Fechar

Todos os vírus do marketing pop

A pandemia do novo coronavírus só piora com a contribuição histórica de outros agentes virais epidêmicos

Um combo para adolescentes via música pop. São diversos os tipos de influência absorvidos na relação de garotas e garotos com artistas: penteados, dança e, claro, roupas. Mas esse não é o limite. Se cabelos e jeans rasgados são mais visíveis como inspirações, os alimentos, principalmente depois do surgimento das redes sociais, ganharam força nas linhas de conexão entre fãs e músicos. E o resultado disso, muitas vezes, é bem ruim.

Tanto que o impacto exercido preocupa pesquisadores. Estudos e mais estudos – vamos chegar neles – apontam para o papel essencial da validação de marcas de alimentos ruins por celebridades na epidemia de obesidade infantil e juvenil no mundo. E é nítido que muitos dos mais conhecidos nomes da cena pop não estão nem aí para fazer recomendações saudáveis.

Entre as pesquisas realizadas internacionalmente, uma chama a atenção. Batizada de “Popular Music Celebrity Endorsements in Food and Nonalcoholic Beverage Marketing” (Endossos por celebridades da música popular em marketing de alimentos e bebidas não alcoólicas, em tradução livre), foi publicada na revista científica Pediatrics, publicação da American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatras).

Metodologicamente, o estudo descritivo classifica a popularidade de cantores ou bandas de música pop entre os adolescentes e analisa o tipo de alimentos e bebidas que essas celebridades endossam via publicidade. Importante: o acompanhamento foi feito ao longo de 14 anos, e os pesquisadores aplicaram uma análise nutricional rigorosa na revisão de centenas de anúncios.

Todos os artistas tinham nomes associados ao Billboard Hot 100, ranking que classifica as músicas de acordo com as vendas de álbuns e a veiculação de músicas e imagens na mídia. Além dessa compilação, mais dados sobre o apoio de celebridades a ultraprocessados foram coletados de sites oficiais das corporações alimentícias, comerciais do YouTube, bancos de dados de agências de publicidade e “reportagens” (entendamos esse último item como conteúdo patrocinado por marcas). As indicações ao Teen Choice Awards – prêmio que inclui anualmente os músicos mais populares entre os adolescentes – também foram usadas.

A qualidade nutricional dos alimentos foi avaliada de acordo com o índice de perfil dos nutrientes da Organização Panamericana da Saúde (Opas), enquanto as bebidas não alcoólicas foram verificadas com base nas calorias dos açúcares adicionados e das gorduras. 

Cento e sessenta e três artistas, em 590 anúncios, constam da amostra. Alimentos e bebidas ultraprocessados aparecem em 18% dos endossos dos músicos, ficando atrás apenas da categoria maquiagens e fragrâncias, com 26%.

Ao todo, 65 celebridades aparecem associadas a 57 marcas diferentes de alimentos e bebidas pertencentes a 38 empresas. Dessas 65 celebridades, 53 (81,5%) têm ao menos uma nomeação no Teen Choice Awards.

Quarenta e nove (71%) das 69 bebidas não alcoólicas são açucaradas. Vinte e um (80,8%) dos 26 alimentos endossados ​são altos em açúcar e gorduras, e pobres em nutrientes. Em nenhuma das propagandas havia frutas, legumes ou grãos integrais.

Não é para menos – nem por pouco dinheiro – que não se vê abacates ou cenouras nos comerciais. Os cientistas detectaram um gasto médio perto de 2 bilhões de dólares anuais por corporações de alimentos ultraprocessados em peças publicitárias direcionadas a jovens. 

“Esses acordos com celebridades geralmente valem milhões de dólares cada, mostrando que as empresas os consideram fundamentais para a promoção de produtos”, diz Marie Bragg, autora principal do estudo, membro do corpo docente da Faculdade de Saúde Pública Global da Universidade de Nova York. “A publicidade de alimentos leva a excessos e a indústria de alimentos gasta 1,8 bilhão de dólares por ano em marketing apenas para jovens”, explica. 

Marie ressalta que, embora algumas empresas fabricantes de utraprocessados tenham assumido compromissos voluntários de não fazer publicidade para crianças menores de 12 anos nos Estados Unidos, os adolescentes não estão incluídos nesse esforço. “O que deve ser feito urgentemente”, enfatiza a pesquisadora.

Co-autora do estudo, Alysa Miller destaca que a popularidade das celebridades da música entre os adolescentes os torna potenciais modelos positivos, mas que os músicos pop parecem não estar cientes de que, ao validar ultraprocessados, dificultam a luta da saúde pública mundial contra a obesidade e as doenças crônicas não transmissíveis. “Eles [os músicos pop] devem ter o papel de apoiar produtos saudáveis”, argumenta. 

Entre os artistas incluídos na pesquisa se destacam Beyoncé e Katy Perry (à direita, fantasiada de lanche, na foto de abertura deste texto, ao lado das “batatas fritas” representadas pela também cantora estadunidense Taylor Swift), donas de polpudos acordos de patrocínio com a Pepsi; Justin Timberlake, que chegou a fazer jingle para o McDonald’s; a banda Maroon 5, liderada pelo cantor Adam Levine, que escreveu uma música para a Coca-Cola; o rapper Snoop Dogg, parceiro do Hot Pockets e por aí vai. 

O estudo, publicado em 2016, é “limitado”, uma vez que as pesquisadoras afirmam que ainda vão cumprir etapas para entender e medir o quanto os apoios influenciam as escolhas e hábitos de consumo dos adolescentes. Tem limites, sim, mas já aponta várias tendências que se consolidam na prática. 

Uma prática mostrada por outros estudos, com agravantes: os efeitos da publicidade de junk food com o apoio de estrelas pop no consumo de alimentos são mais impactantes em crianças e adolescentes do que em adultos, segundo uma metanálise realizada pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e publicada no American Journal of Clinical Nutrition. A pesquisa reeuniu 22 estudos para mostrar como os alertas de pais e responsáveis e, mesmo as campanhas pró saúde pública, embora importantes, ainda são frágeis contra o poderio econômico da indústria e o apelo das celebridades.

Beyoncé disse, certa vez, “que ser uma mulher de negócios associada a essas marcas não afetaria a minha criatividade”. De fato, não afetou, como ela mostra no vídeo da ótima música Formation, em que bate lindamente, em letra, ritmo e imagens muito bem somados, no racismo, no machismo e a na violência policial.

Ainda assim, há artistas pop que fazem trabalhos igualmente criativos e impactantes sem parceria com empresas nocivas à saúde. Muito ao contrário, esses encaram as corporações de junk food como parte do problema, algo que o Joio já mostrou aqui.

Algumas “amostrinhas” 

Comercial televisivo da Pepsi, de 2003. Tá bom, o anúncio é “velho”. Mas é marcante demais para deixar pra lá. Beyoncé passa por um adolescente que baba no corpo da cantora, até que ela se aproxima e se posta sensualmente ao lado de uma máquina automática da Pepsi. Entre outras pérolas, a moça solta um “Eu te entendo muito”, quando nota o olhar sexualizado do menino fixado nela e na bebida que a artista escolhe. 

Preciso dizer que, além do incentivo ao consumo a adolescentes impressionáveis pela idolatria, a peça publicitária é sexista, machista e coloca a mulher no mesmo patamar de uma latinha de refri, descaradamente mostrando as duas como “prontas para consumo”? Não sei se precisava, mas disse. 

E a “velhice” do anúncio continua não sendo desculpa, porque Beyoncé seguiu a fazer acordos com a megaempresa de refrigerantes por longos anos, estrelando muitos outros comerciais, inclusive, apresentações no Super Bowl (a final do campeonato do futebol americano, o evento esportivo mais visto nos Estados Unidos e o segundo no planeta) patrocinadas pela Pepsi.

O Maroon Five, banda pop escalada entre as favoritas dos jovens faz alguns anos, talvez forneça o exemplo mais bizarro do “nem aí” para os efeitos nocivos que produzem no público. Além de escrever o jingle para a Coca, o grupo ainda se apresenta num vídeo de bastidores da Snapple, marca de chás e sucos enlatados da gigante Green Mountain, como “co-criadores” de um novo produto. Sem nenhum constrangimento, os músicos enaltecem a “preocupação científica com o desenvolvimento da nova bebida açucarada”. 

Outro que caprichou foi o cantor Justin Timberlake. Também garoto-propaganda da Pepsi, ele não se contentou com os refrigerantes. Reforçou a marca do McDonald’s, negociando o uso de imagem e de um dos hits que emplacou na paradas de sucessos, a música “I’m Lovin’ It” (estou amando isso, em tradução livre), para que a corporação de fast-food o relacionasse diretamente ao slogan mais famoso da rede “Amo muito tudo isso”. Caprichou no combo-bomba pra garotada, hein, Justin?                

O combo de Justin Timberlake para a garotada inclui McDonald’s e Pepsi Foto: Divulgação

Brasil “live”

Um dos mais conhecidos sites de música do Brasil, o Vagalume fez uma pesquisa que analisou seis categorias da indústria que mais possuem apelo com fãs de bandas, festivais e cantores. A estratégia, batizada All About Music (Tudo Sobre Música),  resultou num ranking dirigido ao mercado de entretenimento, mais especificamente ao musical, e apontou caminhos às “marcas mais abertas” a ações publicitárias dirigidas a jovens. E essas marcas, principalmente de ultraprocessados e bebidas alcoólicas, seguem a crescer criando formas para fazer ações de “live marketing”. O investimento, inclusive, faz as companhias serem identificadas como “marcas musicais”, 

Mas que raios é live marketing? O conceito do negócio, segundo quem entende, é definido como marketing “ao vivo”, uma forma de interação direta com o público, que proporciona “diálogo” entre marcas e pessoas e “promove engajamento”. Integra serviços, produtos e branding (que é a gestão de uma marca ou empresa) em uma só “experiência”.

Daí, deriva uma penca de atividades. O manual, curto e bonitão, da Associação de Marketing Promocional (Ampro) aponta ações e espaços propícios ao marketing ao vivo: eventos, feiras e congressos; promoções; merchandising com diferentes tipos de sinalizações; ativações de marca, marketing de incentivo, endomarketing; e ações digitais em mídias sociais, aplicativos e outros programas virtuais. Fala, também, em termos modernosos, com ares científicos e políticos, estimulando o uso de “ciências das redes”, “comunidades on e off” e “causas”.

Uma beleza. Principalmente, quando isso tem potencial de se relacionar a produtos que, consumidos sem moderação, detonam a saúde de milhões de pessoas. 

Vamos a eles, os produtos do ranking Vagalume:

Líder de longe das bebidas açucaradas, a Coca-Cola é identificada como a empresa que mais atua estrategicamente em entretenimento, a ponto de nem ser necessário fazer uma divisão por estilo. Há “live marketing” para todos os gostos musicais: rock, eletrônica, sertanejo e pop. Na categoria música, a Coca lidera disparada, com 43% de associação ao tema. Depois vêm Red Bull (14%), Guaraná Antártica (7%), TNT (5%) e Pepsi (4%). 

Já entre as cervejas, a concorrência é mais dura. A Heineken aparece com 22%, Skol e Budweiser com 17%, Brahma com 5% e Itaipava 3%. As três primeiras investem alto em patrocínios de grandes shows, além de trabalharem mais a temática musical nas redes sociais.

Na categoria de bebidas destiladas, a Smirnoff tem 19%, a vodka Absolut 15%, e os uísques Jack Daniel’s 10%, Ciroc 6% e Johnny Walker Black Label 6% vêm em seguida. Essa categoria está mais associada aos estilos musicais  eletrônicos e tocados em casas noturnas.

E, por falar em “marketing ao vivo”, é legal lembrar que, em dias de pandemia, o “live marketing” da indústria de ultraprocessados não para. Ao contrário. As lives virtuais de músicos pipocam por Instagram e YouTube, com Gusttavo Lima enchendo a cara com marca específica de cerveja, a Bohemia, da Ambev, e Ivete Sangalo dançando de pijama, toda despojada, em casa, mas com patrocínio da Seara e seus hambúrgueres vazios de carne, mas altos em sódio e gorduras, ou seja, um ultraprocessado.  

E isso é só uma pequenina amostra, o começo do problema num mundo habitado pelo novo coronavírus, causador da Covid-19, mas, também, por uma pandemia de obesidade, diabetes, hipertensão e problemas cardíacos. 

Um prato cheio para parasitas virais que infectam corpos e mentes.                  

Carrefour e Pão de Açúcar vivem euforia em meio à pandemia

Resultados do primeiro trimestre confirmam tendência de aumento de poder das corporações do setor e explicitam desigualdade entre consumidores pobres e ricos

As grandes redes de supermercados encontraram na pandemia de Covid-19 a situação perfeita para abocanhar uma fatia ainda maior do setor. Como previmos no Joio, a tendência de que o cenário aumente a assimetria entre grandes e pequenas empresas varejistas está se confirmando. Também é esperado que cresça a brecha entre os supermercados e outros formatos de comercialização de alimentos, como feiras, mercearias, açougues e padarias. 

Em simultâneo, a quarentena explicita as desigualdades entre consumidores pobres, mais expostos aos riscos de contrair a doença, e ricos, para quem estão disponíveis compras à distância e serviços de entrega. 

Carrefour e Pão de Açúcar apresentaram na semana passada os resultados financeiros do primeiro trimestre de 2020. As vendas explodiram, em especial na última quinzena de março, quando tiveram início as medidas de restrição da circulação e as pessoas correram para fazer estoques.

O faturamento do Carrefour avançou 12,5% nos primeiros três meses em comparação com o mesmo período de 2019. No Pão de Açúcar, o resultado foi ainda mais expressivo, com expansão de 56,5% nas vendas brutas, chegando a R$ 21,6 bilhões. O ritmo elevado vem se mantendo no segundo trimestre, segundo os representantes das duas empresas. 

No caso do Pão de Açúcar, o resultado final apresentou um leve prejuízo em razão da integração das operações com o Éxito, rede do grupo Casino presente na Colômbia, no Uruguai e na Argentina. Mas nada que afete as projeções quanto à possibilidade de manter um faturamento elevado ao longo do ano.

Migalhas esmigalhadas

Dois braços dos negócios se beneficiaram especialmente da conjuntura. De um lado, o formato de atacarejo, com custos baixos e alta margem de lucro, voltado às classes baixas. De outro, os pedidos pela internet, acessíveis às camadas de média e alta renda. 

As duas maiores corporações do setor controlam em torno de 30% do mercado nacional, mas essa fatia é significativamente maior nos principais centros do país. Nos dados mais recentes da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), relativos a 2018, somavam R$ 110 bilhões de faturamento – a quarta e a quinta empresas da lista tinham, em conjunto, R$ 15 bilhões. 

O cenário econômico e social projeta a fome e o desemprego a níveis recorde (e ainda imprevisíveis). Empresas das mais variadas áreas quebram. Mas os supermercados celebram. Nas últimas duas semanas de março o crescimento das vendas no Grupo Carrefour foi de 20,9% frente ao mesmo período do ano passado.

Mundo afora, esse segmento foi considerado como serviço essencial e sofreu pouca ou nenhuma restrição. No caso brasileiro, limitações à densidade de clientes e imposições de medidas de proteção foram a exceção, e não a regra. Logo de cara, o Carrefour, que emprega 85 mil pessoas, e o Pão de Açúcar, que tem em torno de 100 mil funcionários, contrataram outros cinco mil cada um para dar conta da demanda e afastar trabalhadores infectados. 

