Mídia peruana tenta eleger Keiko Fujimori

Apoio em bloco à candidata de direita torna resultado do pleito imprevisível. Mas cresce parcela da opinião pública que já desconfia dos jornais comerciais
Por Cláudio Ribeiro, no Palavras Diversas
 

Acima está a carta em que Mário Vargas Llosa, famoso escritor peruano, ex-candidato a presidência da república, de centro direita, derrotado por Fujimori, renuncia a uma coluna em um grande jornal diário peruano, em uma forma de protestar contra a campanha descarada da grande imprensa peruana em favor de Keiko Fujimori, filha e herdeira política de Alberto Fujimori, que cumpre prisão por crimes por violação de direitos humanos e corrupção.

A campanha eleitoral peruana ganhou contornos muito parecidos com o que ocorreu no Brasil nas três últimas eleições presidenciais, em que se percebe nitidamente a formação de uma aliança midiática em torno de um candidato.

Lula e Dilma passaram por isso aqui e Ollanta Humalla sente o peso da mão editorial destes agentes políticos.

Estive em Lima em abril passado e pude testemunhar o quanto a imprensa está, declaradamente, apoiando Keiko.  Pior até, fazendo campanha contra Ollanta Humalla.

Como no trecho abaixo:

Assisti na TV RPP, um programa que debate contextos e cenários da atualidade peruana, uma discussão sobre “as incertezas de um governo Ollanta”. Haviam quatro participantes no programa, todos pendendo para um só lado: Ollanta representa perigo para a “estabilidade peruana”. Havia um ex-ministro da economia, algo como se o Pedro Malan fosse convidado para explanar sobre o governo Dilma, um editor de um grande jornal de economia, imaginem a Miriam Leitão, além do apresentador do programa, uma espécie de William Waack, e o editor de política e economia da emissora, quem sabe um “Alexandre Garcia peruano”.

Todos foram unânimes em afirmar que uma vitória de Ollanta representa o atraso, a incerteza e o alinhamento ao “eixo do mal” sulamericano, Chávez, Evo e Kirchner.

O medo disseminado passa, necessariamente, pela associação de Ollanta com estes governantes populares. Neste programa da RPP não havia posicionamentos dissonantes daquele apresentado, não havia ninguém da equipe de Ollanta para rebater e discutir em condições, mínimas, de igualdade. Não havia o direito ao contraditório, à diversidade de pensamento. Mas o pior é perceber que isso não ocorre somente na RPP, alguns jornais impressos também praticam este jogo antidemocrático.

Resultado é que as pesquisas indicam um cenário de incertezas quanto ao vencedor do pleito no próximo domingo, mesmo com toda ajuda que a imprensa peruana tem dado a Keiko, Ollanta Humalla está no páreo, em um clássico empate técnico nas últimas pesquisas divulgadas.

Jornalistas foram demitidos por não concordarem com a linha editorial pró-fujimorismo, outros se demitiram.

Escritores publicaram um manifesto de apoio a Ollanta Humalla e de repúdio a Keiko, milhares saíram as ruas para lembrar o período cinzento da história peruana, durante o governo de Fujimori, tem havido reações da sociedade organizada.

A opinião pública tem percebido tais arranjos e, em uma recente pesquisa, cerca de 52% afirmaram não crer em coberturas políticias imparciais da grande imprensa, enxergam uma prática jornalística danosa a democracia e muito favorável ao grupo político ligado a Fujimori e a seus seguidores e interesses.

Cenário muito parecido com o que foi investigado pela SECOM, órgão da Presidência da República, em julho de 2010 que demonstrou em uma pesquisa que  “cerca de 80% das pessoas crêem pouco ou não acreditam no que é publicado pela imprensa brasileira, mais de 60% acreditam que o noticiário é manipulado!”, trecho do que foi publicado aqui no blog na época, no post  A omissão descarada da imprensa em denunciar a censura na TV Cultura .

Ollanta Humalla tem pela frente cinco dias decisivos para convencer o eleitorado peruano de que representa o melhor caminho para o desenvolvimento econômico e social de seu país e para isso terá que vencer dois adversários, primeiro sua oponente, Keiko Fujimori, segundo e mais poderoso adversário, a grande imprensa conservadora peruana.

A batalha será duríssima!

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