Como livrar as empresas da ditadura das finanças

Punir os investimentos especulativos em ações. Tributar os movimentos de capital. Criar bancos de fomento públicos. Incluir os trabalhadores nos Conselhos de Administração. Esboço de programa para mudanças radicais

Por Tristan Auvray, Thomas Dallery e Sandra Rigot, do ATTAC França | Tradução: Inês Castilho

O que é uma empresa? E se, dita ao contrário, a palavra nos iluminar sobre a natureza profunda de uma empresa? Se invertermos o nome da coisa, podemos dizer que uma empresa é uma instituição “presa entre” [de entreprise, em francês] diferentes injunções conflitantes de muitas partes interessadas: seria o fato de estar “preso entre” vários objetivos (crescimento das vendas, maximização do lucro …) ou vários atores (empregados, gerentes, acionistas, autoridades públicas, consumidores …) o que caracterizaria a natureza da empresa. Ela seria então uma instituição política levada a tomar decisões que afetarão diversos atores. Nas últimas décadas, contudo, o ambiente de negócios mudou a maneira como essas estratégias de negócios são conduzidas, impondo um ponto de vista particular: o dos acionistas. A palavra “financeirização”certamente é a que melhor descreve o conjunto dessas mudanças.

Só nos voltaremos brevemente, numa primeira parte desse artigo, sobre a história dessa financeirização e o conjunto de estragos que ela provoca ao nível da empresa [1], para desenvolver melhor a segunda parte, que procurará colocar as possibilidades de livrar a empresa da prisão das finanças.

1. O despertar das finanças

Frequentemente nos esquecemos que a dominação das finanças, que hoje conhecemos, nem sempre existiu. Por isso, naturalizamos um mundo no qual elas impõem sua lei, seja às empresas, aos Estados ou às famílias. Mas um outro erro é também frequente: esquecer que a financeirização já havia ocorrido no início do século XX. Se a máquina do tempo nos fosse acessível, um viajante de hoje que aterrisasse nos Estados Unidos nos “loucos anos 1920” reconheceria muitos dos problemas contemporâneos: nível incomparável de desigualdade de renda e de patrimônio, enorme dívida das famílias, vontade de canalizar lucros corporativos para distribuição de dividendos. A crise de 1929 soou como uma forma de conter as finanças desenfreadas. O New Deal do presidente F.D. Roosevelt, na década de 1930, e a reconstrução pós Segunda Guerra Mundial contribuíram para regular as finanças, impor-lhes limites claros, tanto em nível interno, pela regulação do setor bancário, quanto ao nível externo, pelo controle das movimentações de capital. Seguiram-se três décadas de estabilidade financeira sem grandes crises, um crescimento econômico sem precedentes, a manutenção do pleno emprego por um período prolongado, e Estados intervindo particularmente para reduzir as desigualdades econômicas e sociais (políticas de redistribuição, prestação de serviços públicos, etc.).

O (novo) ponto de partida da financeirização é a desregulamentação financeira iniciada pelos poderes públicos na virada dos anos 1970-1980. Depois de 30 anos que certamente poderíamos chamar de “repressão da finanças” (Mc Kinnon, 1973), os governos tiveram vontade de abrir de novo a caixa de Pandora. Várias razões para isso: a memória da última grande crise financeira estava começando a desaparecer; os recursos do compromisso fordista se esgotaram, com a desaceleração dos ganhos de produtividade e os limites do taylorismo; atores públicos puderam acreditar na promessa de um financiamento mais barato de sua dívida pública …

Mas é também no campo de batalha das ideias que a evolução do mundo é decidida. De um lado, a dificuldade das políticas econômicas tradicionais no novo contexto internacional (maior abertura comercial, flexibilização da taxa de câmbio [2]) favoreceram o retorno das teorias monetaristas, que preconizavam receitas simples para deter a inflação, originária inicialmente dos choques petrolíferos, mas mantida depois por mecanismos de indexação salarial e a continuidade de um conflito de distribuição. De outro lado, os tecnocratas das grandes empresas conglomeradas (Galbraith, 1968), com suas estratégias de crescimento em detrimento da rentabilidade, foram criticadas pelas teorias que viam nisso um abuso de poder por parte de gerentes que deveriam agir no interesse exclusivo dos acionistas (Jensen e Meckling, 1976).

