Como a ultradireita brasileira usou o Whatsapp

Mensagens direcionadas para grupos segmentados; disparo massivo de fake news off-line, para impossibilitar checagem; e até participação indireta da velha mídia. Dossiê inédito revela como operou a versão brasileira da Cambridge Analytics nas eleições de 2018

Por Fabiana Oliveira, na Lavits

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Este texto é uma resenha do artigo:
Whatsapp and political instabilty in Brazil: targeted messages and political radicalization
De Rafael Evangelista e Fernanda Bruno
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A eleição de Jair Bolsonaro (sem partido) para presidente, em 2018, surpreendeu muita gente. Seu discurso inflamado de misoginia, racismo, xenofobia, homofobia e toda ordem de preconceitos parecia exagerado até mesmo para um país desigual e violento como o Brasil. Ele e sua agenda política, ultraconservadora e neoliberal, venceram, entretanto. Aos estudiosos, analistas e militantes políticos, ficou a complexa tarefa de compreender – ainda que parcialmente e provisoriamente – quais fatores e quais estratégias contribuíram para o sucesso da candidatura.

O artigo WhatsApp and political instability in Brazil: targeted messages and political radicalisation, escrito por Rafael Evangelista e Fernanda Bruno, pesquisadores da Rede Latino-americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS), se inscreve como parte desses esforços.

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Publicado no Dossiê Data-driven elections, uma edição especial da Internet Policy Review, editada por Colin J. Bennett e David Lyon, o trabalho busca, a partir da apresentação da conjuntura nacional e das estratégias de comunicação da campanha de Bolsonaro, compreender como a distribuição de mensagens microdirecionadas no aplicativo WhatsApp contribuiu para a vitória eleitoral do atual presidente.

Para a construção dessa análise, Rafael Evangelista já vinha acompanhando grupos de WhatsApp desde a greve dos caminhoneiros, de maio de 2018. Supostamente esse grupos teriam sido montados pela própria categoria para fins de mobilização política, mas, a partir da imersão neles, o pesquisador pôde começar a perceber uma tentativa da extrema-direita de ocupar esses espaços. De acordo com ele, era raro encontrar grupos que fossem, de fato, de caminhoneiros. No geral, tratavam-se de articuladores políticos que reivindicavam, sobretudo, intervenção militar no Brasil.

Com a proximidade e chegada do período eleitoral, alguns desses grupos se converteram em grupos pró-Bolsonaro e neles circularam convites, por meio de links, para outros com a mesma orientação política. Além da coleta de dados provenientes dessa imersão, Evangelista e Bruno utilizaram outros materiais para a análise, buscando compreender quais pontos foram tensionados e radicalizados no discurso político da campanha vitoriosa. Um deles foi o trabalho de monitoramento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade de São Paulo (USP), que acompanharam 347 grupos públicos de WhatsApp, entre 16 de agosto e 7 de outubro, mapeando as imagens mais compartilhadas nessas conversas e apontando quais delas já haviam sido detectadas como falsas por agências de verificação.

Segmentação de conteúdo, centralização de gerenciamento e radicalização política

O monitoramento realizado por pesquisadores da UFMG e da USP apontou características da dinâmica de operação desses grupos. Alguns membros, inscritos em diversos deles, espalhavam a mesma mensagem massivamente. O sujeito que adentra o espaço, entretanto, não necessariamente tem conhecimento de que uma parte das pessoas que está ali se organiza para distribuir conteúdos políticos de interesse de certos grupos.

“Para nós, dos estudos de vigilância, isso é interessante porque é uma questão de invisibilidade. Você está sendo vigiado sem saber. Você está achando que está em um grupo que é orgânico, que é autêntico, e na verdade você está sendo manipulado. Essa estrutura superior a você é invisível. Isso é extremamente assimétrico. Você está em uma condição assimétrica”, afirma Evangelista. Para ele, essa atividade demonstra que o WhatsApp não é operado somente enquanto um mensageiro instantâneo, mas sim como uma rede social.

Nesses grupos, formados a partir da segmentação por interesses, circularam conteúdos também segmentados. Para Bruno e Evangelista, essa segmentação foi importante para a radicalização política vivenciada no contexto eleitoral. “Essa é uma das hipóteses que nós temos. A de que houve um processo de radicalização e que ele tem a ver com a existência de desinformação direcionada para certos grupos”, destaca Evangelista.

“O microdirecionamento não é um direcionamento individual. É sobre conseguir mapear um determinado grupo, muito específico, e fazer aquela mensagem voltada para ele. O escândalo da Cambridge Analytic é sobre isso, sobre produzir milhares de propagandas, uma para cada nicho específico. Uma das hipóteses é que isso aconteceu nas eleições de 2018”, explica ele.