Segundo a Abras, diariamente 28 milhões de pessoas passam por supermercados no país, ou seja, ao longo de uma semana praticamente todas as famílias brasileiras foram ao menos uma vez a uma loja.

Em 1990 eram 32 mil supermercados. Em 2000, 61 mil. E, hoje, cerca de 90 mil. Sobra pouco para o chamado varejo tradicional, formado por mercearias, mercadinhos de bairro e pequenos comércios locais. Em 1995, o varejo tradicional ficava com 12,5% do faturamento. Atualmente, só 7% do dinheiro sobra para os pequenos, segundo dados da consultoria Nielsen, que faz os principais levantamentos sistemáticos de informações sobre o setor.

No primeiro trimestre deste ano, o faturamento do Carrefour aumentou 12,5% em comparação com o mesmo período de 2019. Somente nas duas últimas semanas de março, período no qual o Brasil registrou a 1ª e a 100ª mortes, as vendas do grupo avançaram 20,9%.

Como se fosse Natal

O atacarejo é um modelo que usa lojas de estrutura muito simples, no formato de atacado, mas voltadas tanto a pessoas físicas como jurídicas. Esse segmento vem apresentando crescimento de dois dígitos nos últimos anos e é o que segura a onda das duas maiores empresas do setor, em especial à medida que a população perde mais renda – hoje, já representa 67% das vendas totais no Carrefour e 53,8% no Pão de Açúcar.

Tem garantido a essas corporações um vislumbre daquilo que jamais conseguiram: ter capilaridade nacional, com presença em centros de médio porte e em áreas de baixa renda. 

No primeiro trimestre, o Atacadão, bandeira de atacarejo do Carrefour, cresceu 13,6% em faturamento frente ao mesmo período de 2019, enquanto o concorrente Assaí, do Pão de Açúcar, avançou 23,8%. Relatamos em nosso podcast, Prato Cheio, como essas unidades estavam repletas nas primeiras semanas de pandemia, sob medo dos trabalhadores de que acabassem infectados. 

O receio ganhou números e, no discurso dos diretores, virou euforia. “Foram sete dias como se fosse 23 de dezembro. O time precisou ser muito guerreiro, com muita garra para atender aquele movimento que veio”, afirmou Belmiro Gomes, CEO do Assaí, em alusão ao final de março, durante a teleconferência de apresentação dos resultados do primeiro trimestre, realizada na semana passada. Ele projetou ainda um crescimento na casa de 20% no segundo trimestre com base naquilo que se tem observado em abril e maio. 

Tudo isso num cenário no qual boa parte dos clientes habituais do atacarejo estão fechados. Escritórios, pessoas que fazem comida para vender, restaurantes, cafés, nada disso opera normalmente no país. E, ainda assim, as compras de pessoas físicas estão sustentando um crescimento enorme. 

“Estamos em maio. Se houvesse uma ressaca de vendas teria que ter vindo. E não veio. O cenário continua sendo um cenário positivo”, resumiu Roberto Mussnich, diretor-presidente do Atacadão, diante da pergunta de um jornalista sobre a possibilidade de a euforia da última quinzena de março se dissipar no horizonte. 

Fila de clientes em uma unidade do Atacadão, no Jaraguá, bairro da Zona Norte de São Paulo | Foto tirada em 21 de maio

Na teleconferência de apresentação dos resultados do primeiro trimestre, os diretores do Carrefour claramente buscaram adotar um tom de comedimento, começando por apresentar as medidas adotadas contra a pandemia.

Mussnich não foi tão contido quanto os colegas ao expor os resultados. “O que estamos vendo pra frente é um cenário também muito bom. E além de um cenário muito bom, um cenário onde nós, como temos um modelo excepcional, que mantém um equilíbrio muito bom entre custo baixo e preço baixo, estamos sendo entendidos e ganhando novos clientes. Somos uma solução para a pandemia. Não uma solução médica, é claro. Mas uma solução para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.”

Mais do que nada, o Atacadão é uma solução para o Carrefour, que seria uma rede grande, mas não gigante, se dependesse apenas dos super e hipermercados. Já são 190 lojas de atacarejo, mais 30 que foram compradas da Makro e outras 16 em construção.

Enquanto isso, nenhum hipermercado foi aberto nos últimos doze meses – são cem no total. Hipermercado é aquilo que sempre conhecemos como o formato principal dessas redes: unidades grandes, com 30, 40, 50 mil itens, muitos caixas, produtos distribuídos por segmentos claros.

O concorrente Pão de Açúcar fechou cinco hipermercados esse ano e pretende manter a toada. Esse formato de unidades grandes patina há anos. A pandemia deu um novo sopro de esperança, com alguma recuperação das vendas devido à necessidade de as pessoas encontrarem tudo num só lugar. Mas nada que salve a pátria. 

Papai Noel online

A desigualdade entre consumidores pobres e ricos fica exposta quando se olha para o outro lado da moeda. Os consumidores de média e alta renda têm garantido às grandes redes um crescimento explosivo das compras online.

“A gente triplicou o volume de vendas por esse canal. Talvez experiências positivas vieram para ficar. Parte desses consumidores que testaram o e-com pela primeira vez podem permanecer”, disse Silvana Balbo, diretora de Marketing do Carrefour, durante um bate-papo no portal UOL.

Tanto ela como diretores que participaram das conferências de Carrefour e Pão de Açúcar ressaltaram um expressivo ganho de mercado no delivery e em relação a outros formatos de compra.

Em outras palavras, enquanto o armazém da esquina demora semanas para se reestruturar e encontrar um novo caminho, as grandes redes estão sempre em melhores condições de surfar nas crises. Mais ainda diante de um governo federal relutante em oferecer socorro real aos pequenos empresários.

O atacarejo, formato de loja que oferece preços baixos em uma estrutura precária, já representa 67% das vendas totais no Carrefour e 53,8% no Pão de Açúcar.

O Pão de Açúcar abriu dois novos centros de distribuição voltados aos negócios online. Os sites da empresa tiveram 150% mais acessos que no mesmo período do ano passado, segundo o relatório apresentado ao final do primeiro trimestre.

No caso do Carrefour, conta Silvana Balbo, havia uma mudança em curso para criar rapidamente side stores, ou seja, depósitos que aproveitam o espaço das lojas físicas para distribuir compras online com maior rapidez.

“Para ter uma ideia de quanto isso fez a diferença para nós em termos de logística, no auge da pandemia, os concorrentes estavam entregando em até 15 dias, e a gente chegou a no máximo cinco (…) No nosso caso, a gente chegou a esses cinco dias, e agora já está trabalhando com o dia seguinte ou, no máximo, dois dias depois.” A side store representava 25% das vendas no trimestre anterior e, agora, já chega a 36%. 

A pandemia acelerou em alguns anos uma transição que as grandes redes penavam em conseguir fazer. A venda de alimentos pela internet crescia, mas sobre bases relativamente baixas. Por um motivo simples: muitas pessoas querem selecionar o que levarão para casa. Mas, entre a Covid-19 e uma banana bonita, os clientes deixaram de lado essa questão. 

No caso do Carrefour, as entregas de alimentos em casa foram 85% dos pedidos online, contra 61% no trimestre anterior, no qual muitas pessoas optavam por comprar pela internet e retirar na loja. Em um único dia, a empresa registrou 4.269 pedidos, um novo recorde. E o volume bruto de mercadorias cresceu 235% na comparação com o período anterior. 

“O e-commerce vai entrar num novo patamar. Não retorna aos níveis anteriores. Não retorna em absolutamente nada”, resumiu Jorge Faiçal, presidente do braço de varejo do Pão de Açúcar. “Por volta de 50% das vendas são novos consumidores de e-commerce. Especialmente a faixa etária de mais de 60 anos, que a gente fez um atendimento diferenciado e prioritário para essa faixa etária. Especialmente no Pão de Açúcar.” 

O e-commerce alimentar cresceu 82% no trimestre, e em abril vinha “muito acima disso”, nas palavras de Faiçal. A expansão é muito maior no James Delivery, justamente um exemplo emblemático da capacidade das grandes redes em concentrar ainda mais mercado. O James é uma startup criada em Curitiba com foco em entregas para as classes altas que acabou adquirida pelo Pão de Açúcar. 

O tíquete médio, ou seja, o gasto médio dos clientes, cresceu em 130% quando comparado ao mesmo período do ano passado, o que indica a tendência de compras maiores em meio à pandemia. O crescimento no volume bruto de mercadorias foi de 4.200%. Agora, o James já representa 13% das vendas do comércio online alimentar da corporação. Um dos motivos da expansão é a integração não só com Extra e Pão de Açúcar, mas com a Drogasil e o Iguatemi. Enquanto isso, o mercadinho da esquina tem condições de anotar pedidos pelo telefone. Se tanto.

Nem só de lives patrocinadas: música pop também critica caos e junk food

Na contramão de artistas bancados por marcas de corporações alimentícias, uma visão crítica e até perturbadora sobre ultraprocessados

A América sob o olhar de um músico norueguês e uma dupla de artistas alemães não é bonita. Quando Magne Furulhomem lançou o álbum White Xmas Lies, em outubro do ano passado, talvez não imaginasse a completude do cenário distópico que enfrentamos agora no continente, com direito a novo coronavírus, Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Porém, parte da situação ele já entendia. Se o artista não enxergava precisamente a pandemia do Sars-Cov-2, já vislumbrava um mundo caótico, cidades se deteriorando e pessoas em isolamento. Com um acréscimo: muita junk food como símbolo da decadência da saúde física e mental.   

Magne é um cara conhecido do mundo musical. Membro da banda de pop-rock a-ha (assim mesmo, tudo em minúscula), ele é compositor de um dos maiores hits musicais de todos os tempos, Take on Me, e responsável por um dos solos de teclados mais facilmente identificáveis da história da música.

E, embora até hoje faça turnês bem-sucedidas com a banda que lhe lançou à fama, Mags – apelido que carrega desde a infância – se tornou também um reconhecido artista visual na Escandinávia. Foi por esse caminho que se aproximou da dupla alemã-norueguesa de multiartistas composta por Ida Müller e Vegard Vinge, criadores de vídeos, peças teatrais e outras experimentações visuais.

Dessa soma, nasceu o videoclipe de uma das faixas do álbum de Furulhomen, This is Now America (não confundir com This is America, video igualmente impactante e potente do artista estadunidense Childish Gambino/Donald Glover). 

Vou tentar não dar muitos spoilers da essência do clipe aqui, mas vale dizer que o vídeo abre mostrando discursos raivosos de Trump, enquanto uma família vai se deformando, inclusive fisicamente, e se autodestrói, presa numa casa, de onde só é possível observar um mundo em chamas, consumir ícones pop de todos os tipos e se entupir de Coca-Cola, Pringles, Burger King, Sucrilhos Kellogg’s, entre outras (sim, todas as marcas estão lá, sem medo de retaliações, e chega até a rolar uma “overdose” com uma delas). 

Tudo isso, para potencializar uma letra forte e destoar propositalmente da voz reconfortante de Mags, que canta: “Não há nenhuma ponte para atravessar as divisões/Um passeio alegre foi destruído/Por um macaco ao volante/Agora, todos vão ficar em casa/Há lobos batendo nos seus calcanhares.”, numa escrita que, não custa relembrar, veio bem antes da Covid-19.

Poderia ser “só” mais uma pesada crítica à tentativa de assassinato de valores democráticos por políticos como Donald Trump, com quem Mags já havia se irritado por uma imitação descarada que o político fez da estética do clipe de Take on Me numa ação de marketing. Contudo, This is Now America vai além e mostra algumas das maiores corporações do planeta como co-responsáveis pela destruição de corpos e sonhos, incluindo as estruturas da própria democracia. 

As megaempresas são expostas como peças-chave de um jogo de alienação, manipulação e morte, numa interação competente entre texto, música e imagens.

Cena do perturbador vídeo de This is Now America, música de autoria de Magne Furuholmen Foto: Just Loomis

Nesse conjunto, há uma indignação nostálgica sobre esperanças destruídas pela invasão e sobreposição do interesse privado ao interesse público, algo que bate direto no presidente dos Estados Unidos, mas que serve bem para encaixar Jair Bolsonaro no Brasil, país também muito conhecido por Magne.

“Essa música é uma resposta artística instintiva à minha crescente preocupação com a tendência humana ao consumismo, à divisão e ao entrincheiramento acontecendo por todos os lados. Se concluirmos que aqueles que compartilham das nossas opiniões são os mocinhos e que os que não o fazem são maus, então, estamos em um caminho perigoso. O mesmo vale para o consumo como valor maior. Poderia ter sido escrita [a música] sobre outros lugares, como a minha segunda casa, que é a Grã-Bretanha, ou mesmo sobre a minha Noruega natal, mas a verdade é que o que acontece na América é muito importante e influente para o mundo”, diz Mags, explicando parte do processo de composição do trabalho. 

Muito antes de pensar na parceria com a dupla Vinge e Müller para a construção do vídeo, que foi lançado em fevereiro, o músico norueguês havia composto a canção como uma crítica ao consumismo e ao momento retrógrado da América, tendo o Natal – gancho de todo o álbum – como um exemplo das distorções de sentido e apropriações de afetos produzidas pelo capitalismo.

“Era um fim de um ano e o começo de um novo, o momento perfeito para refletir sobre o que se passou, onde você está e o que o futuro reserva. Esse tempo pode ser extremamente significativo, pode ser um tempo para pensar em deficiências, objetivos e utopias. Em vez disso, nos comportamos como consumidores submissos e nossa utopia é comprar a versão mais recente de um celular ou jantar em restaurantes caros”, comenta o músico. 

Então, o ano virou. As preocupações de Magne Furulhomen aumentavam e ele só conseguia pensar em transformar a música em algo que traduizisse visualmente o lamento por trás de boas expectativas que se esvaíam.

Ideias trocadas, a narrativa saiu desenhada à mão por Vinge e Mülller, trazendo um mundo eclético e assustador, com um “lado de fora” visto de forma conturbada pelos olhos de um garoto atormentado, como tantos meninos e meninas devem estar observando a vida de carne e osso nesse momento pelas janelas.

Mags não tem receio de assumir essa visão triste do hoje e admitir a nostalgia que lhe atravessa: “Quando eu tinha 15 anos, senti que o mundo estava cheio de infinitas possibilidades e era um lugar emocionante para seguir um sonho. Hoje, as crianças crescem em um mundo muito diferente e muito mais perturbador.”

O que ele não imaginava era que a arte que criava naquele momento poderia ser quase uma “previsão”. E que as coisas, incrivelmente, piorariam, com a chegada avassaladora do novo coronavírus, mostrando um cenário ainda mais aterrador, cercado por obscurantismo. e o capital, as grandes marcas, mais uma vez, ditando as regras. Decidindo, literalmente, quem vive e quem morre.

Isso o assusta, como a tantos de nós, mas, ao mesmo tempo, não permite que ele se esconda, até porque Magne sabe que o modelo econômico que está destruindo o planeta precisa de uma alternativa e que as grandes marcas são, hoje, mais parte do problema do que da solução.  

“Vivemos tempos turbulentos. O mundo está sendo devorado pelos lobos. Todos os dias, há um novo exemplo horrível de deterioração em todas as frentes, seja política-partidária ou climática. E isso assusta. E nós somos os causadores, mas nos esconder não fará com que o problema desapareça”, conclui. 

