Governo sequestrou Auxílio Emergencial e quer resgate

Economista explica: PEC 186, que reduz benefício a R$ 250, também ameaça congelar investimentos públicos por anos. País precisa do oposto: atender as grandes carências sociais, criando para isso uma nova estrutura industrial

Guilherme Mello, em entrevista a João Vitor Santos e Patricia Fachin, no IHU Online

“A prioridade da economia brasileira hoje é o enfrentamento da pandemia de Covid-19. Vacina, isolamento e leitos hospitalares. Sem isso, a economia não irá se recuperar e poderemos enfrentar uma nova recessão no primeiro semestre de 2021”, adverte o economista Guilherme Mello em entrevista por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Na avaliação dele, o agravamento da crise sanitária exige, de imediato, “a recriação do Auxílio Emergencial no valor de R$ 600, já que estamos falando de uma queda generalizada das rendas do trabalho devido ao isolamento e ao lockdown. Sem renda, não há condições de se isolar e conter o avanço da pandemia. Também será fundamental dar crédito e postergação de pagamentos para os micro e pequenos empresários, transferir recursos para Estados e municípios e recriar um programa de garantias dos empregos formais. Em suma, será fundamental retomar as medidas de suporte à economia abandonadas de forma criminosa pelo governo na virada do ano, mesmo sabendo que o pior da pandemia estava por vir”.

Crítico à Proposta de Emenda Constitucional – PEC 186, que propõe novas regras fiscais de limitação do gasto púbico, Mello sugere a criação de “nova estratégia de desenvolvimento que seja capaz de atender as demandas sociais ao mesmo tempo em que se desenvolve a estrutura produtiva”. Essa estratégia, explica, parte “das enormes carências sociais e ambientais que possuímos para organizar um bloco de investimentos (públicos e privados) capaz de garantir a cidadania das pessoas e organizar cadeias produtivas inovativas e capazes de gerar emprego e renda”. E acrescenta: “Esse é o desafio do século XXI, que a maior parte dos economistas brasileiros se recusa a enfrentar, ainda presos que estão aos paradigmas de 20 ou 30 anos atrás”.

Ele reitera ainda que o país não necessita de um novo pacto social para levar a estratégia de desenvolvimento adiante. O desafio, ao contrário, é evitar o desmonte da Constituição Federal de 88. “O pacto social que possuímos hoje é a Constituição Federal de 1988, a qual considero totalmente adequada para enfrentar os desafios que temos pela frente. O problema maior é o trabalho constante para desmontá-la e substituir o pacto de solidariedade social nela inscrito por uma visão individualista e privatista de sociedade”. Na atual gestão presidencial, reitera, reafirmar a Constituição de 88 é ainda mais fundamental, considerando a mistura entre o “neoliberalismo arcaico de Guedes com o corporativismo patrimonialista de Bolsonaro. Essa mistura tem como objetivo destruir o Estado em diversas dimensões, ao mesmo tempo que garante os pedaços que sobraram para seus aliados pessoais”.

Guilherme Mello (Foto: CBN)

Guilherme Mello é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP e em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. É mestre em Economia Política pela PUC-SP e doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, onde leciona atualmente e dirige o Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica do Instituto de Economia – IE/Unicamp.

Confira a entrevista

Em que consiste a PEC 186? Quais são seus elementos mais perversos?

A PEC 186, que atualmente está em debate, é fruto da unificação da chamada “PEC emergencial” e da “PEC do pacto federativo”, agora também incluindo a previsão de pagamento de um pequeno auxílio emergencial em 2021. Essas PECs já haviam sido apresentadas pelo governo em 2019 e, na prática, criam novas regras fiscais de limitação do gasto público dentro das regras fiscais atualmente existentes, que já são bastante problemáticas e confusas por si só.

Em resumo, a ideia da PEC 186 é criar novos gatilhos para o corte de gastos públicos, já que os gatilhos existentes na EC 95 (chamada de regra do teto de gastos) não podem ser acionados devido a problemas na própria redação e concepção da emenda. Esses gatilhos preveem situações em que a criação de novos gastos, a contratação de pessoal, a reposição salarial pela inflação e promoção de funcionários públicos fica proibida. Neste caso, os gatilhos seriam acionados quando as despesas obrigatórias (um conceito que curiosamente não existe no ordenamento jurídico, abrindo espaço para todo tipo de manobra fiscal) atingissem 95% das despesas totais. Seria nossa quarta regra fiscal, que se sobrepõe à regra de ouro, à Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF e ao teto de gastos. É um emaranhado de regras que cria situações que beiram a insanidade, em particular em momentos de crise como o atual, quando a ampliação dos gastos se faz mais necessária.

