A urgência em desmercantilizar o laboratório

Um dos motores do capitalismo, Ciência Pública foi sucateada pelas políticas neoliberais e reduzida a “fábricas lucrativas”, em detrimento da produção coletiva de conhecimento. Democratizá-la exigirá olhar dialógico com a sociedade

por Calvin Wu, no Le Monde Diplomatique Brasil

Este artigo oferece uma história crítica do laboratório, elucidando a dialética entre o desenvolvimento da ciência do laboratório e as mudanças socioeconômicas maiores, ou seja, o capitalismo, dirigido e impulsionado pela formação e evolução do laboratório. Esta análise do tema pode revelar por que não se divulga a historiografia de laboratório

A palavra laboratório evoca uma imagem de modernidade – que testemunha a engenhosidade e diligência humanas em dobrar a natureza e fazer descobertas transformadoras. No entanto, essa imagem também está envolta em mistério. Apesar de o conhecimento produzido em laboratório resultar em consequências históricas de longo alcance, muito permanece inexplorado sobre como os laboratórios e a sociedade se formaram.

Essa desconexão entre o laboratório e a sociedade é desconcertante. Mesmo com o crescente fascínio pelo laboratório como uma curiosidade sociológica na década de 1970 (que terminou abruptamente na década de 1990) e o seu reconhecimento como um local proeminente de conhecimento e poder, ainda não possuímos um relato histórico coerente do laboratório[1].

Este artigo oferece uma história crítica do laboratório, elucidando a dialética entre o desenvolvimento da ciência do laboratório e as mudanças socioeconômicas maiores, ou seja, o capitalismo, dirigido e impulsionado pela formação e evolução do laboratório. Esta análise do tema pode revelar por que não se divulga a historiografia de laboratório. Por fim, essa imersão crítica é utilizada para examinar o funcionamento interno dos laboratórios de hoje da perspectiva dos seus trabalhadores e então apresentar ações concretas para levar o futuro dos laboratórios e da sociedade para as mãos daqueles cujo trabalho produz conhecimento e riqueza.

Quando a alquimia governou o mundo

A história da ciência moderna, seguindo a narrativa hegemônica do Ocidente, começou com Copérnico[2]. Consequentemente, o primeiro laboratório foi provavelmente fruto da imaginação do sucessor de Copérnico, Tycho Brahe, no final do século XVI. Um aristocrata, Brahe construiu seu laboratório – mais precisamente, muitos servos de Brahe construíram o laboratório – em uma propriedade insular na costa da Dinamarca, onde um castelo de três andares continha um observatório de astronomia no último andar, um estúdio no meio e um laboratório de alquimia na parte inferior[3]. Se a astronomia forneceu o know-how técnico para a coroa dinamarquesa saquear colônias ultramarinas na Islândia e nas Ilhas Faroe, a alquimia prometia produzir diretamente a riqueza (ouro e prata) por meio de práticas empíricas[4].

Sem muita surpresa, a transmutação de metal nunca funcionou, mas a alquimia estabeleceu a base para indústrias inteiras baseadas na síntese de materiais: ácidos, corantes, perfumes, pólvora e metalurgia[5]. A alquimia foi legitimada em ciência da química no século XVII. Ao contrário da narrativa popular, não foi a lei do gás ideal de Robert Boyle ou suas engenhocas experimentais que deram origem à química, mas o rápido crescimento da manufatura artesanal[6], a comercialização de mercadorias e a crescente dependência do trabalho produtivo que exigiu a substituição do oculto pelo científico[7].

Aqui começamos a ver um padrão recorrente: o desenvolvimento da ciência está intimamente ligado ao seu pano de fundo histórico. A expansão colonial na era das descobertas não poderia ter existido sem a astronomia e a tecnologia marítima, e vice-versa; assim, a origem dos laboratórios modernos também pode ser rastreada até a grande transformação socioeconômica em direção ao capitalismo.

Das oficinas às universidades

Ao longo do século XVIII, os laboratórios aumentaram de tamanho e serviram principalmente como local de fabricação de produtos químicos comerciais[8]. Na Grã-Bretanha, a nascente indústria têxtil – ela própria um resultado da conquista colonial (isto é, algodão barato plantado por força de trabalho escravizada) – dependia de branqueamento químico e da limpeza eficiente no processo de produção[9]. Os laboratórios nessa época também se dispersaram, afastando-se das residências privadas dos aristocratas, pela simples razão de que a química sempre foi perigosa para o trabalho[10]. A química tornou-se uma ciência quantitativa, à medida que Antoine Lavoisier conduziu medições cuidadosas e a manutenção de registros na síntese química. Lavoisier defendeu a padronização (por exemplo, o sistema métrico) por uma razão: ele agiu em nome de comerciantes ricos – cujos investimentos abrangendo diferentes setores de manufatura deram origem à necessidade de precisão e coordenação – e dele mesmo, como co-proprietário de um grande negócio de pólvora, que iria mais tarde se tornou DuPont.