Impossível não pensar no Brasil ao assistir This is Now America e nem há como dissociá-lo do que fazemos aqui no Joio. Vivemos tempos tristes. De uma pandemia de vírus, ódios e lucros financeiros tirados da tragédia. Distrair a cabeça é mais do que necessário. É um direito. 

Porém, não bastasse o novo coronavírus e um governo irresponsável e negacionista, é preciso falar do envolvimento tantas vezes nocivo entre entretenimento e alimentação. Por quê?

Porque, se as coisas estão ruins, poderiam estar um pouco melhores se tantas mortes por Covid-19 não tivessem o risco elevado por problemas cardíacos, diabetes e hipertensão, doenças crônicas não transmissíveis incansavelmente relacionadas pela ciência à má alimentação, tantas vezes incentivada justamente por ícones da música pop.

Dentro da espiral de lives de artistas patrocinados por marcas de cerveja e alimentos ultraprocessados enquanto os hospitais lotam com a pandemia, é bom ter um respiro quando a música popular é elevada ao nível de um curta-metragem significativo.

Perturbador, sim, mas, também, uma  provocação necessária sobre os rumos do hoje e do amanhã.  Eu aconselho.  

Paola Carosella: “A comida do futuro tem que ser a comida do passado”

Em entrevista ao Joio, chef fala de mudanças na cozinha, de terapia, de trabalho, de açougue. E ainda dá uma receita especial

Após chegar no estúdio onde seria gravada a entrevista, no centro de São Paulo, Paola Carosella pediu um pouco de água. Um dos repórteres do Joio correu para lavar e buscar um copo. A pressa, no entanto, aprontou uma peripécia. Ao servir, bolhas de detergente subiram da louça, que não havia sido bem enxaguada. É, o episódio renderia ao jornalista uma reprovação no Masterchef, além de um sermão bem aplicado pela cozinheira e apresentadora do programa na televisão.

Nada disso, entretanto, se passou. Embora ligeiramente constrangedora, a situação provocou nada mais do que risos, antes do início da conversa. Também revelou uma Paola um tanto quanto diferente daquela que muitos acreditavam ser. Durante a entrevista, a chef se mostrou uma pessoa irônica, é verdade, mas muito atenciosa e sagaz, sobretudo ao desfiar os seus conhecimentos sobre o sistema alimentar.

Ela falou, entre outros assuntos, sobre as mudanças na organização das cozinhas profissionais nos últimos 30 anos. Tratou da divisão de gênero para a divisão das tarefas domésticas. Comentou sobre terapia em psicanálise, a relação das dietas com a carne, voltou a criticar o hambúrguer do futuro. Em suma, proporcionou uma saborosa conversa, que ainda nos deixou com uma receita para lá de especial.

Além desta reportagem, você pode conferir a entrevista no último episódio da primeira temporada do nosso podcast, Prato Cheio. Confira os melhores trechos abaixo.

*

Pergunta— Paola, você começou logo com 18 anos, né?

Resposta — Dezoito. Então faz 30 anos.

De lá para cá, o que é que você viu mudar nas cozinhas profissionais?

Tudo. Tudo o que você possa imaginar.

O que você destacaria?

Primeiro é necessário que a gente fale aonde essas mudanças. Aqui na América Latina, na Europa, onde?

Eu, por exemplo, em 1989 comecei na Argentina e em 91 já estava trabalhando em Paris. É tão diferente. Se a gente fizesse um comparativo do que era lá nessa época e o que era em Paris, o que era na Argentina. Depois, em 2001, que eu vim para cá, comparar o Brasil com a Argentina era diferente mesmo assim, muito diferente.

Acho que São Paulo, o Brasil — vou tomar muito cuidado com as palavras — é um país um pouco mais conservador do que a Argentina em algumas questões. E também talvez por causa da língua, talvez por questões culturais um tanto menos cosmopolitas do que Buenos Aires, São Paulo possa ser.

Então, quando eu cheguei, em 2001, se você comparava a Buenos Aires de 2001 com a São Paulo de 2001, lá em Buenos Aires estávamos dez, quinze anos.

O que aconteceu em 2015 já estava acontecendo em 2001 na Argentina, no quesito de restaurantes mais democráticos, cozinheiros mais jovens, cozinhas abertas, restaurantes não tão pomposos, não somente para os milionários. Características sociais de países que são diferentes, não estou falando nem melhor, nem pior, nada, simplesmente diferentes.

Então, o que mudou de lá para cá? Muita coisa. Desde o relacionamento que cada país tem com a sua culinária própria. Acho que 20, 30 anos atrás copiávamos a Europa, depois copiamos os Estados Unidos. Depois, em algum momento, alguém começou a falar: “opa, mas peraí, temos uma cultura própria. Vamos mergulhar nessa nossa cultura própria”.

E, opa, essa cultura vem junto com ingredientes, então quais são os nossos ingredientes? Vamos olhar a mandioca, vamos ver os feijões, vamos ver os nossos queijos, vamos olhar os nossos bichos, vamos entender nossos biomas.

Então, acho que mudou muita coisa, por exemplo, de como se organiza uma cozinha. Quando eu trabalhava na França, era quase um regime militar. Acho que hoje em dia você não pode mais fazer isso.

O que você acha que não devia ter mudado? Tem alguma coisa que você queria que fosse como era?

Que boa pergunta. Acho que o tempo. No sentido geral, o tempo de antes valia mais, ele era mais longo, ele era mais focado, ele era mais concentrado. Acho que hoje em dia a gente faz muita coisa ao mesmo tempo e polui o tempo. Você está na cozinha e põe o timer no celular e quando vai por o timer no celular você abre o Whatsapp porque alguém te manda uma mensagem. Aí você está na cozinha fazendo um picles e lembra que alguém postou uma receita, então você vai no celular para ver se encontra no Google a receita do picles.

Porra meu, esquece, usa a cabeça. Larga o celular… Acho que os tempos eram todos mais tranquilos, mais focados e mais intensos, eles próprios.

Você acha que isso mudou a relação como as pessoas comem, também? As pessoas mexem muito no celular enquanto estão comendo.

É sofrível. Se eu pudesse bater na mão das pessoas que entram no Arturito e a primeira coisa que fazem é pegar o celular para fazer uma foto. Pegaria uma régua, sabe, tipo de…

“Você veio comer ou veio mexer no celular?” (risos)

Porra! Quando vai comer está frio, né, porque aí faz o ângulo, vê a luz, pega o filtro, faz a postagem, tira a foto do cara que está na frente com um sorriso porque chegou no restaurante da Paola aí vai comer e está frio. É claro que está frio, faz meia hora que está aí. Eu odeio celular. Detesto.

Sobre essa questão do tempo, e pensando em cozinhar… Muita gente hoje fala que não cozinha em casa porque não tem tempo.

Mas é diferente. Eu acho que, de novo, é muito importante contextualizar para qualquer coisa, para qualquer pergunta, para qualquer resposta. Se vamos falar de tempo para cozinhar, de quem estamos falando? Estamos falando de uma classe média-alta que se desloca de Uber e que mora a 20, 30 minutos do trabalho e que está conectado porque quer estar conectado?

Ou estamos falando daquela mãe que mora a 2h30 de casa, que demora 1h20 para deixar o filho na creche e depois tem que chegar no emprego e depois demora 2h para pegar o filho na creche e chega em casa depois de 13 ou 14 horas fora. Essa mulher não tem tempo por outros motivos. Geralmente o marido não existe, porque abandonou.

Qual é o contexto?

Acho que o nosso incômodo é um pouco com essas pessoas da classe média e classe alta.

É, imaginei. Porque a outra coisa é uma escolha. Acho que a gente está falando de quem não pode escolher. Mas, se você escolhe fazer uma aula de hot yoga e depois assistir Netflix e depois pedir um suco verde no aplicativo, é uma escolha. Você poderia também cozinhar. Agora quem não pode escolher é um pouco mais complicado, e a sociedade se compõe hoje em dia por muita gente que não escolhe mais. Tem uma indústria que escolhe por eles, muito sacana e que oferece as alternativas rápidas. O esgoto do capitalismo.

Você tem um trabalho como cozinheira, apresentadora, tem uma filha pequena e ainda tem seu marido. Você também tem tempo para cozinhar para você?

Sim. Não sempre, mas eu tenho. Sim, eu cozinho bastante

Tem algum truque? Como você faz para organizar na sua rotina?

Bom, eu tenho um truque maravilhoso que vou compartilhar com todos vocês agora, anotem aí: eu sei cozinhar muito bem. Isso simplifica a vida das pessoas de um jeito, você não sabe….

São 30 anos de prática profissional.

São 30 anos de prática. Isso é um truque que de verdade eu posso compartilhar: aprendam a cozinhar pelo menos aquelas coisas que vocês gostam de comer. Aprendam a cozinhar pelo menos 10 receitas.

Pega um papel e uma caneta agora e fala: “bom, vamos lá”. Arroz, feijão, macarrão, molho vermelho, carne de panela, moqueca, tapioca…

…omelete…

…baião de dois, omelete. Faz uma lista de dez e aprende, porque isso faz com que você possa cozinhar em vinte minutos, trinta minutos, meia hora.

Se cozinhar vira um bicho de sete cabeças… Quando eu engravidei e tive que fazer a compra do enxoval do bebê, chegou uma lista. Eu quase tive um surto, mas de verdade, eu passei horas e horas aflita porque eu não sabia o que era um mijão. Nem para que servia e porque você precisava disso. E eu ficava olhando para a lista e eu lembro que pensei: “imagina as pessoas quando leem em uma receita e sentem isso que eu estou sentindo agora.”

É um desespero. Só que, para mim, cozinhar era uma bobagem. Se eu chego na minha casa e tem uma cebola, um ovo e um pedaço de pão, eu faço um jantar, e não faço um pão com ovo. Eu posso fazer ovos cremosos com cebola dourada e uma farofa de pão refogada na manteiga e eu vou na horta, pego salsinha, depois eu pego uma rúcula, faço uma salada, coloco do lado.

Entendeu? Eu sei cozinhar. Mas na hora que eu olhava essa lista do mijão e do não sei o que eu fiquei passada, eu falei “o que é isso?”, eu precisei que me ensinassem, eu precisei falar com mães. E eu não tenho mãe, não tenho família aqui, eu precisei arrumar umas pessoas por perto que me explicassem o que é que era a porra do mijão.

Enfim, é importante saber cozinhar para poder cozinhar sem tempo. Nem todos os dias você vai para cozinha e fala “ai, hoje eu vou fazer essa receita da minha família, esse ravioli recheado de blabla que demora quatro horas”. Eu faço isso, uma vez por semana, mas todos os dias não.

Há uma certa divisão de gênero na cozinha. Normalmente, a cozinha de final de semana, mais refinada, fica na mão dos homens e a cozinha do dia a dia, nas costas das mulheres. Como você enxerga essa situação, na sua experiência como mulher e cozinheira?

Eu enxergo que a gente, as mulheres, estamos casando muito mal então, se esse é o problema. A gente está se juntando com homens muito inúteis, porque não deveria ser desse jeito.

Existem duas coisas: por um lado, eu acho que tem uma coisa genética na mulher que carrega isso e é necessário que a gente repare que está fazendo a mais. Eu sou casada com um homem maravilhoso, surreal, ele não existe. Cozinha muito bem e faz um monte de coisas.

Mas ele é homem e eu sou mulher e a gente carrega a nossa composição de homem e mulher e muitas vezes eu vejo que eu estou mais sobrecarregada do que ele e ele está tranquilíssimo fazendo outras coisas. E aí que me toco e falo: “quer saber? Não. Vai você no supermercado.”

Eu acho que os dois devemos cozinhar, todo mundo tem que cozinhar para se divertir e todo mundo tem que carregar a responsabilidade. São coisas diferentes e são momentos diferentes. Não pode ser o divertimento para um e a carga para outro, aí tem um problema cultural que se espalha em tudo: cuidado dos filhos, não é só cozinhar.

Você acha que a nossa relação com o mundo passa pela cozinha? Cozinhar envolve saber de onde vem os alimentos…

Acho que não mais, infelizmente não mais. A gente está completamente desconectado com a alimentação. Se você olha não muito tempo atrás, talvez pré-Primeira Guerra Mundial, a gente vivia, todo mundo estava conectado com a agricultura. Pré-revolução industrial, a nossa relação com a agricultura era direta.

Então você sabia de onde vinha ou de onde não vinha o que você tinha ou não tinha para comer, qual era o esforço que isso envolvia, qual era a dor que isso envolvia e qual era o teu relacionamento com o bicho que você comia e com o aproveitamento ou o desperdício dele, com o valor de uma chuva ou de uma seca, um valor de uma terra fértil ou não.

A produção de alimentos foi se afastando porque migramos para as capitais, porque a revolução industrial nos levou a outros lugares.

A indústria ocupou um espaço muito grande, e esse espaço que ela ocupa ela foi também se afastando cada vez mais da gente. Fisicamente não estamos perto. Você vê aonde é criado o frango que você come? Ou como? Não, porque se você visse você não comeria nem fodendo. As porcas, você vê as porcas do presunto do teu misto quente? Não.

Mas, 100 anos atrás, você via a porca parindo, então o teu respeito com o animal era diferente, você ouvia o grito da porca morrendo, então o teu respeito com esse animal era completamente diferente.

Tem algum jeito de as pessoas se reaproximarem disso?

Vontade. Acho que é vontade. Hoje em dia você pode, se você quer. Temos filmes de tudo, vídeos de tudo, temos hortas, agricultores perto de São Paulo. Acho que, se você pesquisa, tem.

Meu marido é fotógrafo de comida, e eu achei muito interessante porque ele foi convocado agora por um açougueiro americano que está fazendo um trabalho de voltar a todas as técnicas ancestrais de açougue. Desde a criação do animal, o sacrifício do animal e o contato físico do açougueiro com o sacrifício do animal um a um e a forma como se separam as partes…

É muito interessante, é muito interessante, é muito interessante, porque assim: aí eu vou fazer uma simplificação porque talvez na minha cabeça seja muito clara de fazer, me explica se não der para entender. Para mim, essa seria uma forma muito mais interessante de a gente comer menos carne do que as grandes produtoras de carne fazerem hambúrguer vegetal. Se você tem que matar uma vaca, eu não sei quantas pessoas comeriam carne.

Acho que nossa relação com a carne muda ao longo do tempo muito por conta de outras evidências que surgem. Como sua relação com a carne mudou?

Eu tenho uma maldição: eu sou conhecida como a rainha da carne. E eu detesto isso porque: primeiro, que eu não sou a rainha de nada. Segundo, não tenho vacas. E, terceiro, como pouquíssima carne. Mas enfim, eu acho que essa coisa de ser argentina e uma vez ter feito um bife no Masterchef fodeu, já deu. Na simplificação mental eu virei a rainha da carne.

A gente tem que comer muito menos carne, estou falando de muito menos carne, estou falando de uma ou duas vezes por semana 100 gramas. E não do jeito que se come hoje em dia.

É muito interessante na Europa, no interior da Europa, o relacionamento que se tem com a agricultura, com a comida e com a criação de animais. Meu marido tem uma casa muito pequeninha no interior, perto dos pré-Alpes suíços na França. Minúscula, parece chique mas não é.

E tem um, tipo, você desce a montanha e tem um açougueiro e no açougueiro tem uma foto. Primeiro você sabe de onde que vem, quem é o criador de cada vaca, ele tem a meia vaca dentro. Ele compra meia vaca de tal pessoa e ele vai te vender o que ele tem. Ele não tem 200 peças de filé mignon. Ele tem dois filés mignon, depois uma língua, duas bochechas, um rabo… Sabe?

