Israel: a inusitada aliança que derrotou Netanyahu

Como se formou a aliança entre extrema direita, esquerda e setores árabes para derrotar o ex-premiê. Quem é Naftali Bennett, ultranacionalista que assume o poder, rechaça a ideia Estado palestino e trama ampliar colonia judaica na Cisjordânia

Por Andreas Noll, na DW Brasil

Como acontece com muitos políticos israelenses, o caminho do novo primeiro-ministro do país, Naftali Bennett, até a política passou pelas Forças Armadas. Durante seis anos, Bennett, cuja família emigrou dos Estados Unidos para Israel, atuou em unidades especiais do Exército israelense. Isso provavelmente teve papel importante quando, em 2006, o então político de oposição Benjamin Netanyahu fez do ex-soldado de elite seu chefe de gabinete. Como Bennett, seu antecessor Netanyahu também havia servido na força antiterrorista Sayeret Matkal.

O passado militar de Bennett continuou a ser tema mesmo anos depois de ele se desligar da força. Como oficial da tropa especial, ele esteve envolvido em um bombardeio israelense à aldeia libanesa de Qana, em abril de 1996. A ação destruiu a sede das forças da ONU e matou mais de cem civis.

Milionário aos 33 anos

Depois de deixar o Exército, em 1996, Bennett estudou Direito em Nova York e fundou uma empresa de software que rapidamente deu lucro, tendo sido avaliada em 145 milhões de dólares quando foi vendida alguns anos depois. Aos 33 anos, Bennett ficou rico: “Eu poderia passar o resto da minha vida bebendo drinques no Caribe”, disse certa vez.

A mudança de carreira começou após a Guerra do Líbano de 2006, na qual Bennett perdeu seu melhor amigo. Naquele ano, ele virou chefe do gabinete do líder da oposição Benjamin Netanyahu. Durante dois anos ele fez parte do círculo mais próximo do político do Likud. Mas pouco antes de Netanyahu ser reeleito premiê, em 2009, Bennett terminou sua cooperação com ele e se distanciou de seu antes mentor.

Bennett criticou duramente o primeiro-ministro conservador por ter se pronunciado a favor de um congelamento temporário dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, sob pressão dos Estados Unidos. Como presidente das organizações conjuntas de colonos judeus, ele organizou um protesto contra esses planos e aumentou a pressão sobre Netanyahu.

Passo à direita

Na primavera de 2012, Bennett encerrou sua filiação ao Likud, o maior partido conservador de Israel, e se juntou ao partido nacionalista-religioso Lar Judaico. Apenas seis meses mais tarde, a pequena legenda, que na época tinha apenas três cadeiras no Parlamento, o elegeu como seu presidente. Sob sua liderança, conseguiu ampliar a base eleitoral e enviar mais deputados ao Parlamento. Em 2013, Bennett juntou-se ao governo de seu rival Netanyahu como ministro e membro do gabinete de segurança.

Mas mesmo o Lar Judaico foi apenas uma parada transitória para ele em seu caminho rumo ao topo. Seis anos depois de o partido o eleger presidente, ele deixou o movimento e fundou uma nova facção no Parlamento, chamada HaJamin HeChadasch (A Nova Direita), no final de 2018. Para as eleições parlamentares de 2019, a Nova Direita uniu forças com a União dos Partidos de Direita para formar a aliança política Yamina, que na época era a favor da reeleição de Benjamin Netanyahu. Naftali Bennett virou ministro da Defesa em 2019, no gabinete de Netanyahu.

Objetivo comum: fim da era Netanyahu

Desde as eleições parlamentares do ano passado, nas quais o bloco Yamina ganhou sete assentos, Naftali Bennett vinha trabalhando para o final da era Netanyahu, envolto em escândalos de corrupção e que ficou 12 anos no governo. Isso agora foi alcançado com uma coalizão inédita – que une extrema esquerda, centro e extrema direita.

Além do direitista Yamina, a aliança planejada também inclui o liberal Yesh Atid (Há um futuro) significativamente mais forte, com 17 cadeiras, chefiado pelo líder da oposição Jair Lapid. Lapid deverá assumir o cargo de chefe de governo  dois anos depois de Bennett, numa espécie de governo compartilhado.

Mas o Partido Trabalhista, de esquerda, o também esquerdista Meretz, o Yisrael Beitenu (Israel Nossa Casa), de Avigdor Lieberman, o Nova Esperança e o Azul e Branco, de Benny Gantz, também farão parte desse governo. Além disso, a coalizão ainda teve que ser apoiada por deputados da minoria árabe para ter uma maioria no Parlamento.

Oponentes da solução de dois Estados

Está em aberto que objetivos políticos Naftali Bennett poderia levar adiante nessa heterogênea “coalizão da mudança”, que tem vários ex-aliados de Netanyahu, mas também forças de esquerda e liberais.

Embora Bennett tenha posições liberais sobre política social e econômica, ele é considerado um radical no conflito do Oriente Médio. Nos últimos anos, suas propostas empurraram o governo israelense e Netanyahu cada vez mais para a direita.

O ultranacionalista se vê politicamente à direita de Netanyahu. Até hoje, Bennett rejeita categoricamente um Estado palestino independente. “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que eles nunca tenham seu próprio Estado”, disse o político à revista americana The New Yorker em 2013. Mas ele está ciente de que palestinos e israelenses “não irão a nenhum outro lugar” e “terão que viver juntos”, como disse Bennett à DW em uma entrevista em 2015.

Agora com 49 anos, Bennett quer anexar grandes partes da Cisjordânia e aumentar o número de judeus nessas áreas para 1 milhão, um plano que tem provocado protestos generalizados no exterior.

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