O império dos (duplos) sentidos

Antologia de contos eróticos brasileiros ,”O Corpo descoberto”, revela que, ao contrário da poesia, prosa foi, frequentemente, muito menos explícita — mais comedida e sugestiva. Talvez Barthes e Agamben expliquem o porquê

Por Verônica Stigger, em Revista 451 |Imagem: Emma Plunkett

Resenha de:
O corpo descoberto: contos eróticos brasileiros (1852-1922)
Cepe, 472 páginas, R$ 50


Talvez o que mais chame a atenção nesta antologia é um certo pudor no tratamento do tema pelos escritores ali reunidos, ainda mais se compararmos os contos desta coletânea com os poemas da Antologia da poesia erótica brasileira, lançada há três anos pela Ateliê Editorial, sob a tutela da própria Eliane. E isso não é um problema. Pelo contrário, nos faz pensar. 

Enquanto naquela primeira antologia há poemas em que o erotismo se mostra de maneira mais explícita, nesta, com poucas exceções, percebe-se uma tendência à camuflagem do assunto, ao subterfúgio ou, como a própria organizadora salienta no prefácio ao volume, à “alusão”, com “referências vagas ou indiretas ao sexo”.

Obscenidade cifrada

Enquanto Gregório de Matos, no poema “O homem mais a mulher”, por exemplo, não tinha nenhum comedimento ao qualificar as partes do corpo em jogo nas relações sexuais (“O cono é fortaleza/ O caralho é capitão/ Os culhões são bombardeiros/ O pentelho é o murrão”), toda a seção “Dos objetos do desejo”, de O corpo descoberto, por sua vez, transfere para algo de incorpóreo e inumano (leque, vaso, cadeira, colcha) o foco da paixão. 

Se, por um lado, neste último caso, cifra-se num utensílio o corpo humano e o desejo que este suscita, por outro, faz com que os objetos em questão deixem de ser apenas os objetos tais como os conhecemos. Passamos, assim, a perceber como pode ser obscena a inocente concavidade de um vaso e a ver a abertura de um leque como uma descruzada de pernas. 

É interessante notar como as capas dos dois livros sintetizam a diferença que comportam, a começar pela escolha das cores: vermelho e preto (para o de poesia), cinza e rosa (para o de prosa). Em destaque na capa da reunião de poemas, há um soneto, reconhecível não pelo que diz — está totalmente rasurado —, mas pela forma tradicional (dividido em quatro estrofes: duas de quatro versos e duas de três). As grossas faixas pretas que cancelam o texto sugerem, reforçadas pelas cores fortes, o teor picante do que foi escondido. 

A capa da antologia de prosa, por sua vez, dialoga com a ideia de “corpo descoberto” do título, explorando seu duplo sentido de corpo a se descobrir e corpo desvelado, desnudado. No entanto, a imagem não mostra um corpo propriamente dito, nem de parte dele, mas um objeto que o estiliza: um manequim de arame (logo, vazado) que forja a forma de um tronco humano, sem cabeça e membros, nu e sem vida. 

A razão para essa curiosa dessemelhança de abordagem do sexo estaria nos diferentes arcos temporais que as antologias abarcam? Aquela dedicada à poesia abrange do século 17 aos nossos dias, de Gregório de Matos a Carlito Azevedo, passando por Gonçalves Dias, Hilda Hilst e muitos outros. O livro voltado à prosa se circunscreve a setenta anos já distantes, de 1852 — data da morte de Álvares de Azevedo, autor do conto de abertura do livro — até 1922 — ano da Semana de Arte Moderna. E não por acaso a antologia se encerra com uma ficção de Mário de Andrade. 

No prefácio a O corpo descoberto, Eliane Robert Moraes, evocando os estudos de Lucia Miguel Pereira, lembra que até 1880 os temas da literatura brasileira tendiam a ser “pudicos e moralizantes”. Assim, conclui, “seja para marcar a diferença com [os] escritos [pornográficos estrangeiros], seja para não ferir a moral vigente, nossa produção contística anterior ao modernismo vai quase sempre preferir a sugestão à exibição do sexo”. Mas, numa nota de rodapé em que evoca sua antologia de poesia erótica, a própria Eliane observa: “a lírica do mesmo período é bem mais permissiva que o conto, tanto nos temas sexuais como nos modos de tratá-los”. 