Havia a ideia de incluir a possibilidade de cortes na remuneração e jornada de trabalho dos funcionários públicos, congelar o salário mínimo em termos nominais (ou seja, reduzi-lo em termos reais), desvincular os benefícios previdenciários do salário mínimo e acabar com os gastos mínimos em saúde e educação. Felizmente essas propostas foram aparentemente abandonadas, pois representam um retrocesso sem precedentes na história democrática brasileira. Esses gatilhos também passarão a valer para estados e municípios, mas com outros percentuais para sua ativação.

Equilíbrio fiscal intergeracional

Talvez algo que esteja sendo pouco discutido é a inclusão do conceito de “equilíbrio fiscal intergeracional” que a PEC institui, subordinando a lógica da garantia progressiva dos direitos humanos e sociais. Essa é uma inversão completa no espírito da “Constituição Cidadã”, colocando como prioridade a ideia de redução da dívida pública (que pode ser obtida pela aceleração do crescimento e da arrecadação, mas isso é desconsiderado na proposta) ao invés da promoção e efetivação dos direitos sociais. Ou seja, a promoção dos direitos humanos e de cidadania ficam subordinados a um conceito abstrato de equilíbrio fiscal, que não tem nenhuma definição clara do que seja, mas que pode ser utilizado para impedir a ampliação dos serviços públicos e da assistência social.

Como essa nova PEC intensifica as lógicas do limite de teto de gastos?

Como disse, ela cria novas regras e novos critérios que limitam a expansão do gasto público. Na prática, caso aprovada, a PEC 186 será a regra fiscal mais rigorosa nos próximos anos e os seus “gatilhos” poderão ficar acionados por seis ou sete anos, a depender do ritmo de recuperação da atividade econômica. Só haverá aumento dos gastos discricionários (e, portanto, redução da participação das despesas obrigatórias nas despesas totais) quando a arrecadação se recuperar o suficiente para permitir a expansão dos gastos totais acima do ritmo de crescimento das despesas obrigatórias. Ou seja, o setor público estará “congelado” por vários anos, criando uma situação de precarização do serviço e desvalorização do servidor.

Essa PEC está totalmente alinhada com duas agendas do governo: o chamado “DDD” (Desvincular, Desobrigar e Desindexar) e a agenda de privatizações. Ao limitar o gasto obrigatório, a PEC pressiona pela reclassificação de gastos obrigatórios como discricionários, reforçando a agenda de “desobrigar” os governos a gastar em saúde, educação e outros serviços. Por outro lado, ao precarizar os serviços públicos e arrochar o salário dos servidores, em especial médicos, professores, enfermeiras, etc…, cria-se uma pressão pela terceirização ou privatização desses serviços, abrindo espaço para o setor privado lucrar com os direitos de cidadania.

Economistas de diferentes correntes teóricas e visões políticas mencionam a situação fiscal do Estado brasileiro como um entrave para avançar na área social. Do ponto de vista econômico, o que pode ser feito?

Acredito que as medidas adotadas para o enfrentamento da crise da Covid-19 demonstraram que as ideias de que “acabou o dinheiro” ou de que o “Brasil quebrou” eram um discurso equivocado, puro terrorismo fiscal. Isso não significa que não tenhamos problemas de sustentabilidade da trajetória fiscal no longo prazo, mas significa dizer que o Estado tem (como demonstrou cabalmente em 2020) todas as condições de ampliar o gasto social e os investimentos públicos sem afetar sua capacidade de financiamento e sem gerar sérias pressões inflacionárias. Claro, tudo depende do momento que vive a economia, mas essa visão radical de que o governo não tem dinheiro nem condições de atuar na economia se provou cabalmente falsa.

