“É um programa perdulário, ineficaz e perigoso”

 O Brasil está fazendo tudo errado no combate a doenças transmitidas por mosquitos? Entrevista com Lia Giraldo

Crédito: Flaviano Quaresma

 

O Brasil está fazendo tudo errado no combate a doenças transmitidas por mosquitos? Entrevista com Lia Giraldo

Por Antonio Martins, do Outras Palavras, para o Outra Saúde

17 de agosto de 2018

Inspecionar as casas, mandar as pessoas olharem seus vasos de planta e ficarem de olho nos vizinhos, passar carro com fumacê, perseguir cada gota de água parada. Há 30 anos o Brasil quer controlar a multiplicação do Aedes aegypti, e há 30 anos falha. Não só a epidemia de dengue volta a cada ano como outras doenças passam a ameaçar:  zika e chikungunya se tornaram grandes problemas, e a febre amarela volta a assustar em termos nacionais, inclusive com o espectro da sua versão urbana pairando sobre alguns municípios.

O que está dando errado? Para a médica Lia Giraldo, professora aposentada da Universidade Federal de Pernambuco e da Fiocruz e membro do Grupo de Trabalho Saúde e Ambiente da Abrasco, o problema está justamente no foco: o maior inimigo não é o mosquito.

Conversamos com ela durante o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, no fim de julho, e ela nos explicou melhor suas críticas – além das alternativas que seriam de fato resolutivas. A entrevista foi feita por Antonio Martins, do Outras Palavras, e também está disponível em vídeo neste link.

Confira:

Lia, primeiro faça um balanço da situação das arboviroses no Brasil.

As práticas sanitárias de enfrentamento de arboviroses com foco no que eles chamam de ‘combate ao mosquito’ – um termo que criticamos – são um tema muito controverso. A dengue reemergiu no Brasil na década de 1980 e, 10 anos depois, foi feito um grande balanço mostrando que essa abordagem estava equivocada. Se chamava ‘programa de erradicação do Aedes aegypti. E depois resolveram mudar para ‘programa de controle da dengue’. Mas na verdade essa nova denominação não mudou o foco, que era jogar as maiores energias e recursos para continuar combatendo os mosquitos.

O grande inimigo

O mosquito era o grande inimigo do Brasil, como que dotado de um poder… Nos últimos anos se colocou que ‘um mosquito não pode derrotar todo um país’, atribuindo ao mosquito uma intencionalidade que ele não tem. O mosquito é um ser biológico, com capacidade biológica de adaptação aos meios urbanos.

Então estão em articulação três ecologias: a do vírus, a do mosquito e a humana. Ocorre que, passados 30 anos dessa reemergência da dengue, o que se vê é a força das epidemias aumentando sistematicamente, inclusive com efeitos adversos e agravamentos clínicos que não se viam no passado. A força da densidade da exposição vetorial aumentou em todo o país – ou seja, a despeito do aumento no uso de venenos, a epidemia também aumentou.

O fumacê é aplicado como se isso não tivesse nenhum impacto sobre a saúde de modo geral.

Por que é ineficiente matar mosquitos com veneno?

Porque os mosquitos têm uma vida curta perante a nossa, e se adaptam rapidamente por mutações. Eles rapidamente geram resistência aos venenos. Então cada vez se usam novos produtos químicos, e cada vez mais tóxicos. Atualmente, no programa de controle do dengue, para eliminar mosquitos adultos, usa-se o Malation [inseticida usado no popular fumacê], agrotóxico classificado pela OMS como provavelmente carcinógeno para humanos. E nós aplicamos o fumacê como se isso não tivesse nenhum impacto sobre a saúde de modo geral.

Esse modelo tem sido sistematicamente usado, não traz resultados para o dengue e, quando da emergência do zika e do chikungunya, vemos a mesma abordagem ser mobilizada.

O problema é que não existe, por parte dos formuladores de políticas públicas, uma observação crítica para a sociedade mostrando que temos esses problemas por que temos condições ambientais que favorecem os criadouros desses mosquitos.