O realinhamento político seguiu então essa mudança econômica. A revolução francesa introduziu a burguesia no centro do palco da história, cujo interesse de classe baseado na propriedade privada, na competição e no mercado de trabalho livre confrontou diretamente o modo anterior de manufatura artesanal[11]. O conflito entre artesãos e a burguesia foi resolvido por meio dos avanços tecnológicos durante a revolução industrial do século XIX. Os laboratórios de manufatura química foram gradativamente substituídos por máquinas e, assim, desvinculados da experimentação, produção e disseminação do conhecimento técnico[12]. Para onde, então, foi o laboratório, onde os conhecimentos teóricos e práticos eram refinados e ensinados?

O desenvolvimento da ciência está intimamente ligado ao seu pano de fundo histórico.

A resposta, novamente, está na transformação histórica em direção ao capitalismo e, em particular, no desenvolvimento industrial desigual entre os Estados-Nações. No início do século XIX, a Alemanha era uma federação descentralizada de vários pequenos reinos. Isso prejudicava os fabricantes alemães, pois as infra-estruturas estatais muitas vezes não conseguiam atender às suas demandas. Para compensar a desunião política, a sociedade civil se voltou para outras instituições centralizadas: sociedades profissionais, igrejas e universidades[13].

O primeiro laboratório universitário nasceu em Geissen em 1824, sob a direção de Justus von Liebig. A visão inicial de Liebig era transformar seu laboratório em uma empresa de fabricação de produtos químicos orgânicos e farmacêuticos em grande escala que monopolizaria a produção. Sem surpresa, essa iniciativa foi rápida e uniformemente derrubada pela burguesia alemã. No entanto, Liebig foi o primeiro a estabelecer a tradição acadêmica de um “laboratório de ensino”, onde bancadas ocupavam os pontos centrais da sala[14].

Em apenas meio século, sob a chancelaria de Otto von Bismarck, uma Alemanha unificada investiu pesadamente em empresas estatais (incluindo universidades) para acelerar a acumulação de capital. Quando a comunidade científica alemão ganhou proeminência no final do século XIX – junto com sua rápida industrialização – a Grã-Bretanha e a França perceberam o mérito do modelo alemão centralizado e aumentaram seus próprios investimentos em laboratórios universitários. Consequentemente, laboratórios em outras áreas científicas também começaram a florescer nas universidades. Na Alemanha, os laboratórios de anatomia e fisiologia recebiam os maiores financiamentos, seguidos pelos laboratórios de química e física. A ascensão dos laboratórios de fisiologia acompanhou o aumento do foco da Alemanha na saúde pública, enquanto a lacuna entre os laboratórios de química e física não foi alcançada até a era do eletromagnetismo[15].

Petróleo, Guerras e Keynes

A institucionalização dos laboratórios foi concluída na virada do século XX. Assim como algumas seções do Estado, os laboratórios também adquiriram duas funções nascentes. A primeira residia no controle da qualidade industrial em reação à gestão “científica” da fábrica de Frederick Taylor. Embora o taylorismo e a aplicação generalizada de máquinas pesadas aumentassem a produtividade por meio da intensificação da força de trabalho, isso reduzia drasticamente a qualidade dos produtos, pois os trabalhadores não podiam mais realizar auditorias internamente[16]. O declínio da qualidade foi especialmente acentuado na área de alimentos e produtos químicos, o que colocava em risco a saúde pública e tornava esses setores menos competitivos no mercado global. No mesmo ano em que o livro de Upton Sinclair “The Jungle” foi publicado (1905), trazendo a situação dos trabalhadores da indústria de carnes à atenção do público, foram criados laboratórios governamentais para regular a produção industrial por meio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e da Food and Drug Administration.

Da mesma forma, a rápida industrialização forçou a migração em massa de trabalhadores do campo para as cidades e produziu uma terrível desigualdade social. O crime, tanto os pequenos delitos quanto o organizado, tornou-se um problema de preocupação social no início do século XX. Edmund Locard, conhecido como o Sherlock Holmes francês, fundou o primeiro laboratório forense em Lyon em 1910. Sua ideia foi importada pelos Estados Unidos em 1923 pelo Departamento de Polícia de Los Angeles. Assim, a ciência do laboratório também desempenhou um papel fundamental na solidificação do monopólio do Estado sobre a violência.

