A África soterrada pelo lixo plástico do Ocidente

Imensas quantidades de resíduos da Europa e EUA chegam ao continente. Coca-Cola, grande responsável pelo caos, promove marketing perverso de ajuda humanitária, e empurra produtos a catadores miseráveis — a maioria deles, crianças

Por Sharon Lerner, no The Intercept Brasil

Rosemary Nyambura passa os fins de semana coletando plástico com sua tia Miriam no lixão de Dandora, em Nairóbi, capital do Quênia. O trabalho é exaustivo e toma tempo, pois as garrafas de plástico que elas vendem para outros comerciantes de resíduos são encontradas em meio a seringas, cacos de vidro, fezes, capas de celulares, controles remotos, solas de calçados, bugigangas, brinquedos, bolsas, embalagens, sacolas e uma quantidade incontável de películas plásticas. Mas Rosemary, de 11 anos, acredita que o esforço vale a pena. A maior parte de seus seis primos – com os quais ela vive desde que sua mãe faleceu – abandonou o ensino médio porque a tia dela não tinha condições de pagar a mensalidade escolar. Se Rosemary concluir a escola e cursar a faculdade de medicina, ela promete voltar a Dandora. “Vejo como as pessoas ficam muito doentes aqui”, disse a menina num sábado recente, enquanto escalava um monte de lixo com odor rançoso. “Se eu me tornar médica, inclusive ajudaria elas de graça.”

Com o valor que recebe em troca das coletas, vai demorar até Rosemary ter o suficiente para bancar seus estudos. Qualquer coisa que valha o mínimo que seja é disputada no lixão de Dandora, que se espalha por uma área de mais de 12 hectares na região leste da capital queniana. Grupos de empresários locais controlam quem negocia e coleta materiais no lixão, além de cobrarem tarifas para o acesso a certos locais. Pássaros, vacas e cabras já demarcaram suas áreas de alimentação. E os catadores por vezes brigam entre si pelos melhores achados. Sobras de comida de avião podem gerar disputas acirradas. Quem ganha devora completamente cada pedaço de pãozinho velho e seco, carne congelada e massa passada do ponto. O conteúdo dos potinhos de manteiga também é consumido. Em seguida, as embalagens plásticas são jogadas em enormes pilhas de resíduos.

Às margens do lixão, atravessadores compram garrafas PET – material que Miriam coleta sete dias por semana, recebendo menos de cinco centavos de dólar por quilo. O valor é maior do que o obtido em troca de embalagens de papelão, mas muito menor do que a quantia paga por latas. Para encontrar um quilo de garrafas plásticas, é necessário procurar por horas ou mesmo dias. E as bolsas que acomodam o material, chamadas de diblas, são muito grandes e pesadas para serem carregadas por crianças.

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A entidade local Dandora HCatadores trabalhando em meio a um vazamento de gás metano no aterro de Bantar Gebang em Jacarta, na Indonésia, em 23 de março de 2017. HipHop City encontrou uma forma de ajudar crianças que vivem perto do lixão e não têm resistência física ou tempo para catar e carregar um quilo de lixo. A organização trabalha para que elas consigam obter algo em troca de poucas garrafas ou pedaços de plástico. No “banco” criado pela entidade, um espaço modesto a uma quadra do aterro, é possível trocar lixo por pontos, que podem ser usados para a aquisição de óleo de cozinha, farinha, vegetais e outros itens essenciais. Fundada por um artista do hip hop que cresceu na região, a organização também desenvolve um programa voltado a jovens. Em um prédio que fica junto ao lixão, ornado com pintura manual e sucatas utilizadas como cadeiras e sofás, a organização oferece um espaço para escrita, práticas musicais em computadores velhos, jogos ou para simplesmente passar o tempo.

Mas as quantias irrisórias que o grupo obtém em troca do plástico coletado não cobre o custo dos alimentos oferecidos pelo banco. Diante disso, a entidade tem usado doações de empregados e amigos para bancar suas atividades. A Dandora HipHop City buscou apoio junto à Coca-Cola, que parecia o parceiro empresarial perfeito. De um lado, avaliada em mais de 200 bilhões de dólares, a gigante do setor de bebidas vê a África como “um dos principais motores de crescimento para que a empresa avance”, conforme declaração recente do CEO James Quincey. De outro, as crianças de Dandora, que sofrem de fome, negligência e diversos problemas de saúde relacionados ao lixão e coletam muitas garrafas da empresa – por vezes, catando o material quando deveriam estar na escola.

Em setembro de 2018, uma delegação da Coca-Cola visitou a sede da entidade. Gerente de programas da Dandora HipHop City, Charles Lukania conta que, após o encontro, enviou uma proposta e um orçamento a membros da equipe de marketing que estiveram na reunião, ressaltando de que forma a empresa poderia apoiar o projeto do banco de coletas. Mas a visita e a proposta não resultaram em nenhum financiamento. Em vez disso, “eles ofereceram um refrigerador cheio de Coca, que as crianças poderiam comprar”, afirma o gerente. Lukania explica que a maioria das crianças que trabalham no lixão não tem condições de adquirir refrigerantes: “Qualquer mísero dinheiro é usado para comprar comida”.

Semanas depois, a empresa firmou uma parceria com a organização para realizar mutirões de limpeza, mas esses eventos não envolviam apoio financeiro direto. Em vez disso, garrafas de Coca-Cola eram dadas aos voluntários – somente após horas de coleta sob sol escaldante. “E os refrigerantes estavam em garrafas plásticas”, lembra Lukania.

Em resposta por e-mail às perguntas enviadas pelo Intercept, Camilla Osborne, chefe de comunicação da Coca-Cola para as regiões sul e leste da África, reconheceu que “nossa parceira de envase Coca-Cola Beverages Africa, no Quênia, ofereceu hidratação e lixeiras de reciclagem” em um dos eventos da entidade. Mas, segundo Osborne, “a empresa e seus parceiros de envase no Quênia não têm conhecimento de uma solicitação de verba por parte do grupo e não teve qualquer envolvimento direto” com a organização.

Osborne também observou que “Nenhuma organização é capaz de resolver sozinha os problemas do plástico no mundo”.

Justiça seja feita, a empresa é apenas uma de muitas que terceirizam os custos de limpeza de seus produtos e embalagens. Embora a Coca-Cola seja a maior fonte de resíduos plásticos na África e no mundo inteiro, segundo uma pesquisa global de 2019, todos os tipos de organização que produzem plástico e usam o material em seus produtos transferem para a sociedade os custos de prevenção e tratamento dos danos causados.