Para a zika já ficou demonstrado que não é só o Aedes aegypti que tem capacidade vetorial, mas também o culex -também chamado de muriçoca ou pernilongo, o mosquito comum. Para o Aedes há todo o discurso em relação à água, de não se manter vasinhos de planta dentro de casa, inclusive individualizando a responsabilidade e colocando a culpa nas pessoas. Mas quando você tem por exemplo o Culex como um vetor que transmite zika, fica evidente que você tem um problema de saneamento mais geral, especialmente com o esgoto, e esse é um discurso que o governo não aceita introduzir, porque significaria assumir responsabilidades com relação às questões da água e do saneamento. Ou seja, temos um problema a mais, um problema social.

E qual seria uma abordagem alternativa?

O GT de saúde da Abrasco, junto com outros GTs – o de saúde do trabalhador, o de nutrição, o de educação popular em saúde e o de promoção da saúde – lançou uma nota técnica apresentando 15 pontos de enfrentamento da problemática da zika e que podem se estender para outras arboviroses. A primeira é acabar com a aplicação de venenos. É um programa perdulário, porque estamos jogando dinheiro fora; é um programa ineficaz, porque não resolve o problema; e é um programa perigoso porque expõe as pessoas a venenos.

Pode-se interromper esse uso, que essa interrupção não vai piorar a epidemia. Precisamos parar a epidemia com outras medidas, como as de saneamento. Quando não temos grandes recursos para grandes obras, é possível fazer saneamento condominial, um trabalho de cata-bagulho, uma limpeza e organização do espaço público com envolvimento das pessoas.

Porque outro problema de se usar o veneno é que as pessoas também se acomodam e chegam mesmo a chamá-lo de remédio, por uma má influência da saúde pública. ‘Remédio para barata’, ‘remédio para mosquito’. Remédio é um conceito farmacológico de cura, de tratamento, e esses venenos são feitos para matar. Tem uma espécie de ocultamento de riscos, as pessoas não se empoderam de sua cidadania e participam muito pouco dos processos do cuidado ambiental para a prevenção e promoção da saúde. Por essas razões temos essa crítica formulada. Temos muitas publicações, muitas pesquisas, teses que trabalham nessa temática. Mas o Ministério da Saúde, infelizmente, bate nessa mesma tecla e ainda orienta suas secretarias nesse sentido, inibindo qualquer tentativa de se fazer outras abordagens que não usem venenos. Há uma vigilância forte por parte do Ministério da Saúde que obriga os setores municipais a usarem os venenos: embora o programa diga que se pode fazer uso de métodos químicos e biológicos, na verdade o único que se estimula e incentiva é o uso de produtos químicos.

Recentemente se introduziu uma outra abordagem, usando mosquitos transgênicos, que combateriam os mosquitos vetores. Qual a sua avaliação?

Há pouco tempo saiu o resultado de uma pesquisa inglesa mostrando que os mosquitos transgênicos não têm nenhuma eficácia para essa finalidade de eliminar os venenos através de um competidor transgênico do Aedes aegypti. Primeiro porque não é apenas o Aedes que transmite doenças. E segundo porque, ao se eliminar o Aedes, introduziu-se o Aedes albopictus, que também tem capacidade de transmissão. 

Continuamos no modelo mosquitocêntrico. Introduzem os mosquitos transgênicos, mas as condições ambientais que favorecem a transmissão continuam intocadas. Você continua expondo as pessoas a uma ecologia do vetor que favorece a transmissão. E ainda se cria uma tecnologia que torna os municípios dependentes da produção de mosquitos transgênicos, que precisam ser colocados frequentemente no ambiente, aos milhões. Além disso eles vão incomodar também as pessoas – se elas se incomodam por estarem sendo picadas e começam a jogar veneno, vão eliminar também os transgênicos… Então é para  a gente dar risada mesmo. Isso é uma fabriquinha de dinheiro, é uma ilusão. E não se faz a discussão séria, sanitária, que se precisa fazer.

A introdução do mosquito transgênico segue na mesma lógica mosquitocêntrica, não soluciona o problema. As arboviroses têm uma determinação socioambiental que precisa ser trabalhada

Além disso há lobbies e interesses. Existe uma nota técnica de 2014 da Abrasco sobre como a CTNBio [a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, responsável pela aprovação de transgênicos no Brasil], em apenas dois ou três meses, liberou a comercialização do mosquito transgênico sem que a Anvisa e o Ministério da Saúde tivessem dado suas posições frente a um problema que é de saúde pública. Portanto o Ministério tem a prerrogativa de cuidar dos métodos que devem ser usados. Temos críticas ao modelo dos venenos, mas é o Ministério quem tem essa responsabilidade, e por isso mesmo nós o responsabilizamos pela ineficácia.

