México: a receita Obrador-Sheinbaum
Como eles perceberam que, se falassem diretamente ao povo, venceriam bloqueio da mídia. Por que priorizaram enfrentar os dramas da maioria, para desgosto das elites e de certa classe média. O que perdura (e o que muda) com Cláudia
Publicado 27/02/2025 às 19:49 - Atualizado 27/02/2025 às 20:22
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Num momento em que os partidos no governo mundo estão perdendo para quem os desafia – e em que há, no Ocidente, nítido avanço da ultradireita, o partido de esquerda Morena, do México, destaca-se como uma exceção. As mañaneras do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador — coletivas de imprensa diárias que fundiam governança com narrativas — revolucionaram a comunicação política, criando um diálogo direto e sem filtros com o público. Essa abordagem agora foi adotada pela nova presidente, Claudia Sheinbaum, que dá continuidade ao legado de AMLO enquanto busca traçar seu próprio caminho. Um dos membros do conselho editorial da revista norte-americana The Nation, Waleed Shahid, conversou com Ezra Alcázar, estrategista político e escritor que trabalha no Fondo de Cultura Económica, uma prestigiada editora em língua espanhola (ele também é âncora do El Desfiladero no Canal Once), e com Alex González Ormerod, historiador e jornalista que lidera o The Mexico Political Economist, para entender como a estratégia de comunicação do Morena contornou uma mídia de direita hostil, conquistou a confiança dos eleitores mexicanos da classe trabalhadora e consolidou uma agenda populista que remodelou o cenário político do país.
Ezra Alcázar e Alex González, em entrevista a Waleed Shahid, no The Nation | Tradução: Antonio Martins
Qual é o propósito político dasmañaneras, e quais lições vocês conseguiram extrair dela?
Ezra Alcázar: [O ex-presidente] López Obrador começou a realizar as mañaneras quando ainda era prefeito da Cidade do México. Todas as manhãs, ele fazia uma coletiva de imprensa na qual informava o público — bem, a mídia — sobre o que estava acontecendo na cidade: quais reuniões haviam ocorrido, como estava o andamento da segurança, entre outros assuntos. Jornalistas de diversos veículos compareciam e escreviam suas matérias.
López Obrador dedicava muito tempo não apenas respondendo às perguntas, mas também conceituando, do seu ponto de vista, o que lhe era perguntado. Isso garantia que ele estivesse comunicando diretamente ao povo como ele interpretava as coisas.
Alex González: Precisamos lembrar que a mídia no México naquela época — e, em certa medida, ainda hoje — era uma mídia corporativa, majoritariamente inclinada à direita, além da mídia governamental, que hoje está nas mãos do Morena, mas naquela época estava sob o controle do ex-presidente de direita Vicente Fox. Então, basicamente, era toda uma mídia de oposição. Essa era a maneira de López Obrador contra-atacar.
Vocês podem dar um pouco mais de cor ao que acontecia nessas mañaneras? A maioria das pessoas fora do México não sabe nada sobre elas. Era um espaço para combater suas vulnerabilidades, para moldar uma mensagem diante de uma imprensa adversária? Ou era mais para repetir diariamente qual era a principal mensagem da campanha e da presidência?
Ezra Alcázar:Antes de começarmos esta entrevista, assisti de novo à última coletiva de imprensa matinal de López Obrador. Ele passou a maior parte do tempo agradecendo aos jornalistas que cobriram suas falas. Vale notar que, nessa última conferência matinal, o presidente sorteou seu relógio. Isso mostra um pouco do tom das conferências matinais. Elas eram muito variadas; podiam ir de um sorteio com os jornalistas a tocar uma música ou falar sobre livros.
Lembro-me de um momento em que li uma coluna de um jornalista no México dizendo que López Obrador não lia livros, e que isso era evidente porque ele nunca citava livros. Bem, eu me dediquei a revisar várias conferências matinais em que ele mencionou mais de 100 livros, e não falava por cinco segundos. Não era apenas mencionar o título, o autor e fazer um resumo; ele se aprofundava, explicava por que queria trazer aquele livro à tona, desde clássicos mexicanos como Elena Garro ou Juan Rulfo até clássicos universais como Tolstói ou Stefan Zweig. Esses livros o ajudavam a fornecer uma base — não teórica, mas histórica e moral — para o que queria explicar.
