O Celso Furtado que a esquerda esqueceu

Presa à ideia simplista do “crescimento do PIB”, ela desprezou o grande economista — para quem superar a dependência exigia vasta transformação social. Ao invés de interpretar o capitalismo, houve uma tentativa de adocicá-lo…

Alexandre de Freitas Barbosa, entrevistado por Ricardo Machado, no IHU Online

Do ponto de vista retórico, a ideia de que o Brasil era um país de todos ou um país sem miséria bem que colou, mas não resistiu à estagnação econômica, nem aos golpes políticos que nos levaram à atual situação. No fundo, levando em conta as características estruturais do capitalismo brasileiro, o desejo de um Estado de bem-estar social, que apareceu no horizonte da primeira década dos anos 2000, acabou se diluindo na crise atual. “O segmento dos governos de esquerda e petistas edulcoraram o capitalismo brasileiro, apresentando-o como uma versão rósea, com uma política externa arrojada, mas em um contexto em que o dinamismo brasileiro era o do agronegócio ou das indústrias que estavam comprando produtos chineses, vivendo na farra dos juros altos. Havia contradições muito fortes para chamar isso de um modelo social-desenvolvimentista”, explica o professor e pesquisador Alexandre Barbosa, em entrevista por telefone à IHU On-Line.

“Não se tinha uma interpretação sobre o funcionamento do capitalismo brasileiro e das transformações do sistema internacional. A tal ponto que algumas lideranças do PT compraram a ideia de que o ‘capitalismo brasileiro’ está eliminando a miséria ou que somos um país de classe média – país desenvolvido é um país sem pobres. Compramos esses slogans sem perceber que a dependência e a heterogeneidade estrutural continuavam sendo a marca desse capitalismo”, avalia. “É quase como se houvesse um rentismo permanente do setor privado sem necessidade de desenvolvimento das forças produtivas, gerando uma sociedade profundamente desigual, que não cresce e não acumula capital”, frisa Barbosa.

O problema do diagnóstico correto passa também, ou sobretudo, por uma certa limitação da análise acadêmica. “A própria esquerda acadêmica deixou de se referir ao subdesenvolvimento e à dependência. Tanto que se fala de reprimarização ou financeirização, o que obviamente existe, mas a questão é como ela acontece hoje”, questiona. Quanto à política econômica atual, o professor a classifica como terra arrasada e sequer reconhece Paulo Guedes como economista. “Nem diria que o Guedes é um economista ortodoxo, é um miliciano do mercado. Ele não tem o menor conhecimento do capitalismo ou mesmo da economia brasileira”, descreve.

Alexandre de Freitas Barbosa é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, mestre em História Econômica pela Universidade de São Paulo – USP e doutor em Economia Aplicada pela Unicamp. É professor e pesquisador de História Econômica do Instituto de Estudos Brasileiros – IEB da USP, onde coordena o Núcleo Temático “Repensando o Desenvolvimento” do LabIEB. Publicou o livro A formação do mercado de trabalho no Brasil (São Paulo: Espaço Alameda, 2008)..

Confira a entrevista

Qual a atualidade do pensamento de Celso Furtado hoje e quais sãos os limites do seu estilo de interpretação sobre a conjuntura nacional e internacional?

Celso Furtado tem um estilo de interpretação aberto, histórico-estrutural, que tem como objetivo entender as situações concretas de desenvolvimento a partir da reorganização do sistema internacional e da economia capitalista, considerando seus vários centros e periferias. Trata-se de um pensamento sistêmico que busca entender as novas interações entre os fenômenos, inclusive as causalidades que se alteram. No livro Introdução ao desenvolvimento: enfoque histórico-estrutural (São Paulo: Paz e Terra, 2000), que é seu último esforço teórico, ele faz uma afirmação dizendo que qualquer reflexão sobre desenvolvimento tem que realizar uma aproximação entre a teoria da acumulação do capital, a teoria da estratificação e uma teoria do poder. Ou seja, esse é o autor que disse num texto de 1973 que não é possível conceber o desenvolvimento como exclusivamente econômico. Trata-se de um pensamento interdisciplinar que tenta perceber a mudança nas estruturas.

