“Há campanha de desinformação contra árabes”

Professor da USP e especialista em Oriente Médio, Paulo Farah sustenta que é política a campanha organizada por setores como mídia e academia: “uma construção teórica com objetivos políticos de dominação”

Por Natália Otto e Samir Oliveira, no Sul21

 

Professor da USP e especialista em Oriente Médio, Paulo Farah sustenta que é política a campanha organizada por setores como mídia e academia: “uma construção teórica com objetivos políticos de dominação”

Por Natália Otto e Samir Oliveira, no Sul21

Especialista em Oriente Médio, o professor da USP Paulo Farah considera que há uma “campanha de desinformação contra o mundo árabe”. Ele observa que as informações e os conceitos que chegam ao ocidente sobre a região são generalizados e estereotipados.

“A ideia de que os palestinos e os árabes em geral têm uma tendência natural à violência e ao terrorismo, por exemplo, é uma generalização completamente absurda. Ou a ideia de que os palestinos não amam os seus filhos e têm um apreço pelas armas”, critica.

Graduado em Língua e Literatura Árabe, com mestrado em Linguística e doutorado em Letras, Paulo Farah explica que a Palestina possui uma sociedade dinâmica e contemporânea, com intensa produção cultural. Nesta entrevista ao Sul21, ele também avalia a importância do Fórum Social Mundial Palestina Livre e fala sobre a representação da mulher no mundo árabe.

“Há uma repetição de generalizações e representações politicamente motivadas que, na maioria das vezes, não têm relação com a realidade do mundo árabe”

Sul21 – O senhor sustenta que há uma campanha de desinformação contra o mundo árabe. O que seria essa campanha?

Paulo Farah – Essa campanha de desinformação engloba vários setores, como a mídia, a academia e a sociedade civil em geral. É uma campanha extremamente organizada, com um cunho político. Há uma construção teórica de fundo com objetivos políticos de dominação. Basta uma leitura muito simples da produção acadêmica e do que se publica na mídia para observar que, normalmente, há uma repetição de generalizações e representações politicamente motivadas que, na maioria das vezes, não têm relação com a realidade do mundo árabe.

Sul21 – Que exemplos o senhor citaria de estereótipos?

Paulo – A ideia de que os palestinos e os árabes em geral têm uma tendência natural à violência e ao terrorismo, por exemplo, é uma generalização completamente absurda. Ou a ideia de que os palestinos não amam os seus filhos e têm um apreço pelas armas. Esse tipo de conceito muitas vezes é intencionalmente cunhado. Tem a famosa frase de Golda Meir, que dizia que o conflito só iria terminar no dia em que os palestinos amarem mais seus filhos do que eles odeiam a Israel. É um grande absurdo. Os palestinos têm um amor muito forte pelos seus filhos, assim como os israelenses e qualquer outra sociedade. Há também a ideia de primitividade, como se os palestinos fossem um povo que não evoluiu ao longo dos séculos. Como se naquela região existissem eternos pastores.

Sul21 – A quem interessa essa campanha de desinformação?

Paulo – Ela favoreceu diversas nações. Houve um movimento muito forte de divisão do Oriente Médio no início do século XX. A gente sabe que ele foi repartido pela França e pela Grã-Bretanha. Essa campanha serviu também como modo de justificar uma presença anteriormente europeia nessas regiões, sempre com a falsa ideia de essas populações não teriam condições de viver sozinhas, de que precisariam de outros povos as dominando com o objetivo de civilizá-las. É algo anterior aos acontecimentos que levaram à partilha da Palestina.

Sul21 – Como a mídia se insere nesse contexto da desinformação?

Paulo – No caso brasileiro, o jornalismo internacional é pautado pela tradução de agências de notícias. Ele simplesmente reproduz o que essas agências divulgam sobre o Oriente Médio. Isso ocorre por comodismo, por questões econômicas e por ser muito mais barato manter esse sistema de tradução. E também pela falta de especialistas. Há necessidade muito forte de formação de especialistas, pessoas que possam falar sobre o tema com conhecimento. Como qualquer pessoa que se dispõe a escrever sobre uma região, seria importante que (os jornalistas) estudassem a história, a geografia e a língua local de uma região. Muitas vezes, a pessoa não fala nenhuma língua local e fica com uma visão parcial sobre a região, acaba tendo acesso a fontes específicas, que só falam uma língua, o que reduz a representação dessa sociedade.

Sul21 – O senhor afirma que a Palestina tinha uma sociedade bastante dinâmica no início do século XX.

Paulo – No início do século XX, a sociedade palestina passou por uma revolução na educação, com um grande reflorescimento da literatura, que é uma expressão muito forte de soberania nacional. Havia, de fato, uma sociedade extremamente dinâmica na Palestina. Dentre os mitos que se difundiram, está o que diz: “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Essa terra tinha um povo, que precisou deixar suas casas e suas cidades. Isso é parte do grande problema que se criou. Há também a ideia de que não havia um sentido de identidade palestina, o que é um grande mito para descaracterizar os palestinos.

