O que diz o maior estudo sobre imunidade à covid

90% dos que contraíram o vírus parecem desenvolver defesa duradoura contra reinfecção. E mais: governo não tem planos contra segunda onda, reafirma o ministério da Economia. Alastra-se, na Polônia, revolta contra fundamentalismo

Células T atacam uma célula infectada. Parte importante da defesa imunológica humana, as células T parecem perdurar em grande número, nos pacientes infectados pela covid

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O ESTUDO MAIS ABRANGENTE

Quanto tempo dura a imunidade ao novo coronavírus? Ninguém sabe ao certo, mas um estudo publicado online ontem é, segundo o New York Times, o mais abrangente e de longo alcance já feito a esse respeito. Traz boas perspectivas: oito meses após a infecção, a maior parte das pessoas ainda parece ter células imunológicas suficientes para responder ao vírus e se proteger da covid-19. Mesmo que o nível de anticorpos caia um pouco, como tem sido relatado em várias pesquisas.

Foram analisadas 185 pessoas de 19 a 81 anos que tiveram covid-19 (a maioria com sintomas leves), e os cientistas procuraram ao mesmo tempo por quatro componentes do sistema imunológico: anticorpos, células B (que produzem mais anticorpos quando necessário), e ainda dois tipos de células T, que destroem células infectadas. Viram que normalmente havia reduções modestas nos anticorpos após seis a oito meses (e essa queda foi muito heterogênea, variando até 200 vezes entre os participantes), enquanto as células T mostraram uma queda muito leve e lenta. A surpresa ficou por conta das células B, que aumentaram em número. Os pesquisadores ainda não sabem o porquê.

Essas informações ainda não são suficientes para prever a duração da imunidade, porque não se conhecem os níveis de cada célula imunológica necessários para garantir a proteção. Mas sua duração em níveis altos é uma boa coisa, e essa memória imunológica “provavelmente impediria a  maioria das pessoas de contrair doenças hospitalizáveis, doenças graves, por muitos anos”, segundo disse o co-líder do estudo Shane Crotty, virologista do Instituto de Imunologia La Jolla, ao NYT.

Os olhos brilham quando o vemos falar em “muitos anos”, mas é preciso atentar também para a expressão “maioria das pessoas”. Isso porque cerca de 10% dos participantes do estudo não apresentaram uma proteção tão robusta. Segundo Crotty, isso levou à conclusão de que “pelo menos uma fração da população infectada com SARS-CoV-2 com memória imunológica particularmente baixa seja suscetível à infecção de forma relativamente rápida”. Precisamos também acrescentar que em nenhum momento o estudo  aponta para a viabilidade de se pensar em imunidade coletiva por via das infecções. Não custa repetir: no caso da covid-19, deixar a população se infectar a esse ponto significa aceitar mortes em massa.

O trabalho ainda não foi revisado por pares, mas “bate” com evidências de outros estudos recentes (por exemplo esteeste e este). Já comentamos alguns deles por aqui, como o que mostra que sobreviventes de SARS ainda carregam células T mesmo 17 anos depois da infecção. Ao mesmo tempo, é consistente com os poucos casos de reinfecção já relatados. 

CONTRA TODAS AS EVIDÊNCIAS

Na semana passada falamos de como os técnicos do Ministério da Economia rechaçam a possibilidade de a pandemia recrudescer no Brasil porque acreditam que vários estados já alcançaram a imunidade “de rebanho”. A aposta é um tanto frágil, porque se baseia em estudos que mostram 20% de infecções em certos estados – um percentual alto o suficiente para provocar muitas mortes e crise nos sistemas de saúde, mas baixo para garantir imunidade coletiva.

Mas a pasta não tem nenhuma reserva em reconhecer publicamente esse palpite mais do que duvidoso: “Vários estados já atingiram ou estão próximos de atingir imunidade de rebanho. Acho baixíssima a probabilidade de segunda onda“, disse o secretário de Política Econômica do ministério, Adolfo Sachsida. A Folha obteve o tal estudo no qual eles se baseiam. É um um artigo publicado por três integrantes da Secretaria de Política Econômica pela UFPel que trata da subnotificação de casos de covid-19 no Brasil, e estima que a taxa de infectados pode variar de 5,8% no Rio Grande do Sul a 30% em Roraima. Questionado sobre se haveria um plano a ser adotado em caso de nova onda, Sachsida se absteve de responder porque se trata de uma pergunta “hipotética”… 