É isso que tem e as pessoas sabem cozinhar com rabo, com língua, com bochecha, não somente com o filé mignon. E tem vários bilhetes colocados no próprio açougue mostrando uma foto de como deveria ser o prato. Então, três quartos do prato têm que ser cereais, verduras, legumes, folhas e ervas, e um quarto do prato é carne. No açougue!

No açougue, que é o maior interessado que talvez seja exatamente ao contrário.

Por quê? Mas por quê? Porque é pequeno, no interior, na Europa, no interior e em uma cidade pequena, o volume é pequeno, ele tem uma vaca, duas vacas. Na frente, a mulher dele vende os legumes. Ele faz os embutidos. Ele também tem um porco, ele vai fazer muito salame, língua defumada, terrine… Ele tem toda uma cultura, então ele tem um monte de coisas para vender que saíram de um bicho.

Nós vivemos assim aqui aglomerados que nem essas coisas aglomeradas e aí você vai no supermercado e aí você tem esse desperdício horroroso.

Você me perguntou como é meu relacionamento com a carne: eu tenho muito conhecimento. Isso me ajuda a poder cozinhar muitas outras coisas e eu consigo muitas outras coisas. No meu restaurante tem um prato de carne só e sempre teve apenas um prato de carne.

Bom, agora a gente já pode falar que a Paola é a rainha do vegetal, não a rainha da carne.

Ou uma boa cozinheira só. Acho que isso me alcança.

No seu restaurante, o Arturito, você recebe boa parte dos produtos da Cooperapas [uma cooperativa de agricultores], que é em Parelheiros, na zona sul da cidade de São Paulo. Quando você começou o restaurante, já tinha eles como fornecedores?

Foi um caminho muito longo, mas aos poucos eu fui conhecendo pessoas. Hoje em dia, eu posso te falar que eu sei que o porco quem entrega e quem faz, no Arturito, a carne quem entrega é quem cria, cuida e sacrifica, só um fornecedor. Eu não faço cotação de preço, eu compro carne só de uma pessoa, eu compro porco só de uma pessoa.

A farinha chega do Paraná, de uma cooperativa de produtores de farinha de trigo e também farinha de mandioca e tem outras também: fubá, arroz. De uma cooperativa de produtores orgânicos do Paraná. Legumes e ervas e folhas são da Cooperapas. Fubá, laranja e mel também vem de um fornecedor que entrega que ele faz essas três coisas, o Nelson…

Nessa aproximação com os produtores, seja aqui na zona sul de São Paulo, ou com esses outros produtores orgânicos no Paraná, como você foi se aproximando deles? Como foi criando essa relação?

Primeiro, o desejo, porque sem o desejo a gente não faz nada. Aí nasce o desejo, vem a curiosidade e aí você é inquieta, aí você vai atrás, aí você conhece alguém que conhece alguém. O Gui, o Guilherme Borducchi que me trouxe até vocês. Ele me conectou com o Hans e com o Projeto Cidade Sem Fome, na zona leste [de São Paulo]. É um projeto de hortas comunitárias que é tocado pelo Hans e já tem mais de vinte anos.

E aí o Gui me conectou com essas duas pessoas. Visitei primeiro o Hans, Cidade Sem Fome, e depois a Cooperapas. A Cooperapas estava levemente mais organizada. Cidade Sem Fome não tinha nessa época —isso já faz quatro ou cinco anos—, uma cadeia de logística, uma logística de entrega, que é o mais difícil, muitas vezes, para o produtor.

Vamos falar do Masterchef agora. A gente perdeu as contas de quantas temporadas você já participou. Como sua relação com o programa mudou ao longo desse tempo?

Muito. No começo, quando eu entrei, eu tinha muitíssimo medo de muitas coisas. Primeiro me pareceu… Eu sempre fui uma cozinheira muito séria e sempre passei muito tempo dentro da cozinha, minha vida inteira dentro da cozinha. Então, me parecia que eu estava abandonando o meu restaurante para fazer publicidade para mim mesma.

Me sentia envergonhada e parecia o que eu estava fazendo não tinha qualidade, que eu estava sendo meio mercenária de fazer isso por dinheiro, mesmo não estando ganhando muito dinheiro, porque na primeira temporada a grana era surpreendente para um cozinheiro, mas não era nada do que se imagina.

No começo foi muito difícil. “O que é que eu estou fazendo aqui?” “Por quê?”. Masterchef tem um formato internacional, um formato marcado, no qual os jurados têm que ser meio que do mal, e eu nunca fui uma cozinheira assim. Consegui mudar a personagem ao longo dos anos, mas a primeira, segunda temporada, eu estava muito mais pautada pelos diretores.

Um dia também eu descobri o poder que tinha falar na TV, descobri a força de um programa de TV, o alcance, as penúrias e as delícias, as misérias, o horror do que se fala, do que se escuta, dos comentários das redes sociais e da discriminação das pessoas e, enfim, é um longo aprendizado, eu não me arrependo de nada. Muito interessante. Do ponto de vista social, sobretudo, muito interessante.

Como você tem usado esse poder que a TV te deu?

Bom, eu estou aprendendo ainda. Eu acho que eu passei por muitas fases: a primeira foi me engajar… Eu não sei. Tem muitas respostas possíveis. Na TV mesmo, eu sei que quando eu vou falar eu estou falando para muita gente, e eu sei que toda essa muita gente para qual eu estou falando, e nem todas entendem a mesma coisa.

Eu tento colocar descrições muito sensoriais e muito plásticas para que quem está assistindo consiga imaginar. Eu lembro de uma que era um prato que tinha um queijo de cabra e estava horroroso e eu falei: “é como chupar o rabo de uma cabra suada.” Porque era mesmo. Estava horrível o prato. Então, imagina você chupar o rabo de uma cabra suada.

Eu uso esse poder, entre aspas, de muitas formas. Na TV, eu tento prestar um serviço que é contar a história da comida do jeito que eu a conheço, a história da minha profissão do jeito que eu a conheço. A disciplina, porque a disciplina não tem nada de errado. As regras, a rigidez. Algumas coisas precisam ser rígidas.

Você acha que você foi cobrada de uma maneira diferente por essa arrogância por ser mulher?

Sim. Todas as críticas vêm para mim e eu sei que eu vou ouvir. Eu acho que tem duas coisas: primeiro, que eu sou argentina, então é mais fácil criticar um estrangeiro do que um brasileiro. O [Érick] Jacquin é francês, então criticar uma argentina é mais fácil do que criticar um francês. Tem ordens assim. Argentino a gente pode bater tranquilamente.

E ele é homem. Eu sou mulher e eu estou no meio, e eu falo muito mais claro. Eu acho, que os outros dois, no sentido que o [Henrique] Fogaça é mais, ele é forte, ele põe a ideia dele. E o Jacquin tem legenda.

E eu sou a que tento colocar as coisas. Eu faço muito esforço para explicar, tanto que às vezes os dois falam que eu falo por horas. Então eu acho que nessa coisa de eu estar tentando explicar, eu estar parada no meio, eu ser mulher e eu ser argentina essa combinação faça com que eu seja um pouco mais cobrada.

Você acha que a programação de entretenimento e jornalismo dos canais de televisão no Brasil valoriza a prática de cozinhar?

Acho que eles relembraram as pessoas. “Nossa, a gente tem uma cozinha, a gente pode cozinhar.” Parece tonto, mas relembraram do exercício da cozinha. É que é muito importante que a gente visualize como vivemos hoje. A maior parte das pessoas não cozinha mais em casa. Come fora, compra fora ou come miojo.

E as cozinhas estão cada vez menores.

E as cozinhas são cada vez menores. E quando você entra na cozinha de um jovem ou às vezes de um casal que trabalha o dia inteiro elas não estão equipadas. Então como você vai cozinhar se na gaveta você tem três…  Eu sempre falo isso porque eu lembro que eu vi isso. Você abre a gaveta da cozinha e tem o palitinho do delivery japonês, três sachêzinhos de catchup e dois de shoyu.

Mas não tem fouet, espátula, faca, faquinha, faca de pão, peneira, três tipos de panela diferente, duas tábuas (uma para fruta, uma para não sei o quê), três, quatro, cinco panos de prato, alguns bowls, bacia, cuia, tapioqueira… Não tem! Como você vai cozinhar? Eu acho que o que esses programas fizeram foi acercar tudo isso, falar “olha, esse universo existe” e eu acho que isso é válido, como isso é muito válido.

Você já recebeu proposta para fazer propaganda de alimento ultraprocessado?

Já, várias. Já recusei todas.

Por quê?

Porque eu não tenho problema nenhum em fazer propaganda das coisas que eu uso, então eu já fiz propaganda de supermercado, eu fiz propaganda de produtos de limpeza, de alguns e outros não. Me chamaram para fazer propaganda de amaciante, mas eu não uso amaciante, então seria muito falso eu fazer propaganda de amaciante. Eu faço propaganda de shampoo, porque eu uso shampoo.

Você fez de macarrão, de pasta seca.

Ah, sim, de Barilla, faço feliz da vida porque eu uso na minha casa, é a massa que eu uso na minha casa porque eu acho ela barata e ótima. Ótima. Saborosa, bem-feita, com um monte de formatos diferentes e super prática. Azeite de oliva. Mas ultraprocessados eu nunca fiz e não faria porque não consumo ultraprocessados. Para mim, é muito claro: se é verdadeiro e faz parte da minha vida, não tenho problema nenhum, porque eu assino tranquilamente em baixo. Se não entra, não faço. Seria falso e mercenário.

Falando um pouco da sua época, criança e adolescência, você falou que uma coisa importante para sua formação foi quando você cozinhava enquanto sua mãe não estava em casa. Você acha que a cozinha foi um jeito de sublimar essa falta?

Completamente. Eu virei a mãe. Isso são muitos anos de terapia. Mas eu fui a mãe da minha mãe por muito tempo. Eu virei a mãe de mim mesma. A cuidadora. Cozinhar é um ato de cuidado muito grande. É muito legal que os nossos filhos nos vejam cozinhando, é muito legal. Por mais que você não ensine a cozinhar, por mais que você não fale “ó, filha, vem cá, vou te mostrar”, só ver que alguém da sua casa faz a sua comida é muito importante.

Tem algo de terapêutico cozinhar também, não tem?

Tem tudo cozinhar. Cozinhar é tudo. Cozinhar é terapêutico, se você quer. E pode também te deixar bravo e cansado, porque às vezes você tem que comer e nem sempre está afim de cozinhar. É muito amoroso você estar preparando comida para alguém. É muito amoroso ser essa pessoa que garante que você vai comer.

A terapia influencia de alguma forma a relação com a cozinha? Porque tem estímulos muito inconscientes no ato de cozinhar: o cheiro, as cores, não são coisas que a gente racionaliza sempre.

Interessante a sua pergunta porque, para mim, a terapia é muito racional e a cozinha pode ser, porque você precisa pensar muito. Eu sempre falo que a gente cozinha com a cabeça. E que quem não cozinha com a cabeça cozinha mal.

Se você não pensa… Isso, sobretudo, na cozinha profissional, não em casa… Mas, se eu falo para um cozinheiro, por exemplo, “coloca sal na água do brócolis quando você for branquear o brócolis e por favor coloca sal na água gelada quando você for fazer o choque térmico”. Se ele não me pergunta o porquê, eu vou lá e pergunto. “E pra que tem que pôr sal na água com gelo?” “Não sei”. “E o que, você não vai me perguntar, você vai fazer sem saber, e como você vai aprender assim?”.

Por que é que tem que pôr?

Porque, se você cozinha com sal e depois dá um choque térmico na água gelada para cortar o cozimento para manter o verde, você está lavando. Se essa água não tem um pouco de sal também, você tira o sal que você colocou na água então o brócolis sai menos temperado do que deveria. Então, a cozinha está cheia de raciocínios e sentidos, tudo faz sentido. Mas aí eu me perdi.

Terapia não me invade tanto na cozinha, me invade nos meus relacionamentos, muito: filha, marido, sócio, pessoas, redes sociais, ego, autoestima, narcisismo. Na cozinha, não.

Não?

Na cozinha, talvez sim no relacionamento com os cozinheiros, mas não com os bichos, com as plantas, com a água fervendo.

Pergunto porque eu acho que as duas têm uma chave que é de organizar as coisas. Não existe cozinha que funciona desorganizada. Começar a cozinhar com a louça em cima da pia, por exemplo.

Impossível. E eu sou super organizada. Mas eu não fiz a relação, ainda não relacionei isso com a terapia. Vou falar com a minha terapeuta hoje.

Paola, falando em futuro e rede social. Você se envolveu na polêmica do Hambúrguer do Futuro. Eu queria que você falasse um pouco sobre isso, sobre como você enxerga esse tipo de alimento que se diz do futuro e como você acha que a comida do futuro tem que ser.

A comida do futuro tem que ser a comida do passado para mim, se a gente quer ter sociedades sadias. A desculpa de que a comida do futuro tem que ser feita de ultraprocessados ou de insetos ou de bichos criados em laboratórios ou de carne falsa é de que em 10, 15 ou 20 anos uma porcentagem muito alta da sociedade vai morar nas capitais.

Desculpa, mas quem é que falou que então a gente precisa mudar a alimentação porque nós precisamos todos morar na cidade? Que loucura é essa? Que estupidez é essa? A gente não consegue pensar em um futuro muito melhor? Não temos profissões, formas de ganhar dinheiro, economias que se sustentem em sociedades equilibradas de outras formas muito mais no campo do que nas cidades?

Então, assim, eu não vou comer grilo, foda-se. E outra, tem mais de 50 mil plantas comestíveis: o nosso reino vegetal é riquíssimo em coisas comestíveis, por que é que eu tenho que comer grilo?

Por que é que me irrita o Hambúrguer do Futuro? Porque chega para solucionar um problema com uma solução falsa, trazendo mais da mesma coisa, quando na verdade a solução seria outra. Poderia vir da indústria? Poderia vir da indústria, mas não desse jeito, isso é uma roubada. É uma roubada maiúscula, é obsceno.

É uma coisa que me irrita bastante também, porque as publicidades agora parecem com 100% vegetal e quem vai parar para ler a lista de ingredientes…

… vai ler a lista de ingredientes, eu fiz. E sobretudo você sabe que aqui no Brasil o primeiro listado é o que mais tem.

Você deu o exemplo de várias coisas que faz. A gente queria pedir se você não teria uma receita prática e acessível para compartilhar.

Tenho, tenho. Eu vou passar minha receita de feijão com legumes, porque eu acho que ela é deliciosa. Você não precisa deixar o feijão de molho de um dia para o outro. Obviamente, isso melhora a digestão do feijão, faz com que solte menos pum, mas eu não tenho nada contra o pum. E eu acho que a gente não tem muito tempo e nem se programa o tempo inteiro.

Então imagina que você chegou, pega duas xícaras de feijão e deixa com água morna por meia hora. Enquanto isso, descasca ou corta alguns legumes que você tenha. Pode ser meia cenoura, meia abobrinha, uma cebola, dois, três dentes de alho, uma batata doce, se você quiser. Sei lá.

Eu tenho ervas do lado de fora da cozinha, uma folhinha de louro, um pouco de tomilho. Aí, você corta a cebola, aquece na panela de pressão um pouquinho de óleo ou azeite de oliva, refoga rapidamente essa cebola e coloca uma pitada de sal.