Nos Estados Unidos, essa terceirização fez com que os municípios arcassem com a coleta, o transporte e o processamento do lixo plástico dos fabricantes. Por anos, esse ônus era camuflado pela exportação de aproximadamente 70% dos resíduos para a China. Mas, desde que o país asiático fechou as portas para a maior parte do plástico oriundo dos Estados Unidos, as cidades norte-americanas descobriram que não têm recursos suficientes para destinar à reciclagem. Os governos locais abandonaram a atividade, provocando um incômodo generalizado e reforçando a conscientização sobre a persistência do plástico no meio ambiente.

Em países pobres, que agora sofrem de forma desproporcional com a crise global do plástico, o cálculo é outro. Embora as atrocidades ambientais tenham constrangido mercados de muitas nações ricas – e ainda que, ao final da pandemia do coronavírus, a rejeição ao plástico deva aumentar nesses países –, o uso do material em produtos e embalagens segue em ascensão na África e em outras regiões. Com a mudança da política chinesa em relação a resíduos plásticos, Estados Unidos, Austrália e diversas nações europeias têm exportado seu lixo para outros países com capacidade ainda menor de lidar com o problema. Sem infraestrutura adequada para processar os materiais e sem os recursos para empurrar o lixo para outros lugares, o plástico soterrou essas nações, entupindo cursos d’água e inundando espaços urbanos e rurais – ao ponto de o material se misturar com o alimento de animais. Como o plástico não é biodegradável, suas partículas permanecem na água, no solo e no ar por séculos.

Enquanto a gestão do lixo plástico onera governos locais nos Estados Unidos, nos países em desenvolvimento sem coleta de resíduos ou sistemas de reciclagem subsidiados o ônus recai sobre os indivíduos. No Quênia, onde cerca de 18 milhões de pessoas vivem com menos de 1,90 dólar por dia, a responsabilidade da qual se eximem algumas das empresas mais lucrativas do mundo acaba nos ombros das pessoas mais pobres do planeta, como Rosemary e sua tia. E o Quênia é apenas um entre dezenas de países onde o plástico é responsável por violações de direitos humanos, trabalho infantil e danos ao meio ambiente.

Miriam Nyambura e sua sobrinha de 11 anos, Rosemary, catam embalagens de papelão, papéis e garrafas plásticas no lixão de Dandora em 29 de fevereiro de 2020. Nyambura coleta em média 20 quilos de resíduos por dia. Foto: Khadija Farah para o The Intercept

Fogo no lixão

Mesmo nas melhores circunstâncias, a reciclagem de plástico não funciona muito bem. Ao contrário do que acontece com o vidro, que pode ser infinitamente reaproveitado, o plástico pode apresentar perdas significativas após uma única reciclagem. “Cada estágio do tratamento pós-consumo degrada a qualidade funcional do polímero”, explica Kenneth Geiser, professor emérito da Universidade de Massachusetts Lowell, referindo-se às moléculas que compõem diversos tipos de plástico. “Os polímeros geralmente perdem força, estabilidade e maleabilidade à medida que as ligações moleculares são comprometidas ou rompidas durante os processos de reciclagem”, afirma Geiser, fundador do Center for Environmentally Appropriate Materials [Centro para Materiais Ambientalmente Apropriados]. Todo tipo de plástico contém aditivos químicos que afetam cor, maleabilidade e outros atributos – e que, mais tarde, dificultam a reciclagem. “Ainda que o polímero possa ser derretido e reaproveitado em laboratório, isso não é tão fácil na prática”.

Os países ricos não conseguem reciclar a maior parte do plástico que utilizam. O processo envolve limpeza, classificação e trituração do material. Depois o plástico moído é transformado em flocos que mais tarde se tornam novos produtos. Nos Estados Unidos, o índice de reciclagem do plástico alcançou um pico de 9,5% em 2014. Mas nos países em desenvolvimento onde não há infraestrutura adequada, o processo é mais difícil – e mais caro. No mundo inteiro, o plástico reciclado custa mais que o “virgem” ou recém-produzido, que é mais barato tanto pelo baixo custo dos combustíveis fósseis subsidiados para a produção do material como pelo preço, que não contempla o custo de sua limpeza.

Na Nigéria, a coleta de latas vazias rende 10 a 15 vezes mais que a de plástico. Em Zâmbia, “ninguém vai comprar”, diz Michael Musenga, diretor da Children’s Environmental Health Foundation [Fundação de Saúde Ambiental da Criança]. “As pessoas levam isso [o plástico] de um lado pro outro e simplesmente queimam [o material coletado]”.

Na Índia, onde há pouco incentivo financeiro para a recuperação do plástico, as pilhas de lixo crescem rápido. Um aglomerado de lixo seco e orgânico com mais de 20 metros de altura, conhecido como Monte Pirana, foi erguido perto de uma escola na cidade de Ahmedabad. Quatro mil toneladas chegam diariamente ao aterro, e crianças das proximidades sofrem com dores de cabeça, problemas nervosos, dificuldades respiratórias e cânceres, segundo Mahesh Pandya, ativista ambiental e de direitos humanos que vem trabalhando com a população afetada.

Numa área próxima à estrada Samit, em Adis Abeba, capital da Etiópia, o jovem Hala Debeba e um grupo de amigos têm vivido com margens de lucro estreitas obtidas com a venda de plástico reciclado. Enquanto carros passam e cabras dormem no canteiro central da rodovia, os atravessadores compram garrafas plásticas coletadas pelos catadores – mulheres, em sua maioria –, que carregam os resíduos em bolsas gigantes equilibradas entre a cabeça e as costas. Debeba e sua turma separam as garrafas em sacolas ainda maiores e vendem esses pacotes a outros comerciantes, que transportam as garrafas em caminhões para recicladores. Em cada estágio desse ciclo econômico informal, a margem de lucro muda apenas alguns centavos por quilo. Trabalhando de dez a 12 horas por dia, sete dias por semana, os jovens vendedores de plástico, que chamam seu negócio de gwadenyochi – a palavra amárica para “amigos” –, recebem o suficiente para alugar um quarto compartilhado onde dormem algumas horas entre os turnos no lixão.

