Outra Saúde na Radis

Você sabe quem faz o Outra Saúde? Quer descobrir?

Foto: Eduardo de Oliveira/Radis

09 de novembro de 2018

Por Liseane Morosini, na revista Radis

Para facilitar a vida de quem deseja estar atualizado com as notícias do setor, entrou no ar em fevereiro o Outra Saúde, um site que pretende ampliar a produção e a circulação das informações sobre o SUS e o direito à Saúde. Ancorado no portal Outras Palavras, que republica matérias e conteúdos diversos de outros veículos e mídias, Outra Saúde reúne reportagens, entrevistas em vídeo, análises e uma seleção de notícias publicadas diariamente em jornais do Brasil e do exterior. Patrocinado pela organização Medico Internacional, da Alemanha, Outra Saúde foi fundado pelo jornalista Antonio Martins e tem à frente as jornalistas Maíra Mathias e Raquel Torres, que se especializaram no campo da Saúde após trabalhar em departamentos e institutos da Fiocruz. Segundo elas, no início, a ideia era apenas produzir material próprio e qualificado para subsidiar os interessados na temática. “Com o amadurecimento da proposta, resolvemos agregar conteúdos de outras fontes e lançar a newsletter, que se tornou o carro-chefe de todo o projeto”, diz Maíra.

O informativo (um comunicado com sugestões de matérias para leitura) é enviado diariamente por e-mail, a partir das 7 horas da manhã, para a caixa postal de um público misto de 1,3 mil assinantes, universo que ainda pode ser expandido, como planejam as jornalistas. “A militância é muito apaixonada pela área. Há profissionais de saúde, estudantes, pesquisadores que ainda desconhecem nossa proposta”, observa Maíra. Ela explica que o trabalho não é movido apenas por números. “Sabemos que nem todo mundo vai se interessar e se preocupar em discutir os temas de saúde, saúde pública e do SUS. Adotamos uma linha editorial bem crítica. E não vamos mudar essa linha apenas para aumentar o números de assinantes”, diz Maíra.

Seleção de notícias

Raquel ressalta que o informativo vai além da síntese da notícia, como geralmente é apresentada nas resenhas jornalísticas, buscando oferecer curadoria de conteúdo. “Não fazemos apenas um resumo, damos um sentido crítico às informações publicadas e procuramos contextualizá-las, relembrar o que foi falado sobre o assunto pela mídia e chamar atenção sobre pontos abordados em matérias anteriores que fizemos”, explica a jornalista. Ela informa que, em média, a produção do informativo exige quatro horas de trabalho, que é dividido entre as repórteres, em esquema de revezamento — a cada semana, uma delas se responsabiliza pela produção desse conteúdo. “O trabalho começa às duas da manhã, com a leitura dos jornais do dia. É puxado”, diz Raquel.

Elas buscam notícias pela internet e acompanham não somente o que foi publicado nas editorias de saúde, mas também notícias sobre assuntos relacionados, editadas em outras seções de jornais, revistas e site. Como exemplo, Maíra cita as várias notícias sobre decisões importantes tomadas no Congresso, que aparecem mais comumente nas editorias de Política ou de Economia, mas que interferem nos rumos da política pública de saúde. “Esse é o caso da medida provisória que beneficia as Santas Casas, o reajuste salarial dos agentes comunitários de saúde ou a volta da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF)”, observa Raquel.

Maíra contabiliza que inicialmente foram mapeados 80 sites que geram conteúdo sobre Saúde no Brasil e no exterior. A partir dessa coleta inicial, elas selecionam as notícias que serão inseridas no informativo. “A ideia é essa: a fornecer um retrato do setor no que foi publicado naquele dia”, diz a jornalista. Entre os sites geralmente visitados para buscas, estão os dos jornais Valor, O Globo, Estadão, Folha de S.Paulo; das agências Senado e Câmara, além da Agência Brasil; e do Ministério da Saúde. Na imprensa internacional, elas citam os jornais NYTimes, Washington Post, Le Monde e El País. Segundo as jornalistas, há uma diferença na divulgação das notícias publicadas pela imprensa estrangeira: “A produção deles é muito grande. Tivemos uma série da The Economist [publicação inglesa], por exemplo, sobre a cobertura universal de saúde. Optamos por veicular esse material aos poucos”, exemplifica Maíra.