Dito isso, a prioridade da economia brasileira hoje é o enfrentamento da pandemia de Covid-19. Vacina, isolamento e leitos hospitalares. Sem isso, a economia não irá se recuperar e poderemos enfrentar uma nova recessão no primeiro semestre de 2021. Para viabilizar isso, será fundamental a recriação do Auxílio Emergencial no valor de R$ 600, já que estamos falando de uma queda generalizada das rendas do trabalho devido ao isolamento e ao lockdown. Sem renda, não há condições de se isolar e conter o avanço da pandemia. Também será fundamental dar crédito e postergação de pagamentos para os micro e pequenos empresários, transferir recursos para Estados e municípios e recriar um programa de garantias dos empregos formais. Em suma, será fundamental retomar as medidas de suporte à economia abandonadas de forma criminosa pelo governo na virada do ano, mesmo sabendo que o pior da pandemia estava por vir.

Nova estratégia de desenvolvimento econômico

Por fim, eu diria que é preciso uma reorientação do estilo e estratégia de desenvolvimento econômico no país. A aposta na destruição do Estado, na austeridade fiscal e na capacidade do capital privado (nacional e estrangeiro) de sozinho impulsionar o desenvolvimento nacional se mostrou frustrada. Antes mesmo da pandemia estávamos a quase cinco anos dessa agenda, quando amargamos uma depressão econômica com profundas consequências na estrutura social e produtiva. A pandemia agrava esse quadro, ampliando a pobreza, a fome, o desemprego e o subemprego, provando uma enorme quebradeira nas pequenas e microempresas (mais de 700 mil empresas já fecharam e muitas outras estão totalmente endividadas), além de antecipar o fechamento de algumas grandes empresas, como a Ford e a Sony. Insistir nessa mesma agenda no pós-pandemia é uma insanidade, totalmente na contramão do que tem sido feito no resto do mundo.

É preciso criar uma nova estratégia de desenvolvimento que seja capaz de atender as demandas sociais ao mesmo tempo em que se desenvolve a estrutura produtiva. Partir das enormes carências sociais e ambientais que possuímos para organizar um bloco de investimentos (públicos e privados) capaz de garantir a cidadania das pessoas e organizar cadeias produtivas inovativas e capazes de gerar emprego e renda. Esse é o desafio do século XXI, que a maior parte dos economistas brasileiros se recusa a enfrentar, ainda presos que estão aos paradigmas de 20 ou 30 anos atrás.

Alguns economistas também mencionam a necessidade de fazer um novo pacto social no país. O senhor concorda com essa proposta? Que desenho esse pacto deveria ter para atender às necessidades do país? O argumento central para a PEC 186 é que não há possibilidade de estender o Auxílio Emergencial – AE. Como construir outros caminhos sem a necessidade dessa PEC?

O pacto social que possuímos hoje é a Constituição Federal de 1988, a qual considero totalmente adequada para enfrentar os desafios que temos pela frente. O problema maior é o trabalho constante para desmontá-la e substituir o pacto de solidariedade social nela inscrito por uma visão individualista e privatista de sociedade.

Isso não significa dizer que não temos enormes desafios pela frente. A CF 88 é a “estrela guia” que baliza e orienta nossas ações, mas ela nada nos diz sobre como enfrentar os percalços da jornada. É aí que entra o que chamei de “estilo e estratégia de desenvolvimento”, ou seja, uma definição de onde queremos chegar como nação (estilo) e de quais instrumentos devemos utilizar para alcançar esse objetivo (estratégia). Ao longo do século XX, decidimos que queríamos nos tornar uma nação urbana e industrial e fomos bem-sucedidos nesse intento, mas relegamos a segundo plano temas como a desigualdade, o acesso à educação, os direitos humanos e sociais. É hora de transformar essas carências em oportunidades de desenvolvimento, ouvindo a população para compreender suas demandas e nos valendo da capacidade de coordenação e planejamento do Estado para criar estratégias para atendê-las, transformando a estrutura social e produtiva do país de forma concomitante.

Quanto à ideia de que não é possível aprovar um novo AE sem um congelamento dos gastos públicos, isso é a reedição do que chamei de “terrorismo fiscal”. Fizemos o AE e muitos outros gastos em 2020 e o Brasil não acabou, muito menos o dinheiro. Ao contrário, já está demonstrado que caso não tivesse sido criado o AE, a queda do PIB e da arrecadação teriam sido muito maiores do que o que de fato ocorreu (nota MADE-USP), aumentando a relação dívida/PIB numa velocidade ainda maior. Ou seja, não gastar teria sido fiscalmente pior do que gastar.