Mas o valor do plástico também está caindo por aqui. Mesmo a resina mais valiosa, um plástico claro e espesso conhecido como “Obama”, está perdendo valor. Em dias mais lucrativos, esse material durável – mantido em um saco vermelho especial, separado de outros – rende pouco mais de um dólar por quilo. Como o ex-presidente norte-americano, admirado por ter conseguido congregar pessoas de diferentes raças, o plástico Obama – normalmente utilizado para prender seis garrafas ao mesmo tempo – é visto como unificador. Entretanto, nos Estados Unidos e em todo o mundo, o plástico gera divisões sobre quem deve ser responsabilizado pela poluição que provoca.

A grande divisão

Dois projetos de lei recentemente apresentadas no Congresso norte-americano apresentam visões distintas de como lidar com a crise do lixo plástico. Um deles, chamada Save Our Seas Act 2.o [Lei “Salve nossos mares 2.0”] propõe que verbas de impostos sejam destinadas a aperfeiçoar o atual sistema de reciclagem e encontrar usos para os resíduos do material. A proposta inclui o financiamento de pesquisas sobre o uso de plástico reciclado para a montagem de carros e a construção de pontes. O projeto, apresentado em junho pelo senador republicano Dan Sullivan e aprovada no Senado em janeiro, é apoiado pelo American Chemistry Council [Conselho de Química dos Estados Unidos] – grupo comercial que representa fabricantes de componentes químicos utilizados no plástico.

O outro projeto de lei, intitulado Break Free From Plastic Pollution Act [Lei “Libertação da poluição plástica”], apresentado em fevereiro no Senado norte-americano, enxerga o plástico por outra perspectiva. Com o entendimento de que “não podemos reciclar nossa saída dessa crise usando o sistema existente”, o senador Tom Udall e o deputado Alan Lowenthal – ambos democratas –, coautores do projeto, propõem que os fabricantes sejam responsabilizados pelo lixo plástico. Defendem também a criação de um programa nacional de retorno de embalagens, a interrupção temporária da construção de novas fábricas de plástico e a eliminação de “produtos plásticos de uso único desnecessários” a partir de 2022. O projeto inclui também medidas destinadas a verificar se o plástico norte-americano está sendo transportado para outros países.

Mesmo antes da crise do coronavírus, o projeto de Udall – cuja aprovação foi considerada improvável pelo New York Times em fevereiro – enfrenta uma dura batalha em Washington. Desde o começo da pandemia do coronavírus, as perspectivas do projeto se tornaram, por diversos motivos, ainda menores, à medida que a indústria aproveita a emergência global como oportunidade para promover seus produtos.

A Plastics Industry Association [Associação da Indústria de Plásticos], grupo comercial norte-americano que representa empresas de todos os níveis da cadeia produtiva do material, municiou seus associados com cartas para reivindicar que seus negócios – produção de plástico de uso único e outros produtos – sejam excluídos das determinações de isolamento social. “Desde embalagens de remédios até as de equipamentos médicos – incluindo, muitas vezes, os próprios equipamentos –, os plásticos são essenciais para garantir a segurança de profissionais de saúde, pacientes e consumidores”, explica a mensagem, destinada a “[Autoridade estadual ou local]”. “Solicitamos que a [Empresa] seja designada como ‘essencial’ nesse momento crítico.”

Em março, a associação escreveu a Alex Azar, secretário de Saúde e Serviço Social, solicitando que ele fizesse “uma declaração pública sobre os benefícios do plástico de uso único para a saúde e a segurança”.

Enquanto isso, Matt Seaholm, diretor-executivo da American Recycled Plastic Bag Alliance [Aliança Americana de Bolsas Plásticas Recicladas] – divisão da Plastics Industry Association que trabalha para retardar e evitar proibições relacionadas ao material –, tem publicado tuítes com notícias e editoriais de veículos como Wall Street Journal, Forbes e Fox News com argumentos contrários às bolsas reutilizáveis – ou “bolsas de reprodução de bichos”, como definiu o New York Post. O uso do acessório durante a pandemia seria um risco à saúde. Embora o coronavírus também se mantenha vivo em superfícies plásticas, as publicações apontam essas sacolas como fontes de infecção. As matérias citam estudos do pesquisador Ryan Sinclair, que deu um depoimento à Plastics Industry Association, enviado ao secretário Azar, atestando as ameaças das bolsas reutilizáveis.

Sinclair publicou três estudos sobre o tema. Um deles, de 2011, foi financiado pelo American Chemistry Council. Os demais, publicados em 2015 e 2018, foram apoiados por um grupo obscuro, com sede na Califórnia, chamado Environmental Safety Alliance [Aliança de Segurança Ambiental], cujo secretário é um ex-lobista do mercado de armas que acredita que as leis deveriam ter a Bíblia como fundamento. A organização advoga contra as bolsas reutilizáveis desde 2012. Embora o estudo de 2018 conclua que qualquer ameaça de infecção dessas sacolas pode ser combatida pelo hábito de lavar as mãos e pela higienização dos acessórios, a indústria do plástico tem mencionado os riscos de contaminação para questionar as proibições de sacolas plásticas. A indústria petroquímica, que produz os componentes químicos usados na produção de plásticos, também está explorando a pandemia para exigir o recuo de regulamentações ambientais – e, em muitos casos, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos está consentindo.

Na Europa, também se percebe certo recuo. Recentemente uma associação comercial da indústria de plásticos se manifestou junto à Comissão Europeia solicitando a revogação das proibições a itens plásticos de uso único e o adiamento da implementação de uma proibição em nível continental prevista para entrar em vigor em julho de 2021. Pedidos similares ocorreram na Turquia, na Alemanha e na Itália.

De qualquer forma, as proibições de plásticos de uso único aprovadas na Europa e no Canadá devem começar a valer em 2021. O oportunismo da indústria do plástico fez pouco para reverter a onda de legislações que de alguma forma limitaram a utilização de plásticos de uso único em pelo menos 127 países. A proibição de alguns materiais desse tipo implementada na China virou lei em janeiro e deve entrar em vigor nas cidades chinesas até o final de 2020 – essa política deve causar o maior impacto na demanda mundial de plásticos visto até agora.

Na África, continente líder em proibições ao uso de plásticos, já são mais de 35 legislações sobre o tema. Em Senegal, recentemente foram banidos os sachês de líquidos e os copos plásticos. No Quênia, uma proibição de bolsas plásticas segue em vigor e é vista como eficaz. Desde a aprovação da lei em 2017, as sacolas que antes apareciam voando pelas ruas, trancando córregos e penduradas nas árvores desapareceram.

