Cidades do automóvel e da desigualdade

Estudo inédito revela como ausência de transporte público impacta metrópoles. Em SP, 10% mais ricos têm dez vezes mais chances de encontrar trabalho que 40% mais pobres; brancos tem 80% maior acesso a hospitais de alta complexidade

Por Felipe Betim, no El País Brasil

Eduardo Gomes, 41 anos, e Erick Garcia Ramalho, 27, moram em São Paulo a cerca de 30 quilômetros um do outro. Estão separados por dezenas de estações de trem, metrô e ônibus. A oferta de transporte público desigual e as distâncias que precisam percorrer impactam não só a qualidade de vida de cada um, mas também nas oportunidades de trabalho. Eduardo é contador e vive em Itaquera (zona leste) com seus pais, mas atualmente está desempregado. Acredita que o lugar onde mora atrapalha em sua busca por um emprego. “Nas minhas últimas entrevistas, querem saber a quantidade de condução que pego, quanto tempo demoro, o que vou fazer se tem greve…”, conta. Erick é publicitário e, depois de formado, passou a morar perto do metrô Consolação (zona oeste), a apenas três estações de onde trabalha. “São 15 minutos e mais seis de caminhada”, relata.

A forma como se deslocam pela capital paulista e como acessam serviços públicos e oportunidades de trabalho retratam os dados do estudo Desigualdades socioespaciais de acesso a oportunidades nas cidades brasileiras – 2019. Elaborado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), o documento apresentado na quinta-feira traz o diagnóstico dessas distorções nas 20 maiores cidades brasileiras —uma plataforma interativa permite acessar os dados completos. “Temos uma desigualdade muito marcada dentro de cada cidade. No geral, as zonas centrais são muito bem servidas de transporte público, ao passo que nas periferias a oferta é menor”, explica o pesquisador Rafael Pereira, do Ipea. Como nas zonas centrais também se concentra a maior parte dos postos de trabalho, assim como serviços essenciais de saúde e educação, as oportunidades para aqueles que moram longe acabam sendo menores, segundo argumenta Pereira.

O estudo faz parte do Projeto Acesso a Oportunidades e, faltando nove meses para as eleições municipais, busca influenciar a elaboração de políticas públicas que reduzam as desigualdades dentro das cidades. Suas conclusões não chegam a ser surpreendentes, como Pereira admite, mas pela primeira vez essas distorções foram colocadas em números. E São Paulo aparece como a cidade mais desigual: os mais ricos têm 9,5 vezes mais chance de encontrar oportunidades de trabalho que podem ser acessadas a pé em até 30 minutos, segundo a Razão de Palma, indicador que mede a diferença de oportunidades entre entre os 10% mais ricos e os 40% mais pobres. “Isso pode ser explicado, em parte, pela distribuição socioespacial de renda e oportunidades e a dimensão da cidade, o que faz com que os pobres estejam concentrados longe das principais zonas de empregos, acontecendo o contrário para os ricos”, diz o estudo. Pereira complementa: “Num contexto de choque na economia, a sua chance de se recolocar no mercado vai ser influenciada pela quantidade de emprego que você consegue acessar”.

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Além de fazer uma análise por níveis de renda, os pesquisadores também estudaram o tema sob a ótica de cor/raça. Conclusão: “A população mais rica e branca tem, em média, mais acesso a oportunidades do que a população pobre e negra em todas as cidades estudadas, independentemente do meio de transporte considerado”, afirma o documento. Em São Paulo, por exemplo, os brancos tem um acesso 80% maior a hospitais de alta complexidade. “Essa persistente desigualdade nas cidades brasileiras é causa e, ao mesmo tempo, reflexo da segregação espacial e de questões estruturais geradas pela desigual distribuição espacial do sistema de transporte, da infraestrutura e do desenvolvimento urbano”, continua o documento.

Eduardo é negro e possui formação técnica em Contabilidade. Morava sozinho até poucos meses atrás em Cidade Tiradentes, um bairro no extremo leste da capital, ainda mais distante da zona central. “Morei lá durante oito anos, mas eu sempre dava o endereço da minha mãe, em Itaquera, para poder arrumar emprego. Se digo onde moro, fica ainda mais difícil”, explica. Nessa época trabalhou durante quatro anos em uma empresa no Paraíso, mas acabou demitido justamente por causa das dificuldades na hora de se mover pela cidade, segundo conta. “Eu saía de casa e pegava dois ônibus até a estação de trem Guaianases. Só nesse trajeto eu perdia no mínimo 30 minutos. Mas às vezes demorava 40 minutos, outras uma hora… Os ônibus não passavam em horário certo. Então comecei a chegar atrasado”, explica. “O patrão compreende até certo momento”.