O pensamento, tanto o dito heterodoxo quanto o ortodoxo, é quase pré-cepalino e pré-furtadiano. Então, se pegamos toda a tradição recente de pensamento mainstream no Ocidente, que vem de Douglass North e passa pelo texto Por que as nações fracassam? (Rio de Janeiro: Alta Books, 2012), de Daron Acemoglu e James Robinson, percebemos que eles retiram a discussão sobre desenvolvimento do sistema internacional e passam a colocar as instituições, como se elas determinassem certos tipos de desenvolvimento. Acemoglu, por exemplo, diz “por que a Espanha é diferente da Inglaterra? Por que se dá a Revolução Industrial? Porque uma tem instituições políticas inclusivas e a outra extrativistas”.

O recente livro de Branko Milanović, Capitalismo sem rivais: O futuro do sistema que domina o mundo (São Paulo: Todavia, 2020), propõe uma grande discussão. Milanović é da turma do Thomas Piketty, e eles são fantásticos ao entender a desigualdade, mas não entendem nada de capitalismo. Eles vão dizer: “olha, houve uma vitória do capitalismo e nós temos hoje dois modelos. O capitalismo político, que é a China, e o capitalismo meritocrático-liberal dos Estados Unidos, e um vai vencer o outro”. É um pensamento dualista, sem história e sem uma perspectiva do sistema internacional transformado pelo capitalismo. O texto de Branko Milanović é uma relação dual de oposição entre Estados Unidos e China, e esquece de mostrar as relações de complementaridade que existem entre essas economias e de como elas desenham o sistema internacional mais amplo.

Tem outro livro, Chutando a Escada – A Estratégia do Desenvolvimento em Perspectiva Histórica (São Paulo. Unesp: 2004), de Ha-Joon Chang, autor heterodoxo de Cambridge, que afirma que “as nações não se desenvolveram por conta do livre mercado, mas dependeram do apoio do Estado e de um conjunto de políticas”. O raciocínio é de que “chutando a escada”, uma frase do economista alemão do século XIX, Friedrich List, essa coisa de vantagens comparativas de David Ricardo é uma pretensa teoria para justificar a ascensão inglesa. Na Alemanha, dizia List, era necessário criar um sistema nacional de economia, desenvolver a industrialização, “porque quando eles chegam lá em cima, eles chutam a escada e defendem políticas liberais”. É um texto fabuloso, mas aparentemente não existe a noção de sistema internacional, de centro-periferia.

Uma boa parte da esquerda fala que “o capitalismo está em crise”. Mas, onde ele está em crise? Em Gana? No Senegal? No Vietnã? Na China, no Brasil ou em toda a América? Ele está em crise da mesma forma em todos esses lugares? Uma análise histórico-estrutural mostrando a complexidade do capitalismo, entre vários centros, periferias ou mesmo no andar intermediário, ajudaria a compreender melhor essa crise. Celso Furtado argumentava que, para entender o subdesenvolvimento e as relações com os países desenvolvidos centrais, era preciso ter uma abordagem mais ampla do capitalismo. Com isso, ele vai fazer a Teoria da Dependência à maneira dele e verá um sistema econômico em expansão vertical e horizontal, gerando constelações de forças sociais heterogêneas e relações entre o Estado, o capital privado e empresas internacionais, em vários pontos do planeta, que se complementam e contradizem.

