Bolsonaro tenta atrair Forças Armadas para abismo

Presidente cobrou do ministro da Defesa apoio inconstitucional a medidas autoritárias — e irritou-se com sensatez do Exército no combate à covid. Chefes militares deixam postos. E mais: na Saúde, muda o ministro – mas não a negligência

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A QUEDA NA DEFESA

A já esperada demissão do chanceler Ernesto Araújo finalmente chegou – mas acabou sendo apenas uma entre seis trocas oficializadas ontem por Jair Bolsonaro no primeiro escalão do governo. O movimento que gerou mais rebuliço foi, de longe, a queda do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. “Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado“, diz ele em sua carta de demissão, dando panos para manga. A proximidade do dia 31 de março, aniversário do golpe de 1964, ajuda a criar aquele clima de tensão. 

Foi Jair Bolsonaro quem pediu o cargo e, segundo o colunista d’O Globo Lauro Jardim, a conversa em que a saída de Azevedo foi selada durou apenas três minutos. A relação entre eles já não ia bem e piorou nas últimas semanas, quando o presidente começou a aventar a possibilidade de decretar um estado de sítio para lidar com a crise política da covid-19. Bolsonaro queria mais demonstrações públicas de apoio por parte das Forças Armadas. Pelo que escreve em sua nota de saída, Azevedo e Silva não as queria dar. Se bem que, no ano passado, o general chegou embarcar em um helicóptero da FAB para sobrevoar com Bolsonaro uma manifestação que pedia intervenção militar e se colocava contra o STF… Também n’O Globo, a jornalista Malu Gaspar diz ter ouvido de interlocutores que ele não estava disposto a repetir o que viveu na época.

O fato é que, há meses, Bolsonaro pressionava Azevedo e Silva pela demissão do comandante do Exército, Edson Pujol, que se opunha ao presidente em relação à pandemia – e chegou a oferecer o cotovelo para cumprimentar Bolsonaro quando este tentou lhe dar a mão. O mesmo Pujol disse, ainda, que militares tinham que ficar fora da política. Segundo o Valor, o ministro caiu porque se recusou a limar o comandante. 

Outro estopim para a crise pode ter sido esta entrevista do general Paulo Sérgio, autoridade máxima da saúde no Exército, publicada no Estado de Minas no domingo. Nela, ele explica por que a taxa de mortalidade por covid-19 nos hospitais do força é de 0,13%, bem menor que os 2,5% da população geral do país. O ‘segredo’ não é nenhum tratamento precoce, mas uso de máscaras, testagem massiva, quarentena, home office, distanciamento social nos refeitórios e dormitórios… “Todas as medidas sanitárias, diretrizes emanadas pela OMS, corroboradas pelas nossas diretorias de saúde, são rigorosamente cumpridas em nossos quartéis”, disse ele, dez dias depois de Bolsonaro declarar que “meu Exército” não fiscalizaria lockdown, Paulo Sérgio deixou claro que as medidas nos quartéis batem de frente com as recomendações do governo federal. E, pior ainda, afirmou que o Exército trabalhava com a possibilidade de haver em breve uma terceira onda da doença no Brasil, ainda pior do que a segunda.

Os desdobramentos da saída de Azevedo e Silva ainda não estão totalmente dimensionados, mas a saída de Pujol do Exército parece já estar certa. Hoje de manhã, não apenas ele mas também os comandantes da Marinha e da Força Aérea devem colocar seus cargos à disposição do novo ministro da Defesa, general Walter Braga Netto. A tripla debandada será inédita, caso se confirme. 

RUPTURA OU RUÍDO?

A procura de Jair Bolsonaro por um ministro da Defesa e comandantes das Forças Armadas mais alinhados com seus propósitos é algo que, evidentemente, gera preocupação. Mas a narrativa de que pode haver  autogolpe acabou varrendo um pouco para debaixo do tapete a grande derrota de um enfraquecido governo federal no episódio da demissão de Ernesto Araújo – talvez o maior símbolo do bolsonarismo raiz dentro do governo. A verdade é que o Centrão pediu e o presidente cedeu. “Bolsonaro não gosta de dar demonstrações de fraqueza, mas desta vez não tem como esconder os fatos. Lira ameaçou… e levou“, resume Bernardo Mello Franco, n’O Globo

Quem assume no lugar de Araújo é  o embaixador Carlos Alberto Franco França, considerado pelos parlamentares como um nome “moderado”. Resta saber se, de fato, alguma coisa vai mudar na política externa, o que seria fundamental para garantir insumos e vacinas contra a covid-19. Como observa o jornalista Jamil Chade, França “nunca liderou embaixada do Brasil no exterior, nunca foi subsecretário e nunca sequer foi chefe de departamento no Itamaraty”. A ver…

Depois de Araújo, o próximo alvo do Centrão é o Meio Ambiente de Ricardo Salles. 