Mas uma pitada de sal o que é que é? É o sal que você consegue pegar o indicador com o polegar. Só. Para que serve esse sal? Não é para salgar, porque, se a gente coloca sal no feijão, no começo o sal tem a propriedade de endurecer a pele do feijão e complica o cozimento, ele vai cozinhar e vai estourar.

Esse sal serve para que a cebola sue um pouquinho de água e, no lugar de queimar, ela cozinhe e fique macia. Ela vai soltar mais o sabor da cebola nesse azeite e nesse óleo.

Joga o louro, joga o tomilho, se for o caso, coloca os legumes. Podem ser inteiros. Se você quiser tirar os legumes depois porque você não quer vê-los, coloca eles inteiros. Deixa eles aí. Coloca o feijão fora da água de molho e coloca duas vezes e meia de água quente, fervendo. Coloca na panela de pressão, em 25 minutos fica pronto.

Abriu a panela, aí o que você pode fazer? Você retira os legumes inteiros, que eles estão supermacios. Você pode comer o feijão e depois esses legumes você pode bater no liquidificador com um pouquinho de feijão e água e vira um caldinho de feijão com legumes, então você tem duas receitas em uma.

E tempera no final com sal. Essa coisa de temperar o feijão no final tem a ver com isso, porque o sal endurece o grão de todos os feijões. Então, é porque as mães, as avós, as cozinheiras, os cozinheiros, tiram um pouco do feijão quando está pronto, batem com sal e colocam depois.

Tenho a aposta que um monte de gente vai fazer “nossa, é por isso que meu feijão está dando errado”. Seria legal as pessoas darem o feedback também.

Seria muito legal, eu gostaria.

Essa comida a Paola deixa vocês tirarem foto.

Sim, por favor, tirem foto e mandem para mim.

‘Onda de solidariedade’ de Doria e empresas é um tsunami de ultraprocessados

Campanha do governo paulista para doações contra o coronavírus arrecada e distribui toneladas de alimentos ligados a problemas de saúde

João Doria (PSDB), governador de São Paulo, embora diga que respalda na ciência decisões para o combate à pandemia de Covid-19, não obedece o mesmo critério para outro tema de saúde igualmente importante. Capitaneada pelo tucano, a chamada “onda de solidariedade” contra o coronavírus, que arrecada doações de empresas e indivíduos no Estado, engolfa uma desatenção, no mínimo, para a qualidade dos alimentos.

Desde o início da crise sanitária, o Poder Executivo paulista tomou a frente de uma campanha para oferecer itens de necessidade básica a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Dentre as doações que recebeu, no entanto, abundam alimentos ultraprocessados, que, segundo evidências científicas, estão relacionados a diversos males de saúde — inclusive, fatores de risco para casos fatais de Covid-19.

Isso é, após a primeira ressaca, a tal “onda solidária” da qual Doria e algumas mega-corporações se jactam revela que é, na verdade, um tsunami de comida-porcaria.

O Joio e O Trigo fez um levantamento dos alimentos obtidos pelo governo estadual até 22 de abril em documentos que divulgam as ações sociais de combate à pandemia. Recebidos à cifra de centenas de toneladas, sobressaem-se achocolatados, bolachas recheadas, carnes processadas, compostos lácteos e sopas instantâneas, entre outros itens cuja recomendação de autoridades sanitárias é não consumi-los.

São alimentos ultraprocessados e devem ser evitados, de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira. O documento, do Ministério da Saúde, é a principal referência no país com evidências científicas sobre comida saudável. Ele divide os alimentos em quatro grupos conforme o tipo e o propósito do processamento (1. in natura/minimamente processados, 2. ingredientes culinários, 3. processados e 4. ultraprocessados).

Na lista de doadores em São Paulo constam, com destaque, empresas com um portfólio rico em ultraprocessados. Bauducco, Nestlé e Danone entregaram, respectivamente, 80 toneladas de bolachas variadas, 210 toneladas de produtos alimentícios e mais 130 toneladas de itens refrigerados e sem refrigeração, como cereais infantis e um velho conhecido do consumo de açúcar entre as crianças, o Danoninho.

O governo informou que não detalharia todos os produtos que recebeu, já que “os processos são volumosos e estão em constante mudança”. Mas citou, entre as doações, achocolatados Nescau, biscoitos cream cracker e wafer, bolinhos sabor laranja, bolachas Bono, Nesfit e Garoto Cookies, cereais Mucilon e Multinutri, compostos lácteos, como Activia, Danoninho, Danette e Yopro Smoothie, e sopas instantâneas da marca Sopão Maggi.

Na relação, há alguma coisas curiosas, digamos. Por exemplo, lista-se o recebimento de mais de 600 mil unidades de queijos processados do tipo UHT.

Além disso, a Cacau Show ofereceu 32.294 unidades de chocolates em barra. O registro da doação ocorreu 10 dias após o feriado de Páscoa, enquanto São Paulo ainda estava sob quarentena. Procurada, a companhia não respondeu aos contatos desta reportagem. O governo tampouco explicou o destino específico tanto dos queijos quanto dos chocolates. Um fondue, talvez?

As empresas que responderam à reportagem, por seu turno, não detalharam quais —nem em qual quantidade exata— foram os produtos que ofereceram.

Por meio da assessoria de imprensa, a Nestlé disse que “dentre os itens estão principalmente leites, sopas, biscoitos e cafés, entre outros, além de complemento nutricional Nutren Senior para idosos em lares de permanência no estado de São Paulo”.

Em nota, a Danone não respondeu aos questionamentos do Joio e declarou oferecer “suplementação especial para adultos e idosos, iogurtes com probióticos e produtos de origem vegetal”.

Já a Bauducco não deu retorno até a publicação deste texto.

Além dessas companhias, outra grande doadora de alimentos foi a Minerva Foods, com a oferta de 20 toneladas de frango em molho, 20 toneladas de almôndegas e 30 toneladas de carne em cubos. A empresa afirmou que priorizou doações de alimentos “que podem manter a sua qualidade para consumo por um tempo adequado para a distribuição aos beneficiados”.

Cestas básicas

Um dos destinos das doações de ultraprocessados, segundo o governo do Estado, são as cestas básicas distribuídas pela Secretaria de Desenvolvimento Social. Destinadas às famílias com renda per capita mensal de até R$ 89,00, elas são projetadas para durar um mês para grupos de até quatro pessoas.

O kit contém velhos conhecidos da dieta brasileira, como o arroz (5kg), o feijão (3kg) e o fubá (500g). Mas, sob a justificativa de priorizar alimentos não perecíveis, também entrega alguns jabutis. São pelo menos três itens ultraprocessados na cesta: 2 kg de composto lácteo, 1,9 kg de linguiça e 400g de biscoito maisena.

A secretaria diz que “os alimentos contidos na cesta são de longa vida útil, possibilitando o armazenamento antes e depois da distribuição”.

O governo paulista não diz considerar o Guia Alimentar para a organização do kit, mas encontra respaldo em outro documento sobre alimentação no Brasil. Em geral, o conteúdo de uma cesta do tipo é montado de acordo com o que diz uma metodologia do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para cálculo de itens básicos.

O Dieese toma como padrão os produtos listados no decreto que instituiu o cálculo para salário mínimo no país. A regra, oriunda do Estado Novo de Getúlio Vargas, discrimina uma série de alimentos que servem como parâmetro de consumo mínimo, mas também admite que alguns itens podem ser substituídos por outros de valor nutricional equivalente, o que dá margem para trocar, por exemplo, carnes frescas por embutidos.

Farinata, graças a Deus

Não é de hoje que as políticas de segurança alimentar e nutricional sob as mãos de Doria buscam destinar ultraprocessados aos mais pobres. Em 2017, quando prefeito de São Paulo, ele sugeriu distribuir um composto industrializado formado com alimentos próximos ao vencimento ou descartados para a população em situação de rua.

O composto foi batizado de farinata, e a proposta de entregá-lo pela capital paulista provocou duras críticas da sociedade civil. Mais tarde, o tucano abandonou a ideia.

No entanto, na mesma época, ganhou notoriedade um vídeo de 2011, no qual ele, então à frente do programa de televisão “O Aprendiz”, dizia que gente pobre não tem cultura alimentar.

“Hábitos alimentares?”, afirmou Doria a um participante do reality show. “Você acha que gente humilde, pobre, miserável, lá vai ter hábito alimentar? Você acha que alguém pobre, humilde, miserável infelizmente pode ter hábito alimentar? Se ele se alimentar, ele tem que dizer graças a Deus. ”

Instado, à época, a se posicionar sobre o conteúdo do vídeo, o tucano declarou não se lembrar do que disse. “Desconheço esse vídeo. Não assisti a esse vídeo, desconheço. Não posso nem comentar sobre isso”, afirmou em uma entrevista coletiva em outubro daquele ano.

Na mesma ocasião, no entanto, repetiu o teor do que havia dito na televisão. “O pobre tem fome, não tem hábito alimentar. Por que essa insistência em um tema como esse?”, afirmou, de acordo com reportagem do portal UOL.

Um exemplo celeste

Ainda dá tempo de mudar. Se o governador de São Paulo quiser dar à segurança alimentar o mesmo rigor que dá às decisões sobre a quarentena, pode se aproveitar de um exemplo celeste. No Uruguai, o Ministério do Desenvolvimento Social decidiu centralizar as doações de alimentos para evitar que ultraprocessados fossem entregues a crianças e a grupos de risco. E criou um protocolo para avaliar cada doação tomando como base o Guia Alimentar para a População Uruguaia, inspirado no modelo brasileiro.

O documento cita explicitamente que boa parte dos uruguaios sofre de doenças crônicas e que um alto consumo de ultraprocessados coloca em risco a saúde. Com isso, esses produtos, quando doados, são submetidos à análise de um comitê técnico. Exige-se “a intervenção de uma equipe de apoio de nutricionistas para definir a aceitação, condições, quantidade de uso e possíveis destinos”.

Colaborou João Peres

Marion Nestle, sem palavras

“O que foi aquilo?” Marion Nestle levou as mãos ao alto, em sinal de surpresa, ao cruzar a porta do auditório 3 da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília. Por um momento, sentimos um frio na espinha: ela havia odiado tudo aquilo? “Eu nunca fiz um evento de lançamento de livro com tanta gente. Nunca.”

A professora emérita da Universidade de Nova York havia deixado sua cidade 24 horas antes. Ela estava exausta. Mas encontrava forças para mais um autógrafo, mais uma foto, mais um sorriso. O auditório de duzentos lugares ficou repleto para recebê-la, e era possível sentir o entusiasmo das pessoas em ouvir a fala mansa, clara e contundente de Marion.

Dois dias mais tarde, o auditório de 230 lugares da Faculdade de Saúde Pública da USP não foi suficiente. Além de muita gente sentada nos corredores, foi preciso apelar a uma sala extra que transmitiu em simultâneo a fala de Marion. Ela mal pôde acreditar quando chegou e se deparou com uma enorme fila de pessoas ansiosas por ouvi-la.  O mesmo se deu ontem na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

“Eu publiquei dez livros. Dez. E nunca vi nada parecido”, Marion continuou nos contando, depois de uma aula no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. Nascida na década de 1930, Marion surpreende pela profunda vitalidade. Sim, ela ficou cansada. Por vezes parecia que ela queria nos amaldiçoar pela agenda pesada. Mas topou tudo e se deu bem em tudo, com extrema clareza de raciocínio. 

O que fica do pequeno tour de Marion Nestle? Primeiro, a vontade de que ela possa retornar mais algumas vezes. Segundo, um livro para circular por aí. Uma verdade indigesta: como a indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos vai muito bem, obrigado. 

Terceiro, ideias. Muitas. É aqui que a passagem da professora pelo Brasil encontra nossa infeliz conjuntura. O que são centenas ou milhares de pessoas diante do rolo compressor a que estamos sendo submetidos? São bastante coisa. Esse cenário grotesco não pode durar para sempre. Enquanto durar, debates como os suscitados pela visita de Marion são um ato de resistência.

E de semeadura: estamos tentando, lentamente, criar um amanhã mais promissor. Como já fizemos de outras vezes. Demorou décadas para que o sistema de segurança alimentar e nutricional do Brasil desafogasse em políticas públicas que fizeram do país um modelo global. 

Auditórios de universidades públicas ficaram lotados poucos dias depois de o ministro da Educação declarar que se tratam de ambientes de “balbúrdia”. O evento na Saúde Pública da USP se deu horas depois de outro ministro, o da Saúde, demonstrar a intenção de passar o trator sobre anos de discussão a respeito do melhor modelo de rotulagem de produtos comestíveis ultraprocessados. Em meio a um desmonte das políticas públicas exitosas no combate à fome. 

Mas lá estava Marion, declarando que o Guia Alimentar para a População Brasileira é o melhor do mundo. E mostrando que há muito jogo por jogar.

O que é uma professora diante de um governo? Talvez tenhamos de inverter a pergunta: o que é esse governo diante de uma pessoa que atravessou uma guerra mundial, a Guerra Fria, inúmeros governos reacionários, o machismo no âmbito acadêmico, dossiês corporativos e muito mais para chegar à condição de referência no debate sobre alimentação? Sim, eles têm a caneta e a utilizam sem pudor para produzir violência, desigualdade, dor. Mas é certo que um dia serão passado. 

Marion, não. Nos auditórios repletos havia gente que levará essas ideias adiante. Que formulará novas pesquisas. Que se decidirá a atuar em organizações da sociedade civil ou autonomamente. Que proporá políticas públicas. Que produzirá as mudanças necessárias para encararmos o século 21. Nos últimos meses, estamos todas e todos tentando colocar os tijolinhos que nos levarão a algum desfecho melhor. A passagem da professora pelo Brasil nos deu uma fileira inteira dessa nova parede.    

“Eu não tenho palavras para expressar tudo o que vocês fizeram”, ela disse, ao se despedir. Bom, nós temos. Obrigado, Marion. E até a próxima. 

José Graziano: ‘Segurança alimentar nas mãos do mercado entrega os pobres à fome’

Em entrevista, ex-diretor da FAO cita a importância de estimular a produção local e criar regras para o comércio de alimentos durante e depois do coronavírus

Estimular a agricultura local é necessário não só para evitar um possível desabastecimento durante a pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2). Também precisa estar no horizonte de prioridades para o mundo após essa crise — ainda longe do fim. E pequenos produtores rurais precisam tanto do apoio do Estado quanto do de consumidores.

Essas constatações têm uma importância singular. Vêm de uma pessoa que acompanhou, como poucos, o funcionamento do sistema alimentar mundial: o agrônomo José Graziano da Silva, que, entre 2012 e 2019, ocupou a direção da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Poucos dias após o início das quarentenas para prevenir a transmissão do SARS-CoV-2 no Brasil, Graziano concedeu entrevista para O Joio e O Trigo a fim de discutir a situação do comércio de alimentos enquanto perdurar e após o final da pandemia de Covid-19.

“O coronavírus vai impor uma reestruturação produtiva. Não apenas por causa da pandemia, mas porque questiona o modelo econômico no qual estávamos assentando a globalização”, afirmou.

A frase, dita a este repórter por telefone, veio durante uma conversa que serviu para o mais recente episódio do podcast Prato Cheio: Especial #5 Bem Viver e Comer, um exercício para pensar o futuro da saúde e da alimentação no Brasil e no mundo. Mas a afirmação também desperta reflexões.