Ressalto que a introdução do mosquito transgênico segue na mesma lógica mosquitocêntrica, não soluciona o problema. As arboviroses têm uma determinação socioambiental que precisa ser trabalhada, embora isso não signifique que se deve deixar de atuar sobre todos os outros elos da cadeia de produção dessas enfermidades, que precisam de uma abordagem de saúde, com acesso, qualidade, assistência em todos os sentidos.

Vimos uma questão seríssima no Nordeste, onde houve uma incidência muito maior de microcefalia relacionada ao zika do que em outros lugares. Deve haver mediadores nesse processo de causalidade que também precisam ser considerados nesse contexto.

É plausível a hipótese de que o próprio agrotóxico contribua para aumentar essa incidência?

Precisamos investigar tudo, mas não conseguimos uma boa ressonância em relação a isso. O uso de larvicidas em água para o controle vetorial de larvas começou no fim dos anos 1960 no Rio Grande do Norte e se manteve sustentável no Nordeste durante todos esses anos. Apesar de o Temefos ter sido o principal larvicida usado até 2012, temos estudos sistemáticos demonstrando que havia resistência das larvas ao Temefos. Mas o Ministério continuou usando esse organofosforado e não temos avaliações de seu impacto na saúde.

Depois houve a troca pelos juvenóides, como o Piriproxifeno. Há estudos experimentais que mostram que eles têm potencial teratogênico [de  produzir danos ao feto ou embrião] em animais. O efeito do juvenóide nas larvas é a inibição da formação do exoesqueleto do mosquito, e também provoca malformações na genitália, ou seja, há de fato um efeito teratogênico nos mosquitos.

Pode-se argumentar que esse é afinal o interesse em usar o veneno, ou seja, não deixar que a larva evolua para mosquito adulto. Ocorre que há problemas. Em Recife, agentes que usavam Diflubenzuron pediram para deixar de usar porque tiveram uma reação de metahemoglubinemia, e continuaram usando controle biológico. Houve pressão do Ministério para uso de juvenóides, mas eles tiveram  efeitos na saúde e deixaram de usar esses produtos. Mas, além disso, quando usaram, perceberam também que as larvas continuavam. Eles aplicavam e, quando faziam o controle, viam que havia larvas.

Tudo isso precisa ser avaliado em campo, precisamos de estudos que também avaliem os efeitos na saúde. [Quanto à correlação entre agrotóxicos e microcefalia] não faço uma hipótese tão forte nesse sentido, mas é preciso ter estudos toxicológicos e, especialmente, ecotoxicológicos. Pelo princípio da precaução, se há evidências de teratogênese nos animais, é preciso estar atento. Temos mecanismos de reparo celular mais sofisticados, mas isso não quer dizer que essas substâncias sejam inócuas para seres humanos. Demorou muito para a IARC – a agência de pesquisa e controle de câncer da OMS -, concluir que o Malation é potencialmente carcinógeno para humanos, porque se demorou muito para ter os resultados epidemiológicos, mesmo já havendo estudos com animais. Como pesquisadora e sanitarista, creio que qualquer exposição humana a produtos químicos deve ser acompanhada pela vigilância da população.

A Emenda 95 está derrubando os gastos e investimentos sociais, e isso inclui o saneamento. Você diz que o saneamento seria uma forma correta de combate às arboviroses. Você teme um recrudescimento de epidemias como zika e chikungunya?

O Brasil tem um déficit no saneamento há muito tempo, um déficit crônico. Em termos de desigualdades sociais, esse é um dos elementos que mudou pouco. É óbvio que qualquer corte em qualidade habitacional, saneamento, infraestrutura e em saúde de modo geral vão ter reflexos. Especialmente quando vivemos em um país com características ambientais, climáticas, que favorecem uma série de doenças veiculadas por vetores e reservatórios animais, essas questões tendem a ter um peso muito forte. Podemos dizer que é uma questão crônica que pode se agudizar ainda mais.