É particularmente sob a influência dessas duas correntes de ideias (teorias monetaristas em nível macroeconômico, teorias da agência em nível microeconômico) que foram criados, a partir da década de 1980, os dois pilares do capitalismo financeiro: os mercados financeiros organizados de acordo com os princípios da liquidez [3]; as regras de governança corporativa, inspiradas e transmitidas pelos fundos de pensão dos EUA, estabeleceram a primazia do poder dos acionistas sobre a empresa.

Em termos concretos, em nível macroeconômico, os mercados financeiros foram descompartimentados, o que deveria permitir fornecer aos Estados um financiamento mais barato para a sua dívida pública. Na prática, tratava-se sobretudo de disciplinar os Estados, colocando sua política orçamentária sob a vigilância dos mercados, reduzindo progressivamente o espaço para as políticas intervencionistas agora julgadas nefastas. A desregulação dos mercados financeiros devia assim permitir uma alocação ótima da poupança com relação a melhores oportunidades de investimento, o que favoreceria, em tese, as empresas. Sob o plano microeconômico, os acionistas, que reencontraram possibilidades de mobilidade de seu capital, conseguiram acertar o passo com os gerentes, alinhando o interesse dos administradores com o dos diretores. Por um lado, os mecanismos de remuneração dos gestores foram indexados ao desempenho financeiro, e não ao crescimento. Por outro, ao lado de acionistas estratégicos que reduziram seu compromisso num conjunto de negócios, os novos acionistas voláteis, prontos para vender pelo maior lance, foram alçados ao capital das empresas, deixando no ar a ameaça de uma aquisição do controle que levaria à substituição da equipe de gerenciamento recalcitrante por uma nova gestão mais em sintonia com os interesses dos acionistas.

No decorrer dos anos 1980-1990, a abertura da conta de capital dos Estados permitiu que a poupança colocasse em competição todas as oportunidades de investimento: com o desaparecimento dos obstáculos à livre circulação dos capitais, as empresas deveriam exibir as melhores performances se desejassem atrair poupanças. Além disso, diante de poupanças cada vez mais abundantes [4], desenvolveu-se uma verdadeira indústria financeira, com gestores de fundos coletando enormes quantias de poupança.

O ambiente institucional estava então maduro para consagrar a dominação do acionista sobre a empresa, seja graças à governança das empresas (que lhes dão diretamente o poder nas instituições de direção das empresas) ou graças à liquidez dos mercados financeiros (o que torna possível disciplinar os gerentes em razão das variações do preço da ação). Se a governança da empresa garantia a dominação do acionista desde meados do século XIX (segundo o princípio “uma ação = um voto)”, a novidade dos anos 1980 residiu na importância crescente assumida pela liquidez.

Com um mercado de capitais unificado, que permite aos investidores deixar uma empresa a qualquer momento, o horizonte de investimento vai tornar-se mais curto: é a generalização do curto-prazismo. Os atores financeiros estarão então cada vez mais interessados nas potencialidades de valorização para os mercados do que nos fundamentos da economia e das empresas subjacentes (investimento …). Isso resulta numa lógica de predação em que atores financeiros pilham as empresas de seus recursos (distribuição de dividendos elevada, mas também aquisição de ações) [5], e a obrigação de adotar reduções frenéticas de custos.

O sofrimento no trabalho nutre-se das exigências imputáveis à financeirização: as empresas precisam gerar lucratividade suficiente, é claro, mas também, mais insidiosamente, a obrigação de apresentar as contas para permitir que os financiadores avaliem a produtividade de diferentes centros de lucro. Agora que a empresa é vista como um portfólio de atividade que é possível vender por partes, o pessoal da operação sofre as consequências, enquanto o pessoal de gestão, responsável por fazer o trabalho sujo de reestruturação, vê sua lealdade aos interesses dos acionistas comprados por remuneração cada vez maior. Isso produz desigualdades salariais sem precedentes no interior dos países. Mas a lógica da redistribuição do capital também reestrutura as relações das grandes empresas com os Estados-Nações: estes são convocados a exibir o “melhor” [6] ambiente social (baixos níveis salariais e de contribuições sociais, boa relação qualidade/custo de mão de obra ou infra-estrutura …), fiscal e regulatório para atrair/reter grandes empresas. Seguem condições de trabalho particularmente deterioradas nos Estados que aceitam esse estado de coisas, contando com as receitas geradas pela presença dessas subsidiárias de grandes empresas, explorando até o pior paraíso regulatório, social e fiscal: o drama do Rana Plaza em Bangladesh marca talvez uma ruptura nessa lógica de desresponsabilização das empresas e dos Estados ocidentais…