No primeiro quarto do século XX, os laboratórios ainda eram dominados pela pesquisa química, pois as inovações no conhecimento químico eram cruciais para que os barões-ladrões garantissem sua riqueza na era do petróleo[17]. Interesses privados foram perseguidos em laboratórios corporativos e universitários com cientistas proeminentes orbitando entre eles[18]. Dois professores de química da Universidade de Michigan lideraram todo o programa de pesquisa e desenvolvimento da Dow Chemical e acumularam mais de 300 patentes para estabelecer o monopólio da Dow no processo de refinaria. A mesma porosidade entre laboratórios públicos e privados foi replicada na Alemanha, quando Carl Bosch, mais tarde ganhador do Prêmio Nobel, fundou a IG Farben[19].

Sob a supervisão de estados capitalistas, em competição por colônias para extração de recursos, trabalho e mercados em uma busca ilimitada de lucro, tanto a Dow quanto a IG Farben, antes e depois da Primeira Guerra Mundial, criaram miséria em massa sob a forma de armas químicas, como os gases venenosos. A cumplicidade dos laboratórios na guerra apenas se intensificou quando o fascismo derrotou decididamente as revoluções socialistas em todo o mundo ocidental nas décadas de 1930 e 1940. Durante esta era cada vez mais perturbada, até mesmo a aparência de uma luta antifascista – por exemplo, o Projeto Manhattan – apontava para a destruição da humanidade[20].

A expansão do laboratório e o acúmulo de poder e conhecimento, por um lado, sempre correspondem ao acúmulo de miséria, por outro.

Os laboratórios no período pós-guerra mantiveram seu caráter keynesiano-fordista – isto é, altamente centralizados, impulsionados por iniciativas estatais baseadas em demandas macroeconômicas – e assim absorverem os capitais excedentes criados durante o rápido crescimento econômico[21]. A hegemonia militar e financeira norte-americana, impulsionada pelo avanço tecnológico nos laboratórios, consagrou os laboratórios como fonte de orgulho nacional a ponto de competirem com a luta contra a “ameaça do comunista”. Isso, no entanto, criou uma divisão na mentalidade norte-americana do pós-guerra. Embora celebrassem as conquistas da ciência moderna ligadas ao nacionalismo e a melhorias no padrão de vida, os norte-americanos também estavam extremamente temerosos em relação às tecnologias sendo implantadas por um “inimigo” onipresente[22]. Além disso, na vida social, os cientistas também eram uma espécie rara; na década de 1950, menos de oito mil doutorados eram concedidos por universidades americanas a cada ano[23]. A maior parte dos cientistas tinha origem na classe média alta – um grupo isolado que gozava de alto status social e segurança no emprego por meio do sistema de estabilidade. A combinação da mentalidade da Guerra Fria e a distinção de classe dos cientistas efetivamente cobriu os laboratórios com um véu.

Para desmistificar um espaço tão inacessível que gera um conhecimento indecifrável com consequências sociais, políticas e econômicas de longo alcance, os sociólogos e antropólogos da década de 1970 buscaram com fervor estudar o laboratório[24]. Essa busca pode ser exemplificada na publicação de Bruno Latour’s Laboratory Life (1979). Latour e outros empregaram abordagens etnográficas principalmente para descobrir a “natureza da atividade intelectual” e compreender a posição do laboratório na sociedade[25]. No entanto, sua abordagem positivista, apresentando os laboratórios “movendo o mundo com a sua alavanca” falhou em considerar contextos econômicos maiores sob os quais os laboratórios formaram-se, moldaram-se e reproduziram-se ao longo da história[26]. Uma abordagem acrítica da historiografia do laboratório, portanto, permaneceu sem capacidade de compreensão do laboratório à medida que a ciência e a sociedade mudavam rapidamente durante a virada neoliberal da economia mundial. O estudo de laboratório desapareceu após duas décadas sendo assombrado pelo próprio mistério que eles não conseguiram desvendar.