Por exemplo, se ele estivesse discutindo a reforma judicial, poderia falar sobre Tolstói e a importância de viver sem muitos luxos, ou Dostoiévski e os temas de justiça, recorrendo a Crime e Castigo. Ou, se quisesse falar sobre seu movimento e o significado das transformações que estavam ocorrendo no país, poderia referenciar Stefan Zweig. Nós reunimos mais de 45 minutos dele falando sobre livros. Mesmo que você não tivesse lido aqueles livros, mas soubesse que existiam, sentiria uma base teórica para a compreensão, e isso dava peso ao que ele estava dizendo. Você sentia que fazia parte de algo importante acontecendo no seu país.
Acho que o tom usado por López Obrador — de dar fundamentos históricos e morais ao seu discurso — foi muito importante para envolver as pessoas. Ele usava uma linguagem extremamente simples, o que não a torna menos valiosa do que qualquer outra forma de linguagem. O que López Obrador fez foi entender a linguagem do povo mexicano depois de viajar — não apenas viajar, mas visitar e trabalhar em todo o país — e descobrir a linguagem que precisava usar para se comunicar com o povo.
González Ormerod: As pessoas zombavam dele porque ele falava devagar. Ele justificava isso dizendo que, se falasse muito rápido e cometesse algum deslize, isso se tornaria notícia internacional. Mas, mesmo falando devagar, ele era incrivelmente envolvente. Ele era muito engraçado — muito mais sofisticado do que Trump, por exemplo. Falava diretamente com o povo, em uma linguagem que todos podiam entender. Esse é o verdadeiro desafio para Claudia Sheinbaum. Ela é um animal político completamente diferente — embora eu diria que não menos eficaz. Isso fica evidente na maneira como está ampliando a comunicação de uma forma muito mais diversificada. Estou fascinado com o canal dela no TikTok, por exemplo, que considero muito voltado para as gerações millennial e Z.
Nos Estados Unidos, publicações liberais da elite, como o The New York Times, se referem às mañaneras como algo “trumpiano”, autoritário, no estilo de Hugo Chávez e anti-intelectual.
González Ormerod:Ezra e eu temos debates eternos sobre isso. Eu realmente senti que, às vezes, havia momentos em que ele ultrapassava certos limites, como no caso do doxing de Natalie Kitroeff, a jornalista do New York Times [cujo número de telefone López Obrador divulgou]. Ele nunca atacou jornalistas da forma como Trump fazia. Ele nunca defendeu a violência. Ele nunca disse: “Façam coisas terríveis com eles.” Mas acho que houve momentos em que ele talvez tenha escorregado. Houve muita discussão sobre o quão justificado foi o doxing. Como membro do mundo do jornalismo, para mim é importante que esse tipo de limite seja respeitado. Mas, claro, romper limites faz parte do propósito das mañaneras.
Ezra Alcázar:Esse é um problema com aqueles que estabelecem as normas de como a análise é feita. Rotulamos discursos que conseguem se conectar com as massas como “populistas” ou “demagógicos” porque não usam uma linguagem excessivamente técnica ou intelectual. Acho que isso é um erro, porque, no fim das contas, somos nós que não estamos aprendendo a nos comunicar de forma eficaz. Porque, no final, para quem era dirigida essa crítica — para o povo ou para os próprios críticos?
Há um filósofo [David Bak Geler] que escreveu um livro chamado Ternuritas: El linchamiento lingüístico de AMLO — ou Queridinhos: O linchamento linguístico de AMLO — e ele examina muitos intelectuais e jornalistas que, nos últimos seis anos, vêm comentando o que López Obrador disse.
[Esses críticos estão] falando sobre milhões e milhões de pessoas no país… tirando dessas pessoas a capacidade de serem inteligentes ou reflexivas, como se estivessem sendo manipuladas. López Obrador entendia que as pessoas não podem ser manipuladas, mas que é preciso falar com elas, convencê-las. Parte do propósito das coletivas de imprensa matinais não era falar com os jornalistas, mas falar diretamente com o povo. E acho que isso irritou muita gente, porque quebrou a tradição de que, se você fosse um jornalista ou intelectual de certo prestígio, seria convidado à residência presidencial. Você teria essa conversa exclusiva com o presidente, onde só você poderia expressar suas preocupações — não as preocupações do público em geral. O presidente lhe daria atenção, falaria diretamente com você e validaria sua importância.
Acredito que as mañaneras irritaram profundamente os intelectuais porque os colocaram no mesmo nível de todo mundo, e isso era algo que eles não podiam aceitar. Eles não se viam como iguais ao restante das pessoas.