Esse mesmo cenário está se repetindo em 2021, dado o atraso na vacinação e o descontrole total da pandemia, que irá exigir um verdadeiro isolamento social. O governo não está pagando o AE hoje porque não quer: ele se recusou a estender o decreto de calamidade para 2021, encerrando o chamado “orçamento de guerra”, que lhe permitiria pagar o AE, auxiliar as empresas e os entes subnacionais. Mesmo sem o “orçamento de guerra”, o governo possui diversas formas de criar um novo AE, seja através da decretação de novo estado de calamidade e criação de créditos extraordinários (como foi feito em 2020 antes da aprovação do orçamento de guerra e agora em 2021 para reforçar parcamente o orçamento na área de saúde, mesmo antes da decretação do estado de calamidade), seja através da aprovação de uma PEC que exclua os gastos contra a Covid das regras fiscais atualmente vigentes.

A aprovação da PEC 186 não irá “economizar” recursos este ano, já que ela apenas irá congelar os gastos para os anos vindouros. Em resumo, eles querem colocar a conta da crise e do AE no colo dos trabalhadores da área da saúde, da educação, da ciência e tecnologia e diversos outros setores. Obviamente, que ao atacar esses serviços, quem perde são os pobres, que dependem deles diretamente. Ou seja, a aprovação da PEC 186 é um caminho quase certo para o aumento da desigualdade social em um dos países mais desiguais do mundo.

Se o objetivo fosse apenas encontrar recursos para pagar o AE, o governo poderia se valer dos valores parados em diversos fundos não constitucionais, no repasse dos ganhos com a desvalorização cambial do Banco Central para o Tesouro ou, o que seria mais interessante, de uma reforma tributária focada no aumento de tributação sobre as grandes rendas e patrimônios. A escolha pela PEC 186 não tem nenhuma relação com a busca por fontes de “financiamento” do AE; é apenas mais uma peça no projeto de destruição do Estado e da CF 88, que vem desde Temer e agora é radicalizada pela dupla Guedes e Bolsonaro.

O Auxílio Emergencial conteve uma crise ainda maior no Brasil. Como o senhor projeta os próximos meses sem o Auxílio ou com a redução dos valores?

Caso não se retome o AE em um valor razoável nem se promova nenhuma medida relevante de suporte à economia, será a maior catástrofe econômica, social e sanitária da história do Brasil. Já temos quase 20 milhões de pessoas desempregadas e desalentadas, além das subutilizadas. Isso deverá crescer com o agravamento da pandemia, a necessidade de isolamento social e a recessão econômica que enfrentaremos no primeiro semestre. Pior, os empregos formais que foram preservados no ano passado e ainda se mantêm hoje graças ao programa de manutenção do emprego, serão destruídos assim que o período de carência (e multa) para a demissão terminar.

Ou seja, as pessoas estarão sem trabalho e sem renda e serão impelidas a sair para as ruas para buscar seu sustento, no auge da contaminação e sem leitos hospitalares. Se isso não é crime de responsabilidade, não sei mais o que é.

O Auxílio Emergencial também trouxe à tona um debate sobre uma renda mínima incondicional. Qual a importância de construir uma política de renda mínima no Brasil hoje? Que modelo o senhor julga mais apropriado?

Acredito que o debate de renda mínima é relevante e um horizonte interessante para se caminhar, mas ainda não chegamos lá. Primeiro é preciso fortalecer o Bolsa Família – BF, que está pagando valores totalmente defasados e cobrindo um número pequeno de famílias perto do que foi o aumento da pobreza no Brasil. Para se ter uma ideia, o benefício pago pelo BF em 2014 em valores de hoje se aproxima dos R$ 300 reais, maior do que o governo quer pagar nesse novo AE. Para piorar, em 2014 as famílias pobres (inclusive as que recebiam o BF) tinham outras fontes de renda, enquanto, em 2021, milhões de famílias perderam todas as fontes de renda do trabalho e/ou da previdência, dada a recessão e a perda de parentes que recebiam a aposentadoria. Enquanto isso, o valor médio da cesta básica calculada pelo Dieese hoje se aproxima de R$ 600, o que reforça o argumento de que esse deve ser o valor mínimo do Auxílio Emergencial, caso se queira evitar uma verdadeira tragédia humanitária.