Laboratórios neoliberais e ciência proletarizada

A virada neoliberal na economia mundial durou quase duas décadas, começando em 1971 e tornando-se totalmente entrincheirada no final dos anos 1980[27]. Durante essa mudança de paradigma econômico, os laboratórios desfrutaram de uma expansão sem precedentes. A desregulamentação financeira permitiu que as empresas privadas passassem a especular, o que atualizou a sua obsessão por lucros na produção tecnológica. Isso, por sua vez, exigiu a formação de regimes rígidos de direitos de propriedade intelectual e da livre circulação de força de trabalho altamente qualificada através das fronteiras nacionais. Enquanto a mercantilização estava em pleno vigor, o principal motor econômico do laboratório era o Estado. Primeiro porque a infraestrutura de laboratório existente exigia financiamento governamental contínuo para a produção ininterrupta de conhecimento. Segundo porque o keynesianismo continuou sendo o modo dominante de produção e circulação de tecnologias militares. Alguns laboratórios se metamorfosearam durante a neoliberalização, com a transformação dos laboratórios militares na atual indústria de alta tecnologia do Vale do Silício[28]. Outros laboratórios – especialmente da área de biomedicina – se apoiaram nos crescentes investimentos federais para pesquisa e desenvolvimento para produzir conhecimento científico, que mais tarde seria mercantilizado[29].

Mas, como regra prática capitalista, a expansão do laboratório e o acúmulo de poder e conhecimento – ou mais especificamente, das propriedades intelectuais imateriais transformadas em capital monetário – por um lado, sempre corresponde ao acúmulo de miséria, por outro. Não discutiremos aqui esse profundo impacto social; em vez disso, a seção subsequente examinará o aspecto frequentemente negligenciado de como os neoliberais proletarizaram a ciência e o laboratório.

A proletarização como processo é exemplificada pela luta de classes do século XIX entre os artesãos e a burguesia. Antes da revolução industrial, os artesãos protegiam e monopolizavam suas várias habilidades, passadas de mestres para aprendizes por meio de guildas e da reprodução social ritualizada[30]. Porém, com a mudança tecnológica e o advento das máquinas, os artesãos foram privados de seus meios de produção. Forçados a vender sua força de trabalho para sobreviver, muitos se tornaram trabalhadores expropriados.

Como mostra a historiografia, a ciência moderna tem suas raízes na tradição artesanal; os laboratórios eram oficinas e os cientistas eram artesãos com monopólios de habilidade. A proletarização sempre foi uma tendência desde a institucionalização e privatização dos laboratórios, mas até agora a proletarização foi impedida de destruir esta “classe científica” por um século de intervenções estatais. No entanto, sob o capitalismo, o artesanato deve eventualmente ser eliminado. Sob os olhos especulativos dos capitalistas, oficinas ou laboratórios são sempre fábricas em potencial.

Agora, sob a era neoliberal, os laboratórios se parecem cada vez mais com as fábricas industriais. É de se admirar por que a sociologia do laboratório deixou de existir? Apenas dois tipos de pessoas se preocupam com o funcionamento interno das fábricas: de um lado, os proprietários e gerentes que comandam as fábricas com o único objetivo de lucro; do outro, nós trabalhadores explorados que buscamos nos libertar do sistema fabril.

As fábricas, como locais de produção, não são de forma alguma antitéticas a uma visão igualitária da sociedade, visto que podem ser necessárias para garantir a subsistência humana. É o modo de produção capitalista – a relação social entre proprietários, trabalhadores e seu trabalho – que põe em perigo o “livre desenvolvimento” da humanidade[31].

No laboratório, a força sistêmica e alienante do capital que dita a força de trabalho, vis-à-vis a liberdade intelectual e criativa dos cientistas, torna-se ainda mais contraditória. A divisão do trabalho destila as disciplinas acadêmicas em centenas de pequenas áreas de estudo; a polinização cruzada e a interação permanecem raras mesmo com o avanço das disciplinas. Novos hardwares e softwares de pesquisa são atualizados com frequência. No entanto, o objetivo não é melhorar o rigor científico, mas sim acelerar a geração de resultados para a sua mercantilização subsequente, eliminar pessoal altamente treinado por técnicos com níveis básicos de baixos custos em conjunto com dispositivos que economizam trabalho e assim acumular poder financeiro por meio do monopólio tecnológico.

Sem situar a ciência e as práticas de laboratório dentro do processo histórico do capitalismo, a desconexão entre a ciência e a sociedade não pode ser resolvida, e os especialistas por trás do véu continuarão a se perguntar por que a população em geral “não confia nas autoridades científicas”.

O conhecimento científico pode ser objetivo da forma como é praticado atualmente, sob um sistema coercitivo movido exclusivamente pelo lucro? Deveria ser um mistério que os mecanismos internos idealizados pela ciência, tais como a quantificação, a falseabilidade e revisão por pares, falhem com tanta frequência e de forma tão espetacular?[32] Sem situar a ciência e as práticas dos laboratórios dentro do processo histórico do capitalismo, a desconexão entre a ciência e a sociedade não podem ser resolvidas, e os especialistas por trás do véu continuarão a se perguntar por que a população em geral “não confia nas autoridades científicas”[33].