Depois que arrumou outro emprego, Eduardo passou a dormir cada vez mais na casa de seus pais, em Itaquera. Até que se mudou de vez. Por estar mais perto da estação de trem e de metrô, passou a ter mais comodidade. Mas nem por isso andar por São Paulo se tornou tarefa fácil: seu último emprego fixo era no nobre Morumbi (zona oeste), motivo pelo qual precisava pegar trem, percorrer outras três linhas de metrô e andar mais alguns minutos. Demorava, em média, duas horas e dez minutos para chegar. E depois o mesmo tempo para voltar.

Já Erick é branco e se formou em Publicidade na universidade privada Casper Líbero. Hoje mora perto da estação Consolação e se desloca por 15 minutos até seu trabalho, na Vila Madalena. Nem sempre foi assim. Criado no município de Guarulhos, na Grande São Paulo, precisava fazer uma viagem de duas a três horas entre sua casa e a faculdade. “Eu perdia pelo menos cinco horas por dia no transporte público. Quando deixei de estagiar e me tornei assistente, consegui me mudar. A diferença é brutal”, conta ele.

O publicitário admite, porém, que se mudar para São Paulo foi um passo óbvio. Oriundo de uma família de classe média, conta que estudar em uma escola pública durante um tempo foi uma escolha. Depois se mudou para uma escola particular, fez cursinho e, finalmente, universidade privada. “Sempre fui privilegiado, a única coisa difícil foi essa questão da distância. Mas vir pra São Paulo foi um caminho natural, eu passei por isso, minha irmã, meus amigos de faculdade…”.

Distribuição de serviços

Ainda que os resultados sejam similares em todas as cidades estudadas, Pereira aponta que cada uma tem suas particularidades. Em alguns pontos do Rio de Janeiro, por exemplo, bairros da zona oeste apresentam “regiões com desertos de oportunidades”, em que a falta de planejamento urbano deixou zonas inteiras com baixíssimo acesso a serviços de transporte e saúde.

Já em São Paulo, explica Pereira, a rede pública de escolas e de clínicas de atenção básica estão bem distribuídas pelo território e são acessíveis mesmo para as populações periféricas. “O SUS tem uma capilaridade geral muito boa geral. Quando pensam em construir os equipamentos, eles já pensam em aumentar a proximidade das pessoas. Então, quando você olha acesso a saúde e educação, as desigualdades são menores porque os serviços são pensados para aumentar a distribuição espacial”, argumenta. Assim, a média de tempo que uma criança da periferia paulistana demora para chegar ao colégio a pé ou de bicicleta gira em torno de seis minutos, segundo o estudo. O mesmo tempo que Eduardo sempre levou para chegar aos colégios onde estudou, em Itaquera. “Estudei em varias escolas, mas sempre perto de casa. Ia sempre a pé, dava uns cinco ou seis minutos”.

Morar longe do centro, mas perto do transporte público

O estudo também faz uma importante ponderação: por um lado, pessoas ―em geral, mais ricas e brancas― que moram em áreas consolidadas contam com mais equipamentos, serviços e oportunidades; por outro lado, aqueles que vivem longe das áreas centrais conseguem acessar as mesmas coisas quanto mais perto estão dos serviços de transporte. É o caso, por exemplo, de Mateus Lemos e José Floriano.

Mateus, 26 anos, vem de uma família de classe média e mora no bairro do Tatuapé (zona leste), onde ainda vive com os pais. “O bairro não deixa a desejar em questão de estrutura. Posto de saúde, faculdade, hospital, shopping, entretenimento… Sempre fiz tudo a pé, tudo”, conta. Hoje ele trabalha como advogado em uma empresa no Itaim Bibi e precisa pegar metrô e ônibus para fazer o trajeto até lá. “Estou a apenas 20 minutos andando do metrô. Demoro uma hora para chegar ao trabalho, mas é bem tranquilo. Quem quer trabalhar dá um jeito, mas sempre fica mais fácil com essa mobilidade. O mapa do transporte público de São Paulo é excelente”, opina. Por ora, morar no Jardins ou no Itaim Bibi, bairros de classe alta, está fora de cogitação.

Já José Floriano vive na Casa Verde (zona norte), tem 25 anos e trabalha desde os 12. Sempre perto de casa, primeiro como entregador de pizza e depois como paisagista. Desde que abriu sua própria empresa, contudo, vem precisando usar com frequência as linhas de ônibus e metrô que estão próximas de sua casa para rodar “toda São Paulo” e fazer seus trabalhos de manutenção de jardins em prédios e edifícios corporativos. “Vou mais para São Bernardo do Campo. Sigo até a estação Jabaquara e de lá pego um ônibus”, conta ele, sentado no chão da estação da Sé enquanto espera sua noiva, que trabalha no centro, chegar. “Nesses dias, são duas horas para ir e duas para voltar. E quando o vagão está lotado, prefiro sentar e esperar esvaziar. É bem cansativo, mas não reclamo”.

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