Como a luta contra o latifúndio ganhou o Brasil

Novo livro analisa a expansão geográfica do MST: nascido no RS, expandiu-se no Nordeste e, ao fazê-lo, nacionalizou a “identidade sem-terra”. Contra o tripé escravidão-latifúndio-monocultura, propôs outros modelos de produção e organização social

Ocupação da fazenda Annoni, em 1985, no norte do RS, foi um dos marcos do nascimento do MST. (Arquivo Pessoal/José Leal)

Por Marco Weissheimer, no Sul21

A história das primeiras gerações de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que, entre 1985 e 1997, partiram do Sul do país para retomar a luta pela reforma agrária no Nordeste brasileiro é o tema central do livro “MST – Como um movimento de ‘gaúchos’ se enraizou no nordeste” (Appris Editora), de Débora Franco Lerrer, jornalista, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA-UFRRJ). O livro conta como a luta iniciada por esses militantes “provocou a distribuição de mais de 9 milhões de hectares na região do Nordeste, um território do tamanho de Portugal”. Entre 1985 e 2006, destaca Débora Lerrer, essa mobilização beneficiou mais de 300 mil famílias.

Para escrever esse livro, a autora realizou dezenas de entrevistas e acompanhou atividades organizadas pelo MST em várias regiões do país. A trajetória da pesquisadora tem laços muito próximos com a história da luta pela reforma agrária no Brasil. Na década de 1990, Débora Lerrer trabalhou como jornalista em um meio de comunicação ligado ao MST. Foi nesse período, escreve o pesquisador Miguel Carter, no prefácio ao livro, que “ela conheceu os militantes ‘sulistas’ do MST, em sua maioria de origem ‘gaúcha’, como ela, que estavam tocando o trabalho do Movimento pelo Brasil afora”. No livro, a autora também estabelece um contraste entre a ação dos militantes do MST e as dos migrantes gaúchos que implantaram o agronegócio no Nordeste. “Ao contrário dos enclaves de agricultores sulistas mais abastados, as ações do MST têm estimulado a integração nacional, criando espaços de genuíno intercâmbio cultural. Sobretudo, elas têm ajudado a democratizar uma região com uma profunda história oligárquica”, assinala ainda Carter.

O livro também apresenta uma revisão da história do impasse agrário brasileiro e o fracasso de diversas tentativas, desde o período da independência, de desconcentrar a propriedade fundiária no país e limitar o poder da oligarquia rural.

A modernidade do MST

Débora Lerrer traça um paralelo entre a expansão dos agricultores gaúchos ligados ao agronegócio, especialmente ao cultivo de soja no Centro-Oeste e Oeste da Bahia, e a protagonizada pelos militantes do MST, que ela define como “uma modernidade emancipadora, calcada no investimento na instrução formal, na formação política e advoga um modelo agrícola desconcentrador de renda e ambientalmente responsável”. O seu livro, sintetiza a pesquisadora, “tem por objetivo reconhecer na atuação do MST aquilo que os grupos sociais hegemônicos na sociedade brasileira costumeiramente lhe negam: sua plena modernidade”.

Os principais atores da expansão do MST no Nordeste, assinala a autora, são oriundos do meio rural, sendo que alguns deles foram educados em seminários da Igreja Católica. Muitos desses militantes, aponta ainda Débora Lerrer, vieram das chamadas “oposições sindicais” e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), também ligadas a setores progressistas da Igreja Católica. Para contar a trajetória desses atores, a pesquisadora realizou, entre 2005 e 2007, trabalhos de campo no Rio Grande do Sul, Pernambuco, Sergipe e Paraíba, visitando assentamentos e centros de formação e conversando com militantes e assentados do MST. Os militantes que ela classifica como da “primeira geração” de migrantes (1985-1987) são oriundos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Já a segunda geração, que vai para os estados do Nordeste a partir de 1988-1989, é composta por militantes sulistas, mas também de outros estados como Espírito Santo, Bahia, Piauí, Sergipe e Paraíba.

Um dos pressupostos centrais da obra é que “o padrão de migração de militantes sulistas do MST revela muito do que são as características do ‘habitus’ dos militantes desse grupo e são fundamentais para a compreensão do fenômeno social desencadeado por esse movimento social”. Débora Lerrer toma a noção de ‘habitus’ seguindo a definição de Pierre Bourdieu que fala de um ‘conjunto unívoco de escolhas de pessoas, de bens, de práticas’. “No caso do MST, essas trajetórias de militantes migrantes acabaram contribuindo para consolidar muitas das características do ‘estilo sem terra’ de militar que hoje se encontra espalhado pelo país”, escreve.

O livro também procura demonstrar que, embora o MST não tenha conseguido até aqui pressionar o Estado brasileiro a realizar uma reforma agrária capaz de mudar, qualitativamente, a atual estrutura fundiária do país, com a migração de militantes para várias regiões conseguiu “nacionalizar práticas de luta que introduziram uma politização mais abrangente da vida social”. Com isso, defende Débora Lerrer, o Movimento promoveu “uma inovação cultural, social, política e econômica que põe em questão a ordem e o saber que constituem a visão de mundo social dominante na sociedade brasileira, baseada, sobretudo, na concentração da propriedade da terra”.

Além das conquistas materiais obtidas pelo MST, propiciando a pessoas que não tinham nada passassem a ter acesso à terra, trabalho, casa e comida, a sua atuação, sustenta o livro, também tem contribuído para que “esses setores marginalizados da sociedade brasileira se organizem de forma coletiva para a conquista de direitos que vão além de uma luta propriamente econômica, propiciando-lhes uma inserção como sujeitos dentro da sociedade moderna”.