E o que acontece com os cientistas proletários? Por um lado, os cientistas não desfrutam mais da segurança no emprego que os distinguia das outras profissões no passado. Em 1970, mais da metade dos cientistas acadêmicos tinha estabilidade; hoje, é menos de um oitavo[34]. Com o setor privado em constante expansão, os laboratórios universitários tornaram-se locais de treinamento para o trabalho[35]. Em 1980, cada “mestre artesão” treinava em média dois “aprendizes, PhD” em um laboratório biomédico; hoje, o número de aprendizes aumentou para mais de seis[36]. Os laboratórios também centralizaram a acumulação de capital; ainda de acordo com os exemplos da área de biomedicina, a sua maior agência de financiamento, o National Institutes of Health, faz doações fortemente direcionadas a instituições de elite e laboratórios já bem financiados[37]. Isso significa que, mesmo que um aprendiz se torne um mestre, as chances apontam para que ele não seja capaz de competir com o oligopólio acadêmico entrincheirado.

Agora, alienados de seus meios de produção, os cientistas devem vender sua força de trabalho como proletários – se tiverem a sorte de seu “mérito” ser considerado – para trabalharem para a Novo Nordisk, a Pfizer ou AstraZeneca. Os cientistas proletários devem ainda arcar com um treinamento prolongado, condições de trabalho deterioradas e dívidas estudantis[38]. Eles são colocados uns contra os outros pela sobrevivência no mercado de trabalho globalizado – adornado com a narrativa de liberdade e oportunidades iguais. Eles são desenraizados de todo o mundo, lutando contra o fardo mental e físico do racismo e do sexismo, de laboratório em laboratório, diariamente[39].

O local de trabalho, reimaginado

Mais uma vez, é hora de contemplar o significado de lab labor atório, o local do labor, onde o conhecimento científico é produzido por meio do trabalho do cientista – aquele que trata intimamente de compreender, interagir e transformar a natureza para atender às necessidades humanas.

O capitalismo deu origem ao laboratório moderno, transformando-o de um espaço de diversão aristocrática em um elemento indispensável do poder de classe por meio da institucionalização, mistificação, mercantilização e, acima de tudo, da luta de classes. Tal como estamos hoje, a riqueza material produzida coletivamente no laboratório é expropriada pela elite governante. Então, a questão agora deveria ser: como recuperamos o laboratório?

É sempre difícil traçar o caminho para um futuro indeterminado. Poucas coisas são certas: não devemos mais nos ver como jalecos brancos apáticos, mas entre as massas populares. Temos servido para perpetuar a opressão de classe através da produção de conhecimento e tecnologia para a burguesia; somos artesãos sendo destituídos de uma ordem econômica global em mudança; nos tornamos proletários, com o nosso destino ligado a todos os trabalhadores do mundo; e nós, junto com as massas trabalhadoras do mundo, somos os únicos agentes de mudança social que podem emancipar a ciência do domínio do capital, tanto dentro quanto fora do laboratório. O antigo protocolo, “educar, agitar, organizar”, ainda se aplica[40].

Esta análise crítica da história e do presente do laboratório leva a um futuro lógico – socializar o laboratório, nosso trabalho e os meios de produção de conhecimento.

Para educar. Os cientistas costumam pensar em si mesmos como educadores do público, mas, na verdade, somos nós que precisamos urgentemente de mais educação sobre os contextos sociais, políticos e econômicos nos quais nosso trabalho se desenvolve. Os cientistas devem se unir com organizações comunitárias e movimentos sociais radicais para definir conjuntamente o que constitui as necessidades sociais e quais pesquisas devem ser priorizadas. Devemos resistir ao isolamento das ciências naturais e sociais; facilitando o treinamento, comunicação e colaboração para confrontar a cumplicidade histórica de disciplinas acadêmicas específicas na opressão de classe. Enquanto isso, devemos criar locais alternativos de produção de conhecimento além dos laboratórios institucionalizados – a ciência não trata apenas de maquinários complexos; muito pode ser feito de maneira descentralizada pelas mentes infinitamente criativas das próprias pessoas.