Sem dúvidas, as nossas últimas décadas foram marcadas por um vai-e-vem ininterrupto de comida viajando por milhares de quilômetros. Por exemplo, a soja, produzida em escala recorde no Brasil, segue para a produção de óleo ou ração animal na China. Ou, então, para abastecer um punhado de transnacionais fabricantes de alimentos ultraprocessados.

Esse desenho do sistema alimentar mundial não deve mudar de uma hora para a outra — serve, inclusive, para prover países sem vocação para a atividade agrícola. No entanto, segundo Graziano, precisa dar espaço a alternativas. No quadro atual, a produção mundial de alimentos provocou outra pandemia, de obesidade, mais antiga e persistente que a de Covid-19.

Para enfrentar este problema de saúde pública, o ex-diretor da FAO sugere o aporte de recursos para políticas de fomento à agricultura camponesa no país e recomenda a criação de regras para o comércio de alimentos no mundo. Rumos bem diferentes daqueles tomados pelo governo federal, sob a tutela da ministra da Agricultura Tereza Cristina.

“Acreditar que no Brasil a segurança alimentar vai ser garantida apenas pelos mecanismos de mercado é admitir que os pobres vão continuar passando fome”, disse Graziano, que também foi ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, entre 2003 e 2004, no Brasil.

Confira os principais trechos da entrevista abaixo.

*

Pergunta — O senhor vê alguma relação do sistema alimentar globalizado com o surgimento de tantas doenças, como a Covid-19, nos últimos anos? Antes tivemos a gripe aviária, o H1N1 (apelidado de “gripe suína”), a SARS e a MERS.

Resposta — O que eu acho que está em questão não é a transmissão [de doenças] via os alimentos. Hoje, se há uma doença, com aspas, que foi propagada pela globalização, é a epidemia de obesidade que o mundo vive pelo consumo de produtos ultraprocessados e com alto teor de açúcar, sal e gorduras saturadas.

Isso se deve a uma mudança do padrão alimentar que basicamente tem a ver com a nossa forma de viver nas cidades, correndo todos os dias, comendo fora, então precisa de uma comida rápida, um produto já pré preparado e perdemos todos aqueles hábitos saudáveis antes de comer tranquilamente em casa, comidinha feita pela vovó colhida da horta.

Esse mundo já foi superado e agora temos que encontrar soluções para o mundo em que vivemos, mas a solução certamente não é parar o transporte de alimentos. Há regiões do mundo que não têm condições de sobreviver sem importação de alimentos, e entre essas regiões estão os países mais pobres da África, por exemplo.

Pergunta — Falando em soluções, o mundo globalizado têm poucos circuitos curtos nos quais a comida é produzida perto de onde será consumida. Prevalecem os “circuitos longos”, como nas exportações de soja do Brasil para a China, por exemplo. A crise decorrente do coronavírus não mostra que essa configuração é problemática?

Resposta — Os circuitos curtos são uma necessidade, mas isso não tem nada a ver com os circuitos internacionais como a soja. Você não come soja. Se você pegar uma cidade que produz soja e proibir a saída de soja da cidade, ninguém vai passar a comer soja. Nós consumimos derivados de soja: o óleo, e usamos a soja basicamente para produção animal.

Fazer uma reconfiguração produtiva local é virtualmente impossível nesse momento e não seria prioridade de nenhum governo sério. Deixe exportar, divida esse canal exportador, porque ele traz dólares, divisas fortes que são fundamentais para nós podermos comprar todos os equipamentos sanitários que estão faltando no Brasil e são produzidos pela China.

Ao mesmo tempo, vamos estimular sim a produção de circuitos curtos locais. Isso pode ser feito. Eu tenho defendido que o principal foco das ações governamentais tem que ser as cidades. Circuitos locais, feiras livres, CSAs [Comunidades que Sustentam a Agricultura], a organização de consumidores para evitar a especulação.

Pergunta — A gente viu que, nesse momento de crise, os pequenos agricultores que abastecem os circuitos-curtos estão com dificuldade de chegar a mercados locais. Apesar da importância que têm, eles não recebem pouca proteção?

Resposta — Sem dúvida. Não são só os pequenos agricultores. O sistema de abastecimento brasileiro é basicamente assentado nos caminhões. Se nós deixarmos colapsar o sistema de abastecimento viário, vai haver uma crise alimentar. E isso afeta todo tipo de abastecimento: produtos perecíveis, não perecíveis, agrícolas e não agrícolas.

Temos medidas emergenciais. Nessas medidas já estão aparecendo casos de criação de redes de solidariedade, de rede social, de redes de compras. Um mecanismo extremamente eficiente é o programa de compras da agricultura familiar na modalidade de doação simultânea. Você compra mas deixa o produto no lugar, ou seja, na verdade você injeta recursos na economia local através dos produtores agrícolas.

“Acreditar que no Brasil a segurança alimentar vai ser garantida apenas pelos mecanismos de mercado é admitir que os pobres vão continuar passando fome”

Existem outras ações: a compra, por exemplo, para merenda escolar, que é um outro mecanismo que deve ser acelerado agora. Está na hora de insistir que se compre localmente. Primeiro porque é um produto de melhor qualidade, fresco, mais nutritivo. Segundo, porque injeta recursos na economia local, que é onde as pessoas estão tendo problema de emprego e de abastecimento.

É a revitalização desses circuitos curtos através dessas medidas de política, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), como a compra para merenda escolar, um dos caminhos fundamentais nesse momento.

Pergunta — Como o senhor avalia a condução do governo e, especificamente, da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, na gestão da crise no Brasil?

Resposta — O governo tem se pautado por desmontar os instrumentos da política de segurança alimentar implementada pelo governo Lula de 2003 e depois pelo governo Dilma. A primeira medida tomada foi a extinção do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), que assessorava o presidente da República nos temas da segurança alimentar.

E zerou os estoques [públicos de alimentos]. Está até apontando para a privatização da Conab [Companhia Nacional de Abastecimento], que é a companhia estatal que compra e faz a redistribuição dos excedentes alimentares. Isso significa um desleixo, uma despreocupação com a segurança alimentar.

Acreditar que no Brasil a segurança alimentar vai ser garantida apenas pelos mecanismos de mercado é admitir que os pobres vão continuar passando fome.

Se não houver uma intervenção cotidiana do governo, os sistemas alimentares nossos não são aptos a prover o abastecimento de todos. Isso não é só no momento de crise, segurança alimentar tem que ser uma política cotidiana, diária.

Pergunta — Pelos problemas que desencadeou, a atual crise não deveria nos fazer repensar o papel que o Brasil ocupa não só com relação a nossa agricultura local, mas na economia global, de exportador de commodities?

Resposta — Eu acho que isso já está em curso, independente da crise do coronavírus. Na Europa, por exemplo, a valorização das não-commodities já é um fato, seja através da agricultura orgânica, seja através de outras formas de produção alternativas como agricultura familiar baseada na agroecologia.

A agroecologia é uma forma alternativa de produção que tem crescido rapidamente nos países desenvolvidos, e essas formas tendem a questionar o domínio das commodities agrícolas. Agora, haverá sempre um mercado de commodities agrícolas para abastecer aqueles países, sobretudo, que têm que importar quantidades grandes de alimentos, que não conseguem ter produção própria.

Sem dúvidas, há uma revisão do padrão alimentar que nos está levando à uma epidemia de obesidade. Hoje nós comemos mais do que devíamos e comemos mal. A qualidade da nossa alimentação é muito pior hoje do que era antes, pela grande proporção de açúcares, alimentos com alto teor de sal e óleos saturados.

Eu acho que a gente não pode ser oportunista e querer agora aproveitar o coronavírus para mudar todas as coisas. O coronavírus vai impor uma reestruturação produtiva. Não apenas por causa da pandemia, mas porque questiona o modelo econômico no qual estávamos assentando a globalização.

Graziano se tornou um defensor de medidas regulatórias para desestimular o consumo de ultraprocessados (Foto: FAO/Giuseppe Carotenuto)

Vai haver muito mais sistemas de proteção nacionais, muito mais sistemas de proteção dos consumidores e tomara que haja uma preocupação muito maior com a saúde global.

Gradativamente os países estão se movendo no sentido de impor restrições nacionais à comercialização de alimentos ultraprocessados, mas não à importação desses alimentos. Precisa de um aperfeiçoamento das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), para levar em conta não apenas os alimentos que são nocivos à saúde, mas também aqueles que provocam essa epidemia de obesidade que estamos vendo.

Agora, tudo isso faz parte da regulamentação. Infelizmente, a regulamentação vai sempre atrás do prejuízo. Por ser um processo social, e não ser um processo privado como é a introdução de novos bens, de novas tecnologias, inovação, a regulamentação que é feita por leis, por debates sociais, e vai muito mais lenta.

Pergunta — Então, uma das perspectivas, após a crise do coronavírus, talvez seja um comércio mundial mais regulado e com mais atenção dos estados nacionais?

Resposta — O meu diagnóstico geral é que falta no mundo regulação social, mas não uma regulação de âmbito nacional apenas. O pior que poderia acontecer —isso seria um passo atrás na globalização— seria cada estado nacional voltar a fixar leis não se importando com os vizinhos. Os problemas que nós temos hoje são globais. Coronavírus é um exemplo disso.

Não adianta uma regulação brasileira. Ou todo mundo combina o jogo e faz uma regulação para tomar as mesmas medidas para atacar essa pandemia ou ela não vai ser contida.

Nós precisamos de mecanismos regulatórios globais, e é aí onde está fazendo falta organizações como Organização Mundial da Saúde (OMS) ser mais ativa, a OMC, a própria FAO. Só quando dá uma epidemia dessas que a gente começa a escutar o que fala a OMS.

Pergunta — No seu último dia à frente da FAO, a organização publicou um documento reunindo evidências que mostram males relacionados aos alimentos ultraprocessados. O senhor não acredita que eles têm um papel importante para a segurança alimentar num momento como esse de crise?

Reposta — Não acredito. Nós não precisamos comer salsicha todos os dias para obter a proteína que precisamos. Até, nem sei se na salsicha tem proteína. Bismarck, o chanceler alemão de muito tempo atrás, costumava dizer que, se o povo soubesse como são feitas as leis e as salsichas, haveria uma revolta imediata.

Os produtos ultraprocessados nós não sabemos sequer os seus componentes, e é uma tendência hoje de sofisticar com ingredientes cada vez mais artificiais.

Nós temos outras formas de suprir os alimentos. Os produtos básicos que o Brasil come: feijão, mandioca. São produtos que têm uma boa capacidade alimentícia. Acrescentar a isso frango e ovos, como fonte de proteína animal, estamos bem. Nossa alimentação não deveria apresentar problemas, não deveríamos precisar comer salsicha.

Pergunta — A gente discutiu algumas questões, vamos dizer, mais estruturais. Mas, na prática, o que as pessoas podem fazer no dia a dia para melhorar o sistema alimentar?

Reposta — Eu estou muito entusiasmado com uma experiência que vi em Brasília e que acho que poderia ser uma grande saída. São as CSAs. Uma comunidade qualquer, um condomínio de um edifício, resolve fazer compras de um determinado agricultor ou de uma cooperativa de agricultores e financia essa compra e os agricultores fornecem, regularmente, suas cestas básicas de produtos que são combinados.

Então essa semana vou entregar isso. Quando acabar a safra vai substituir por aquele etc. etc. Tem toda uma disciplina, um regramento e hoje está funcionando como um mercado cativo onde eu, consumidor, sei da onde vem o produto que eu vou consumir, sei a qualidade desse alimento, posso ir lá fiscalizar a produção, e o produtor tem garantido seu mercado, ele sabe para quem ele vai vender o produto que está produzindo.

“A qualidade da nossa
alimentação é muito pior hoje do que era antes”

Esse é apenas um exemplo. Há inovações importantes no mercado de consumo de alimentos que vão ser estimuladas por essa crise. Uma delas é o sistema de entrega à domicílio que hoje está funcionando muito bem numa série de redes de entrega. “Ah, mas os caras trabalham até exaustão”. Bom, precisa disciplinar isso.

Quando começou a Revolução Industrial as pessoas também trabalhavam 16 horas por dia, até vir uma lei dizendo “olha, o máximo para trabalhar é 40 horas por semana, ou 44”.

Hoje nós estamos vendo as inovações para separar o joio do trigo, como vocês bem sabem, e tomar essas inovações no seu lado bom e procurar regulamentá-las, discipliná-las para que possam ser reproduzidas e melhorar o sistema alimentar. Essa é a agenda do futuro.

O Brasil se parece cada vez mais com a tragédia mexicana (parte 1)

Se você gosta de Estado mínimo, melhor parar de olhar para os Estados Unidos e entender o que aconteceu com a vida e a alimentação no México

Se você clama por livre mercado olhando para os Estados Unidos, é bom baixar um pouquinho os olhos. Mas não muito. Ali, onde o vento faz a curva pra voltar com mais coragem, tem um país chamado México. Essa turma, sim, adotou com gosto e orgulho a cartilha do livre mercado. Os vizinhos de cima só fingiram. O resultado? Tragédia.

O interessante da história, ou o horripilante, é que o Brasil de 2020 se parece mais e mais com o México dos anos 1990. Quanto mais lemos sobre as consequências do desmonte mexicano, mais temos dificuldade em enxergar uma luz no fim do túnel brasileiro. Pelo contrário. Somos um barco que ruma bestamente ao iceberg

Essa é a terceira vez que falamos sobre o caso do país norte-americano. E não é por um acaso: é porque cada passo do governo Bolsonaro faz a situação ficar mais parecida e mais previsível. A relutância da equipe econômica de Paulo Guedes em mudar de caminho mesmo em meio à gigantesca crise causada pelo coronavírus só faz acelerar o passo. 

Da primeira vez em que fui ao México, em 2018, não foi difícil notar que estava olhando para um espelho que mostra o futuro do Brasil. A precariedade laboral está em cada canto. As pessoas se viram como podem. Acumulam bicos e mais bicos. Vendem coisas pela rua. 

A comida está por todas as partes. A boa, sim, maravilhosa, com muitos elementos frescos e vibrantes. Com a pimenta, jogada até nas frutas. Mas especialmente a ruim. Os fast food a cada canto, de megaempresas ou de barraquinhas. Muito, muito ultraprocessado comercializado em quiosques, mercadinhos, bodegas, farmácias, hipermercados. 

Só para recapitular, alguns dados sobre o México de hoje:  

  • O sobrepeso chega a mais de 70% da população, com 32,8% de obesos
  • 80 mil mexicanos morrem de diabetes tipo dois por ano. A doença avançou em média 2% ao ano nas últimas duas décadas, e agora é a principal enfermidade causadora de mortes no país, seguida por problemas cardíacos e renais, igualmente associados à alimentação.
  • 41,9% da população em situação de pobreza e 7,4% em extrema pobreza
  • A média salarial aumentou apenas 4,1% nos últimos vinte anos

A gente sabe como começa

Lá, nos anos 1980, uma enorme crise financeira foi o motivo para a instalação do neoliberalismo (opa, mas que coincidência!). A partir dali, o Banco Mundial ditava as regras, com exigências de que o Estado se retirasse de tudo quanto possível. 

No caso mexicano, isso significava uma ruptura brutal com o que havia sido a tendência até os anos 1970. Boa parte das terras eram públicas. Eram os ejidos, ou seja, propriedades comunitárias demarcadas durante as décadas seguintes à revolução de 1910. Ao longo do governo de Lázaro Cardenas, nos anos 1930, foram 18 milhões de hectares distribuídos, uma área praticamente igual à do estado do Paraná.