O governo do Quênia também aprovou uma lei voltada a todos os plásticos de uso único, incluindo garrafas, em parques nacionais e áreas protegidas, que deve começar a valer em junho de 2020. Mas essas áreas correspondem a somente 11% do país, e uma proibição mais ampla de garrafas plásticas será mais difícil, segundo James Wakibia, fotógrafo e ativista queniano que lutou pela proibição. Wakibia conta que enfrentou pouca oposição nos quatro anos em que fez campanha para banir as sacolas plásticas. Ele acredita que uma proibição nacional de garrafas plásticas suscitará uma resposta diferente das empresas de bebidas.

“A indústria não aceitaria isso”, diz Wakibia. “Bebidas em garrafas plásticas são um negócio pujante no Quênia, e quase todas as empresas trocaram o vidro pelo plástico. Eles fariam qualquer coisa para impedir esse tipo de ideia – processos judiciais, financiamento de críticos, criação de campanhas absurdas e práticas de greenwashing [também conhecidas como ‘lavagem verde’, que dissimulam atitudes sustentáveis] em nome da conservação.”

Pouco depois de a autoridade nacional de gestão ambiental do Quênia mencionar a possibilidade de uma proibição nacional das garrafas plásticas, em janeiro de 2018, a Coca-Cola, a Unilever e a Kenya Association of Manufacturers [Associação Queniana de Fabricantes] anunciaram a formação da PETCO. A organização se descreve como uma iniciativa da indústria do plástico do Quênia que busca “autorregular” a reciclagem de garrafas PET. As empresas fundadoras fizerem um esforço semelhante em 2010, usando o mesmo nome, mas o projeto foi abandonado no ano seguinte.

A PETCO tem um logo verde com o infame triângulo de setas para indicar sustentabilidade e usa o slogan #do1thing. Recycle [#faça1coisa. Recicle]. Mas não se trata de uma entidade ambiental – o escritório da organização fica na sede da Coca-Cola em Nairóbi, junto a mais de uma dezena de empresas. E ainda que a sua atuação pareça, por ora, ter abafado o debate em torno de uma proibição nacional das garrafas plásticas, a iniciativa não resolveu o problema do lixo. Garrafas PET que continham Coca-Cola e outras bebidas seguem espalhadas por todo o país – e projetos que pretendiam utilizar plástico PET reciclado alegam não conseguir obter material suficiente para desenvolver produtos. Talvez porque a PETCO tenha oferecido apenas 385.400 dólares em subsídios para o mercado da reciclagem de plástico em 2019, uma quantia que não torna a coleta e o processamento do lixo plástico vantajosos – mesmo no contexto econômico queniano.

Joyce Wanjiru, gerente nacional da PETCO Quênia, afirma que os subsídios da empresa “deram condições aos recicladores de forma significativa no mercado, permitindo que eles produzissem flocos e granulados [de plástico] que tornam seus produtos internacionalmente competitivos”. Wanjiru aponta que, na crise do coronavírus, algumas das empresas que integram a PETCO ofereceram máscaras, desinfetantes para as mãos e vouchers de comida aos catadores de lixo do Quênia, os quais ela chama de wastepreneurs [trocadilho com as palavras “lixo” e “empreendedor”, em inglês].

Mwangi Mboya supervisiona o lixão de Dandora, em Nairóbi, no Quênia. “Cresci aqui”, ele conta. “Essas pessoas são a minha família.” Foto: Khadija Farah para o The Intercept

A solução de 1%

A decisão de posicionar a PETCO como força em prol do meio ambiente – e uma solução voluntária que pudesse prevenir legislações vinculativas – integra a estratégia global que a indústria do plástico adotou em resposta à crescente conscientização sobre a crise. No ano passado, grandes empresas envolvidas na produção do material – incluindo BASF, Chevron Phillips Chemical Company LLC, Covestro, Dow Chemical, Exxon Mobil e Formosa Plastics – formaram a Alliance to End Plastic Waste [Aliança para acabar com os resíduos plásticos]. O grupo prometeu 1,5 bilhão de dólares para pôr fim ao lixo plástico. A quantia parece expressiva, mas o compromisso equivale a 1% de 150 bilhões de dólares – valor total estimado para viabilizar a retirada dos resíduos plásticos dos oceanos.

Para além da quantidade de plástico nos oceanos, há 8,3 bilhões de toneladas já produzidas e 380 milhões de toneladas que entram no mercado a cada ano – o equivalente ao peso total de todos os seres humanos que vivem no planeta. Os resíduos dessa indústria vão parar nos mais variados cursos d’água, no ar, no solo e dentro dos nossos corpos. Em média, uma pessoa consome cerca de dois mil fragmentos de plástico por semana – o equivalente à quantidade de plástico em um cartão de crédito. Embora haja muito o que aprender sobre os efeitos dessa ingestão, pequenas doses de alguns químicos presentes no plástico podem afetar o desenvolvimento, a reprodução e a saúde de um ser humano.

A Alliance to End Plastic Waste não respondeu aos pedidos de entrevista para esta reportagem.

Em abril de 2019, Coca-Cola, Nestlé, Unilever e a empresa de bebidas Diageo lançaram um grupo empresarial voltado a conter a crise do plástico na África. A Africa Plastics Recycling Alliance [Aliança de Reciclagem do Plástico na África], que inclui entre seus membros a empresa de alimentos sul-africana Promisador, busca “transformar o atual desafio do lixo plástico na África subsaariana em oportunidade de empregos e atividades comerciais, aperfeiçoando a coleta e a reciclagem de plásticos”, conforme nota divulgada pelo grupo. Os contatos de imprensa informados pela empresa não responderam às perguntas do The Intercept sobre qual valor estava sendo destinado à iniciativa e quais projetos estão em andamento. Mas vale observar que mesmo antes da união dessas grandes empresas, seu poderio financeiro já ultrapassava de forma inequívoca o de grupos ambientais – e mesmo o de governos dos países onde elas operam. O valor estimado de Coca-Cola e Nestlé, as duas maiores integrantes da aliança, ultrapassa o orçamento de qualquer país africano.

Os críticos zombam das módicas contribuições que a indústria do plástico destina para a limpeza de resíduos, já que as empresas seguem jogando pesado na proteção de seus negócios. “É dinheiro investido para manter a licença de poluir”, afirma David Azoulay, diretor do programa de saúde ambiental do Center for International Environmental Law [Centro de Direito Ambiental Internacional], em relação à Alliance to End Plastic Waste. “O que você pensaria de alguém que diz ‘Te dou uma moeda para a limpeza, em troca, vou gastar 250 paus jogando lixo no seu jardim’? Ninguém toparia.”