Já está em tramitação no Congresso Nacional o projeto do “Mais Bolsa Família”, elaborado pela ex-ministra Tereza Campello, que foi uma das formuladoras e gestoras desse que é um dos programas sociais mais premiados em todo o mundo. Devemos usar essa experiência de sucesso, nos valer do CadÚnico e ampliar a cobertura e valor do BF para reduzir não apenas a pobreza extrema (ou miséria), mas a pobreza em seu sentido amplo. Seria uma rede de proteção social que, combinada ao Sistema Único de Assistência Social – SUAS e à previdência social, tornaria o Brasil um país socialmente mais justo, além de ser plenamente financiável através de uma reforma tributária que promova a justiça social.

Que outras consequências sociais e econômicas de longo prazo o empobrecimento da população e a perda de mecanismos constitucionais de proteção social podem acarretar ao Brasil?

As consequências da pobreza e do aumento da desigualdade se espalham por todos os ramos da sociedade. Há uma deterioração nos indicadores de saúde, educação, violência, se enfraquece a democracia e há um efeito negativo sobre a estrutura produtiva. Caso a sociedade aceite esse caminho, estaremos reafirmando o subdesenvolvimento e a dependência, que historicamente marcam o Brasil.

Aparentemente esse é o projeto do que eu chamo de “frente neocolonial”, que atualmente controla o Congresso e orienta as ações do governo brasileiro. Essa frente reúne frações da burguesia comercial, produtiva, financeira e extrativista, em particular aquelas menos comprometidas com o desenvolvimento nacional. Sua lógica não é a do desenvolvimento, dos ganhos de produtividade através do investimento e da inovação. Ao contrário, a maior parte desses empresários buscam maximizar seus lucros com a superexploração do trabalho (por isso a reforma trabalhista) e a degradação ambiental, em uma versão quase colonial. Para isso, precisam enfraquecer as instituições de controle e fiscalização do Estado, além de desmontar qualquer tipo de pretensão a “direitos sociais” que ainda pairem no imaginário social. Deste ponto de vista, estão sendo muito bem-sucedidos em seu processo de destruição, que o presidente em mais de uma ocasião já declarou como sendo seu objetivo.

A pandemia escancarou ao Brasil o custo da falta de investimento em políticas públicas de saúde. Aprovada a PEC 186, como projeta o cenário de investimentos em saúde pública no médio e longo prazos, quando se imagina a pandemia de Covid-19 mais distante?

Caso a PEC 186 viesse junto com o fim dos pisos para saúde e educação, o prejuízo para o SUS e para a saúde pública seriam imensuráveis. Se criaria um incentivo de reduzir o gasto com médicos e enfermeiras (que é obrigatório) e aumentar o gasto com asfalto (que é discricionário e dá resultados mais imediatos) para fugir dos gatilhos previstos na emenda. Em suma, se criaria um enorme incentivo para a privatização da saúde.

Na forma atual, a PEC 186 ainda prejudica indiretamente a saúde pública, ao congelar a contratação, promoção e remuneração dos profissionais da área. Isso pode provocar uma fuga dos médicos do sistema público de saúde no longo prazo e dificultar o atendimento em regiões mais distantes do país. Novamente, a lógica da PEC é a de destruir o Estado, não de promover ajustes fiscais, que podem ser feitos de muitas outras formas.

O sucateamento da educação também é outra realidade que, na pandemia, com escolas sem investimentos em tecnologia e professores com salários achatados e sem treinamentos em novas tecnologias, repercute em abandono escolar. Qual o custo econômico e social disso? Como a PEC 186 pode impactar esse cenário?

Na educação, haverá um “gap” de quase dois anos na trajetória escolar de nossas crianças. Será preciso um esforço concentrado do Estado e das famílias, assim que for seguro a volta às aulas, para recuperar ao menos parte do tempo perdido. O custo desse atraso se verá ao longo do tempo, com o aumento da desigualdade social e a redução no ritmo de crescimento da produtividade. Se nada for feito, será muito difícil para o Brasil adentrar no novo ciclo de inovações e tecnologias da quarta revolução industrial. Sendo assim, a pandemia serve para fortalecer a certeza de que precisaremos investir pesadamente em educação nas próximas décadas, se quisermos combinar redução das desigualdades sociais com reestruturação produtiva.

Infelizmente a PEC 186 vai na contramão dessa tendência. Ao reforçar a política de austeridade e congelar salários e contratações no setor público, ela inviabiliza a organização desse esforço que será necessário para dar apoio aos nossos jovens.