Essa agricultura convivia com outra, de caráter comercial, mais concentrada, com acesso a irrigação, crédito e pacotes tecnológicos de agrotóxicos e maquinário. Juntas, eram responsáveis pela maior parte do que consumiam os mexicanos, numa agricultura voltada ao abastecimento interno. 

A maldição do milho

Entender o sistema alimentar mexicano passa obrigatoriamente por entender o milho, que por sua vez é a base da tortilla, que por sua vez responde por boa parte da energia que mantém o México rodando desde muito antes de se chamar México. Milho barato é um indicador de bem-estar relevante.

“Os camponeses têm quase como uma maldição porque por um lado são tão importantes, mas, por outro, precisam ser mal pagos porque é um alimento básico que tem de chegar a toda a população”, resume Malin Johnson, da organização Semillas de vida (Sementes de vida). “Por isso, todos os mecanismos do Estado, as políticas que fazem baixar todos os preços pagos aos produtores – e às tortillerias – são voltados para que se possa consumir milho. Mas, por essa mesma razão, os produtores deveriam ser bem pagos, porque são muito importantes.”

O binômio milho-tortilla chegou a responder por 40% dos subsídios do Estado mexicano à alimentação. Como resultado, no começo da década de 1970 era necessário 4,9% do salário mínimo para bancar um quilo de tortillas, ao passo que no final da década se precisava de apenas 3,3%. Esses números, e os números a seguir, foram todos extraídos do trabalho de Kirsten Appendini, professora do Colégio de México e uma importante pesquisadora na área de políticas públicas voltadas a sistemas alimentares. 

  • A Conasupo, estatal equivalente à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) do Brasil, comercializava 32% do milho em 1981. 
  • Era responsável pelo fornecimento a 79% da indústria de tortilla nixtamalizada, ou seja, produzida a partir do próprio milho, sem farinha; e por 91% da indústria de farinha de milho, que dependia totalmente dos subsídios públicos para vender a preços claramente defasados. 
  • Um supermercado público tinha 15 mil unidades em 1988, cobrindo 17,8 milhões de habitantes rurais. Essa organização respondia por 4% da demanda nacional de alimentos e por 17% do mercado de alimentos básicos – nas zonas rurais, 25%. 
  • O banco público financiava 40% da superfície cultivada com milho ao final dos anos 1980, e chegava a 50% nos casos do feijão, do trigo e do sorgo. 

A receita

Essa estrutura foi desmantelada com velocidade a partir do governo de Salinas de Gortari (1988-94), que preparava o terreno para a assinatura do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), entre Estados Unidos, Canadá e México. É bom dizer que na mesma época, primeiro com Fernando Collor de Mello (1989-92) e, depois, com Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o Brasil adotou uma agenda parecida. Mas não tão completa.

A visão sobre o sistema alimentar muda radicalmente. O ciclo neoliberal pressupõe que tanto faz de onde vêm os alimentos: o relevante é que as pessoas se alimentem. Em outras palavras, se há alimentos mais baratos em outros lugares, um país pode importá-los. 

O Estado empreendeu uma série de reformas para tornar-se mais palatável aos investidores privados. Isso passou por “flexibilizar” direitos trabalhistas e retirar uma série de proteções sociais. De 1982 a 1989, o salário mínimo despencou 50%. A participação dos salários na renda nacional caiu de 35% para 15%. E adivinhe o que cresceu? O rentismo, que foi de 46% para 56% da renda nacional. Dinheiro foi transferido de quem trabalhava para quem ficava só vendo a renda aumentar. Naquela década, nove de cada dez mexicanos nasceram na pobreza, que alcançava mais da metade da população.

E o Quico?

Daqui por diante, as semelhanças começam a jorrar do solo. O Brasil adotou uma agenda ultraliberal desde as manifestações de junho-julho de 2013. Houve variações de intensidade, de um ritmo menos rápido até 2016, durante o governo Dilma Rousseff, a uma aceleração na gestão Michel Temer, e a algo vertiginoso e inclassificável no mandato de Jair Bolsonaro.

Em 2014, 4,5% da população vivia abaixo da linha de extrema pobreza, segundo o IBGE. Em 2018 já eram 6,5%, chegando a 13,5 milhões de pessoas, ou 4,5 milhões de pessoas a mais. 

A promessa da reforma trabalhista de criar mais e melhores empregos era conversa para boi dormir. Disso já sabíamos. Nos últimos dois anos, foram criadas subocupações computadas como vagas de trabalho. Em 2018, de novo de acordo com o IBGE, a renda do 1% dos trabalhadores mais ricos avançou 8,4% frente ao ano anterior, enquanto o estrato mais pobre da população perdeu 3,2%. Na soma, um em cada três brasileiros perdeu rendimento salarial. 

Isso significa que o 1% mais rico concentra agora 34 vezes mais que os 50% mais pobres. E note-se que nós estamos falando de trabalhadores.

Não começamos a falar de patrões, de empresários, de rentismo. Ladislau Dowbor, professor da PUC e autor de A era do capital improdutivo, resume essa outra face, ainda mais cruel, da história:

“Em 2012, tínhamos no Brasil 74 bilionários, que dispunham de uma fortuna total de 346 bilhões de reais. Em 2019, são 206 bilionários, com uma fortuna total de R$ 1.205,8 bilhões (17,7% do PIB brasileiro). Como se acelerou de maneira tão dramática o enriquecimento dos bilionários no Brasil? Implicaria, imaginamos, um crescimento dinâmico da economia? Sabemos, na realidade, que desde 2013, que é quando, com manifestações e boicote, começa o ataque generalizado ao modelo distributivo, o PIB do Brasil não só não cresceu como, depois de dois anos de recessão em 2015 e 2016, continua paralisado. Estão, para dizê-lo claramente, se entupindo de dinheiro. Não ver a relação entre o enriquecimento dos mais ricos e a paralisia da economia sugere analfabetismo econômico.”

Superbásico

Vamos voltar ao México dos anos 1980-90 por mais uns minutos. Num primeiro momento, o Estado manteve subsídios para os alimentos básicos. Mas, pouco a pouco, ficou apenas com os “superbásicos”. O feijão foi de 910 pesos para 3.300 apenas em 1990, enquanto o arroz dobrou de preço. 

“Isso tem um impacto nos mercados locais, nos mercados de rua, no povo, a quem os camponeses vendem”, recorda Alejandro Calvillo, diretor da ONG El Poder del Consumidor. “Então, vem um enfraquecimento dos mercados locais e das formas de os produtores terem maneiras de sobreviver. Chegam com tudo as cadeias de supermercados, que estabelecem e dominam as cadeias de produção e de consumo.”

Alejandro é um especialista em dar às indústrias o que elas deram ao México: espetáculo. A ONG dele gosta de abordagens nada convencionais para desnaturalizar, desglamourizar ultraprocessados – em particular os refrigerantes, uma marca registrada dos problemas de diabetes no país.

“Houve uma substituição dos alimentos não só no meio urbano, mas também no rural, porque a venda desses produtos penetrou com a publicidade e com uma questão de aspirações. Então, pudemos documentar nas zonas rurais como as pessoas abandonaram o consumo de alimentos que elas mesmas produzem para consumir frituras empacotadas, doces.”

Vale retomar brevemente o que constata Gerardo Otero, autor de The Neoliberal Diet, sobre o qual já falamos aqui no Joio. É um trabalho de cruzamento de dados realmente importante. Em 1985, quatro das 25 culturas alimentares mais importantes do México tinham um patamar de importação que dava para considerar relevante, ou seja, o país dependia das importações em mais de 20% do consumo. 

Em 2007, antes da crise nos Estados Unidos, já eram 11 culturas, chegando a mais de 50% da dieta, contra menos de 10% na década de 1980. Ao mesmo tempo, uma cultura agrícola voltada à exportação fez com que os preços das frutas subissem – o que obviamente fez cair o consumo de frutas entre os pobres. 

A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE (POF) analisa o consumo per capita dos principais grupos de alimentos. De maneira geral, em 2017-18 havia uma aquisição bastante menor de feijão (50%) e de arroz (37%) na comparação com 2002-03. A aquisição de frutas melhorou ligeiramente, mas a de hortaliças caiu. Na outra ponta, o consumo de ultraprocessados segue avançando no país, mas a um ritmo mais lento. Na edição de 2002/2003, representavam 12,6% das calorias. Chegaram a 16% em 2008/2009, e na mais recente ficaram em 18,4%. alimentos in natura ou minimamente processados foram de 53,3% das calorias totais na POF 2002/2003 para 49,5% na última.

Outra má notícia vem de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dando expressão concreta a algo que se percebe intuitivamente. Alimentos ultraprocessados estão, na média, cada vez mais baratos, e em breve se tornarão mais baratos que alimentos in natura. A desigualdade só fará aumentar.

Após pressão por MP, sociedade civil cobra execução de programa alimentar durante a pandemia

Compra direta e distribuição estadual são melhores formas de fazer chegar à população os R$ 686 milhões do Programa de Aquisição de Alimentos

Uns – nem tantos assim –  têm comida de sobra. Outros – muitos – passam fome. Num país de dimensões continentais e rico em terras, mas com alta desigualdade social, uma medida governamental que diminua os impactos da miséria e da pobreza na mesa de milhões de brasileiros e brasileiras durante a pandemia causada pelo coronavírus parece um caminho óbvio.

Porém, o óbvio nunca fez sentido para o governo de Jair Bolsonaro: o que o atual governo federal vem fazendo desde os primeiros dias de mandato é justamente o contrário de assegurar alimentos para a população mais vulnerável. 

Assim, só agora, mais de três semanas após anunciar que apoiaria famílias agricultoras com dificuldades de escoar a produção durante a emergência sanitária da Covid-19, o governo federal publicou na segunda feira, 27 de abril, a Medida Provisória 957/2020, que irá liberar R$ 500 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA). 

Essa medida, claro, não saiu sem pressão: é fruto da articulação de 877 organizações da sociedade civil. O resultado desse esforço foi apresentado ao governo federal pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), que afirmou a necessidade de um aporte imediato de R$ 1 bilhão para o programa e de R$ 3 bilhões até o final de 2021.

Do total de recursos, R$ 370 milhões serão destinados para a compra de alimentos das cooperativas de agricultores familiares, por meio de doação simultânea, uma das modalidades do PAA, sendo R$ 220 milhões para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e R$ 150 milhões para governos estaduais e prefeituras.

Além disso, R$ 130 milhões serão alocados à modalidade PAA Leite, para a compra de leite in natura de pequenos produtores de laticínios e agricultores familiares do Semiárido Brasileiro, na região Nordeste.

A expectativa é de que o total de recursos beneficie 85 mil famílias de agricultores, além de 12,5 mil entidades e 11 milhões de famílias em vulnerabilidade social.

No período em que o Brasil estava no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), o Programa de Aquisição de Alimentos, criado em 2003, teve uma repercussão muito importante e chegou fortemente às comunidades e às populações em estado de vulnerabilidade e insegurança alimentar. 

“Esse é um programa que já foi testado e que tem eficácia, inclusive foi modelo para outros países”, ressalta Carlos Eduardo Leite, coordenador-geral do Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais da Bahia (Sasop) e membro do núcleo executivo da ANA.

Carlos Eduardo ajuda a entender o panorama do PAA inicialmente previsto para este ano e o impacto da medida emergencial. 

“A primeira questão importante é que a lei orçamentária de 2020 prevê R$ 186 milhões, então, se eles estão liberando R$ 500 milhões, a gente tem um montante de 686 milhões”, diz.

Para se ter uma ideia da queda vertiginosa de aplicação de recursos no PAA desde o segundo mandato de Dilma Rousseff – que se agravou no governo de Michel Temer e desceu a ladeira com Bolsonaro – a medida que disponibiliza os R$ 686 milhões só para 2020 equivale a mais do que os orçamentos de 2015, 2016, 2017 e 2018 juntos. 

Em 2019, por exemplo, foram aplicados somente R$ 32 milhões em compras, quantia distribuída a pouco mais de 4.500 agricultores. Isso significa 5% do investido em 2012, o melhor ano, quando o governo comprou de 95 mil agricultores um total de 213 mil toneladas apenas para doação, desembolsando quase R$ 400 milhões.

Volta para ficar? 

Já alertamos no Joio, em texto publicado no mês passado, que o Brasil não teria estoques públicos de alimentos estratégicos para enfrentar o desabastecimento diante da pandemia. Sem esses estoques, é difícil entender os rumos e projetar o futuro para os agricultores e as comunidades mais vulneráveis no Brasil em meio a um cenário tão grave. 

Desde 2016 a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) passa por um processo de desmonte. A estatal vinculada ao Ministério da Agricultura é fundamental para articular o PAA e uma série de outros programas de proteção aos produtores.

No ano passado, o desmonte foi acelerado com a venda ou o fechamento de quase um terço da rede de armazéns públicos, justamente utilizados para comprar ou estocar alimentos e sementes para a agricultura familiar e comunidades indígenas e quilombolas.

Na ocasião, em resposta às perguntas enviadas pelo Joio, o governo indicava a intenção de que a Conab tivesse “participação estratégica” na vida do agronegócio, e não mais da agricultura como um todo. “Tal modernização alinha-se com os anseios da atual política de governo, que prioritariamente aponta para o fortalecimento do agronegócio, com geração de informações estratégicas para as decisões de gestão do setor.”

No começo da pandemia, o discurso da maioria dos ministros era de que não havia risco de desabastecimento. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, recusava a necessidade de medidas especiais.

A MP 957 marca, portanto, uma mudança grande de rumos. O texto no qual o Ministério da Agricultura divulga a medida vai no tom contrário dos 16 meses anteriores. “Esses recursos vão potencializar ainda mais o PAA. É um programa importante, porque ele atende a dois públicos: a agricultura familiar e a rede socioassistencial dos municípios, as pessoas que são as mais vulneráveis nas cidades”, destaca o secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo, Fernando Schwanke.

Carlos Eduardo Leite, da ANA, aposta na compra direta de alimentos, uma das modalidades do programa, para ganhar agilidade nos processos de distribuição. Isso porque a modalidade de doação simultânea envolve 12 passos – passando por solicitação dos produtos pelos órgãos públicos estaduais, municipais e a Conab.

“Embora importante, essa modalidade tende a demorar um período razoavelmente longo entre a solicitação e a entrega. Já na compra direta, o produtor tem o produto, a Conab e o Estado fazem a compra. E a entrega desse produto é a forma de atestar a venda. Ou seja, a compra direta, nesse momento de pandemia, é mais ágil para que os alimentos cheguem a quem mais necessita”.

“A nossa expectativa é que só uma crise como essa, de saúde pública, infelizmente, possa recolocar o PAA como uma política pública fundamental e que essa política pública possa se reestruturar na sociedade como vinha acontecendo até 2014”, conclui. 

Contudo, lembremos: um dos primeiros atos de Bolsonaro ao assumir o governo federal foi o fechamento do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Depois, veio o quase esgotamento dos estoques estratégicos de alimentos da Conab, e ainda os orçamentos cada vez menores destinados ao PAA, como já mostramos neste texto. 

Vê-se, portanto, que serão essenciais muita pressão e organização social contínuas para que políticas públicas como o PAA possam recuperar algum protagonismo na agenda governamental durante e depois da pandemia.     