No que toca ao desenvolvimento econômico brasileiro, Furtado observa por que o Brasil não se industrializou no século XIX, depois percebe a nova corrente do comércio exterior que o café vai propiciar, e só após a própria crise do café vai começar a industrialização, que pode contribuir para a superação do subdesenvolvimento. Nos anos 1970, ele vai dizer por que a industrialização, na verdade periférica, não levou à formação de sistemas econômicos nacionais, pelo contrário, gerou uma estrutura produtiva desarticulada e uma sociedade profundamente desigual, produzindo apenas para uma minoria privilegiada. Ele fala, inclusive, de uma dessimetria entre o setor produtivo e a sociedade. Se perguntarmos qual é o papel da indústria hoje, se temos de reindustrializar, a questão passa por “como é possível reindustrializar num quadro em que se tem uma grande potência que produz tudo e que, inclusive, está deslocando os países de vanguarda tecnológica nos bens mais intensivos em tecnologia?”. Então, muito provavelmente, não dá para fazer uma industrialização completa.

No caso da China, não é que ela seja o único centro. Muito provavelmente nós estamos vendo uma diversificação do centro dinâmico e relações de complementaridade e contradição entre China, União Europeia e Estados Unidos. Por isso pensar em reindustrialização e em um novo projeto de desenvolvimento requer levar em consideração essa nova realidade histórica.

Hoje, a geopolítica econômica se organiza em torno de três atores que disputam a hegemonia, EUA, China e União Europeia, a última a cada dia com menor protagonismo. Qual deveria ser o papel do Brasil nesse cenário?

O Brasil foi o país que chegou mais longe no processo de industrialização dependente, puxada pelas transnacionais, em que o papel do governo era turbinar esse processo de acumulação a partir de 1964, fazendo reformas de base ao avesso. Isto é, fazendo políticas sociais restritivas, sem reforma agrária, e aplicando políticas financeiras e tributárias para alavancar a acumulação de capital que permitiriam um novo ciclo de acumulação muito forte. Para chegar até hoje, temos que ver o período pós anos 1980, a crise da dívida externa e depois o Real. Temos que acompanhar, fazer um diagnóstico e uma interpretação sobre a transformação casada das estruturas econômicas, políticas e sociais internacionais e do Brasil. Esse é um dos desafios que aqueles que se dizem discípulos de Furtado têm a fazer.

Durante os governos Lula e do PT houve a tentativa de uma política externa independente. Ou seja, o Brasil formou o grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), passou a ter uma inserção mais ativa, especialmente no âmbito da Organização Mundial do Comércio – OMC e de vários organismos multilaterais. Além disso, começou a formular uma relação com a China, mas muito movida pelas relações comerciais e por uma compreensão até meio equivocada.

O discurso que se fazia era de que o Brasil precisava diversificar as suas exportações para a China, enquanto os chineses não só se moveram para setores de alta produtividade, como se mostraram competitivos em todos os elos da cadeia. Assim, a China não quer importar aço do Brasil, quer importar minério de ferro; não quer importar alumínio, quer importar bauxita; eles têm toda uma cadeia interna, que inclusive extravasa para o sudeste asiático. E, ao mesmo tempo, nesse período foram criados vários fundos de investimento, ou seja, se poderia ter pensado numa tentativa de internalizar algumas das empresas chinesas com intercâmbio de tecnologia, investimentos em infraestrutura, tentar trazer algumas das cadeias produtivas chinesas para o território nacional, compartilhar a tecnologia. Obviamente isso não é fácil de se fazer com os chineses, mas essa era uma perspectiva. Além disso, tem o contexto de que os países do Mercosul e da América Latina negociavam com a China em separado e, ao mesmo tempo, os Estados Unidos deixaram de ter um papel relevante na América Latina.

A política de manter a moeda valorizada nos anos 2000 permitiu que muitas empresas passassem a comprar não só as manufaturas de baixo valor agregado da China, mas os bens industriais de alto valor agregado, enxugando as cadeias produtivas. Então, para competir com a confecção chinesa, era preciso ter máquinas têxteis chinesas no Brasil. Houve uma pressão muito forte, especialmente depois da crise de 2008, e o Brasil continuou comprando bens intensivos em tecnologia.