Mesmo jornalistas de boa fé que compareciam às coletivas de imprensa para questionar o presidente enfrentaram desafios. Dois casos importantes me vêm à mente: Julio “Astillero” Hernández e Ernesto Ledesma, do [canal de TV na Internet] Rompeviento. Eles abordavam tópicos significativos e frequentemente questionavam o presidente de forma intensa, talvez porque ele não estivesse prestando atenção ou não quisesse abordá-los. Eles diziam: “Sr. Presidente, estão mentindo para o senhor. Sua equipe não está lhe fornecendo informações precisas.”
Alex González Ormerod: Ambos jornalistas de esquerda, aliás, só para contextualizar.
Ezra Alcázar:O presidente não brigava diretamente com eles. Eles simplesmente falavam e falavam por horas ali, mas havia uma onda de pessoas nas redes sociais que os atacava. E é aí que, acredito, o poder que existia ficava evidente, assim como o quanto ele próprio precisava ser cuidadoso ao confrontá-los.
Ele entrou em conflito com muitos [de seus críticos] e, sim, falou mal de muitos [deles]. Ele frequentemente apontava quem os estava financiando, as relações que tinham com outros governos, os benefícios econômicos que haviam recebido e assim por diante. Mas, quando se tratava de jornalistas que ele considerava agressivos, e até mesmo com outros, ele tentava ser muito cauteloso, porque talvez estivessem dizendo coisas importantes, e ele entendia o poder que suas palavras poderiam ter — não porque o governo os perseguiria, mas porque seus seguidores poderiam fazê-lo.
Existem três categorias de pessoas que a esquerda tradicional vem perdendo há bastante tempo: pessoas que não frequentaram a faculdade ou universidade; pessoas que não acompanham a política diariamente ou semanalmente; e pessoas que obtêm suas notícias de fontes não tradicionais, como YouTube e TikTok. Fico curioso para saber como as mañaneras se encaixam nesse ecossistema.
Ezra Alcázar:Acho que essas mesmas categorias existem aqui no México. Podem existir pessoas muito fixadas e com uma opinião forte sobre algo, e outras que não ligam para política — ou talvez digam que não ligam para política. Mas acho que o grande sucesso de López Obrador foi levar essas conversas para todos os lugares.
Outro dia, enquanto eu estava na Feira Internacional do Livro em Guadalajara, conheci uma mulher que me disse: “Eu não sou de esquerda nem de direita. Não me envolvo nessas coisas.” Mas acabamos conversando sobre política por meia hora, mesmo ela dizendo que não tomava posição.
Alex González:Alcançamos novos patamares na politização do público mexicano. A maioria dos liberais acha que a politização é algo ruim — que equivale à polarização. López Obrador diz o contrário. Ele afirma que a comunicação política e o diálogo constante com a mídia e o povo são essenciais para que as pessoas entendam quais são seus interesses.
Isso nos leva de volta à disputa pela atenção. Seu uso de memes era hilário. Obama também faz isso, mas parecia muito mais genuíno quando López Obrador compartilhava suas playlists. Mas ele também as politizava: “Não é como, ‘Ah, esta é apenas uma boa playlist.’ Estou compartilhando essa música com vocês porque não quero que escutem narcocorridos. Estou politizando essa lista mesmo quando vocês achavam que não era algo político.” Acho que isso foi essencial.
Isso nos leva ao Abre Más Los Ojos [um grupo de apoiadores de AMLO] e a como essa iniciativa fez a transição para o governo. Essa plataforma era muito boa em usar memes e simplesmente compartilhar o zeitgeist da política com as pessoas sem empurrar a política goela abaixo.
Você pode falar um pouco mais sobre isso e nos dar mais contexto?
Ezra Alcázar:O que López Obrador sempre entendeu — que seu principal público, as pessoas com quem ele precisava falar, não era a mídia tradicional, mas a população — foi fundamental. O campo de batalha tornou-se a mídia, mas agora a mídia era a Internet, onde os veículos convencionais não sabiam como operar.
Isso se tornou essencial. López Obrador frequentemente se referia às “benditas redes sociais”, não porque elas contornavam o filtro da mídia hegemônica, mas porque passavam apenas pelo filtro do povo. Isso mais tarde se estruturou em mecanismos de campanha eficazes.
Alex González:Antes disso, você tinha um sistema [de comunicação] presidencial baseado na televisão corporativa, onde colocavam os presidentes que queriam no palco. Enrique Peña Nieto, logo antes de López Obrador, foi, sem dúvida, esse tipo de presidente televisivo.
Durante esse período, López Obrador saiu do radar. Exceto para seus seguidores mais próximos, ele era bastante irrelevante para o debate público. Era alvo de memes — o mais famoso era de uma imagem dele meio que olhando para um pombo sem motivo aparente, sem contexto algum. Era algo no estilo Biden: “Esse cara está ficando maluco — ele é velho e senil.” A grande virada veio com o Abre Más Los Ojos.