O que é possível inferir a partir das ações do atual governo no que diz respeito a sua política econômica? Que linha segue? De que liberalismo fala quando se anuncia liberal?

Alguns chamam a atual política econômica de ultraliberal. Certamente há uma visão econômica que reflete um neoliberalismo arcaico, dogmático e puramente ideológico, que foi abandonado há décadas pelo “mainstream” mundo afora.

Mas acredito que o caso do governo brasileiro é um pouco mais complexo, porque ele mistura o neoliberalismo (ou ultraliberalismo) arcaico de Guedes com o corporativismo patrimonialista de Bolsonaro. Essa mistura tem como objetivo destruir o Estado em diversas dimensões, ao mesmo tempo que garante os pedaços que sobraram para seus aliados pessoais. E isso combina perfeitamente com o projeto do que eu chamei de “frente neocolonial”: um Estado incapaz de interferir no desenvolvimento, na distribuição de renda, de fiscalizar os abusos e a corrupção privada; mas, ao mesmo tempo, plenamente capaz de garantir favores e privilégios a grupos particulares, como é o exemplo notório dos militares e de algumas igrejas evangélicas neopentecostais.

O Brasil registra atualmente o maior índice de desemprego desde 2012. Como avalia esse quadro à luz da PEC 186?

O quadro de desemprego é crítico e pode piorar. Muitas pessoas simplesmente abandonaram o mercado de trabalho devido à pandemia, mas após a vacinação devem retomar a procura por empregos, dada a queda generalizada de renda. Além disso, como disse, é provável que haja uma onda de demissões com a recessão que se avizinha no primeiro semestre em conjunto com o fim do período de carência do programa de manutenção de empregos formais criado em 2020. Reverter esse quadro será um desafio para a década de 2020, como já havia sido na década de 2000, mas agora partindo de um patamar de deterioração econômica e social ainda mais grave.

Caso se retire do Estado a capacidade de coordenar esses esforços e contribuir, com o investimento público e os gastos sociais, para a criação de empregos de qualidade, temo que o caminho para a recuperação do mercado de trabalho deverá ser muito mais longo e árduo do que a nação brasileira poderá suportar.

Que Brasil o senhor vê no final de 2021 e início de 2022?

Se tudo der certo, teremos avançado bastante na vacinação até lá. Isso não garante que a pandemia terá virado parte do passado, uma vez que não conhecemos o comportamento das novas cepas e a eficácia da vacina contra elas. Mas abre a possibilidade de uma “normalização” da circulação de pessoas e mercadorias que pode ajudar muito na recuperação da atividade econômica.

Por outro lado, com a omissão criminosa do governo federal no enfrentamento dessa crise, também estaremos em uma situação muito delicada do ponto de vista econômico e social. Além das milhares de pessoas mortas, que ajudavam a sustentar suas famílias, teremos um patamar de desemprego, pobreza e fome sem precedentes caso nada for feito até lá. Além disso, milhões de empresas terão fechado as portas e outras diversas estarão superendividadas, sem condições de realizar investimentos em uma economia deprimida.

Mas nosso futuro não está escrito nas estrelas. Tudo dependerá muito da reação popular a esse estado de coisas. Se a apatia e a desesperança tomarem conta da nação, temo pelo futuro do nosso país, do nosso povo e da nossa jovem e frágil democracia. Mas é possível que um esforço diuturno e combinado de apoio, solidariedade e comunicação com as pessoas abra as portas para uma reação da população na luta por sua dignidade e pela dignidade de seu país. Nossa única esperança, como sempre, é o povo brasileiro. Se dependermos de nossas elites, estamos perdidos.

Deseja acrescentar algo?

Apenas que devemos ter consciência de que há alternativas ao descalabro atual. O futuro não está dado e existe muita movimentação na sociedade para reverter o atual descalabro e promover um novo ciclo de desenvolvimento. Diversos partidos e lideranças de oposição já apresentaram seus projetos e propostas, que merecem muito mais atenção do que recebem por parte da imprensa. Essas alternativas não são irreais, irrealismo é manter o atual caminho que estamos trilhando. Não é possível esperar 2022 para mudar de rumo: é fundamental que a sociedade se mobilize rapidamente para evitar que a tragédia que vivemos se prolongue.

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