Defensores do uso do plástico em países pobres dizem que eles têm pouco a fazer além de lidar com os ditames das grandes empresas de bebidas. Embora apoie as alianças global e africana, a Coca-Cola anunciou no Fórum Econômico de Davos, realizado em janeiro, que a empresa continuaria a usar garrafas plásticas. Mesmo que nos últimos anos tenham surgido protestos em relação ao lixo plástico da empresa, a chefe de sustentabilidade da Coca-Cola, Bea Perez, explica que a substituição do plástico poderia excluir consumidores, afetar as vendas e aumentar a pegada de carbono da empresa. Perez, no entanto, não apresentou evidências de suas alegações. Verdadeiro ou não, o pronunciamento – feito enquanto Perez manifestava seu respeito pelos jovens ativistas contrários aos canudos plásticos – indica o sinal verde da Coca-Cola em relação à produção do material. Segundo dados da multinacional, a empresa produziu 117 bilhões de garrafas plásticas em 2018 – cerca de 200 mil por minuto.

Vivendo em uma cidade pequena localizada a pouco mais de 60 km ao norte de Nairóbi, Betterman Simidi Musasia reconhece que tem poucas chances de influenciar as gigantes responsáveis pela maior parte da poluição plástica. “Quando você enfrenta empresas como a Coca-Cola, as coisas já estão contra você”, diz Musasia, que tem 39 anos e fundou uma organização chamada Clean Up Kenya em 2015. Ele não é remunerado por sua atuação ambiental, que nasceu do desgosto em relação à “inimaginável” quantidade de lixo plástico em sua cidade. Musasia financia a organização com recursos modestos obtidos em seu pequeno negócio e, entre uma atuação e outra, trabalha mais de 60 horas semanais.

Além de liderar mutirões de limpeza e ensinar crianças a lidarem de forma responsável com o lixo, a Clean Up Kenya adotou posições duras: a organização defende a proibição nacional de garrafas plásticas e classificou a indústria que vende água engarrafada de “esquema”, chamando atenção para a injustiça da criação de aterros sanitários em bairros pobres. A recomendação do grupo de que as empresas se responsabilizem pelo lixo que produzem se mostrou incendiária. Musasia e seus colegas manifestaram apoio ao sistema nacional de retorno de garrafas plásticas quando se encontram com representantes de empresas de bebidas – os quais não só rejeitaram a ideia como, em parte, responderam com ameaças veladas.

“Disseram que, para o nosso próprio bem, deveríamos interromper a campanha”, conta Musasia, que apesar disso segue comprometido na árdua batalha contra o plástico. “Quanto mais pessoas em todo o mundo souberem disso, mais a Coca-Cola e outras empresas serão forçadas a agir de forma responsável.”

Mesma empresa, mesmo plástico

Em fevereiro, numa conferência sobre sustentabilidade em Bruxelas, o executivo da Coca-Cola Bruno Van Gompel, que trabalha na cadeia de distribuição da empresa, fez uma apresentação encorajadora sobre o plástico. Ele prometeu que a Coca-Cola passaria a coletar todas as suas embalagens na Europa ocidental. A empresa não respondeu por que não fez a mesma promessa em relação a outras regiões do planeta, mas apontou que o compromisso estabelecido em 2018 – coletar e reciclar o equivalente a cada garrafa ou lata que a empresa vende globalmente até 2030 e tornar todas as suas embalagens recicláveis até 2025 – vale para todos os países.

A coleta de lixo não é a única questão relacionada ao plástico com a qual as multinacionais de bebidas lidam de forma diferente conforme a região. Embora a Coca-Cola tenha um longo histórico de oposição a leis que tratam de garrafas plásticas, Van Gompel disse que a empresa passaria a apoiar “esquemas bem projetados de retorno onde uma alternativa comprovada não exista”. Mas a Coca-Cola se opôs aos sistemas desenvolvidos no Quênia e em toda a África. Em seu e-mail, Osborne, porta-voz da empresa, confirmou que a empresa não acredita que esse tipo de sistema seja apropriado para o Quênia e defendeu a iniciativa da PETCO como a ideal.

“Nem todos os países têm as pré-condições de sucesso” para os sistemas de retorno, escreveu Osborne. “Acreditamos que, sem essas condições, um sistema de retorno pode não só afetar negativamente o ambiente do varejo e frustrar os consumidores, como também prejudicar cadeias de reciclagem existentes ao retirar itens de alto valor como garrafas PET e latas de alumínio.” Ela também apontou que “atualmente participamos em sistemas de retorno justos, liderados pela indústria, em aproximadamente 40 mercados de todo o mundo”.

O que se observa é que a Coca-Cola apoiou de forma relutante leis que exigiam, por parte das empresas de bebidas, a inclusão de uma taxa em seus produtos que fosse devolvida aos consumidores mediante a entrega de garrafas. Osborne apontou que a empresa apoia leis relacionadas às garrafas plásticas em “diversos estados norte-americanos”. Em outro contexto, em 2017, a Coca-Cola apoiou um plano escocês de devolução de garrafas, mas somente após o Greenpeace vazar documentos revelando que a empresa havia lutado contra a proposta por anos.

Na Austrália, de modo semelhante, a Coca-Cola apoiou uma lei de retorno de garrafas no Território do Norte, mas inicialmente buscou a Justiça para impedir a legislação. Além disso, o grupo nacional da indústria de bebidas, integrado pela Coca-Cola, fez um lobby intenso contra o projeto. Em certa medida a empresa perdeu a guerra contra os sistemas de retorno, que foram adotamos recentemente em Nova Gales do Sul, no Território da Capital Australiana e na Austrália Ocidental – onde o projeto foi adiado devido à pandemia do coronavírus. A Coca-Cola agora tem participação nesses programas.

As empresas de bebidas podem ser avessas à implementação global desse tipo de sistema por conta dos custos, segundo especialistas em lixo. “São tantas garrafas por aí que se eles instituem um sistema real de retorno, seria um imenso passivo”, afirma Usman Valiante, analista sênior de políticas no Circular Economy Lab, do Canadá, que classifica a promessa de Van Gompel como uma “bravata de relações públicas”. “Se há um retorno de cinco centavos, multiplique isso por bilhões e bilhões de garrafas. São bilhões de dólares. Eles dizem que querem atingir essas metas, mas se quisessem mesmo fazer um esforço significativo, teriam que desenvolver uma cadeia de logística reversa, que implicaria contratar pessoas e construir instalações, e eles não estão dispostos a nada disso.”