É verdade que alguns pesquisadores já chegaram a aventar a possibilidade de uma proteção coletiva com um percentual relativamente baixo de infecções, mas isso nunca foi consenso. E agora a tese parece ter caído por terra, com locais que já foram atingidos em cheio pelo coronavírus e começam a se ver em maus lençóis de novo. No Brasil, o maior exemplo disso é o Amazonas, que já precisou reabrir leitos de UTI depois do aumento recente nas hospitalizações e mortes. Lá fora, a Suécia teve um crescimento de sete vezes nas internações em relação a outubro e suas UTIs estão 70% cheias. Destacamos ontem como o governo, que sempre se baseou só em recomendações de distanciamento e não em imposições, colocou regras mais rígidas pela primeira vez, proibindo reuniões públicas com mais de oito pessoas. “Não vão à academia, não vão à biblioteca, não organizem jantares. Cancelem“, implorou à população o primeiro-ministro Stefan Lofven.

RAMPA DE INCERTEZAS

O Brasil registrou ontem 676 mortes em 24 horas – os números nos últimos dias têm sido muito superiores aos que vinham sendo observados antes, mas é difícil dizer o quanto disso ainda se deve ao apagão de dados que gerou o represamento dos registros em alguns estados. A média de mortes dos últimos sete dias ficou em 557, utrapassando as 500 pela primeira vez no mês. É um aumento de 52% em relação a 14 dias atrás. O aumento pode ser porque o apagão baixou a média nas duas últimas semanas e, depois que ele acabou, concentrou registros nos últimos dias. Da mesma forma, se os números diminuírem em breve, não saberemos se houve redução real ou só o fim dos registros atrasados. 

Em várias cidades e estados, porém, a piora é visível. Já mencionamos o Amazonas, onde o número de hospitalizações por dia dobrou de outubro para novembro. Em Santa Catarina, os principais hospitais públicos e privados de Florianópolis estão com 90% de suas UTIs cheias. No Paraná, Curitiba está perto do seu recorde diário de casos e a prefeitura suspendeu cirurgias eletivas por tempo indeterminado. 

ATAQUE À OMS

Jair Bolsonaro parece querer seguir adiante com o bastão de Trump, disseminando dúvidas sobre a atuação da Organização Mundial da Saúde, enquanto enaltece a sua própria. “Desde o início também critiquei a politização do vírus e o pretenso monopólio do conhecimento por parte da OMS, Organização Mundial da Saúde, que necessita urgentemente sim de reformas“, declarou ontem durante a cúpula do Brics. “Temos que reconhecer a realidade de que não foram os organismos internacionais que superaram desafios, mas sim a coordenação entre os nossos países”, disse o presidente da segunda nação com mais mortes por covid-19 do planeta que, dentre tantas declarações, recentemente afirmou que “tudo agora é pandemia” e o Brasil “tem que deixar de ser um país de maricas”…

SEM MARCO INICIAL

G1 fez um bom trabalho de compilação sobre o que se sabe – e o que se especula – sobre o início de transmissão do novo coronavírus. Isso porque ontem, 17 de novembro, pode ter sido o dia em que o governo chinês identificou o primeiro paciente com covid-19 na província de Hubei. A informação foi divulgada ainda em março pelo South China Morning Post. Baseado em Hong Kong, o jornal diz ter tido acesso a documentos oficiais que relatam o caso de um homem de 55 anos. A China nunca confirmou a história. 

A linha do tempo da pandemia feita pela OMS começa no dia 31 de dezembro, quando a organização foi informada pelo país sobre um surto de casos de uma misteriosa pneumonia em Wuhan. 

Coincidentemente foi nesse mesmo dia que o médico Li Wenliang enviou uma mensagem pelo WeChat a um grupo de colegas alertando-os sobre a possibilidade de circulação de um vírus da família do causador da SARS. A mensagem de Wenliang foi rastreada pelo governo e ele teve de ir à polícia assinar um termo se comprometendo a não “espalhar rumores”. Ele se tornou uma espécie de herói nacional depois da confirmação da existência do novo coronavírus, especialmente porque ele próprio se infectou em janeiro atendendo pacientes e acabou morrendo em fevereiro, aos 34 anos. Perguntado pelo New York Times se faria diferença para a proteção dos profissionais de saúde o governo ter divulgado as suspeitas sobre a circulação do patógeno antes, ele respondeu: “Acho que teria sido muito melhor. Deve haver mais abertura e transparência”.