Como se vê, muitos de nossos problemas econômicos e sociais referem-se ao lugar deixado para as finanças no funcionamento de nossas economias. Para identificar o horizonte de possibilidades e vislumbrar um futuro melhor, é esse lugar que precisa ser questionado para (re)conquistar graus de liberdade que favoreçam o bem-estar das populações.

2. Livrar-se das garras das finanças

Ao final do diagnóstico sobre a evolução das finanças e seus desvios, identificamos as duas armas financeiras que constrangem a empresa: a governança corporativa e a liquidez dos mercados. Para chegar ao fim da empresa financeirizada, é sobre essas duas alavancas que devemos procurar agir. As diferentes propostas que formularemos aqui traçam linhas de fuga que cada um poderá aproveitar de acordo com seu grau de radicalidade, mas todas apontando na mesma direção: trata-se de tentativas, mais ou menos exacerbadas, de desfinanceirizar a economia para liberar a empresa.

A primeira pista poderia ser favorecer certos acionistas em detrimento de outros mais nocivos. Por exemplo, existe o que chamamos de investidores institucionais, dotados de um passivo de longo prazo (fundos de pensão, companhias de seguros). Esses atores financeiros, que gerem massas consideráveis de fundos (em particular os fundos de pensão norte-americanos), têm obrigações financeiras previsíveis e normalmente não sofrem de necessidade de liquidez. A natureza de seu passivo lhe permitiria, em teoria, investir a longo prazo, isto é, engajar-se no capital das empresas num horizonte temporal de vários anos, sem reclamar rendimentos elevados para responder à necessidade de desembolsos no curto prazo. Em resumo, acionistas pacientes. Só que, na prática, esses investidores institucionais não são virtuosos. Eles delegam maciçamente a gestão de seus ativos aos fundos que recrutam com base em seu desempenho financeiro. Sem um regulamento que enquadre severamente a delegação de gestão de ativos desses investidores institucionais, é ilusório esperar uma força capaz de reverter a pressão financeira sobre as empresas.

Outra maneira de privilegiar aqueles que seriam os “bons” acionistas em detrimento dos “maus” deve ser encontrada do lado da governança corporativa. Poderíamos considerar conceder direitos de voto proporcionais ao tempo de detenção das ações. Com tal medida, os acionistas curto-prazistas não pesarão nas decisões estratégicas das empresas. Seu voto pela distribuição de dividendos elevados não será mais tão decisivo. [7] Esse tipo de direito de voto majoritário já existe, em alguns países. Infelizmente, pode também servir aos interesses de acionistas que estão no capital da empresa há muito tempo e desejam fazer suas posições frutificar (ou mesmo liquidar), beneficiando-se de direitos de voto duplo. Em vez desse bônus para acionistas de longa data, Colin Mayer (2013) propõe direitos de voto inversamente proporcionais ao período de compromisso remanescente: seria o caso de pedir aos acionistas para se comprometer com um período de investimento e tornar os direitos de voto degressivos ao longo do tempo. Assim, o acionista que se comprometa por 10 anos teria 100% dos seus direitos de voto no primeiro ano, depois 90% no segundo ano, depois 80% no terceiro ano …, e assim por diante até o último ano, quando seu direito de voto seria nulo. Esse princípio tem o mérito de colocar uma questão política real: por que os acionistas disporiam do direito de olhar para a evolução de uma empresa, uma vez que não sofrerão as conseqüências de sua decisão depois de vender seus títulos?