Esse movimento foi liderado por Tatiana Clouthier, que havia atuado no Partido Ação Nacional (PAN), um partido de direita. Ela deixou o PAN e se juntou ao Morena bem cedo, durante a terceira campanha de AMLO, que foi a campanha vencedora. E ela criou esse aparato repleto de millennials — quando os millennials ainda eram considerados relativamente jovens — que conseguiram comunicar muitas dessas [mensagens] online. O que foi crucial é que fizeram isso de uma maneira que não parecia política partidária. Parecia simplesmente alguém te contando o que estava acontecendo de novo, como a direita tende a fazer. Eles misturavam memes com as mensagens.
Nos Estados Unidos, os republicanos tentam atacar os democratas principalmente em torno do que chamamos de guerras culturais — crime, a fronteira, imigração, aborto, direitos transgênero, até mesmo mudanças climáticas — e a esquerda tenta atacar os republicanos em questões de democracia e riqueza. Obviamente, a sociedade mexicana é muito diferente da dos EUA, mas estou curioso para saber como tanto López Obrador quanto Sheinbaum se relacionam com algumas das questões que afligem partidos de centro-esquerda ao redor do mundo.
González Ormerod: Muitas dessas questões de raça e gênero estão sendo resolvidas no México agora, por meio de abordagens econômicas. A melhor maneira de lidar com questões de gênero e raça não é dizer: “Vamos ter uma longa conversa”, mas sim: “Vamos literalmente te dar dinheiro.” Por exemplo, vamos dar dinheiro para essa mulher trabalhadora, para que ela tenha recursos próprios em vez de depender do homem da família. Vamos dar dinheiro para essas comunidades indígenas, para que possam realizar os projetos de que precisam, porque elas sabem o que é melhor para elas.
O que López Obrador e Claudia Sheinbaum continuam fazendo é trazer essas questões de volta para o âmbito econômico, o tempo todo. Claudia Sheinbaum, ao contrário de Kamala Harris, não teve nenhuma vergonha em dizer: “Vou ser a primeira mulher presidente.” Essa não era a questão. Ela dizia: “Porque sou mulher, vou dar às mulheres as oportunidades econômicas que merecem”, e acho que esse foi um ponto-chave.
As linhas de conflito político no México são similares às dos EUA?
González Ormerod:Não exatamente. Por exemplo, López Obrador quase nunca falou sobre o aborto. Ele adotou uma abordagem mais voltada para os direitos dos estados: no que diz respeito ao aborto, os estados do México são autônomos sobre esta questão. Muitas organizações de mulheres incríveis estão travando essa boa batalha, mas acho que você precisa escolher seus combates. O que une os mexicanos em geral é: “Como você está colocando comida na mesa?” O aborto é extremamente importante — é uma questão de vida ou morte. Mas colocar comida na mesa também é, e essa é o tipo de luta política que você precisa escolher.
Ezra Alcázar:Houve um momento em 2020 em que o movimento feminista estava em um pico muito significativo no México, e [pelo que me lembro] López Obrador estava sendo pressionado a adotar uma linguagem inclusiva — ao que ele respondeu que não era sua forma de falar.
No final, percebemos que a única maneira de desafiá-lo era pela esquerda. E isso incluía questões feministas, questões trans e, às vezes, uma certa sofisticação ao abordar as questões dos povos indígenas. Essas eram realmente desafiadoras.
No entanto, acho que agora Claudia Sheinbaum incorporou todas essas questões em sua agenda principal. Por exemplo, as questões ambientais são muito importantes para ela, porque é daí que ela vem. Por outro lado, a frase de López Obrador, “Primeiro, os pobres”, foi transformada em “Primeiro, as mulheres indígenas, afro-mexicanas e pobres”. Mais uma vez, ela aborda o que faltava na abordagem de López Obrador ao argumentar: “Sim, é claro que os pobres vêm primeiro, mas devemos entender que, dentro desse universo de pobreza, as mulheres estão um passo abaixo, pois carregam fardos adicionais.” Tudo isso é acompanhado pela ideia de “Todos os direitos para todas as pessoas.”
Isso é muito difícil de conciliar dentro de uma coalizão tão ampla, porque, assim como existem pessoas que apoiam todos os direitos para a comunidade trans, também há pessoas dentro do Morena que não os apoiam. No entanto, a mensagem segue unificada, e busca-se assegurar certos direitos. Acho que estão fazendo algum progresso nesse sentido.