A China começou a se deslocar para o capital externo, nos EUA e na União Europeia, e com isso houve a crítica de muitos industriais de que a China usaria concorrência desleal, quando na verdade caberia entender como o Brasil pode negociar e recompor algumas cadeias produtivas enfrentando esse quadro mais amplo, com uma política industrial tecnológica de longo prazo.

Atualmente vivemos uma política de terra arrasada, porque optou-se pela vinculação a uma liderança do espectro político dos EUA, sem levar nada em troca. O país abre mão da liderança que tinha na OMC, não tem mais mercado nos EUA e perde a possibilidade de investimentos em infraestrutura, além de abalar os interesses do agronegócio. Temos que pensar o que é esse sistema internacional, suas várias polarizações e hierarquias e quais são as possibilidades de se estabelecer novas relações geopolíticas para tentar exercer maior poder nas entidades multilaterais e, ao mesmo tempo, recompor o sistema produtivo agregando maior valor internamente. Mas isso está completamente fora de pauta. A discussão gira em torno de fazer cortes, reduzir gastos para atrair um quimérico investimento. Vivemos um cenário de completa destruição das instituições produtivas, sociais, de pesquisa no Brasil, inclusive comprometendo uma recuperação não só do crescimento, mas uma estruturação de um novo projeto nacional, destruindo as instituições que sempre capitalizaram esses processos.

No livro Cultura e desenvolvimento em época de crise, Furtado alertava que a crise é um processo destrutivo de oportunidades, o que era possível ontem não será mais possível amanhã. As perspectivas de desenvolvimento, nesse ensaio de recuperação da economia, de inclusão social, de maior participação do Estado, que eu temeria chamar de desenvolvimentista, realizado nos anos 2000, se isso voltar a ser realizado, teremos menos capacidade de realizar aquilo que não fizemos no começo da década.

Em uma nota introdutória de Brasil a Construção interrompida (Sãp Paulo: Paz e Terra, 1992), Furtado falava dos liquidatários do desenvolvimento, no contexto do Plano Collor, que me parece também serviria para o governo Fernando Henrique Cardoso. Nesses casos, ao menos os economistas liberais dos anos 1990, que eu chamo de ortodoxos da academia, imaginavam que estavam propondo um novo modelo de desenvolvimento. Eles “desleram” Celso Furtado, inventando que ele dizia que era necessário um crescimento voltado para o mercado interno, fechado, quando na verdade ele fazia um diagnóstico do porquê a industrialização se dava por substituições às importações. A questão era como influenciar e atuar sobre este processo de industrialização a partir do Estado, com reformas de base, inclusive mudando as relações de dependência com educação, investimento em tecnologia etc. Tratava-se de um projeto arrojado.

Em entrevista à Folha o senhor comenta que faltou ao Brasil, nas duas últimas décadas, um diagnóstico do capitalismo brasileiro. O que isso significa?

Há em Celso Furtado e Florestan Fernandes um estilo de interpretação histórico-estrutural. Há vários outros autores importantes, como Ignácio Rangel e Caio Prado, que, de alguma maneira, é quem inaugura este estilo de interpretação. E há os sucessores desse pensamento, como na Escola da Unicamp, os professores Wilson Cano, Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello; no Cebrap, Paul Singer, Chico de Oliveira; além de Maria da Conceição Tavares, Antônio Barros de Castro e Carlos Lessa, que nos deixou recentemente, no Rio de Janeiro. Trata-se de um estilo de ver a economia encravada na sociedade, nas relações internacionais e de poder.

O que acontece a partir dos anos 1980 é que se começa a formar mestres e doutores em economia, com grande capacidade analítica, mas que passam a se socializar apenas no âmbito da universidade; enquanto Furtado, Rangel, Rômulo Almeida – chefe da assessoria econômica de Getúlio Vargas – eram intelectuais orgânicos do Estado. Furtado, no exílio, dizia que nunca tinha sido apenas ou principalmente um intelectual, mas um pensador que forjava categorias para atuar sobre o presente e o futuro que estava se avizinhando. Os economistas, dentro da divisão entre heterodoxos e ortodoxos, passaram a se conectar com suas respectivas correntes de pensamento, de acordo com cada tradição, e o debate ficou circunscrito à dimensão econômica do desenvolvimento.