Sempre nessa lógica de privilegiar os “bons” acionistas, será interessante procurar fortalecer o papel do mercado primário. No mercado de ações, 99% das transações dizem respeito a títulos usados. O mercado de ações permite, portanto, aos investidores trocar títulos previamente emitidos sem que as empresas subjacentes recebam fundos. No entanto, embora a maioria dos acionistas não tenha contribuído para o financiamento de empresa subscrevendo uma nova emissão de ações, eles ainda têm o direito de votar influenciando a estratégia da empresa. Pode ser interessante conceder direitos de voto apenas a acionistas que tenham subscrito novas emissões de ações: uma vez que a garantia tenha retornado, a ação perderia os direitos de voto associados e se tornaria um objeto de especulação pura, sem qualquer influência direta na direção do negócio. Se alguém quiser aumentar a capacidade de financiamento dos mercados de ações também seria útil exigir, por meio de regulamentação, que os investidores institucionais dediquem uma determinada parcela de sua carteira a investimentos no mercado primário. Por exemplo, os fundos de pensão poloneses são obrigados a não investir mais do que 7,5% de seus ativos nos mercados secundários.

Se, no plano de fundo, algumas das propostas acima já apontavam para essa questão, agora examinaremos mais de perto o desenvolvimento da governança que poderia libertar a empresa da pressão financeira. De um modo ou de outro, trata-se de romper com o princípio (“uma ação = um voto”) da base do capitalismo. Modulando os direitos de voto em função da duração da detenção ou condicionando a existência desses direitos de voto à subscrição de uma emissão de ações no mercado primátio, estaríamos já atacando esse princípio. Mas é possível propor outras maneiras de fazê-lo. O primeiro procedimento será introduzir mais funcionários no conselho de administração: assim, os votos da assembleia geral dos acionistas seriam contrabalançados por um contrapoder representando o interesse dos empregados. François Morin (2017) propõe, por exemplo, um conselho administrativo que seja dividido em três partes iguais: acionistas, assalariados e persoalidades qualificadas em domínios científicos ligados à atividade da empresa (nomeados em paridade por representantes dos acionistas e dos assalariados). Da mesma forma, o comitê executivo, que exerce a administração geral, deve representar acionistas e empregados. Naturalmente, hoje o ponto de vista de certos funcionários – os gerentes – é assegurado por meio de opções baseadas em ações e outros mecanismos de remuneração indexados ao desempenho financeiro da empresa. Mas se esses incentivos são controlados, o conselho de administração poderia restaurar uma instância de discussão em que a empresa decide remunerar seu passado (os dividendos para os acionistas), seu presente (bônus para os assalariados) e seu futuro (autofinanciamento para preparar o investimento futuro para pessoal qualificado).

Outra linha de reflexão interessante para modificar a governança seria reforçar o papel de um banco de investimento público. O Estado acionista tem má fama, porque muitas vezes usa essas participações como meio de reduzir suas dificuldades em finais de mês difíceis. Do mesmo modo, alguns bancos públicos (como o atual Banco Público de Investimento — BPI — da França) assumem frequentemente as mesmas exigências de rentabilidade que os atores financeiros privados, por medo de ser taxados de amadorismo financeiro. Para romper com essas tendências, seria adequado restabelecer uma instituição financeira pública que agisse como seu status público lhe permite: desempenhar um papel moderador na governança das empresas, não exigindo rendimentos muito elevados; não reproduzir a pressão pela liquidez sobre as empresas, assegurando-lhes um tempo de detenção longo. Além disso, tal instituição poderia beneficiar-se de um poder de ação colossal, se uma regulamentação redirecionasse uma poupança atualmente na administração para investidores institucionais (fundos de pensão e seguradoras). Estes delegam o investimento de seus ativos a fundos de curto prazo e podem ser forçados a delegar a esse novo intermediário público um percentual crescente de seus ativos. Lembremos que em 2010 as companhias de seguro controlavam, só na França, mais de US$ 2 trilhões em ativos sob gestão. Fazer com que essas massas de poupança acompanhassem as empresas em seu desenvolvimento seria uma grande alavanca para a economia.

