A semente gigante e a reinvenção da democracia

É desta mulher que estamos falando. De uma história de luta e superação que dá esperança às maiorias cuja existência é reduzida ou aniquilada, para garantir o pacto de exclusão em que vivemos.


“Conheci Marielle no no encontro Ocupa Política, em BH. Ainda me lembro da força de seu relato sobre o trabalho no mandato: assembleias com mulheres, prestações de contas em praças, rolezinhos na câmara de vereadores, projetos de leis construídos com a sociedade”

Hoje faz um ano do dia em que nos tiraram o chão. Do dia em que alguns covardes a mando de outros covardes dispararam 13 tiros contra um carro na região Norte do Rio de Janeiro. Do dia em que tiraram a vida de Marielle Franco e de Anderson Gomes, seu motorista.

Marielle Franco. Mulher negra, favelada e lésbica, como ela mesma se descrevia, que foi a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro nas eleições de 2016. Lutadora incansável pela vida, por justiça e igualdade.

Marielle Franco, nascida e crescida na Maré – região que figura entre as de menor IDH do Rio de Janeiro. Mulher que sonhava um futuro diferente, para si e para sua gente, daquele que a sociedade reserva para pessoas de sua cor, gênero e CEP.

Marielle, estudante secundarista que não teve aula de física em sua escola e que ralou por dois anos em um cursinho comunitário para passar no vestibular. Que teve uma amiga morta por uma “bala perdida” perto de sua casa e começou a atuar na luta por direitos humanos.

Marielle, que teve uma filha aos dezenove anos, se separou do marido por ter passado por violência, se formou na faculdade, foi assessora parlamentar, coordenou comissões, fez mestrado e se tornou vereadora.

É desta mulher gigante que estamos falando. De uma história de luta e superação que dá esperança à enorme parte da sociedade brasileira que tem sua existência reduzida, inviabilizada ou aniquilada para garantir o pacto de exclusão em que vivemos.

Conheci Marielle no final de 2017, no encontro Ocupa Política, em BH. Mediei uma mesa em que ela participou, sobre radicalização da democracia, e ainda me lembro da força de seu relato sobre o trabalho que faziam no mandato: assembleias com mulheres, prestações de contas em praças, rolezinhos na câmara de vereadores, projetos de leis construídos com a sociedade.

Há quem diga que defensores dos direitos humanos defendem bandidos. Marielle mostrava a falácia dessa frase: ela defendia que as leis fossem cumpridas; os processos penais, respeitados. E se empenhava em combater violências de todos os lados, apoiando igualmente familiares de policiais assassinados.

Há dois dias, foram presos dois acusados do assassinato de Marielle – um policial militar reformado e um ex-policial. Um deles é vizinho de Jair Bolsonaro. Sua filha namorou um dos filhos do presidente. O outro já foi fotografado abraçado com o presidente.

Pode ser coincidência, mas a relação do clã Bolsonaro com milicianos vai muito além. Flávio Bolsonaro já prestou homenagem a membros do Escritório do Crime e empregou a mãe e a mulher de um miliciano foragido em seu gabinete. Quem não está cego de ódio já entendeu quem de fato defende bandidos.

Já sabemos que quem apertou o gatilho foi o vizinho do presidente, mas a questão mais importante não foi resolvida: quem contratou o serviço? Porque não há democracia possível se a disputa política se dá na bala, na emboscada.

Assassinaram Marielle, mas não sua luta, expressa na importância de mulheres e pessoas negras ocuparem as instituições. Hoje ela é a semente de uma sublevação que já deu as caras nas eleições de 2018.

No Rio de Janeiro, três ex-assessoras da vereadora foram eleitas deputadas estaduais. Talíria Petrone, que era sua companheira de luta, foi eleita deputada federal. Em Minas, Áurea Carolina foi a 5ª deputada federal com maior votação. Andreia de Jesus, advogada popular que trabalhou boa parte da vida como empregada doméstica, foi eleita deputada estadual.

Todas elas são mulheres negras. Todas elas lutam, como Marielle, por uma democracia de fato, em que todas as pessoas, independentemente de classe, cor, gênero e orientação sexual, tenham condições dignas de vida e oportunidades semelhantes.

Um ano antes de ser brutalmente assassinada, Marielle deu uma entrevista a Beatriz Pedreira, do Instituto Update. Ao final, respondeu a algumas perguntas de bate-pronto: Um medo? Cair. Um sonho? Me manter firme. Seria preciso ouvir esta frase todos os dias, para termos sempre presente que, para tanta gente nesse país, se manter firme é um sonho.

Você está firme, Marielle, nas sementes que brotam, na força que você é dentro dos que lutam por uma vida melhor.

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