Ollanta Humala, o candidato de esquerda, já está no segundo turno das eleições presidenciais do Peru, que ocorrem no dia 5 de junho. Em algumas horas vamos saber se a disputa será com a filha de Alberto Fujimori, a deputada Keiko Fujimori, ou com o ex-ministro da Fazenda, o liberal Pedro Paolo Kuczynski.

Claro, deste primeiro turno, ao se analisar a floresta, a maior ausência notada foi a discussão partidária, que dá maiores garantias ao processo eleitoral. Mas este ainda é um tema muito distante da política peruana.

Numa das eleições mais emocionantes dos últimos anos na América do Sul, os peruanos foram neste domingo às urnas ávidos por novidades calculadas, rechaçando aventureiros e velhos políticos. Os eleitores mandaram para casa o ex-presidente Alejandro Toledo, que aprofundou as reformas de Alberto Fujimori, mas deixou o Peru tão desigual quanto quando o encontrou. Ele achava que estaria fácil no segundo turno. Sua campanha tinha dinheiro e apoio de empresários, mas Toledo não entendeu que os peruanos queriam ideias mais novas. E também ignorou o atual presidente, Alan Garcia, cuja candidata já estava fora do páreo há muito tempo. Os casos de corrupção e o estigma de ineficiência do estado tiraram de Garcia qualquer capital político que ainda lhe restava, mesmo com as taxas de crescimento anuais da economia rondando os 8%. Aliás, Mário Vargas Llosa foi outro derrotado. O escritor brilhante, Prêmio Nobel de Literatura, passa mais tempo na Europa que no seu país. Isso talvez tenha lhe tirado o pé da realidade. Seu apoio a Alejandro Toledo mostra o quão desconectado ele está com a maioria dos novos eleitores.

Mas então, por que Humala, Keiko e talvez PPK? O Humala de hoje é quase outro candidato aos olhos do eleitorado, muito mais centrado, falando em cumprimento de acordos e respeito às privatizações. Mas acrescentou uma novidade na agenda do país: propostas desta vez, concretas, de divisão de renda planejada, coisa que o povo peruano espera há séculos. Uma delas é a crição do nosso SAMU.

Prova da mudança, foram suas primeiras declarações após a abertura das urnas. À América TV falou: ”Estamos dispostos a ampliar os apoios, fazer uma grande negociação com todas as forças políticas, sociais e os trabalhadores que queiram ir conosco neste projeto. Nós estamos dispostos a fazer muitas concessões pela unidade do Peru”, afirmou, numa mudança radical ao que dizia em 2006.

E Keiko Fujomori?  Apesar de ser filha de Alberto Fujimori, tem 36 anos e tenta mostrar vida própria na política. Com seu frescor, correu o país atrás de apoio e trabalhou para não perder os votos cativos de seu pai no interior e entre os mais pobres. E apresentou muitas propostas na área de segurança e no combate ao tráfico de drogas para tentar ganhar a classe média amedontrada. E também falou muito sobre programas de atendimento social às crianças.

Já Pedro Paulo Kuczynski seduziu completante a classe média urbana, com alto nível alto de escolaridade. Soava a eles como música as propostas de abertura ainda mais radical da economia e à livre iniciativa, diminuição da burocracia para abertura de pequenos negócios, estreitamento de relações com EUA, China e Japão, com quem o Peru já tem acordos de livre comércio. Mesmo que venda para eles apenas matéria-prima, o que não estimula a industrilização do país. Isso quem tem feito é o crescimento acelerado do consumo interno, apesar de grande parte das mercadorias já virem prontas da China.

Um segundo turno entre Humala e Keiko talvez seja mais fácil para o primeiro, devido ao preconceito que o sobrenome dela atrai. Ela só ultrapassaria esta barreira se desse posição de destaque nas negociações para políticos tradicionais, como Alejandro Toledo, que não foram ao segundo turno e mostrasse uma experiência política feroz para atrair quem tem  horror aos métodos de Alberto Fujimori. Para chegar competitiva no dia 5 de junho, ela precisaria fazer um malabarismo para provar que não será governada por seu pai. Neste caso, caberá a Humala sair na frente e mostrar se mudou mesmo e se aprendeu a negociar com forças conservadoras, sem abrir mão das propostas sociais.

Já se Pedro Paulo Kuczynski for para o segundo turno, a pedreira será muito maior para o candiato Ollanta Humala. PPK, como é conhecido, poderia aglutinar naturalmente parte da sociedade mais liberal. Teria apenas que mostrar a mesma habilidade usada para fazer acordos econômicos, no tempo de ministro da Fazenda, na negociação com políticos. Precisa também seduzir quem está longe da região mais desenvolvida do país, que vive no litoral, e aprender a falar o que o povo que da selva e do altiplano quer ouvir. Um ponto ele tem a seu favor: seu discurso, antes muito técnico, foi aos poucos se popularizando. Contou com a ajuda de um guru de auto-ajuda mexicano, que atraía plateia para seus comícios já no início da campanha.

O problema é sua ligação com os Estados Unidos, onde tem até nacionalidade, à qual tratou de renuniar no mês passado. Essa ligação tão estreita com os americanos não pega bem entre os povos mais ligados aos movimentos de esquerda das regiões que ficam longe de Lima.

 

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