Devemos acrescentar a questão que você mencionou sobre o crime, onde houve uma mudança completa. Talvez a abordagem de López Obrador, “abraços, não balas”, tenha se tornado muito problemática — não porque significasse abraçar os traficantes de drogas, mas porque buscava se afastar do confronto direto. Essa era uma situação que experimentamos sob Felipe Calderón, e foi extremamente violenta para o nosso país. No entanto, o discurso deve mudar de forma inteligente, e precisamos criar uma maneira de trabalhar em conjunto com todo o aparato estatal para que funcione.
Todos vivemos o primeiro mandato de Trump, e a maior parte das relações entre México e EUA, pelo menos no primeiro ano, relacionavam-se à fronteira. É possível que agora o foco volte-se para as deportações em massa. Gostaria de saber o que vocês pensam sobre o impacto da estratégia de comunicação do Morena e da política mexicana em geral
Alex González: Um dos pontos principais a entender é que os EUA, em sua própria visão, têm o mundo inteiro para gerenciar. Eles estão focados em todos os países do mundo que lhes interessam. O México tem apenas uma prioridade real: os Estados Unidos. Todo mundo faz parecer que o México está apenas reagindo a Trump. O México tem se preparado para Trump desde antes de ele ser eleito, por duas razões. Primeiro, porque as pessoas presumiam que ele seria eleito. Mas os democratas não são muito melhores — a narrativa muda, mas muitas políticas permanecem as mesmas. Vimos isso com as crianças imigrantes em gaiolas. Após Trump, as crianças continuaram nas gaiolas — apenas a mídia liberal parou de focar tanto nisso.
Quando se trata de lidar com as deportações, o México possui uma rede incrivelmente eficiente de consulados em todos os Estados Unidos. Cidades rurais com grandes populações mexicanas têm um consulado mexicano. Isso cria uma grande rede de segurança. E a estratégia mais interessante, que é uma política do Morena, tem sido desenvolver certas áreas e indústrias onde precisamos que o desenvolvimento aconteça. Eles chamam isso de polos de desenvolvimento, e há espaço para os migrantes nesses locais.
Acho que podem fazer melhor. A indústria privada, as ONGs e o governo precisam se sentar e conversar sobre como vão incorporar muitos desses migrantes. Talvez muitos queiram voltar para casa, mas muitos provavelmente querem ficar, e você pode incorporá-los à economia mexicana, que realmente precisa de muita mão de obra. Podemos aproveitar ao máximo essa crise. É muito mais caro para uma empresa, e muito menos lucrativo, ter uma vaga em aberto do que requalificar alguém e eventualmente regularizá-lo em termos de documentação. Portanto, se o México conseguir se antecipar aos Estados Unidos, isso pode gerar um novo boom econômico.
Última pergunta. Qual você acha que é a principal lição que os democratas podem aprender com a experiência do Morena, de López Obrador e de Sheinbaum?
Ezra Alcázar:Acho que a frase de López Obrador — “Primeiro, os pobres” — é fundamental para entender a necessidade de focar nas necessidades mais básicas das pessoas. Isso é crucial porque, sem isso, as pessoas não conseguem parar de se preocupar com o dia a dia. Quero dizer, se eu tiver que passar metade do mês descobrindo como colocar comida na mesa ou pagar o aluguel, não vou conseguir me concentrar no restante das minhas necessidades.
Sim, é importante que as mulheres tenham todos os seus direitos. Sim, é importante que as pessoas trans sejam compreendidas. Mas eu não vou prestar atenção nas questões ambientais ou em qualquer outra coisa se estiver constantemente tentando descobrir como chegar ao fim do mês. O foco que este governo colocou nos mais pobres é essencial para construir seu projeto com o povo. Não para conquistar a mídia, porque é improvável que você consiga isso, já que ela tem sua própria agenda. Você precisa vencer com o povo — e garantir que sejam eles a combater as narrativas opositoras. Esse é o grande sucesso que eles alcançaram.
Alex González: Algo sobre o quê não falamos, mas é provavelmente o mais importante. Ir às ruas. Falar com as pessoas onde elas estão. É o que muitos dos políticos que tiveram mais êxito fizeram nos últimos anos, no México. O lema de Claudia Sheinbaum é: Mais território, menos escritório. Não vá às planilhas, vá ao asfalto.
É bom lançar mensagens, mas é preciso saber o que as pessoas querem de você. Acho que a esquerda acostumou-se demais a discursar para as pessoas. Kamala Harris perdeu, nos EUA, quando disse: “Eu estou falando”. Ela nunca ouviu. E isso teria sido muito importante.