DANÇA DAS CADEIRAS

Com a saída de Braga Netto da Casa Civil, para ocupar o ministério da Defesa, quem fica em seu lugar é o general Luiz Eduardo Ramos, que ocupava a Segov (Secretaria de Governo). A deputada federal Flávia Arruda (PL-DF) assume a vaga de Ramos, e aí temos um claro aceno ao Centrão. José Levi foi demitido da AGU, que passa a ser comandada por André Mendonça – que, por sua vez, deixa o Ministério da Justiça. A pasta fica a cargo de Anderson Gustavo Torres, secretário da Segurança do Distrito Federal. 

Em tempo: O presidente do STF, Luiz Fux, disse a interlocutores próximos que todas essas mudanças são apenas um “realinhamento político do governo” e não geram preocupação

MATOU A CHARADA

O ministro da Saúde anunciou o que precisa ser feito para evitar a falta de oxigênio medicinal neste exato momento, quando o coronavírus corre solto por todo o país. Confinamentos severos para baixar urgentemente a transmissão? Não: uma campanha para economizar o insumo. “Todos sabemos que muitas pessoas chegam aos hospitais e aí, às vezes, a primeira providência é colocar o oxigênio nasal em quem não precisa do oxigênio. Então, vamos tentar economizar. Vamos fazer grande campanha, junto aos profissionais de saúde, para o uso racional do oxigênio”, disse Marcelo Queiroga.

Enquanto isso, ele continua dizendo que vai trabalhar “para que não ocorra lockdown“. Continua, também, sem explicar como fará isso.

Pode até ser que esse e outros protocolos durante a hospitalização precisem ser revistos. A própria gestão das UTIs pode melhorar e aumentar a disponibilidade de leitos, mesmo sem que seu número seja alterado. Mas o sistema se encontra estrangulado como nunca esteve antes. São milhares de pacientes na fila em todo o país. Insinuar que a responsabilidade pela crise é dos profissionais de saúde, que estariam desperdiçando oxigênio com quem não precisa, é no mínimo um desrespeito tremendo…

A ideia foi defendida em uma sessão do Senado. Queiroga também disse que a pasta está trazendo 13 caminhões-tanque do Canadá (sendo que ao menos 50 seriam necessários) para ajudar no transporte de oxigênio entre estados. E que tem negociado com a indústria o aumento na fabricação. A mensagem que fica é a seguinte: a ameaça de que o país todo passe pelo que Manaus viveu é muito, muito real.

A BUSCA POR VACINAS

Quanto às vacinas, Queiroga afirmou aos senadores que negocia uma “permuta” com os Estados Unidos, para conseguir mais doses para o Brasil. Não explicou, porém, em que consistiria essa troca. Mais cedo, ele havia pedido à Pfizer um adiantamento, com o envio “no curto prazo” de metade das 100 milhões de doses que foram contratadas (inicialmente, o acordo prevê a chegada de apenas 13,5 milhões de doses no segundo semestre). 

E o governo brasileiro sinalizou, em reuniões com a OMS, que pretende dobrar sua compra a partir da Covax Facility, chegando a mais de 80 milhões de doses. Mas não há nada confirmado, segundo o UOL.É uma boa ideia, mas que não deve trazer resultados imediatos. Parte do primeiro lote dos imunizantes da Covax que chegariam ao Brasil em março vai atrasar: das 2,9 milhões de doses, só um milhão foram entregues, e o resto deve ficar para maio. O governo Bolsonaro pediu prioridade à Organização e rapidez na entrega. A resposta foi cordial, mas aponta o conhecido problema da escassez de doses. 

A decisão da Índia de reduzir as exportações dificulta as coisas, e a OMS tem afinal vários outros países em situação mais frágil para lidar. Ontem, o diretor-geral Tedros Ghebreyesus afirmou que ainda há 36 que não receberam nenhuma dose. Dezesseis deles devem receber seus primeiros lotes esta semana. 

E A PRODUÇÃO NACIONAL?

O ritmo da vacinação no Brasil seria outro se houvesse produção nacional dos IFAs (Ingredientes Farmacêuticos Ativos) dos imunizantes. A Fiocruz e o Instituto Butantan preveem conseguir fazer isso a partir de maio e de dezembro, respectivamente. Porém, especialistas ouvidos pelo Valor têm muitas dúvidas quanto a esse prazo. O ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, diz se preocupar sobretudo com os possíveis atrasos da Fiocruz, que ainda não domina a tecnologia da produção da vacina com o vírus inativado. Esse problema não ocorre no Butantan, porque a CoronaVac tem plataforma semelhante à das vacinas contra a gripe, já produzidas por lá. 

Mas alguns entraves são gerais. Um ponto é que, quando as estruturas para a fabricação estiverem prontas. a Anvisa precisa inspecionar e liberar a produção, o que não costuma ser um processo rápido. E outro problema é que mesmo a produção do IFA em solo brasileiro ainda depende de insumos importados, que podem continuar atrasando. “Este ano não sai [a produção 100% nacional]. Não é sobre a capacidade de Fiocruz e Butantan, inquestionável. É sobre o contexto nacional e internacional. O Brasil não é prioridade das multinacionais”, diz professor de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, Marco Antônio Stephano.

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