A autora não romantiza esse processo e relata as dificuldades que presenciou, em uma reunião em um assentamento de Pernambuco, onde muitas pessoas não apresentavam “disposição interna para assumir o papel de sujeitos de sua história”. “Tem que gostar do assentamento para ficar aqui. Quem gosta de festa, TV, não fica aqui. Pessoa criada na cidade não gosta daqui”, disse a ela um integrante do assentamento. No entanto, ressalta, “quando essas pessoas passam a se engajar na luta empreendida pelo MST passam, ao menos, a ter essa possibilidade franqueada, nem que seja para seus descendentes”.

O tripé escravidão-latifúndio- monocultura

Ao longo do livro, Débora Lerrer analisa também os símbolos construídos pelos setores conservadores dominantes sobre o papel desempenhado pelo MST. Na gênese dessa construção aparecem visões ideológicas que remontam aos tempos da escravidão e que seguem vivos e fortes no cenário social, político e econômico brasileiro. A pesquisa considera fundamental tomar esse papel desempenhado pelo MST, e toda a estigmatização que o acompanha, levando em conta “como o tripé escravidão-latifúndio- monocultura se cristalizou nessa sociedade, a ponto de grandes figuras de nossa história, mesmo no século XIX, como José Bonifácio e Joaquim Nabuco, terem sido derrotados em sua defesa de que só a implementação de reformas econômicas profundas poderia superar práticas agrícolas devastadoras social e ambientalmente”.

A demanda por reforma agrária, objeto central da luta do MST, é um tema que lança luz, no início do século XXI, para traços da formação social, política e econômica brasileira que remontam ao século XIX. Neste sentido, estudar a história do MST e a reação das classes conservadoras à nacionalização desse movimento é também um caminho para perceber a permanência de uma lógica de dominação que faz com que, desde o século XIX, se mantenha “praticamente o mesmo nível de concentração de riqueza, tendo 10% de sua população controle sobre 75% de suas riquezas. Ou seja, resume a autora, estudar esse tema e o comportamento de seus atores principais, permite ver, entre outras coisas, que o Brasil “nunca passou por qualquer reforma profunda de sua estrutura social” e “tende a reproduzir em seu horizonte social significados próximos dos interesses de sua classe dominante e que, em geral, tendem a estigmatizar um grupo social que ousa questionar esse pré-estabelecido pressuposto social”.

Do Alto Uruguai ao Nordeste brasileiro

O livro de Débora Lerrer conta também  a história de uma grande jornada de expansão geográfica. Uma jornada que iniciou no norte do Rio Grande do Sul, na região conhecida como Alto Uruguai, e acabou se expandindo na direção da região Nordeste do país. Essa jornada não iniciou no Alto Uruguai por acaso, destaca a autora. A chamada “modernização conservadora” da agricultora teve grande impacto nesta regiao na vida das famílias de pequenos agricultores. Esse processo, assinala, “absorveu parte do campesinato, tornando-o um produtor integrado ao cooperativismo empresarial e à agroindústria, mas excluiu progressivamente a maior parte desse segmento, assim como os antigos peões, agregados e posseiros, que sempre existiram na região”. Esse fenômeno explica porque essa região acabou fornecendo a maior base social do MST no Estado, dando origem também a outros movimentos sociais como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

A pesquisadora apresenta um relato de como se deu essa expansão, que teria iniciado em outubro de 1985, quando a Bahia recebeu o primeiro militante sulista do MST, Paulo (nome fictício). O plano original era ficar apenas dois meses na região e depois voltar para o Sul para concluir o seu curso de Teologia. Mas Paulo acabou assumindo a tarefa de “acompanhar o Nordeste”, o que incluía os nove estados da região, mais os estados de Minas Gerais, Pará e Rondônia. Em 1987, ele fixou moradia no sul da Bahia, casou-se com uma baiana e vive lá até hoje em um assentamento. Em sua pesquisa, Débora Lerrer aponta as enormes dificuldades, conflitos e desafios que marcaram todo esse processo. Um dos dirigentes do MST ouvidos em seu trabalho, João Pedro Stédile diz que a decisão de enviar militantes sulistas para o Nordeste “nunca foi tomada como uma linha política geral”, mas foi se desenvolvendo “como uma espécie de prática natural, de mútua solidariedade”, obedecendo também à necessidade de “acelerar o processo de articulação nas regiões de maior contingente de sem-terra, que era o Nordeste”.

Ao longo de todo esse processo, defende ainda a autora, foi se desenvolvendo uma “identidade sem-terra” caracterizada por “novos códigos culturais que não só expressam as bandeiras do Movimento e disputam o controle da orientação da vida social da sociedade brasileira”, como dão origem a um novo estilo de militância, “uma maneira de vivenciar as lutas sociais em termos de orientações, escolhas políticas e formação de alternativas voltadas para a arena pública, mas que também têm incidências na vida privada desses atores”. Aliando a experiência pessoal e profissional que ela teve nesta trajetória, com uma reflexão acadêmica cuidadosa, a obra de Débora Lerrer fornece um rico e instigante relato sobre as origens e as dinâmicas que deram origem a um movimento popular oriundo do campo que hoje é referência internacional, não só na luta pela terra, como pela construção de novos modelos de produção de alimentos, consumo, convívio e organização social.

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