Sul21 – O dinamismo da sociedade palestina se manteve após a diáspora e a ocupação por Israel?

Paulo – Há uma preservação muito grande das expressões artísticas na Palestina. Eles produzem uma literatura extremamente rica, tanto em prosa quanto em poesia. Há uma intensa produção musical, nas artes plásticas e na dança. É uma sociedade bastante contemporânea, com expressões de arte moderna e contemporânea, inclusive na música, com o hip-hop e o rap em árabe, com temáticas palestinas.

Sul21 – De que maneira essas expressões culturais foram afetadas pelas ocupações?

Paulo – Houve mudanças, sobretudo temáticas. A terra é, no caso da literatura, um dos principais temas, assim como tudo o que tem a ver com a natureza. A árvore é um símbolo de vida e de permanência na terra. Essa mudança temática é muito forte. A terra passa a ser um tema central na produção cultural palestina.

“É totalmente deslocado da realidade imaginar que as mulheres palestinas não têm papel de destaque. Muitas líderes têm uma voz de transformação”

Sul21 – Há, também, uma representação bastante estereotipada da mulher árabe, como se ela vivesse em eterno estado de sofrimento.

Paulo – As mulheres na Palestina têm um papel muito ativo na sociedade, tanto na parte da resistência, quanto no trabalho. É algo totalmente deslocado da realidade imaginar que as mulheres não têm papel de destaque. É claro que elas têm um papel fundamental como mães e educadoras, mas também como trabalhadoras, na resistência. Há muitas líderes que têm uma voz de transformação na Palestina.

Sul21 – E no mundo árabe em geral?

Paulo – No caso mais geral da região, há uma diversidade. Tem situações muito complexas, locais em que há uma discriminação, infelizmente, e que há uma necessidade de obter muito mais direitos.

Sul21 – Nesse sentido, é possível dzer que as mulheres palestinas estão na vanguarda?

Paulo – Entre outras. Há várias mulheres árabes em diferentes sociedades com um papel bastante ativo. Sem dúvida as palestinas estão entre elas.

Sul21 – Como o mundo árabe vê a causa palestina?

Paulo – A Palestina é um tema central para a região. É um tema para qualquer árabe, seja ele de qualquer religião ou não tenha ele uma religião. A Palestina é um tema central pelo sofrimento que os palestinos vêm enfrentando. E, também, claro, a Palestina tem uma importância religiosa e cultural muito forte. É, sem dúvida, um tema de muito interesse para qualquer árabe, e não só para os árabes, mas para os muçulmanos também. Um terço do planeta é formado por muçulmanos. Não há dúvida de que, uma vez que ocorra a desocupação e haja uma convivência pacífica entre palestinos e israelenses, isso vai beneficiar não apenas essas duas populações, mas a região como um todo.

Sul21 – Na América Latina, tem se desenvolvido um sentido muito grande de unidade. Há esse mesmo sentido nos países árabes?

Paulo – Com certeza, no mundo árabe há um senso de unidade muito forte. Na América Latina é louvável essa iniciativa, mas, muitas vezes, há partes da população brasileira que têm uma certa dificuldade em se enxergar como latino-americanas. Isso entre os países árabes é muito menos comum. Normalmente, o árabe tem sua identidade local específica, mas tem também uma identidade regional extremamente acentuada. Há movimentos de cooperação entre as macro-regiões. Sobretudo no Norte da África e no Golfo. Há movimentos de articulação para promover aproximações e derrubar barreiras aduaneiras. O sentimento de unidade é muito anterior a essas questões econômicas.

“Ao mesmo tempo em que havia votação na ONU para admissão da Palestina, mais de 10 mil pessoas marchavam em Porto Alegre pelo fim das violações de direitos humanos”

Sul21 – Como o senhor avalia a importância do Fórum Social Mundial Palestina Livre?

Paulo – A importância do Fórum é muito clara para promover um debate entre os diferentes setores da sociedade latino-americana com a presença de delegações estrangeiras muito expressivas. Acho que o fórum teve a capacidade de promover esses debates, a aproximação entre diversos movimentos que entendem que o que ocorre na Palestina é uma injustiça e há necessidade de por fim a essas violações de direitos humanos. Ao mesmo tempo em que havia votação na ONU para admissão da Palestina como membro observador, mais de 10 mil pessoas marchavam em Porto Alegre numa manifestação totalmente pacífica em prol dos direitos dos palestinos, pelo fim das violações de direitos humanos e totalmente a favor de uma cultura da paz. O Fórum contribuiu muito, a presença de delegações palestinas foi fundamental. Muitos não conseguiram sair de lá e muitos, ao retornarem, não sabem se poderão entrar de volta nas suas cidades.

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