HIV: Fiocruz testará lenacapavir em sete cidades brasileiras
Fundação assina memorando, passo importante para uma possível fabricação nacional do fármaco. Farmacêutica, contudo, mantém Brasil refém de preços absurdos para o acesso real ao medicamento
Publicado 22/01/2026 às 14:54

Com a aprovação do lenacapavir, novo medicamento de profilaxia pré-exposição ao HIV, pela Anvisa, os debates sobre sua inclusão ao SUS se intensificaram. A Fiocruz, então, conduzirá um estudo com o fármaco em sete cidades brasileiras: Campinas, Florianópolis, Manaus, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
A pesquisa será realizada dentro dos serviços de saúde já oferecem a PrEP oral diária e não fará recrutamento ativo: pessoas do público-chave – homens gays e bissexuais, pessoas transgênero e não binárias com idade entre 16 e 30 anos – que buscarem o serviço terão a opção de participar e escolher entre a injeção semestral ou os comprimidos diários. O objetivo é gerar evidências sobre aceitação, adesão e eficácia no contexto real do SUS.
Paralelamente, a fundação deu um passo estratégico: assinou um memorando de entendimento com a Gilead, farmacêutica detentora da patente, para avaliar uma futura transferência de tecnologia e fabricação nacional do fármaco.
É importante frisar que esse documento não é um contrato de produção, mas um acordo preliminar que apenas estabelece a intenção das partes de dialogar. Ele não garante prazos, custos finais ou sequer a efetivação da transferência. Na prática, é uma ferramenta de negociação que mantém o Brasil na mesa de discussão, mas não altera, por si só, a equação fundamental do acesso.
Esse movimento, portanto, não resolve o cerne do problema que bloqueia o acesso real no SUS: o preço extorsivo cobrado pela empresa. Mesmo com a participação do Brasil nas pesquisas que levaram ao desenvolvimento do fármaco, o país se encontra de fora da lista de 120 nações que receberam a licença voluntária para genéricos.
A Gilead reafirma que manterá aqui uma política de preço que varia, nos EUA, de US$ 25,3 mil a US$ 44,8 mil anuais por pessoa. O memorando, portanto, é uma porta aberta para negociação, mas não um compromisso de produção acessível e muito menos uma renúncia aos lucros monopolísticos garantidos pela patente.
Em nota, o Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual (GTPI) volta a expor: o preço estabelecido pela Gilead não é custo de produção, mas imposto pela patente. “No Brasil, ainda depende da CMED fixar o preço máximo e depois da discussão de incorporação no SUS. Mas a regra do jogo já preocupa: a precificação da CMED usa referência internacional (países de referência),e isso tende a ‘ancorar’ o teto em mercados ricos onde a empresa lança caro”, alerta a nota.
Diante desse cenário, a demanda pela quebra de patente – a licença compulsória – segue urgente, frisa o GTPI. Foi essa medida, colocando a vida acima do lucro, que permitiu ao Brasil incorporar o efavirenz em 2007 e salvar milhares de vidas.
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