Na China, a cronologia oficial indica como 29 de dezembro o dia em que foram reportados os quatro primeiros casos da doença, todos ligados ao mercado de animais da cidade. Mas pesquisadores franceses observaram que estudos filogenéticos feitos por cientistas chineses poderiam indicar que o vírus circulava em estado de latência desde outubro – mês em que Wuhan sediou os Jogos Mundiais Militares. Atletas franceses que participaram do torneio divulgaram em maio que tiveram sintomas parecidos com os da covid-19 depois da realização dos Jogos

Ainda há muito mistério rondando o início das transmissões, principalmente depois que estudos indicaram que o vírus poderia estar circulando em outros países antes de dezembro – caso do Brasil, onde partículas do patógeno foram encontradas em amostras de esgoto colhidas em Florianópolis em novembro do ano passado.

UM MÊS DE PROTESTOS

Há quase um mês, depois que uma decisão do Tribunal Constitucional da Polônia restringiu ainda mais o acesso ao aborto no país, milhares de pessoas foram às ruas protestar. A questão era séria, porque eliminava a possibilidade de interrupção legal da gravidez em caso de má-formação grave do feto – e essa é a justificativa da maioria esmagadora dos abortos legais por lá.  

Mas os protestos não foram pontuais. Eles continuam acontecendo até hoje, levando às ruas centenas de milhares de pessoas em mais de 500 cidades e vilas. Não são apenas mulheres, mas gente comum de toda parte. E o escopo foi ampliado: agora, ao que parece, o objetivo é derrubar nada menos que o governo do Partido Lei e Justiça (PiS), que comanda a nação desde 2015. Várias ativistas estão chamando a onda de protestos de “revolução”, por conta da magnitude das demandas. Organizadoras dos atos fizeram pesquisas para ver os tópicos de maior preocupação entre os manifestantes e chegaram a temas como separação entre Estado e Igreja, educação, saúde e mudanças climáticas. É tudo isso que está em pauta.

A longa reportagem da New Yorker conta como a revolta ganhou tanta magnitude. O texto trata da construção dos últimos atos, ao mesmo tempo em que explica as reviravoltas do passado recente da Polônia, com polarização política exacerbada e o crescimento do PiS – as medidas do partido de extrema-direita, no fim das contas, parecem ter gerado um caldeirão pronto para derramar. A luta pela manutenção dos direitos em relação ao aborto, aliás, não é recente. Em 2016, também foi preciso ir às ruas quando o governo queria a proibição total.

“A Polônia se tornou um importante ator no movimento internacional pelos chamados valores tradicionais e contra o que o movimento e o governo polonês chamam de ‘ideologia de gênero’, um termo genérico para ameaças percebidas à família tradicional, que incluem direitos reprodutivos, estudos de gênero e direitos LGBTQ. Nos últimos anos, cerca de cem municípios poloneses se declararam’zonas livres de LGBT’ ou, mais burocraticamente, ‘zonas livres de ideologia LGBT’, uma referência à crença de que direitos iguais para pessoas LGBTQ equivalem a doutrinação, particularmente de crianças pequenas”, escreve o jornalista Masha Gessen. A parlamentar Magdalena Biejat explica que “a principal forma de existência do partido no poder na cena política é criar conflito”, e que “eles sempre precisam encontrar um inimigo, alguém que possam excluir da comunidade nacional”.

Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência… Por lá, organizadores acreditam que uma repressão forte da polícia é mais provável do que a derrubada do governo. Mas “nada será como antes”, acredita Marta Lempart, uma delas. 

MAIS UMA CHANCE

E o presidente da Argentina, Alberto Fernández, cumpriu ontem uma promessa de campanha ao enviar ao Congresso um projeto de legalização do aborto . A proposta deve ser votada pelos deputados ainda este ano e, pelos senadores, no início do ano que vem. Em 2018, o país quase chegou lá: depois de a Câmara aprovar um projeto que garantia o direito irrestrito ao aborto nas 14 primeiras semanas de gestação, ele foi derrotado no Senado, numa votação apertadíssima. Os principais pontos da nova proposta estão reunidos aqui.

AMAZON VENDERÁ MEDICAMENTOS

Ontem Jeff Bezos deu mais um passo em direção à meta de que a Amazon seja uma “loja de tudo”. A companhia anunciou sua entrada direta no lucrativo ramo das farmácias. Começa já essa semana a venda online de medicamentos em 45 estados dos EUA. Serão comercializados apenas remédios com receita – com exceção daqueles que são definidos como de alto risco de abuso, como opioides. 

E é claro que a Amazon Pharmacy vai capturar dados. Para acessar, os clientes precisam preencher um perfil com opções que vão das informações do seguro de saúde às alergias. Quem é assinante Prime vai ganhar descontos. E, neste primeiro momento, a Amazon parece querer arrasar a concorrência com a promessa de preços 80% menores em medicamentos genéricos e 40% nos de marca. As medicações podem chegar em até dois dias nas casas desses consumidores, sem taxa de frete.   