Para agitar. A maioria dos cientistas ainda desfruta de relativamente mais riqueza material e liberdade de pensamento do que outras categorias de trabalhadores. A insularidade do laboratório, bem como a autonomia dos cientistas dentro dele, podem transformar o laboratório em um espaço para cientistas revolucionários se envolverem em rupturas e testarem os limites dos sistemas estabelecidos. Ao lado de colegas e parceiros da comunidade, podemos desenvolver a consciência de classe uns dos outros e filtrar a ideologia burguesa de nossa visão de mundo, investindo em nossa própria educação política e treinamento como cientistas ativistas. Podemos usar nossos métodos analíticos para impulsionar os movimentos e agitar o público para uma maior organização. Isso vira o laboratório de pernas para o ar, de um local de treinamento para empregos e acumulação de capital para um canal de radicalização.

Para organizar. Antes que qualquer uma das transformações acima possa ocorrer, devemos primeiro capturar o poder de decisão, seja por meio da sindicalização ou do estabelecimento de cooperativas de pesquisa. Juntos, cientistas e outros trabalhadores de laboratórios, incluindo toda a equipe de apoio, devem participar democraticamente das operações diárias do laboratório: a quais projetos dedicamos nossa força de trabalho e como delegamos e remuneramos o trabalho. Além disso, devemos mais uma vez reconhecer os fatos simples de que o laboratório não existe fora da sociedade e que a ciência acontece tanto fora do laboratório como dentro dele. A implicação social do conhecimento gerado no laboratório necessariamente nos situa nos movimentos sociais; por exemplo, ao estudar os efeitos prejudiciais ao meio ambiente e à saúde da mineração de urânio, os cientistas devem participar de campanhas de desnuclearização.

Esta análise crítica da história e do presente do laboratório leva a um futuro lógico – socializar o laboratório, nosso trabalho e os meios de produção de conhecimento. Embora os projetos e lutas descritos acima possam parecer assustadores, mudar a sociedade nada mais é do que um projeto científico colaborativo. As ferramentas para a construção de um futuro humano já estão presentes entre nós nas estruturas da ciência aberta, cooperativas, sindicatos e espaços dos movimentos. Este é o futuro que desejamos e este é o futuro que devemos construir.

Este artigo foi originalmente publicado na revista Science for the People.

Tradução de Allan Rodrigo de Campos Silva

[1] Robert E. Kohler, “Lab History: Reflections,” Isis; uma revista internacional dedicada à história da ciência e suas influências culturais 99, no. 4 (1 de dezembro de 2008): 761–68, https://doi.org/10.1086/595769 ; Peter JT Morris, The Matter Factory: A History of the Chemistry Laboratory (Reaktion Books, 2015).

[2] Thomas S. Kuhn, The Copernican Revolution: Planetary Astronomy in the Development of Western Thought (Harvard University Press, 1957).

[3] “Tycho Brahe, Laboratory Design, and the Aim of Science: Reading Plans in Context,” Isis; 84, no. 2 (1 de junho de 1993): 211–30, https://www.jstor.org/stable/236232

[4] David Berreby, “How Alchemy Led to the Modern Economy”, Big Think, 14 de março de 2012, https://bigthink.com/Mind-Matters/how-alchemy-led-to-the-modern-economy .

[5] Os cientistas de hoje muitas vezes zombam do grande teórico do Iluminismo Isaac Newton por sua obsessão com a alquimia como Rei da Casa da Moeda, mas eles falham em considerar que o papel primordial de Newton era salvaguardar o impacto econômico real da alquimia, apesar de suas fachadas arcaicas e secretas. A natureza secreta da alquimia, além disso, solidificou o poder da aristocracia usando a tecnologia.

[6] A manufatura aqui se refere à produção de mercadorias em pequena escala antes da revolução industrial, distinta da produção de máquinas e fábricas da era subsequente.

[7] Ursula Klein e EC Spary, Materials and Expertise in Early Modern Europe: Between Market and Laboratory (University of Chicago Press, 2010).

[8] CM Jackson, “The Laboratory”, A Companion to the History of Science , 2016, https://doi.org/10.1002/9781118620762.ch21 .

[9] Klaus H. Wolff, “Textile Bleaching and the Birth of the Chemical Industry”, Business History Review 48, no. 2 (1974): 143–63, https://doi.org/10.2307/3112839 .

[10]Morris, The Matter Factory.

[11] Eu sigo a definição marxista de burguesia. Traduzido do francês como “moradores da cidade”, essa nova classe de mercadores, proprietários de terras, advogados e banqueiros que constituíam a classe intermediária da sociedade francesa do século 19, entre aristocratas no topo e trabalhadores sem propriedade na base. Na sociedade de hoje, a burguesia é a classe dominante: ela não tem mais nada de intermediária.

