Persistem incertezas sobre a nova bactéria

Escherichia coli”, que provocou 25 mortes na Alemanha, está presente no organismo dos mamíferos e é normalmente inócua. Mas cepas letais podem ter se desenvolvido a partir de experimentação genética

Por Emílio Godoy, na Envolverde-IPS

No romance “Toxina” (1998), do escritor norte-americano Robin Cook, uma cepa da bactéria Escherichia coli contamina a carne bovina dos hambúrgueres e provoca uma mortal epidemia. A ficção se inspirou em um foco real ocorrido anos antes. A aparição de um novo virotipo de E. coli na Alemanha, que desde maio deixou pelo menos 25 mortos, mais de 2.600 doentes e uma dor de cabeça nos cientistas, é um capítulo a mais, mas não tem nada de ficção. Na Europa ainda não se sabe qual foi a fonte da contaminação.

A produção industrial de alimentos contribui para propagar a bactéria E. coli. A maioria de suas cepas é inócua. A bactéria está naturalmente presente nos intestinos dos mamíferos e participa do processo digestivo. Dali, com a matéria fecal, chega às águas servidas. É usada no desenvolvimento de transgênicos agroalimentares, farmacêuticos e veterinários, na biologia sintética e na criação de hormônios transgênicos, como os aplicados nas vacas para produzir mais leite.

“A indústria tem uma influência na geração e propagação destas bactérias. Na produção de carne e em cultivos que estão muito perto da terra, a porcentagem de probabilidade é alta, como nos de melão, pepino, melancia, abobrinha, morango, que são regados com águas servidas, na maioria das vezes”, disse ao Terramérica a pesquisadora da Faculdade de Ciências Biológicas da estatal Universidade Autônoma de Nuevo León, Irma Martínez.

São conhecidas seis cepas patogênicas de E. coli, e as mais letais são as entero-hemorrágicas, como a O157:H7, descoberta em 1982 na carne de hambúrguer nos Estados Unidos, e a O104:H4, causadora da epidemia europeia. Martínez e outros seis cientistas encontraram sinais de O157:H7 em duas das 40 amostras de carne bovina procedentes de grandes estabelecimentos comerciais da cidade de Monterrey, numa pesquisa cujos resultados foram divulgados na edição de abril-junho de 2009 da revista Salud Pública y Nutrición (Saúde Pública e Nutrição).

“Por meio da evolução e por pressão evolutiva (do uso inadequado de antibióticos, mutações em seu genoma e outras causas) foram geradas diversas variantes que podem causar doenças e epidemias, como a que surgiu na Alemanha”, disse à IPS o pesquisador em biologia molecular Adrián Canizález-Román, da Faculdade de Medicina da Universidade Autônoma de Sinaloa.

As infecções por E. coli são comuns em muitos países em desenvolvimento. A Argentina, com 40 milhões de habitantes, tem há anos a maior incidência regional de síndrome urêmica hemolítica causada por E. coli entero-hemorrágica. O contágio principal vem da carne bovina mal cozida, e os mais afetados são crianças menores de cinco anos. A Argentina produz mais de três milhões de toneladas de carne bovina por ano e 480 mil toneladas são exportadas sob exigentes medidas de higiene.

Porém, as falhas no controle sanitário ocorrem quase sempre na cadeia de produção local, questiona a organização Luta contra a Síndrome Urêmica Hemolítica, integrada por familiares de afetados. A doença se manifesta com diarreia hemorrágica, vômitos, irritabilidade, palidez, dificuldade para urinar e, às vezes, convulsões. Pode ser fatal e com frequência deixa sequelas como insuficiência renal ou problemas neurológicos. Muitos transplantes de rim são indicados para corrigir esses problemas.

O número de casos argentinos se mantém estável, “entre 400 e 500 afetados”, e cerca de 15 em cada cem mil menores de cinco anos, disse à IPS a chefe do Serviço de Fisiopatogenia do Instituto Nacional de Enfermidades Infecciosas, Marta Rivas. Contudo, o caso alemão não tem relação com o que ocorre na Argentina, acrescentou, pois “aqui prevalece outro sorotipo”, afirmou. Rivas se reuniu no começo de junho com funcionários do Ministério da Saúde para elaborar uma norma de prevenção à possível entrada da cepa alemã. “A ideia é reforçar a prevenção, fortalecer a vigilância nos laboratórios e a descrição de casos”, explicou.

No México, um país de 112 milhões de habitantes, cepas patogênicas de E. coli causam 20% dos casos de diarreia infantil, segundo o Ministério da Saúde. A pesquisa “Biochemical and Genetic Diversity of Enterotoxigenic Eschrichia coli Associated with Diarrhea in United States Students in Cuernavaca and Guadalajara, México, 2004-2007” (Diversidade Química e Genética de Escherichia coli Enterotoxigênica Associada com Diarreia em Estudantes dos Estados Unidos em Cuernavaca e Guadalajara, México 2004-2007) encontrou uma pequena quantidade de cepas que poderiam ser endêmicas deste país e várias específicas dessas duas cidades do centro e noroeste.

As mostras do estudo, publicado em junho de 2010 no The Journal of Infectious Disease, eram de 213 estudantes norte-americanos que viveram em Cuernavaca e Guadalajara. Medidas simples, como lavar as mãos, cozinhar bem os alimentos e melhorar a potabilidade da água reduziram a incidência da bactéria. “Pouco a pouco, as práticas melhoraram”, disse Martínez.

Da população mexicana, 10% não tem água e 13,6% não tem saneamento, segundo a Comissão Nacional da Água. Mais de 250 instalações são responsáveis por controlar o estado sanitário de frutas, vegetais e produtos de origem animal, a cargo do Serviço Nacional de Saúde, Inocuidade e Qualidade Agroalimentar. No entanto, “o principal problema da disseminação e proliferação da bactéria é o trânsito mundial de alimentos e pessoas”, disse Canizález-Román.

O Ministério da Saúde do Peru colocou, no dia 9 deste mês, todos os serviços sanitários em “alerta epidemiológico”, para detectar “oportunamente” casos de síndrome urêmica hemolítica “em pacientes procedentes da Europa”, e exortou a população a tomar medidas extremas de higiene “em todos os sistemas de produção de alimentos”. Fontes da Direção Geral de Saúde Vegetal disseram ao Terramérica que, como “o Peru não é importador de pepinos, pelo contrário, nós exportamos, não há risco de nada”. Entretanto, já no final de maio, estava descartado que a epidemia alemã se devesse ao consumo de pepinos espanhóis.

É frequente a população peruana afetada por diarreia ou outras infecções causadas por E. coli recorrer à automedicação, o que gera cepas resistentes. O diretor de Acesso e Uso Adequado de Medicamentos da Direção Geral de Medicamentos, Insumos e Drogas do Peru, Pedro Yarasca, alertou que a E. coli apresenta nos hospitais resistência de 34% a dois tipos de antibióticos. No Brasil, uma pesquisa publicada em fevereiro identificou 4.372 infecções do trato urinário por bactéria E. coli, registrados em 2002 em dois centros de atenção externa da cidade de São Paulo, das quais 723 resultaram ser resistentes à ciprofloxacina.

* O autor é correspondente da IPS. Com colaboração de Marcela Valente (Buenos Aires) e Milagros Salazar (Lima).

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