Occupy Wall Street e a travessia até Zohran Mamdani
Vitória do socialista em Nova York seria impensável sem o movimento rebelde de 2011 – que fez aflorar de novo as ideias de esquerda. Pode haver, nos EUA, força para pauta baseada no Comum; e um novo municipalismo que combine autonomia e defesa intransigente dos direitos
Publicado 21/01/2026 às 16:59 - Atualizado 21/01/2026 às 17:02

Por Nara Roberta Silva, no Le Monde Diplomatique Brasil
Em primeiro de janeiro de 2026, Zohran Mamdani assumiu a prefeitura de Nova York. O perfil de Mamdani chama a atenção – imigrante de Uganda, muçulmano, “socialista democrático” e de apenas 34 anos. Sem dúvida, foi uma eleição histórica – o que não é o mesmo que dizer que foi uma “surpresa”.
A organização da qual Mamdani faz parte, a Democratic Socialists of America (DSA), é uma força política na cidade desde a segunda metade dos anos 2010. À ascensão, seu método consistia em desafiar figurões do Partido Democrata nas primárias lançando candidatos jovens. Foi assim que a organização pavimentou o caminho para a eleição, em 2018, de Alexandria Ocasio-Cortez, numa derrota ao então terceiro Democrata mais poderoso da Câmara dos Deputados, e de Julia Salazar para a Assembleia Legislativa do Estado de Nova York, desbancando o representante distrital de quase duas décadas.
A DSA opera num cenário cuja formação pode ser localizada no movimento Occupy Wall Street (OWS) de 2011 – um momento de inflexão para a esquerda no país. Embora muitos identifiquem o OWS como um movimento essencialmente anarquista, é preciso especificar: este não era um movimento de anarquistas. Tratava-se, sim, de uma coalizão de diversas tradições políticas e de movimentos sociais – liberais, social-democratas, radicais, sindicatos, organizações comunitárias, coletivos autônomos, grupos de afinidade, entre outros, reunidos pela crítica comum ao neoliberalismo e ao poder financeiro. Sua existência foi possível em função da adoção de certos princípios de organização – horizontalidade, democracia direta, ação direta e autonomia – que permitiram que indivíduos e grupos com táticas e estratégias distintas convivessem, cooperassem e atuassem conjuntamente, mesmo sem acordo sobre um programa comum ou objetivos claramente definidos.
O arranjo era poderoso e muito complexo. Cada aspecto do movimento celebrado como forte e positivo também se manifestava como fraqueza ou vulnerabilidade. A abertura ampliava o envolvimento e a multiplicidade de contribuições, mas permitia a entrada de interesses desalinhados e em constante atrito. A inclusão gerava uma identificação profunda com o movimento, mas tornava tudo mais lento e desgastante. A descentralização gerava enorme vitalidade por meio da multiplicidade de atividades simultâneas, mas também criava uma espécie de especialização “forçada”, isolando grupos e gerando compartimentalização. Hierarquias de gênero, raça e classe emergiram no movimento que se dizia dos “99%”.
É importante ressaltar que estes não são meros “defeitos” do OWS – são tensões reais e inescapáveis de qualquer tentativa de radicalizar a democracia. A reintegração do parque onde estava a ocupação que era o coração do movimento escancarou o equilíbrio precário sobre o qual este se assentava. Mas àquela altura, seu declínio não podia apagar que milhares haviam saído às ruas e a denúncia da desigualdade – antes periférica – agora atravessava o léxico político do país.
Participantes do OWS seguiram por caminhos diversos, compondo aos poucos um ecossistema no qual redes de ativistas, reconfiguradas pela ocupação de 2011, reconheciam, em maior ou menor grau, a contribuição de todos para sustentar um campo político vivo e diversificado, onde projetos poderiam se fortalecer mutuamente. Certo segmento saído do movimento entendia que o caminho pós-OWS passava pelo municipalismo como forma de revigorar a democracia, deslocando a energia das ocupações para práticas de governança local. A referência central, à época, era a Espanha, onde experiências como Ahora Madrid e Barcelona En Comú ganhavam fôlego e pareciam demonstrar ser possível construir poder institucional sem abandonar os princípios de abertura, participação e renovação democrática que também animaram suas praças em 2011.
Mas tudo ainda era muito incerto: campanhas e movimentos – com destaque agora para o Black Lives Matter – continuavam a disputar a atenção e a energia dos ativistas e o municipalismo, limitado pelo desenho institucional do país, tendia a se diluir como apenas mais uma iniciativa entre tantas. Foi a eleição de 2016 que redesenharia o tabuleiro. De um lado, a campanha meteórica de Bernie Sanders, que se identifica como socialista democrático, retomava explicitamente a crítica do OWS. De outro, a vitória de Donald Trump impunha ao campo progressista uma urgência nova: construir uma alternativa institucional capaz de conter a onda reacionária.
Em processo de reorganização desde 2011, na esteira do OWS, a DSA saiu daquela eleição com um impulso inédito. Entre novembro de 2016 e maio de 2017, ela triplicou de tamanho e pôde então estabelecer uma rota de destaque. Em vez de concorrer à margem do sistema bipartidário, a aposta era clara: a energia seria melhor dispensada não numa terceira via, mas numa disputa no Partido Democrata, através de candidatos com vínculo orgânico com a organização. A campanha de Zohran Mamdani representou uma mudança sutil, mas significativa, nessa abordagem. Se a DSA vinha apostando em cargos legislativos de menor escala para firmar sua presença, agora há a noção de que um cargo executivo pode servir de ímã – atrair setores desorganizados, consolidar uma identidade política e impor o debate sobre toda uma agenda progressista, indo além de medidas parlamentares que, embora importantes, são isoladas.
Em termos de mensagem, a campanha foi estruturada em dois eixos. Primeiro, Mamdani reiterou a centralidade da acessibilidade econômica – suas propostas centrais reforçaram o coração da crítica lançada publicamente pelo OWS: a desigualdade não é uma fatalidade natural, mas um produto político corrigível. Em segundo lugar, ele resgatou a ideia de uma grande comunidade, plural e interdependente – se o slogan “nós somos os 99%” esbarrou nos limites de inclusão significativa dentro do próprio OWS, Mamdani atualiza-o em outra chave: rejeita a divisão entre maiorias e minorias e afirma que quem vive e constrói a cidade pertence a ela, independentemente de origem, religião ou condição econômica.
Embora Mamdani não seja herdeiro direto do OWS, sua eleição é impensável sem ele. Sua vitória marcou o amadurecimento de um setor que, com o fim do movimento, passou a apostar estrategicamente nas disputas eleitorais, convertendo a crítica sistêmica em ação institucional e plataforma política. Isso não significa que a ideia de horizontalidade tenha desaparecido – e, sim, que há um novo equilíbrio no interior do campo progressista. Talvez um dos grandes desafios da administração Mamdani seja justamente traduzir, no ritmo lento do governo, as expectativas e a energia do ecossistema que o trouxe até aqui.
Nara Roberta Silva é mestre e doutora em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora do Brooklyn Institute for Social Research, em Nova York. Atua nas áreas de teoria social e política, movimentos sociais e estudos étnico-raciais, combinando pesquisa, ensino e desenvolvimento de projetos em parceria com movimentos sociais e organizações da sociedade civil. É autora de Contradições da Horizontalidade: Uma Análise do Mo(vi)mento Occupy Wall Street e da Insurgência no Centro do Capitalismo Global (Editora Appris, 2025).
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