[12] Robert Fox and Anna Guagnini, “Laboratories, Workshops, and Sites. Concepts and Practices of Research in Industrial Europe, 1800-1914 (Concluded),” Historical Studies in the Physical and Biological Sciences: HSPS / Office of History of Science and Technology, University of California, Berkeley 29, no. 2 (1999): 191–294, https://doi.org/10.2307/27757811.

[13] Jurgen Kocka, “Capitalism and Bureaucracy in German Industrialization before 1914,” The Economic History Review 34, no. 3 (1981): 453–68, https://www.jstor.org/stable/2595883 .

[14] FL Holmes, “The Complementarity of Teaching and Research in Liebig’s Laboratory”, Osiris 5 (1989): 121-64, https://doi.org/10.1086/368685 .

[15] Para garantir a competitividade e as proezas industriais da Alemanha, Bismarck exerceu forte intervenção estatal na economia. Um protótipo de programas modernos de bem-estar universal não apenas suprimiu o descontentamento dos trabalhadores, mas também forneceu uma oferta de trabalho saudável e educada para os industriais alemães.

[16] JF Buckman, “Quality Is Not Optional,” Transfusion , outubro de 1994, https://doi.org/10.1046/j.1537-2995.1994.341095026967.x .

[17] Concentro-me aqui em laboratórios de química por causa do domínio das indústrias químicas. Os laboratórios de outras disciplinas científicas, como física e fisiologia, ainda não produziam conhecimento comercializável à época.

[18] Charles F. Chandler, químico proeminente da Universidade de Columbia e fundador da American Chemical Society, era um consultor muito bem pago da Standard Oil.

[19] IG Farben foi acusada de crimes de guerra em Nuremberg em 1947 produzir o gás Zyklon B, utilizado nas câmaras de gás durante o Holocausto, assim como por empregar trabalho escravo dos campos de concentração. Treze executivos foram condenados com sentenças perpétuas na cadeia; entretanto, nenhum deles cumpriu mais do que três anos e em 1951 todos já estavam soltos. Estes mesmos capitalistas tomaram controle da BASF e da Bayer, remanescentes da dissolvida IG Farben, na reconstrução da Alemanha Ocidental.

[20] Aqui eu utilizo o termo “anti-fascista” em referência ao sentimento político comumente cientistas que participaram do Projeto Manhattan. Muitos deles entendiam e acreditavam que o mundo estava de fato entrando em uma era atômica, e, portanto, devotaram seus trabalhos para prevenir que regimes fascistas declarados explorassem este conhecimento. No entanto, para além da intenção de derrotar o fascismo, o desenvolvimento de armas de destruição em massa no fim das contas deu origem a tragédia do Império Norte-Americano.

[21] A era econômica de 1945-1973 é representada pela teoria e prática de duas figuras proeminentes: o economista John Maynard Keynes e o industrial Henry Ford. Keynes forneceu uma estrutura teórica para entender a crise após a Grande Depressão de 1929 como caracterizada pela demanda / superprodução insuficiente, defendendo assim o papel do estado de intervir na gestão da demanda efetiva no ponto de consumo excedente. Ford defendeu a criação de demanda em massa como um componente necessário para a produção em massa (de automóveis); como tal, a empresa Ford não apenas aumentou os salários dos trabalhadores, mas também investiu pesadamente em instituições sociais para moldar os hábitos de consumo dos trabalhadores como uma forma de fechar o ciclo da produção industrial. No contexto do laboratório, o fordismo-keynesianismo molda tanto as entradas (financiamento do governo) quanto a produção (resultados de pesquisas que servem a iniciativas dirigidas pelo Estado). Os laboratórios keynesianos também têm a função de absorver o capital excedente na formação de capital fixo e no avanço das tecnologias militares.

[22] A aura de sigilo que cerca a ciência e a tecnologia também foram exemplificadas por operações altamente classificadas em laboratórios nacionais.

[23] A população dos Estados Unidos aumentou 2 vezes de 1960 a 2000, enquanto o número de doutorados aumentou 7 vezes para 42.000 em 1999. Ver, Lori Thurgood, US Doctorates in the 20th Century: Special Report (National Science Foundation, 2006).

[24] Bruno Latour e Steve Woolgar, Laboratory Life: The Construction of Scientific Facts (Princeton University Press, 2013); Harry Collins, Changing Order: Replication and Induction in Scientific Practice (University of Chicago Press, 1992); Graeme Gooday, “Placing or Replacing the Laboratory in the History of Science?,” Ísis; an International Review Devoted to the History of Science and Its Cultural Influences 99, no. 4 (dezembro de 2008): 783–95, https://doi.org/10.1086/595772 .