Uma análise com certo distanciamento está relacionada ao fato de que houve, no começo dos anos 2000, uma situação econômica interessante, com distribuição da renda, recuperação do papel do Estado, mas não se tinha uma interpretação sobre o funcionamento do capitalismo brasileiro e das transformações do sistema internacional. A tal ponto que algumas lideranças do PT compraram a ideia de que o “capitalismo brasileiro” está eliminando a miséria ou que somos um país de classe média – país desenvolvido é um país sem pobres. Compramos esses slogans sem perceber que a dependência e a heterogeneidade estrutural continuavam sendo a marca desse capitalismo. Na verdade, estávamos na antessala de uma nova perspectiva desenvolvimentista, mas se parou no meio do caminho.

Obviamente teve a crise internacional, mas não foi criada uma economia política das reformas. As reformas que vemos na imprensa – trabalhista, previdenciária – são para tirar direitos e reduzir o papel do Estado. O segmento dos governos de esquerda e petistas edulcoraram o capitalismo brasileiro, apresentando-o como uma versão rósea, com uma política externa arrojada, mas em um contexto em que o dinamismo brasileiro era o do agronegócio ou das indústrias que estavam comprando produtos chineses, vivendo na farra dos juros altos. Havia contradições muito fortes para chamar isso de um modelo social-desenvolvimentista. Costumo dizer que Rômulo Almeida e os boêmios cívicos, como Vargas os chamava, criaram o projeto da Petrobras, do Banco do Nordeste, as reformas do setor elétrico que viriam se transformar na Eletrobras, tinham uma interpretação que estava associada a um projeto que eles tentavam incorporar em alguns setores da sociedade, como uma utopia que girava em torno da ideia de “desenvolvimento nacional” – não havia o termo desenvolvimentismo. Eles eram nacionalistas, talvez reformistas, porque hoje, se vemos em contraste, percebemos que existe um nacionalismo conservador e autoritário. Faltou, nos governos do PT, interpretação que pudesse embasar um projeto e uma utopia. Não se pode negar os avanços que tivemos na política externa, no papel do Estado, o aumento do poder de compra da classe trabalhadora, o aumento das políticas sociais, a rede de proteção social, mas as engrenagens do capitalismo e a inserção subordinada ao sistema internacional continuaram.

Alguns colegas podem argumentar “para fazer isso tinha que ter uma burguesia mais sólida”. Bem, nesse caso se deveria saber com quais estratos da sociedade se poderia avançar. No caso da Dilma Rousseff ocorreu que ela implementou a agenda da Fiesp, mas sem costurar com a Fiesp, que depois dá o golpe. Não foi um projeto enraizado na sociedade, no sentido de se favorecer do boom econômico para a distribuição e reforçar o papel do Estado enquanto a conjuntura internacional permitiu. O próprio discurso do empreendedorismo de uma classe trabalhadora bastante precária foi assimilado pelos governos do PT.

Como os indicadores estavam indo bem, isso passou a ser chamado de desenvolvimento. Na verdade, eu diria que é um ciclo de expansão econômica com melhoria das condições de vida da classe trabalhadora e com uma recuperação do papel de Estado, mas sem uma perspectiva de planejamento mais democrático, federativo, regional, descentralizado. Ou seja, o desenvolvimento era algo muito robusto para Furtado e sua geração. Envolvia diagnóstico e uma ousadia propositiva muito profunda. A forma como isso se deve dar hoje é muito mais complexa, porque há o papel das prefeituras, dos governos estaduais, as várias entidades estatais (naquele momento, todas as entidades estavam surgindo).

Qual a importância de se pensar um modelo de desenvolvimento capaz de dar conta da complexidade do tempo que vivemos, sobretudo este momento de “contrarreformas de base”?