Valiante prevê que as empresas de bebidas não vão abandonar o plástico a menos que sejam obrigadas. “É muito barato produzir e usar [o material]”, explica. Para a Coca-Cola, que sistematicamente desmantelou a rede de empresas locais que faziam o reenvase e a distribuição de garrafas de vidro – à medida que adotava o plástico de uso único –, a mudança teve um benefício extra. “Normalmente essas empresas não envasavam apenas Coca-Cola, mas também marcas locais de refrigerantes”, diz Valiante. “Quando elas saíram do mercado, as marcas locais com as quais trabalhavam também desapareceram. Eles [Coca-Cola] mataram a competição.”

Osborne insistiu que a Coca-Cola não desmantelou sua rede africana de envase. Pelo contrário, ela conta que “muitos dos parceiros de envase da The Coca-Cola Company (TCCC) tornaram-se o maior engarrafador da África, a Coca-Cola Beverages Africa (CCBA), oitava maior parceira de envase da Coca-Cola em todo o mundo”.

Ainda que Van Gompel tenha prometido que a Coca-Cola estaria em breve “explorando” opções de reenvase, sabe-se que a empresa foi pioneira dessas possibilidades e conhece bem as alternativas. Em muitas áreas rurais dos países em desenvolvimento, as antigas garrafas de Coca-Cola seguem em uso. Em seu e-mail, Osborne afirma que garrafas retornáveis já representam a metade ou mais das vendas em 25 países, ainda que ela inclua nesses dados garrafas de plástico, como as que a empresa recentemente passou a comercializar na África do Sul.

Mesmo sem uma intervenção, Valiante alerta, a empresa pode acabar com as garrafas retornáveis de vidro. “Se os governos não introduzirem em breve determinações sobre sistemas de retorno, elas podem ser extintas”, explica.

Lixo plástico cobre as margens do rio Nairóbi em 15 de fevereiro de 2020. Embora poluído, o rio é usado pela população mais pobre para limpeza, banho e irrigação de plantações. Foto: Khadija Farah para o The Intercept

Socorro norte-americano

A revolta global em relação ao plástico é tão grande que mesmo o governo Trump, notório por priorizar os negócios em detrimento do meio ambiente, recentemente começou a debater o tema. Em novembro, em seu último dia como secretário de Energia, Rick Perry anunciou uma iniciativa norte-americana para lidar com o lixo plástico. Perry estava saindo do governo após seus esforços na Ucrânia para concretizar um acordo de gás natural –principal combustível utilizado para produzir plástico – o terem envolvido na investigação do processo de impeachment de Donald Trump. Seu programa de despedida, o Plastics Innovation Challenge [Desafio de inovação em plásticos] ofereceria bolsas do Departamento de Energia a empresas norte-americanas com ideias inovadoras para combater a crise do plástico. Mas se essas iniciativas resolvessem o problema, Perry insistiu, os Estados Unidos não poderiam ser responsabilizados pela crise.

“Acredito que oito rios no mundo levam cerca de 90% do lixo para os oceanos”, informou Perry em entrevista. “Nenhum deles fica nos Estados Unidos.” Ele fazia menção a um estudo de 2017 que se tornou o favorito da indústria do plástico. Publicada na revista científica Environmental Science and Technology, a pesquisa mostrava que dez rios – oito na Ásia e dois na África – transportam entre 88 e 95% de todo o plástico lançado nas águas do planeta.

Mas Perry não percebeu que o plástico acumulado nesses rios tinha saído dos Estados Unidos e da Europa – bem como os produtos que estavam dentro dessas embalagens. Cerca de 172 toneladas de plástico e seus componentes químicos, no valor de 285 bilhões de dólares, foram exportados para 33 países africanos entre 1990 e 2017, conforme estudo publicado ano passado na revista Environmental Sciences Europe. E pesquisas já apontaram mais de uma vez que a Coca-Cola e a Pepsi, quintessência das marcas norte-americanas, estão entre as maiores poluidoras do mundo.

Mesmo Christian Schmidt, autor do estudo citado por Perry, não acredita que sua pesquisa exima de responsabilidade os produtores de plástico. “As grandes empresas não são isentas”, afirma Schmidt, que vive na Alemanha. Embora sua pesquisa tenha de fato identificado uma enorme poluição plástica em dez rios na Ásia e na África, incluindo Mekong, Indo, Yangtzé, Amarelo, Nilo e Níger, “eles não podem dizer que é um problema local”, diz Schmidt. Segundo o pesquisador, “os produtores deveriam ser responsabilizados cada vez mais” na África, como vem ocorrendo na Europa.

Independentemente da origem do plástico, o Departamento de Energia dos Estados Unidos – que não respondeu aos nossos pedidos de entrevista – claramente acredita que rios, oceanos e aterros se tornaram mais uma oportunidade de negócio para empresas norte-americanas. Como disse uma autoridade do departamento, “embora esse problema em grande medida não tenha sido criado pelos Estados Unidos, acreditamos que a liderança norte-americana pode ter um grande papel na solução”. Perry define o programa de bolsas como uma oportunidade “de trabalhar com outros países em alguns desafios que eles têm”.

Em fevereiro, o departamento anunciou que firmaria uma parceria com o American Chemistry Council no programa. O grupo comercial representa as empresas Dow, BASF, Chevron Phillips Chemical Company LLC, Exxon Mobil Chemical Company, LyondellBasell e muitas outras multinacionais que contribuíram para criar o problema do plástico que o programa tenta resolver. Entre as propostas para as quais as bolsas do governo podem ser usadas está a produção de mais plástico. Embora o anúncio de apresentação tenha especificado que o Departamento de Energia buscava propostas para a criação de novos plásticos “recicláveis”, muito da poluição que se encontra no oceano – e que o departamento tenta combater – também é, em teoria, se não na prática, reciclável.

Quem acompanha de perto a crise global do plástico percebe uma amarga ironia na identificação dos países pobres como responsáveis pela crise e os Estados Unidos como a salvação. “Nós enviamos esse lixo para eles, então agora vamos virar e dizer ‘Veja essa gente, não consegue nem cuidar do seu plástico’”, diz Azoulay, do Center for International Environmental Law. “E agora essas mesmas pessoas estão dizendo ‘Você tem algum problema? Deixe-nos oferecer uma solução tecnológica que temos, com patente nossa, para a qual vocês vão ter que pedir empréstimos para implementar.”

