O papel notável das Doulas da morte

Surge um novo papel social: acompanhar a pessoa que se vai em seu último período; intermediar suas vontades com o mundo; superar ideia de que falecimento é tabu

Surge um novo papel social: acompanhar a pessoa que se vai em seu último período; intermediar suas vontades com o mundo ao redor; superar a ideia de que o falecimento é um tabu

Por BBC Brasil I Imagem: Edvard Munch, Mãe Morta

A advogada Hilary Pepiette é uma das primeiras “doulas da morte” da Escócia. Ela diz que há uma grande necessidade de seu papel como “amiga até o fim”.

Atualmente, o termo doula é utilizado para se referir a mulheres que orientam e ajudam grávidas na hora do parto.

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Por outro lado, Hilary diz que suas tarefas vão de lavar pratos e cozinhar a cortar unhas. Também fornece cuidados pessoais comuns em hospitais.

Recentemente, ela conversou com um programa de rádio da BBC Escócia. “A doula do fim da vida é alguém que apoia e caminha ao lado de uma pessoa até a sua morte. Fica perto da família e da pessoa durante o processo da morte, a morte propriamente dita e, às vezes, até depois dela”.

“Doula é uma presença consistente e flexível para preencher as lacunas e dar suporte emocional, espiritual e prático da maneira que for necessária para cada indivíduo ou família”, diz ela.

“Via membros de famílias com parentes morrendo e passei a pensar que poderia fazer mais por elas. Quero ter certeza que elas tenham a melhor morte possível e possam celebrar a vida. Meu trabalho é garantir que as pessoas aproveitem ao máximo seu potencial de vida e celebrem isso. Tento ajudá-los a ter a morte que eles desejam, dando a eles o controle de todo o processo.”

Morte é um tabu

“Há apenas cem anos, as pessoas deixaram de cuidar de seus parentes moribundos em casa e passaram a levá-los a hospitais ou médicos”, diz Hilary.

“A morte se transformou em um tabu ou algo sobre o qual as pessoas pararam de falar. Quanto mais a gente for aberto sobre isso, melhor. Ter essas conversas com as pessoas que estão no final da vida é muito gratificante”, afirma.

Como advogada em Edimburgo, Hilary trabalhou com processos de heranças, testamentos e negócios pessoais. Então, decidiu avançar seus serviços de cuidados com morte a outro patamar. “Sou advogada há mais de 20 anos. Trabalhei muito com planejamento de testamento, procurações e diretrizes médicas para ajudar as pessoas a pensar e planejar io fim de suas vidas.”

“Me pareceu uma progressão natural dar um passo além e passar a pensar sobre o que acontece depois que os documentos necessários já foram produzidos”.

Ela diz que, no processo de morte, as conversas são muito importantes. “Pode ser muito difícil para as famílias terem conversas difíceis sobre como você quer que seja sua morte, onde você quer ficar na hora, qual música você quer ouvir.”

“Meu trabalho estabelece quais são as maiores esperanças e medos. Do que você tem mais medo? Da dor ou de perder a autonomia? Conversar com a família é uma grande parte do trabalho da doula”, diz Hilary.

“Muitas pessoas não ficam confortáveis ao falar disso. Mas a maioria delas que se propõe a conversar depois ficam felizes com a oportunidade.”

A professora Dame Sue Black, antropóloga forense e uma das reitoras da Universidade de Lancaster , concorda que as pessoas deveriam conversar mais sobre a morte. “A morte é inevitável, vai acontecer. Não podemos controlar. No passado, essa conversa era mais comum. Mas acho que ficamos com medo da morte, nós não queremos admitir que ela existe.”

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