Temas de interesse

Se o site é alimentado com matérias próprias e de fontes externas, todo o trabalho do informativo é feito a quatro mãos. “Nós duas nos revezamos nessa tarefa. Acompanhamos os fatos bons que saem sobre saúde, mas também divulgamos notícias ruins, e damos notícias do setor privado. Nossa proposta é fazer o acompanhamento no dia a dia do setor”, diz Raquel. Maíra conta que no início de 2018 o ritmo de produção era muito intenso. “A gente procurava fazer uma grande matéria por semana e depois começamos a produzir o informativo”, conta. Agora, com o projeto consolidado, elas decidiram focar em um trabalho de curadoria de conteúdo para alimentar a newsletter, e diminuir a regularidade da produção das grandes matérias, sem esquecer também das análises factuais. Durante as eleições, por exemplo, Outra Saúde analisou o programa dos candidatos à presidência da República.

Em seus nove meses de existência, o Outras Palavras já publicou, 23 entrevistas com pessoas de referência na pesquisa e saúde pública e mais de 200 reportagens e 20 textos analíticos. “Tentamos dar conta de forma bem ampla da produção de conteúdo, mas é difícil fazer a seleção diária já que a cobertura é ampla e volumosa”, assume Maíra. Em relação aos temas, Maíra e Raquel explicam que há convergência sobre o que se publica no exterior e o que é noticiado no Brasil. A newsletter, muitas vezes, traz tendências internacionais que acabam por repercutir internamente. Como exemplo, elas citam o modelo de clínicas populares, muito comuns nos Estados Unidos, que está florescendo no país. “Não fazemos a separação entre noticiário nacional e internacional, pois avaliamos que as empresas e grupos que lideram o setor são os mesmos aqui ou lá fora”, diz a jornalista. Segundo ela, a atuação desses grupos no país pode ter um impacto econômico interno expressivo. “Nós somos um país periférico com um mercado de saúde suplementar muito grande, com 47 milhões de pessoas, que se torna interessante para esses grupos”, observa.

De fevereiro até agora, as jornalistas apontam quais temas estão em evidência na extensa produção noticiosa sobre saúde: Raquel cita o financiamento. “Ele se desdobra na austeridade no Brasil e nos outros países, que projetam seus impactos para o nosso “, observa. Maíra lembra dos planos de saúde, que sempre vêm à tona. “Hoje, já há um reconhecimento mais amplo de que, antes de o SUS ser criado, havia pesquisas que apontavam as contradições do setor privado para oferecer assistência e racionalizar a saúde. Estamos também vendo esse quadro hoje com o setor privado expondo novamente as suas contradições em relação à prestação de serviço”. Em relação a esse assunto, as jornalistas destacam que tomam cuidado para “trazer um outro olhar” para a cobertura, se voltando para o modo como o setor privado disputa a agenda nacional. “Notamos que o discurso de integração do setor público e privado, que começou a ser apresentado em 2014, foi incorporado e consta do programa de vários candidatos à eleição de 2018, não só da direita. Nós entendemos que o setor privado está organizado para disputar o sentido do SUS”, comenta Maíra.

Segundo ela, o trabalho do site também pretende apontar os conflitos de interesse que existem no campo da Saúde. “Consideramos que o Outra Saúde é um projeto de esquerda, mas não temos problema em tecer críticas a qualquer governo. Acreditamos que o SUS não vai ter muito futuro se não fizermos discussões mais aprofundadas nesse campo”, critica. Ela salienta que o projeto do Outra Saúde está embasado na defesa do sistema público de saúde. “Acompanhamos o setor privado para ficar de olho”, brinca Raquel, que não nega as dificuldades e os problemas do SUS. “Defendo saúde como direito e não acho que é com pacote de serviços delimitados que a gente vai resolver a problemática da saúde. Nossa bandeira é a da saúde pública e da saúde coletiva”, enfatiza.

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Um comentario para "Outra Saúde na Radis"

  1. Luisa Pereira Porto disse:

    Sou Graduada em Jornalismo , e apaixonada por Saúde Publica a qual tenho Especialização, dai fiquei encantada com a criação desse site. Muito importante para a informação em Saúde .
    Luísa Porto

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