É possível concordar que as reformas realizadas – a trabalhista, previdenciária e a discussão sobre a tributária que está sendo feita – são uma espécie de contrarreforma. É importante dizer que elas destroem o marco institucional de 1988, o qual foi uma viga mestra no contrato social, mesmo no governo FHC, que flexibilizou o monopólio do petróleo, assimilado pelos empresários que tiveram aumento da rentabilidade, ao menos até 2012, de tal modo que o custo Brasil nunca foi questionado. O que vejo, portanto, é a destruição do contrato social que embasava essa democracia, agora com o processo de socialização das classes dominantes no Estado, contra a classe dos outros, como dizia Florestan Fernandes, no caso, todos aqueles que vivem de trabalho. É como se tivéssemos mantido o verniz democrático, nesse golpismo permanente que vemos contra as instituições, mas, de fato, passamos a uma nova forma de autocracia burguesa.

As reformas de base ao avesso do Programa de Ação Econômica do Governo – Paeg estavam relacionadas a um conjunto de outros elementos que trouxeram uma acumulação de capital e um dinamismo econômico fantástico no período de 1977 a 1980. Por isso penso que são mais do que reformas de base ao avesso, mas, sim, a destruição desse contrato social, que compromete, inclusive, as perspectivas de acumulação de capital no longo prazo. É quase como se houvesse um golpismo permanente e uma rentabilidade permanente do setor privado sem necessidade de desenvolvimento das forças produtivas, gerando uma sociedade profundamente desigual, que não cresce e não acumula capital.

Hoje há entidades de pesquisa e movimentos sociais com capacidade de articulação teórica e empírica, as universidades estão conectadas com várias entidades da sociedade civil. A questão é como construir um pensamento e um diagnóstico por dentro das instituições, de maneira coletiva, que possa embasar novas forças sociais capazes de carregar novos projetos e novas utopias. O que a herança cepalina e o pensamento de Furtado apregoam é que, se um país não mudar seu papel no sistema internacional e não for capaz de uma acumulação de capital robusta que se irradie pelo território, não adianta fazer somente reformas. Isso é fundamental para pensarmos o desenvolvimento nos marcos desse capitalismo dependente. A própria esquerda acadêmica deixou de se referir ao subdesenvolvimento e à dependência. Tanto que se fala de reprimarização ou financeirização, o que obviamente existe, mas a questão é como ela acontece hoje? Como explicar isso a partir das cadeias de interação, submissão, subordinação ou mesmo interação dinâmica com os vários “centros”? Se os EUA, União Europeia e China atuam como os novos centros, há várias periferias no seu seio. A complexidade da relação centro-periferia ultrapassa os limites geográficos. Esse pensamento complexo e sistêmico é algo que parte da academia acha abstrato, pois seus modelos de análise não captam essas coisas, afinal vivem do simples, do pontual, do binário. Não existe pensamento sem base histórica, de tal modo que não existe economia sem interação com as várias dimensões da sociedade. Então fica essa coisa de instituições inclusivas versus excludentes, capitalismo político versus capitalismo econômico, mas e como funciona o capitalismo no sistema internacional? Como as várias economias brasileiras estão vinculadas a isso?

O avanço das universidades e dos departamentos de economia gerou tal grau de sofisticação teórica que muitas vezes orbitam sobre abstrações e construções que não estão enraizadas historicamente. É por isso que Celso Furtado continua atual, porque ele pensa os fluxos econômicos e a reorganização do poder político internacional, no pós anos 1980. Para nós, a questão é como o Brasil vai se moldando e se adaptando entre 2008 e 2016 no cenário internacional.

Estou pensando nessa tríade: projeto, interpretação, utopia. A interpretação é parte desse processo e isso precisa estar enraizado na sociedade. Só assim pode emergir uma nova perspectiva desenvolvimentista, porque não dá para dizer que serão os mesmos atores de sempre – classe operária, burguesia industrial e Estado.