[25] Latour e Woolgar, Laboratory Life .

[26] Bruno Latour, “Give Me a Laboratory and I Will Raise the World,” Science Observed: Perspectives on the Social Study of Science , 1983, 141-70, https://www.jstor.org/stable/24778192 .

[27] Em 1971, em resposta à queda da taxa de lucro, as elites dominantes americanas encerraram unilateralmente o sistema de Bretton-Woods, que desde o fim da Segunda Guerra Mundial regulava demandas efetivas nas economias do primeiro mundo por meio de investimentos planejados. O aprisionamento do dólar americano ao ouro e outras moedas foi liberado, facilitando a acumulação de capital por meio da rápida financeirização. A segunda fase da neoliberalização se estendeu por toda a década de 1980, caracterizada por aumentos nas taxas de juros como contramedidas ao efeito colateral da inflação durante a primeira fase. Isso resultou em desemprego em massa, enfraquecimento ainda maior dos sindicatos e na escravidão por dívidas.

[28] Thomas Heinrich, “Cold War Armory: Military Contracting in Silicon Valley,” Enterprise & Society 3, no. 2 (2002): 247–84, https://doi.org/10.1093/es/3.2.247 .

[29] Emily H. Jung et al., “Analysis: Large Pharma Companies Do Little New Drug Innovation – STAT”, 10 de dezembro de 2019, https://www.statnews.com/2019/12/10/large-pharma-companies- fornecer-pouco-novo-medicamento-desenvolvimento-inovação / .

[30] J. Ehmer, “Artisans and Guilds, History of,” International Encyclopedia of the Social & Behavioral Sciences , 2001, https://doi.org/10.1016/b0-08-043076-7/02706-6 .

[31] “No lugar da velha sociedade burguesa, com suas  classes e seus antagonismos de classe, surge uma  associação em que o livre desenvolvimento de cada um é pressuposto para o livre desenvolvimento de  todos.” Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista: O Manifesto Comunista (Expressão Popular, 2008).

[32] Udo Schüklenk, “Retraction Watch,” Bioethics 26, no. 6 (julho de 2012): ii, https://doi.org/10.1111/j.1467-8519.2012.01986.x .

[33] Atul Gawande, “The Mistrust of Science,” The New Yorker , 10 de junho de 2016, https://www.newyorker.com/news/news-desk/the-mistrust-of-science .

[34] National Science Board et al., “S&E Indicators 2016”, acessado em 12 de abril de 2021, https://www.nsf.gov/statistics/2016/nsb20161/ .

[35] Laboratórios de física controlados pelo setor privado diminuíram desde os anos 1980 em termos de espaço e cientistas diretamente empregados conduzindo as pesquisas. Mas o investimento e o fluxo de capital aumentou por meio da terceirização das atividades de pesquisa para as universidades. Isso pôde ser feito por meio de financiamentos diretos de empresas privadas para laboratórios universitários, por meio de contratos que negociam a propriedade de produtos de pesquisa, ou por meio de parceria público-privada para adquirir financiamento federal lucrativo, mantendo os direitos de patentes intelectuais.

[36] Navid Ghaffarzadegan et al., “A Note on PhD Population Growth in Biomedical Sciences”, Systems Research and Behavioral Science 23, no. 3 (maio de 2015): 402-5, https://doi.org/10.1002/sres.2324 .

[37] Wayne P. Wahls, “The NIH Must Reduce Disparities in Funding to Maximize Return on Investments from Taxpayers,” Your eLife 7 (23 de março de 2018), https://doi.org/10.7554/eLife.34965 .

[38] Chris Woolston, “PhDs: The Tortuous Truth,” Nature 575, no. 7782 (novembro de 2019): 403–6; Jordan Weissmann, “Ph.D. Programs Have a Dirty Secret: Student Debt, ” The Atlantic , 16 de janeiro de 2014, https://www.theatlantic.com/business/archive/2014/01/phd-programs-have-a-dirty-secret-student- dívida / 283126 / .

[39] Naomi Oreskes, “Racism and Sexism in Science Hav not Disappeared,” Scientific American , 1 de outubro de 2020, https://www.scientificamerican.com/article/racism-and-sexism-in-science-havent-disappeared/ .

[40] Federação social-democrata, Socialism Made Plain, o Manifesto Social e Político da Federação Democrática , 1883.

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