O pesquisador entende que algumas características específicas da plataforma contribuem para o sucesso desse tipo de estratégia comunicativa. Citando as conclusões do trabalho de Leticia Cesarino, Evangelista pondera que o os grupos de WhatsApp muitas vezes envolvem amigos e familiares, o que faz com que aquilo que é recebido ali seja encarado com mais confiança, o que também tem a ver com a limitação no número de participantes desses grupos. Outra questão é que embora hoje seja possível reconhecer uma mensagem que foi encaminhada, a plataforma não mostra a origem da mensagem que circula desse modo.

“Você pode receber um conteúdo e achar que a pessoa que te enviou foi quem criou aquela mensagem. Muitas vezes ela havia recebido a imagem, por exemplo, de grupos como esses de conteúdo político segmentado, que estão sendo cooptados ou ocupados por quem tem essa estratégia de segmentação”, explica o pesquisador.

Zero-rating e desinformação

Quem utiliza dados móveis pelo celular sabe que acessar determinadas aplicações acaba rapidamente com a franquia de dados. Continuar a usar algumas delas gratuitamente ou mesmo não ser tarifado pelo acesso pode parecer uma ótima política das grandes corporações de telefonia. Dizer que sim ou que não sobre isso é uma tarefa inglória, mas cabe olhar com atenção para o chamado zero-rating.

Alguns serviços como o WhatsApp, eventualmente o Facebook, a Uber ou Twitter não são descontados da franquia de dados dos usuários e seguem funcionando após o término delas. O fato de não poder utilizar fontes de pesquisa e, portanto, de verificação das informações recebidas nessas plataformas, faz com que o sujeito a distribuia mesmo sem saber se ela é falsa. Essa é uma hipótese apontada por pesquisadores.

Para Rafael Evangelista, entretanto, há outras questões a serem analisadas sobre a relação entre desinformação e o zero-rating. Uma delas é que essa política afeta majoritariamente um perfil social. Quem são essas pessoas? Aquelas que têm um plano mais barato, em que a franquia acaba mais rápido.

“Mas além disso, é preciso olhar para a questão com um olhar mais antropológico. As pessoas passam a consumir informação só de certos canais depois que a franquia delas acaba. Ela é empurrada para os grupos de Whatsapp. É só andar pelas ruas e olhar as pessoas numa fila, esperando, está todo mundo olhando para o celular, porque o celular se tornou quase uma mini-televisão quando você não tem nada para fazer ou mesmo quando você quer relaxar”, afirma o pesquisador.

“Por essas características do WhatsApp é como se ele funcionasse como uma multiplicidade de canais. Isso é favorecido pelo zero-rating, que certas plataformas tenham essa especificidade, esse benefício de terem um acordo com as empresas de telefonia para o conteúdo fique ali circulando de graça. Isso empurra as pessoas para determinados serviços, inclusive contrariando uma perspectiva de economia liberal. Você não tem competição justa se você tem duas empresas de funções, razões e propósitos diferentes se aliando para mutuamente se beneficiarem em detrimento dos competidores”, completa ele.

O ecossistema da (des)informação no Brasil

Um fenômeno notado por Bruno e Evangelista é que havia conteúdos sendo espalhados por WhatsApp, assumindo um nível maior de radicalidade política, que foram originados pela mídia tradicional. O que isso diz sobre a controversa relação entre mídia tradicional, a campanha eleitoral e a figura de Jair Bolsonaro? Como a estratégia comunicativa da candidatura que saiu vitoriosa das eleições de 2018 se inscreve no ecossistema da (des)informação no Brasil?

São perguntas ainda sem respostas definitivas, mas que proporcionam especulações analíticas interessantes sobre a comunicação no Brasil. Ao ser questionado sobre sua opinião acerca do tema, o pesquisador Rafael Evangelista devolve a pergunta. “Será que esse silêncio do Bolsonaro na TV, ou seja, o fato que ele só tinha 30 segundos [de tempo de TV na campanha], não acabou o beneficiando?”, provoca ele.

Bruno e Evangelista afirmam que a estratégia comunicativa da campanha de Jair Bolsonaro, especialmente quanto ao uso de mensagens segmentadas no WhatsApp, não “operou no vácuo”. “Por exemplo, o antipetismo que emerge nesses grupos opera a partir de migalhas ou restos de materiais da mídia tradicional. Você tem uma produção de um antipetismo durante anos, que não começa com o golpe, é anterior, que consistentemente vai produzindo essa associação entre a esquerda, e o PT especificamente, à corrupção e a certas supostas imoralidades”, diz Evangelista.

“Não vamos nos esquecer que o kit gay foi dado como notícia pelo Reinaldo Azevedo que era colunista da Veja. As mentiras que circularam depois nos grupos de WhatsApp têm uma base na mídia tradicional, que foi parceira nisso. Depois você tem um processo em que essas coisas saem do controle. Parecia que essa produção ia beneficiar a centro-direita e acabou beneficiando a extrema-direita, que conseguiu pegar aquilo e tornar mais extremo e falar para um público que tinha a possibilidade de se radicalizar”, completa ele.

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