Quem é o Estado no Brasil? O que é a classe trabalhadora no Brasil hoje? Há várias frações de classe, com interesses cada vez mais fragmentados. E a burguesia? Quais os interesses da burguesia com um sistema de acumulação endógeno? Isso envolve um conjunto de instituições, de universidades à sociedade civil, que seja capaz de fazer brotar nos próximos anos algo positivo. Isso envolve muitas coisas. Talvez um primeiro ponto importante seja Donald Trump não ganhar as eleições. Ele gera uma desordem, uma desorganização e uma incapacidade de haver determinados consensos no sistema internacional que atrapalha tudo. Do nosso ponto de vista, precisamos de um Executivo que seja minimamente capaz de trabalhar com as várias instituições voltadas para o desenvolvimento de maneira agregadora, mas hoje nós temos liquidatários do desenvolvimento, começando pelo chefe de Estado e indo até Paulo Guedes. Aliás, nem diria que o Guedes é um economista ortodoxo, é um miliciano do mercado. Ele não tem o menor conhecimento do capitalismo ou mesmo da economia brasileira. O papel dele é simplesmente cortar gastos; ele inclusive se sente desconfortável de injetar demanda na economia.

Vivemos hoje, com a pandemia e a crise econômica, a mais profunda da história do Brasil, o “colapso da civilização” que Furtado prognosticou na década de 1970?

Celso Furtado nos seus ensaios e livros dos anos 1970, especialmente em Criatividade e dependência na civilização industrial (São Paulo: Companhia das Letras, 2008), um ponto de questionamento do autor era a realização um longo voo sobre a civilização industrial, falando de racionalidade instrumental e racionalidade substantiva, em um diálogo com Schumpeter e a Escola de Frankfurt, em que ele vê a civilização ocidental, sob o capitalismo, matar os valores que existiam na sua origem durante o iluminismo. É nesse livro também que ele cita Georgescu-Roegen e os limites para o crescimento. Furtado jamais aceitaria o argumento de que a tecnologia resolveria os problemas climáticos. Nessa obra ele diz que o problema é que os países subdesenvolvidos nunca vão ter o padrão de consumo dos países desenvolvidos. A expectativa que havia de que os países subdesenvolvidos alcançariam um certo padrão de consumo era um ponto e questionamento do autor, não propriamente a questão da limitação da natureza. Interessante é que com a ascensão da China nos vemos diante da possibilidade de produzir padrões de consumo até mesmo para populações de baixa renda, incluindo a periferia. Por isso é importante entender como a China se integra à economia capitalista e desintegra determinadas estruturas, porque não existe mais sistema econômico nacional, inclusive nos Estados Unidos, desde os anos 1970. As empresas transnacionais norte-americanas não estão mais sintonizadas com processo de acumulação interna. Os EUA passam a ser o Estado mais endividado do mundo e recebem boa parte dos recursos diretos externos mundiais, até mesmo de transnacionais de outros países.

Vejo alguns colegas dizerem que veremos uma retomada da importância do Estado. Nas economias periféricas não se trata somente de criar medidas anticíclicas. Como afirmava Furtado, já nos anos 1950, era preciso um conjunto de normas, instituições e reformas para que essa região que estava voltada a produzir matérias-primas pudesse incorporar progresso técnico, industrializar e irradiar seu processo de desenvolvimento econômico, integrando várias regiões e segmentos da sociedade. Hoje, a questão passa por como prover novos mecanismos de integração nacional e gerar um desenvolvimento em que a indústria terá um papel importante, mas levando em conta outros setores. Ou seja, como valorizar nossa cadeia produtiva protegendo a Amazônia, como integrar os setores dos recursos renováveis, produzindo tecnologia e melhorando nossa matriz energética, gerando fontes de recursos tributários, novas formas de inclusão social. Em suma, trata-se de repensar o desenvolvimento em todas as suas dimensões.

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