Mas em relação à dengue, vemos que desde a década de 1980 ela retorna periodicamente, e cada vez com mais força, e isso é uma tendência sustentável de crescimento. Inclusive porque entram novos tipos de vírus, primeiro era dengue 1, depois dengue 2, depois 3, depois 4.

Nós tínhamos, sim, uma perspectiva de ter uma Política Nacional de Saneamento, que desapareceu da agenda. No horizonte, só podemos ver pioras. A questão da Emenda 95  é para mim a grande bandeira que temos que levantar na sociedade. Porque está levando ao asfixiamento da mais importante política pública que o país já construiu – o SUS. E o SUS é uma política pública de inclusão social e de distribuição de renda, na medida em que as pessoas podem deixar de gastar recursos com planos ou medicamentos. Agora estamos perdendo o Farmácia Popular, perdendo uma série de suportes da política de saúde para a população. Isso é realmente um crime. Destruir o SUS é crime de lesa-pátria. E temos que reagir. De fato penso que vamos ter uma série de problemas. Alguns já vinham com uma tendência de estagnação ou piora, mas outros vão surgir na medida em que temos cortes em áreas sociais que são estratégicas.

Segundo você nos mostrou, na saúde brasileira e no controle das epidemias estamos travando uma guerra insana contra o inimigo errado e com métodos ineficazes. Que interesses há por trás dessa guerra para que ela venha se prolongando por 30 anos, sem resultado concreto nenhum? E como enfrentar esses interesses?

Eu sempre me lembro do grande pesquisador Frederico Simões Barbosa, que foi diretor da ENSP [Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, na Fiocruz] e da Fiocruz Pernambuco e foi coordenador do programa de controle da esquistossomose na OMS. Ele levou para a OMS os resultados de suas pesquisas sobre a ineficácia do uso de moluscocidas – ou seja, de se matar com agrotóxicos os caramujos. Ele já tinha uma observação de campo de mais de 12 anos mostrando essa ineficácia. Quando se tornou coordenador mundial do programa, percebeu o quanto a presença da indústria química fazia parte das decisões de um órgão internacional como a OMS. Depois de dois anos ele voltou ao Brasil – e esse depoimento está publicado nos Cadernos de Saúde Pública – pois viu que havia esses interesses. 

Não tenhamos ilusões: esses programas são sustentados por grandes lobbies. A tentativa agora de desregulamentar [a liberação de agrotóxicos], de retirar tanto da Anvisa como do Meio Ambiente sua capacidade de regulação tem a ver com a perspectiva de criar uma espécie de CTNBio do agrotóxico, para fingir que regula mas na verdade liberar tudo o que interessa ao mercado.

Estamos discutindo isso, temos um Dossiê para enfrentamento do PL do Veneno. O lobby de interesses do agronegócio é muito forte, mas estamos nessa luta. 

Nas decisões governamentais temos pouca presença do movimento social interessado, que é potencialmente vítima, mas temos forte presença dos setores produtivos.

Há uma jornalista francesa que fez um filme chamado O mundo segundo a Monsanto [disponível aqui], mostrando as interferências entre o interesse do mercado e a gestão pública. Eu fui coordenadora de um grupo técnico para revisão de 14 agrotóxicos, fui a muitas reuniões na Anvisa e testemunhei como as empresas pressionam e são favorecidas pelo Ministério da Agricultura. A necessidade de o Estado se proteger dos conflitos de interesse é uma questão muito importante, e no Brasil estamos fragilizados em relação a isso. Nas decisões governamentais temos pouca presença do movimento social interessado, que é potencialmente vítima, mas temos forte presença dos setores produtivos. E especialmente a área do controle, que deveria ser uma questão de Estado. Fui testemunha desses lobbies e do quanto nós, técnicos da Fiocruz que atuamos nessa questão, sofríamos uma certa retaliação por mantermos nossa posição de pesquisadores, isenta desse tipo de influência.

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2 comentários para "“É um programa perdulário, ineficaz e perigoso”"

  1. Antonio de Pádua disse:

    Tem a questão dos trabalhados que estão em contato direto com o inseticida. Muitos contaminados e que trabalham a anos.

  2. Tem a questão dos trabalhados que tem contato direto com o inseticida.

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