Lembramos que não é a primeira notícia que damos por aqui envolvendo a Amazon e farmácias. A empresa de tecnologia comprou em junho de 2018 a farmácia online PillPack, por US$ 1 bilhão exatamente com o objetivo de entrar no mercado de medicamentos por prescrição, avaliado então em US$ 450 bilhões. Tampouco é a primeira notícia envolvendo a gigante do varejo e a saúde. Amazon, JPMorgan e Berkshire Hathaway anunciaram, também em 2018, a criação de uma empresa chamada Haven com o objetivo de proverem, elas mesmas, assistência médica para seus mais de 1,2 milhão de empregados. Mas a Haven também teria outra pretensão: mudar a forma como os trabalhadores usam os serviços de saúde. Como? A partir de algoritmos capazes de fazer análises de dados dos trabalhadores. Mas não se sabe muita coisa sobre como anda o empreendimento.

MOVIMENTOS DE MERCADO

Na segunda-feira, a Rede D’Or lançou sua oferta pública de ações. E a companhia, que opera a maior rede independente de hospitais privados do país, pode entrar para a história da Bolsa de Valores brasileira. Isso porque a faixa de preço estabelecida por ação vai de R$ 48,91 a R$ 64,35. Se a demanda foi alta, o IPO da Rede D´Or será o maior desde a estreia do Santander. O banco captou R$ 13,2 bilhões em 2009. A empresa de hospitais pode movimentar até R$ 12,6 bilhões, considerando o valor máximo por papel. O caixa levantado com a oferta será usado para arcar com os custos de construção de novos hospitais ou expansão das 45 unidades existentes. O grupo D´Or fechou o ano passado com lucro líquido de R$ 1,2 bilhão.

E esse não foi o único movimento no mercado da saúde privada. A Qualicorp, empresa que atua no ramo da administração de benefícios – ou seja, intermedia a relação entre operadoras de planos de saúde e clientes, anunciou a compra de 75% da Plural e da Oxcorp por R$ 202,5 milhões. A companhia, que já era a maior do gênero no Brasil com 2,3 milhões de beneficiários. Com o negócio – que ainda precisa ser aprovado pela ANS – adicionou a sua carteira 96 mil usuários de planos por adesão, ligados a 21 operadoras, incluindo 11 Unimeds

André Pimentel, sócio da Performa Partners, analisou a aquisição da Plural em entrevista ao Globo: “Ambas as empresas focam planos coletivos por adesão, que não são tão afetados pelas demissões quanto os planos empresariais, que hoje representam a maior parte do mercado de saúde suplementar. Os planos coletivos por adesão são uma alternativa a quem não tem vínculo empregatício diante do reduzido número de planos individuais e também por oferecer preços mais baixos. A vantagem desses planos coletivos por adesão é que eles sofrem muito menos redução do número de beneficiários por aumento do desemprego ou pelo menos demoram mais a ter impacto. Nesse momento de pandemia e crise econômica, uma aquisição como essa diminui o risco de redução de beneficiários que são administrados pela Qualicorp”.

Na segunda-feira, a empresa havia informado que seu lucro líquido foi de R$ 130,9 milhões no terceiro trimestre do ano, um aumento de 18% em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e setembro, o montante chegou a R$ 326 milhões – um avanço de 4,5% em relação a 2019. O bom resultado se deve principalmente à queda das despesas operacionais durante a pandemia (-7,4%), já que os clientes de planos de saúde usaram menos os serviços com o adiamento de cirurgias eletivas, exames e consultas.

SEM RESPOSTAS

Como virou praxe, mais uma vez a lei de acesso à informação foi usada para obter dados que não têm motivo algum para serem escondidos do público. Desta vez, O Globo obteve o relatório final da Marinha sobre o vazamento de óleo na costa brasileira. Assinado em 9 de outubro pelo almirante Marcelo Francisco Campos, o documento não aponta a origem do vazamento. Mas faz um balanço quantitativo do desastre, dando conta de que foram coletados cinco mil toneladas de resíduos e encontrados 159 animais oleados, sendo 112 mortos. O governo federal gastou R$ 187,6 milhões com a contenção dos resíduos e envolveu 16,8 mil servidores públicos, a maioria militares. O óleo chegou ao litoral paraibano em 30 de agosto de 2019 e foi se espalhando nos meses seguintes até alcançar o estado do Rio de Janeiro.

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