Colapsada pelo coronavírus, Manaus ainda enfrenta ‘iFood’ da piscicultura

Na crise sanitária, quem tem maior poder aquisitivo usa delivery com estímulo governamental enquanto pescadores artesanais desmoronam

Cem jaraquis a dez reais. Esse foi o preço acordado entre as cinco famílias de pescadores de Iranduba e Manacapuru, municípios da Região Metropolitana de Manaus e igrejas do bairro Praça 14 de Janeiro, na capital do Amazonas, durante a madrugada, para que horas depois os peixes fossem distribuídos na comunidade.

Para os pescadores de Iranduba e Manacapuru não foi o melhor dos negócios. No Terminal Pesqueiro de Manaus, conseguem vender o cento do Jaraqui a cinquenta reais. Mas não tinham tempo, gelo, nem dinheiro. Além do mais, chegar em casa pode significar um dia inteiro dentro do barco. Fizeram negócio.

As famílias entregaram duas embarcações lotadas de Jaraqui com 12 mil peixes a dez reais o cento, o que rendeu R$ 1.200 no total. Se a embarcação não fosse própria, os pescadores teriam de pagar metade do montante para o dono da embarcação como aluguel, o que não é raridade entre as famílias que vêm principalmente do interior do estado pra vender na capital.

Mais tarde, por volta das 14h, filas se formaram na frente das igrejas. Um Jaraqui, que tem de 22 a 25 centímetros, pode ser dividido entre duas pessoas em uma refeição.

As ruas e os becos dos bairros estão mais vazios depois que o governo estadual fechou escolas e o comércio não essencial. Praticamente, não há ambulantes nas ruas. Então, o alvo das entregas são as famílias carentes e desempregados pela crise do coronavírus. 

Pessoas que, por exemplo, vendiam fruta nas esquinas das ruas, que vendiam picolé ou até mesmo peixe. Foi um bom negócio pra quem recebeu a doação de pescado. Em grandes feiras municipais, como a “Manaus Moderna” e a “Panair”, a dezena do Jaraqui é vendida entre dez e doze reais por atravessadores.

Lógica supermercadista

Naturalmente, a pouca oferta do pescado agravou a situação dos pescadores na pandemia. Se o pescador decide pescar se expõe ao risco de contaminação. E, se não pesca, não tem renda. Além de problemas como a exposição nas grandes feiras e terminais pesqueiros, ainda enfrentam uma nova concorrência: o delivery feito por piscicultores e incentivado pelo governo do Amazonas, comandado por Wilson Lima, do PSC, um dos poucos governadores ainda aliados ao presidente Jair Bolsonaro. Lima, aliás, foi um dos sete entre 27 líderes estaduais que não assinaram uma carta pela democracia e contra o incentivo e a participação de Bolsonaro num ato pró-ditadura, no dia 19 de abril, em Brasília.

Pescadoras Artesanais na Comunidade Nossa Senhora do Livramento, bairro de Manaus.
Foto: Paulo Jorge

O Jaraqui, segundo o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam), e a Colônia dos Pescadores de Manaus, é o peixe mais pescado, comercializado e consumido no estado. Na época de entressafra, que vai de abril a junho, é o que mais aparece nos rios.

“Entressafra é o período mais difícil de fazer a captura dos peixes. Isso, por influência direta da sazonalidade, da subida e descida dos rios. Os peixes estão embaixo das florestas inundadas, embaixo dos bancos de macrófitas, se alimentando para que consigam ter maior reserva de gordura. Julho é o mês em que o rio começa a dar sinais que vai baixar. Esses peixes começam a se reunir em cardume novamente pra subir pros rios, pros afluentes dos rios que eles vieram”, explica Anndson Brelaz, professor de Recursos Pesqueiros do Instituto Federal do Amazonas (Ifam).

É isso mesmo. Nem a pesca no Amazonas escapou da lógica supermercadista, da “uberização ou ifoodização” e da instantaneidade do prato semi-pronto. 

Semana “santa” só pra piscicultura

Segundo o Idam, o estado do Amazonas é o maior consumidor de peixe no Brasil e um dos maiores do mundo. O pescado é um alimento básico para habitantes da zona rural e urbana. Algumas comunidades ribeirinhas, em situações bem específicas, o consumo chega a até 180 quilos por pessoa ao ano e, na capital Manaus, a 33 quilos por pessoa anualmente.

Na Semana Santa, a expectativa de consumo sempre aumenta. Ano passado, foram 150 toneladas de peixe comercializadas. Este ano, a Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), braço da Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror) e que serve como um facilitador entre produtores rurais e consumidores, comprou R$ 500 mil em pescado proveniente de piscicultores amazonenses para doar à população carente. Para dar mais um empurrãozinho, também divulgou os contatos dos mesmos piscicultores para que pudessem comercializar por delivery. 

A piscicultura é uma espécie de agronegócio das águas. Muitas vezes predatória, ela afeta negativamente o equilíbrio dos rios e das espécies, além de se utilizar de modelos bastante questionáveis de criação de peixes em cativeiro. 

É o oposto da pesca artesanal, que é uma “guardiã” da biodiversidade, que respeita os ciclos da vida nos rios, valorizando o tempo de desenvolvimento de cada tipo de peixe e as relações naturais entre as espécies.  

De acordo com o último levantamento da Secretaria de Pesca do Amazonas, de 2018, existem 2.100 piscicultores cadastrados, que trabalham com o cativeiro de espécies – cerca de 90% com o Tambaqui, e o restante com Matrinxã e Pirarucu.

Já na pesca artesanal são 70 mil famílias cadastradas que capturam e consomem cerca de 120 espécies de peixes. Bom salientar que os números são conflitantes: o Sindicato de Pescadores do Amazonas estima 200 mil pescadores artesanais no estado.

Isso quer dizer que, considerando que existam 70 mil pescadores, a ação governamental auxiliou menos de 3% dos fornecedores de peixes, além de estimular uma atividade de impacto negativo para a biodiversidade local.

“O governo não pode comprar de qualquer jeito. O governo precisa estabelecer critérios porque se não os órgãos de controle vêm em cima depois. É muito fácil dizer que o governo deveria prover, deveria fazer… O governo lança os programas, aqueles que acessam estão contemplados. Os que não acessam, eu não posso bater na porta deles e dizer ‘ei, por favor, vende pra mim que eu vou comprar’”, disse Flavio Antony Filho, presidente da ADS.

Conversamos com alguns dos piscicultores que venderam esse peixe na ação da Semana Santa, no Amazonas. Muitos deles relataram a compra de pescadores artesanais da região para fazer entregas. É o caso de Alessandro Marcelo Cascais.

“O peixe que a gente criava acabou, então, estamos comprando de pescador artesanal no Terminal Pesqueiro e de outros piscicultores. A gente que tá na linha de frente não pode parar, tem que se arriscar. Quem pode parar, para, quem não pode, tem que trabalhar. Até supermercado: se a gente parar, eles param. A gente faz parte da central que abastece Manaus, a Manaus Moderna. Essa é uma cadeia de negócios”, disse o piscicultor.

Por enquanto, Alessandro entrega pescado na rede Atack de hipermercados, que tem quatro lojas em Manaus e a Rede Vitória, com três unidades. Ele costumava vender também para restaurantes. Entregava mil quilos de peixe por semana no restaurante de um amigo, cota que diminuiu para 90 quilos durante a crise do coronavírus.

Alessandro recebeu proposta de compra do pescado pelo governo na Semana Santa, mas disse não ter aceitado por medo na demora do pagamento. Uma situação que já experimentou no ano anterior.

O distanciamento é claro: quem tem poder aquisitivo consegue até tartaruga via delivery. Mas paga caro por isso. Quem não tem, precisa continuar indo às feiras para adquirir até o peixe mais comum por lá.

“Quem utiliza o delivery é o povo rico. O povo pobre dificilmente consegue comprar e a categoria de pescadores artesanais fica mais uma vez desprotegida com essa competição. E, agora, agravou mais. Manaus disparou no número de casos por coronavírus e número de pessoas em isolamento e contaminação, até os pescadores precisam ficar mais em casa”, disse Pedro Hamilton, pescador, filho de pescadores e presidente da Associação de Pescadores Artesanais e Pescadores Rurais do município de Manacapuru.

Leocy Cutrim, secretário-executivo de Pesca e Aquicultura do Amazonas, disse não existir nenhum decreto estadual que impeça a pesca e o transporte de alimentos no estado. Alega que as feiras da Panair e Manaus Moderna, que abastecem o estado, são responsabilidade municipal, e o Terminal Pesqueiro, do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Quem não faz delivery, vai à feira

Dados atualizados nesta segunda-feira, 27 de abril, pelo Ministério da Saúde revelam 3.928 casos confirmados de Covid-19 no estado do Amazonas. Essa situação coloca o estado na quinta posição, atrás de São Paulo, que concentra a maior parte das notificações, Rio de Janeiro, Ceará e Pernambuco.

Manaus já enfrenta faz semanas um colapso da rede hospitalar e do sistema funerário, com cerca de cem enterros diários do último final de semana para cá. Além da capital, outros 46 municípios já têm casos confirmados. O total é de 320 pessoas mortas no território amazonense.

O estado do Amazonas possui características peculiares. Tem 62 municípios, sendo 43 deles cidades ribeirinhas, sem acesso rodoviário. O transporte é essencialmente fluvial e as viagens, normalmente longas. Itens básicos de consumo, como alimentos não perecíveis para merenda escolar, gás e combustível podem levar dias a até semanas de viagem entre a capital, Manaus, e alguns desses municípios.

Pescador em Nossa Senhora do Livramento, bairro de Manaus. Foto: Paulo Jorge

“O abastecimento do estado é completamente dependente da pesca artesanal. A cadeia de comercialização do pescado muda entre as cidades do interior, mas, em geral, está relacionada ao tamanho do município. Nas cidades menores, o pescador é o próprio vendedor do pescado ou os pescadores concentram em um determinado feirante que faz a venda pra eles, mas é um processo bem direto – pescador direto ao consumidor, ou pescador, feirante e consumidor. Em Manaus, é um pouco mais complexo: tem as feiras de bairro, os locais de desembarque, supermercados, abastecimento para grandes restaurantes”, explica Carlos Edwar, professor de Manejo Pesqueiro na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Historicamente, as feiras em Manaus se consolidaram próximas às orlas, portos e também às rodovias BR-174 e AM-010, onde são escoadas as mercadorias para o abastecimento local. 

Manaus Moderna, a Panair e o Terminal Pesqueiro são os lugares de maior fluxo de pessoas, mas, só na capital do Amazonas, existem 43 feiras legalizadas, instaladas em diversos bairros da cidade e com características econômicas e sociais diferentes. Estima-se que essas feiras geram renda para, aproximadamente, 18 mil pessoas.

“De uma hora até as cinco horas da manhã tem gente comprando e vendendo aqui no Terminal Pesqueiro. Cerca de duas mil pessoas nesse horário, todas as noites, que vêm dos bairros, por todo o tipo de transporte, comprar o peixe e levar pra vender em esquina de rua, em feira, em algumas bancas, pequenos supermercados e aglomeram grande quantidade de gente”, diz Romildo Palmere, presidente do Sindicato de Pescadores do Amazonas.

O desespero para vender o pescado é grande. O número de compradores vem gradativamente diminuindo e não há nem mesmo um informativo de iniciativa do governo para que as pessoas se protejam com máscaras e façam uso de álcool gel para higienização – além dos problemas normais de higiene que os feirantes enfrentam já há muito tempo. Enquanto isso, o custo de vida aumenta. 

“Os comércios aumentaram tudo. O óleo que pra nós era R$ 3,20, agora tá R$ 5 [o litro]. A farinha – o caboclo do Amazonas consome muita farinha – era R$ 2 o quilo. Ontem, fui comprar a farinha e tá R$ 5 ou R$ 6. O pessoal vai morrer de fome, porque não tem como comprar e como trabalhar”, enfatiza Raimundo de Souza Sudré, pescador há quase 30 anos, filho de seringueiro e presidente do Sindicato de Pescadores de Manacapuru.

Política Pública?

Conhecido como Seguro Defeso, o Seguro Desemprego do Pescador Artesanal (SDPA) é um benefício pago aos pescadores, que fica proibido de exercer a atividade pesqueira durante o período de defeso de alguma espécie. É uma garantia de proteção de espécies muito capturadas, para que possam se reproduzir sem ameaça ou interferência humana.

Desde abril de 2015, a habilitação e a concessão do Seguro Defeso são de responsabilidade do INSS. A gestão cabe ao Ministério da Economia. O benefício tem o valor de um salário mínimo mensal. A duração do defeso é definida pelo Ibama, de acordo com a época de reprodução de cada espécie, com limite de cinco meses.

No Amazonas, dados da Secretaria de Pesca mostram que pouco mais de 55 mil pescadores artesanais foram contemplados com o benefício em 2018. Em 2019, o seguro começou a contar quatro meses a partir do dia 15 de novembro, feriado nacional da Proclamação da República. A pesca dos peixes Pirapitinga, Mapará, Sardinha, Pacu, Aruanã, Matrinxã, Capari e Surubim foi proibida no estado até 15 de março de 2020, época em que os primeiros casos de Covid-19 começaram a aparecer.

Considerando a estimativa de pescadores pela Secretaria de Pesca, o seguro defeso contempla mais da metade dos trabalhadores. Entretanto, considerando a estimativa de pescadores pelo sindicato, o seguro não abrange um quarto da categoria. 

Importante ressaltar: que o Senado aprovou, na semana passada, o Projeto de Lei 873/2020, que inclui a liberação do auxílio emergencial para trabalhadores autônomos e informais que atuam como pescadores artesanais, caminhoneiros, diaristas, garçons, motoristas de aplicativos, entre outros. A medida foi aprovada por unanimidade e, agora, precisa ser sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro para começar a valer.

O problema, segundo Ronildo Palmere, é que, para ter acesso aos benefícios mencionados, o  pescador precisa de um cadastro de “pescador profissional” que não é atualizado desde 2014.

“Desde 2014, todos os cadastros novos, que mandamos para a secretaria não foram atualizados. Além disso, muitos pescadores não receberam o seguro defeso por causa de mudanças no sistema do INSS. Pintou, também, agora, o auxílio emergencial de 600 reais, mas poucos pescadores têm direito. Alguns receberam, porque têm bolsa família ou quem tem cadastro nacional dos trabalhadores”, disse o presidente do Sindicato de Pescadores de Manaus.

“Nós somos os maiores guardiões da águas aqui no estado do Amazonas. Nós não poluímos os rios e nós não recebemos contrapartida do governo em nada. Eles deveriam ajudar, pra gente continuar cuidando do patrimônio do estado. É o nosso dever cuidar das águas, das florestas e dos animais”, enfatiza Ronildo.

Em tempos de diminuição do consumo de pescado, com impactos sociais tremendos, a vida nas águas dos rios pode entrar num nível diferente de equilíbrio, difícil de ser previsto, por vários fatores.  

“É difícil dizer que o ambiente vai voltar ao que era antes do processo de exploração, porque, além da ação do homem, existem as interações entre as espécies, como a competição e predação. São processos difíceis de prever. A gente costuma dizer que, na natureza, o ambiente que foi alterado volta pra outro tipo de equilíbrio cada vez que ocorre uma ação. Inclusive, a retirada ou diminuição da presença do homem como um predador no sistema”, conclui o professor da Ufam, Carlos Edwar.