Catadores trabalhando em meio a um vazamento de gás metano no aterro de Bantar Gebang em Jacarta, na Indonésia, em 23 de março de 2017. Foto: Edy Susanto/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Um problema incendiário

Os Estados Unidos e o American Chemistry Council focam na reciclagem como solução, mas nos países em desenvolvimento a modificação e reciclagem do plástico pode ser especialmente perigosa. Em Camarões, o lixo plástico é derretido na lama e depois misturado com areia para pavimentar estradas, segundo Gilbert Kuepouo, coordenador do grupo ambiental camaronês Research and Education Center for Development [Centro de Pesquisa e Educação para o Desenvolvimento]. Embora o ministro do Meio Ambiente de Camarões descreva a prática como sustentável, o plástico é derretido a céu aberto e libera gases de efeito estufa e químicos tóxicos, segundo Kuepouo.

Conselheira sênior na fundação Nexus3, Yuyun Ismawati tem preocupações similares em relação à reciclagem do plástico na Indonésia. Ela visitou algumas fábricas de reciclagem próximas do aterro de Bantar Gebang, em Jacarta, e se preocupa com o que classifica de “condições precárias” do local. “Algumas pessoas trabalham com o mínimo de proteção, considerando a quantidade de químicos envolvida. E algumas mulheres me disseram que sofrem com dores de cabeça e menstruação irregular”, conta Ismawati. “Tinha tanta fumaça na fábrica. Meus olhos e garganta doíam quando eu estava lá.”

Ainda mais perigosa que o derretimento para reciclagem, a queima completa do plástico é o principal método de descarte em muitos países. Cerca de 41% de todo o lixo mundial é queimado a céu aberto – em algumas cidades africanas, a queima de resíduos chega a 75%. O grupo climático internacional R20 define a prática – que acelera as mudanças climáticas, criando cinzas e uma poluição do ar tóxica e cancerígena – como “desastre de saúde global”.

Testes realizados em Agbogbloshie, bairro de Acra, capital de Gana, demonstram a facilidade com a qual os químicos liberados pela queima do plástico podem chegar à comida. Agbogbloshie é o destino de grande parte das 40 milhões de toneladas de lixo eletrônico produzidas anualmente no mundo inteiro. O estaleiro que fica ao lado da lagoa próxima do centro da cidade foi celebrado como a solução de mercado perfeita para o lixo. De fato, os negociantes que atuam no espaço conseguem encontrar formas de reutilizar computadores, TVs e outros eletrônicos que são considerados lixo nos Estados Unidos. Mas cabos, fios e outras partes de plásticos desses produtos são queimados. E os ovos de galinhas das proximidades contêm o segundo nível mais elevado de dioxinas bromadas já mensurado, segundo a International Pollutants Elimination Network [Rede Internacional de Eliminação de Poluentes], que fez testes no ano passado. Os químicos podem prejudicar o desenvolvimento de fetos e desregular o funcionamento dos sistemas endócrino e imunológico, além de provocar câncer. A rede também considerou extremamente altos os níveis dos retardadores de chamas HBCD e PBDE nos ovos de Agbogbloshie – e mensurou a presença desses químicos em ovos coletados próximos a incineradoras de lixo hospitalar em Acra e Yaoundé, capital de Camarões.

O “comércio” do lixo plástico

Enquanto os países em desenvolvimento lutam para lidar com suas montanhas de resíduos, os Estados Unidos contribuem para piorar a situação exportando enormes quantidades de lixo plástico que o país não consegue processar. O material vai para nações com uma capacidade ainda menor de manejá-lo de forma adequada. Em 2019, exportadores norte-americanos enviaram cerca de 680 mil toneladas de lixo plástico para 95 países, incluindo a Malásia, que recebeu mais de 60 mil toneladas; a Tailândia, destino de aproximadamente 27 mil toneladas; e o México, para onde foram enviadas mais de 36 mil toneladas, segundo dados recentes. Gana, Uganda, Tanzânia, África do Sul, Etiópia, Senegal e Quênia são alguns dos países que também receberam lixo plástico norte-americano – em grande medida, os materiais de menor valor e mais difíceis de reciclar. Os Estados Unidos classificam todo esse plástico exportado como “reciclado”, em que pese diversos relatórios e investigações mostrando que grande parte do material é jogada em lixões ou queimada.

O transporte em larga escala de lixo plástico de países ricos para nações pobres é frequentemente chamado de “comércio global do lixo”, mas o que acontece não é exatamente uma transação tradicional. Como o valor do plástico é baixo, muitos comerciantes estão sendo pagos para receber o material, em vez de pagarem para processá-lo. A mínima oportunidade de renda que os carregamentos oferecem dificulta o fim desse tipo de negociação. A Índia, por exemplo, aprovou a proibição da importação de resíduos plásticos em 2018. Mas a implementação da lei já foi adiada duas vezes. Nesse meio tempo, os Estados Unidos já enviaram mais de 81 mil toneladas de lixo plástico para o país asiático.

A Jamaica também recebe lixo plástico norte-americano – mais de 45 toneladas por ano, segundo os dados oficiais. Uma quantidade desconhecida de lixo dos Estados Unidos entra no país de outras maneiras, por vezes, através de supostas ajudas humanitárias, segundo Sherika Whitelocke-Ballingsingh, que já foi inspetora de saúde pública na Jamaica e hoje trabalha na Caribbean Poison Information Network [Rede Caribenha de Informação sobre Intoxicação]. “Grupos de caridade enviam carregamentos marcados como ajuda, mas quando você abre os contêineres, por vezes só 10% do conteúdo é utilizável. O resto é lixo”, diz Whitelocke-Ballingsingh. “Eu mesma tive que dar um jeito de levar essas coisas para o lixão.”

Vários países tentaram estancar a enxurrada de lixo plástico que aumentou desde que a China parou de receber esse tipo de carregamento em 2018. Em setembro, o Camboja fez 83 contêineres cheios de lixo retornarem para os Estados Unidos e o Canadá com uma mensagem do primeiro-ministro Hun Sen: “O Camboja não é uma lata de lixo”. Em janeiro, a Malásia mandou de volta mais de 3.500 toneladas de resíduos plástico para os Estados Unidos e outros 12 países ricos. E na Indonésia, uma autoridade alfandegária anunciou no ano passado que centenas de contêineres – muitos dos quais rotulados de forma incorreta para mascarar o que continham – estavam sendo reenviados a seus “países de origem”, incluindo os Estados Unidos.