Estariam então a permissividade da poesia e o comedimento da prosa em relação ao erotismo associados a determinadas especificidades dos gêneros lírico e narrativo? Talvez. Por um lado, não podemos perder de vista o caráter social dominante de cada modalidade — a forma como elas se inseriam nas sociedades de suas épocas. 

Os contos costumavam ser publicados — antes de sair nos livros — em jornais e revistas e, assim, eram submetidos à censura e ao “bom gosto” hegemônico daquele período. Olavo Bilac, conhecido cronista e poeta parnasiano, assinou o livro com seus contos de tendência mais erótica (os mais divertidos dessa antologia) com um pseudônimo que também disfarçava sua nacionalidade: Bob. E não foi o único. 

Os poemas, em contraposição, gozavam de uma vida mais autônoma. Embora alguns fossem igualmente publicados na imprensa, tinham, em geral, formas de existência paralelas, subterrâneas, que passavam pela difusão oral, mas também pelas cópias avulsas circulando de mão em mão (característica da poesia lírica desde pelo menos a Idade Média). 

Vale notar que vários contos começam com o narrador anunciando que vai contar uma história. É o caso de “História cândida”, de Raul Pompeia, “O impenitente”, de Aluísio de Azevedo e “O sonho”, de Bilac, para citar alguns. O anúncio se dá, frequentemente, dentro de um grupo de amigos, isto é, no âmbito da sociedade, como se fosse preciso submeter o erótico a seu controle e aprovação. 

Intermitência

Não seria a poesia, por sua própria configuração sensível, mais erótica também? Pode ser, mas teríamos, antes de tudo, de tentar compreender o que se quer dizer com erótico. Para não nos alongarmos, recorramos a Roland Barthes, que, em O prazer do texto, aproxima o “texto de gozo” (em contraposição ao “texto de prazer”) justamente ao erótico. Indaga ele: “O lugar mais erótico de um corpo não é lá onde o vestuário se entreabre?”. 

Ou seja, o erótico residiria, de algum modo, nesse lugar de entre, de fenda, ou — numa palavra cujo duplo sentido cai como uma luva aqui — de fissura. Diz ainda Barthes: “Na perversão (que é o regime do prazer textual) não há zonas erógenas (expressão aliás bastante importuna); é a intermitência, como o disse muito bem a psicanálise, que é erótica: a da pele que cintila entre duas peças (as calças e a malha), entre duas bordas (a camisa entreaberta, a luva e a manga); é essa cintilação mesma que seduz, ou ainda: a encenação de um aparecimento-desaparecimento”.

Na literatura, seguindo ainda com Barthes, essa intermitência está no estranhamento imposto à linguagem: “nem a cultura nem a sua destruição são eróticas; é a fenda entre uma e outra que se torna erótica”. Na poesia, essa fenda se acentua, porque é concreta: é um lugar específico da forma. Se, como lembra Giorgio Agamben em O fim do poema (1995), a poesia opera a partir de uma “não coincidência”, de um “cisma”, entre “o som e o sentido”, entre “a série semiótica e a série semântica”, esse cisma tem seu ponto máximo na quebra do verso — na quebra que faz o verso. 

Enquanto a prosa, como bem indica sua etimologia, é aquela linha de escrita que caminha em frente, com uma direção certa, o verso é o que sempre retorna. Ao contrário da prosa, a poesia sempre rompe propositalmente com a linearidade (a linha não vai mais até o fim da página). Sua forma é, nesse sentido, mais erótica: dificulta a apreensão do todo, oferece a experiência dos interstícios e das fissuras. 

Assim, mesmo quando o sexo ali é tratado explicitamente, acaba por ser escamoteado por essas quebras. A experiência do poema é talvez aquela de um corpo em fuga que, mesmo quando se dá a ver de forma explícita, logo deixa de estar ali onde pensávamos. A prosa, por ser mais descritiva, mais analítica, deixa menos dúvidas sobre o que está falando. Por isso, o explícito, quando aparece, é explícito mesmo. Em “Penélope”, de João do Rio, por exemplo, transborda a cada linha a excitação da viúva Alda Guimarães com o jovem Manoel Ferreira. 

Em O corpo descoberto, o que torna a leitura deliciosa é precisamente uma maneira de abordagem menos óbvia do erótico. Como bem define Eliane Robert Moraes, as narrativas ali agrupadas têm “o mérito de nos fazer recordar o potencial que não só a erótica, mas toda literatura, tem de criar artifícios que permitam ‘dizer de outro modo’”. 

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