Mas essas devoluções se revelam incrivelmente difíceis. Um olhar mais atento mostra que, em vez serem reenviados aos Estados Unidos, muitos carregamentos saídos da Indonésia iam parar em países como Índia, Tailândia e Vietnã, segundo relatório da fundação Nexus3, que mapeia a situação. E mais de mil contêineres apreendidos seguem no porto de Jacarta, segundo Ismawati, da Nexus3, que demonstra preocupação quanto ao lixo restante ir parar em países pobres. “Sempre haverá alguém em algum lugar aceitando dinheiro para receber lixo”, ela diz.

Para Ismawati, por trás de todo o lixo que chega à Indonésia e circula por países em desenvolvimento existe a ideia de que a reciclagem pode solucionar o problema do plástico. “Se reciclar é tão bom e faz tão bem ao meio ambiente, por que os países desenvolvidos não fazem isso por lá?”, questiona. “Se são tão avançados que conseguem mandar foguetes para a Lua, por que não são capazes de construir fábricas de reciclagem em seus países?”

Um balão prestes a explodir

Embora o plástico já esteja provocando brigas internacionais em torno do lixo, a verdadeira batalha ainda está por vir, segundo Jim Puckett, que monitora a circulação internacional do lixo como diretor-executivo da Basel Action Network. “É um balão que vai explodir”, afirma. “Todos estão procurando o próximo país que vai receber essas coisas. Estamos falando de quantidades enormes, montanhas e montanhas de lixo. E você não pode contar com [a produção de] asfalto para sempre.” Enquanto o plástico se acumula, cresce também a pressão para impedir as importações. “Quando as pessoas começam a ver e sentir o cheiro e se dão conta de que estão queimando isso em seus jardins, elas dizem ‘nem pensar’”, completa Puckett.

Em maio de 2019 a pressão aumentou quando representantes de 187 países se reuniram em Genebra para um encontro da Basel Convention. Os Estados Unidos são um dos poucos países que não participa do grupo de nações e que não assinou o tratado global de gestão de resíduos da convenção, mas uma delegação norte-americana participou da reunião, ao lado de representantes do American Chemistry Council. Na pauta do encontro, uma emenda com potencial de limitar de forma severa a capacidade de exportar lixo plástico aos países membros, que incluem praticamente todas nações do planeta. Se aprovada, a emenda poderia acabar com os carregamentos de contêineres cheios de plástico que os Estados Unidos envia ao exterior há décadas.

A conferência se estendeu por vários dias para que os países pudessem negociar os termos da emenda. Mesmo com tempo extra, os debates entraram a madrugada, com os Estados Unidos e o American Chemistry Council argumentando contra por meio da delegação argentina e de outros membros. Negociações de tratados geralmente são assuntos sóbrios, com pronunciamentos ouvidos de forma cerimoniosa. Mas quando o presidente da conferência, Abraham Zivayi Matiza, anunciou a aprovação unânime da emenda após dias de negociações ininterruptas, “o salão se encheu de aplausos estrondosos”, conta Joe DiGangi, conselheiro científico sênior da International Pollutants Elimination Network [Rede Internacional de Eliminação de Poluentes], que participou do encontro.

No entanto, nem todos ficaram felizes. Após o voto, DiGangi acabou entrando num elevador com um advogado que representava a indústria do plástico na conferência. “Ele me olhou, balançou a cabeça, e disse: ‘Vocês acabam de reestruturar todo o comércio do plástico.’”

Embora ainda não sejam claras as consequências que as empresas norte-americanas vão sofrer se seguirem enviando lixo plástico para outros países, a rápida aprovação da emenda de Basel sinaliza que estamos em um novo estágio da guerra internacional do plástico, na qual a maioria dos países entende que uma ação urgente se faz necessária. Normalmente demora anos, às vezes décadas para bater o martelo em tratados ambientais internacionais, mas a emenda de Basel sobre o plástico, que entra em vigor em janeiro de 2021, foi aprovada em menos de um ano após ter sido proposta. “Nunca tinha visto um acordo internacional andar tão rápido quanto aquela emenda”, diz Puckett.

A urgência que serviu de combustível para a velocidade do tratado agora se encaixa com a ruptura econômica sem precedentes da pandemia do coronavírus. Alguns preveem que essa combinação vai resultar no fim do crescimento da produção de plástico. Com trajetória crescente ao longo de décadas antes da pandemia, a indústria estava planejando um aumento significativo em sua expansão usual. Em fevereiro, o American Chemistry Council anunciou mais de 200 bilhões de dólares em investimentos para novas infraestruturas voltadas à produção de plásticos e petroquímicos. Na África, foi estimado que até 2030 irá dobrar a quantidade de produtos plásticos importados dos Estados Unidos e de outros países.

Mas essa trajetória mudou, segundo Carroll Muffett, presidente e CEO do Center for International Environmental Law. “A indústria já reconheceu que sua perspectiva de crescimento da produção de plástico era muito otimista”, diz Muffett, que apontou adiamentos relacionados ao coronavírus na construção de novas fábricas de plástico e químicos, um aumento nas falências de empresas de fraturamento hidráulico e quedas sem precedentes na produção de combustíveis fósseis como evidências de que a indústria vai enfrentar problemas.

Mesmo a promoção do plástico como ferramenta para enfrentar a pandemia não vai evitar uma inevitável retração, segundo Muffett. “Eles vão explorar isso para defender uma expansão, devido às necessidades de higiene do consumidor? Certamente. Mas será suficiente para compensar o declínio da aceitação do plástico combinado com a instabilidade de todo o setor petrolífero? Acredito que não.”

É cedo para saber se Muffett está certa. E, de qualquer forma, a retração da indústria do plástico vai levar anos ou mesmo décadas. Enquanto isso, a África está se preparando para o coronavírus – crise que, assim como a do plástico, vai afetar o continente de forma distinta em relação ao resto do mundo. No Quênia, que tinha apenas 300 casos confirmados do vírus quando esse artigo era concluído, muitos não têm reservas suficientes para sobreviver a uma quarentena. O pânico pela falta de comida já resultou na debandada das pessoas de uma favela de Nairóbi. Recentemente, enquanto o número de casos explodia, o país suspendeu viagens internacionais e atividades educacionais. Ainda assim, no lixão de Dandora, homens, mulheres e crianças podiam ser vistos sobre enormes pilhas de lixo, remexendo os resíduos com as mãos. Embora o governo tenha decretado o uso obrigatório de máscaras, muitos dos catadores não as usavam. Seja por não terem acesso ao acessório ou condições de comprá-lo, os catadores se arriscavam ao contágio e à prisão enquanto tentavam ganhar o suficiente para sobreviver.

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