Conclusão

A subordinação das empresas e dos Estados aos desiderata dos mercados financeiros é  consequência da absoluta liberdade de movimento do capital financeiro, e principalmente da existência dos mercados secundários. Para voltar a conferir autonomia aos atores econômicos, impõe-se limitar a livre circulação de capitais. Nossas propostas têm esse objetivo: impor um período mínimo de posse das ações aos acionistas  e/ou obrigar os investidores institucionais a organizar uma delegação de gestão de ativos num banco de investimento público… A restrição aos movimentos do capital pode ser obtida pela regulamentação (controle de capitais em vigor na era de Bretton Woods), mas também por mecanismos de incentivo. Numa economia globalizada, os acionistas serão sempre livres para colocar seu capital onde bem entendam, mas deverão depositar um imposto às autoridades fiscais do território que seu capital deixa. É, na verdade, uma medida liberal no sentido de que a escolha é, em última análise, deixada ao ator econômico.

Poderíamos até chamar a medida de neoliberal, já que se deixarmos a ilusão de escolha ao ator, ele será forçado a atuar num universo onde as restrições são tais que ele realmente se comportará como queríamos originalmente. A movimentação de capitais não é proibida formalmente, mas na prática, com uma taxa de imposto de saída suficientemente alta, eles não “se moverão” (se o efeito desejado for este).

Cada vez mais vozes estão expressando a demanda pela redução na interconexão dos mercados financeiros. Incluindo alguém como Lord Adair Turner, ex-dirigente do equivalente britânico da Confederação da Indústria Britânica (Medef), que questiona a liberdade da movimentação de capitais (AlterEco+, 23 de novembro de 2015), defendendo mercados financeiros mais fragmentados, capazes de evitar a propagação de uma crise nacional num impacto global.

Mas a desfinanceirização passará também por uma mudança de representação. É o conjunto de normas contábeis que deve ser reconsiderado, para acabar com a contabilização pelo valor de mercado. É também a vulgata liberal que devemos combater: não, os acionistas não são donos das empresas [8]; não, os acionistas não financiam a empresa [9]; não, os agentes financeiros não são investidores [10]; não, o acionista não é o único a assumir o risco [11] … A luta política também passa pela linguagem.

Outras medidas poderiam também entrar no inventário do que seria desejável fazer para nos libertar das garras das finanças (imposto sobre transações financeiras, organização de um cadastro financeiro internacional, necessidade de obter autorização prévia de comercialização para todas as inovações financeiras …). Na verdade, a agenda de um governo que queira agir contra o capital financeiro já está bem identificada. É acima de tudo a falta de vontade política que nos deixa sob o jugo das finanças.

Num mundo que funciona de cabeça para baixo, às vezes é preciso ir para trás para avançar na direção do bom senso. Colocar as finanças em seu lugar implica mudanças, algumas das quais são como retroceder. Não é uma questão de retornar a regulamentos do passado a fim de glorificar uma época que acabou. Simplesmente, a marcha do progresso social às vezes se casa com caminhos “reacionários”. Precisamos realmente de uma reação contra as finanças. [12]

Dans un monde qui marche autant à l’envers, il faut parfois accepter d’avancer à reculons pour aller dans le bon sens. Remettre la finance à sa place suppose des changements, dont certains s’apparentent à un retour en arrière. Il ne s’agit pas de revenir à des règlementations passées afin de glorifier une époque révolue. Simplement, la marche du progrès social épouse parfois des chemins « réactionnaires ». C’est bel et bien d’une réaction contre la finance dont nous avons besoin.

Bibliografia

Favereau, O. (2016), L’impact de la financiarisation de l’économie sur les entreprises et plus particulièrement sur les relations de travail, Bureau International du Travail, Genève.

Galbraith, J. K. (1968), The New Industrial State, Boston : Houghton Mifflin.

Jensen, M., Meckling, W. (1976), « Theory of the firm : Managerial behavior, agency costs, and capital structure », Journal of Financial Economics, vol. 3, n°4, pp. 305–360.

Mayer, C. (2013), Firm Commitment. Why the corporation is failing us and how to restore trust in it, Oxford : Oxford University Press.

McKinnon, R. I. (1973), Money and Capital in Economic Development. Washington, D.C. : Brookings Institution.

Morin, F. (2017), L’économie politique du XXIe siècle, Lux Editeur.

Robé, J.P. (1999), L’entreprise et le droit, PUF, Paris, 127 p.

Notas

[1] O leitor particularmente interessado nessas questões deve consultar o relatório de Olivier Favereau (2016) no escritório da Organização Internacional do Trabalho.

Le lecteur intéressé plus particulièrement par ces questions est grandement incité à consulter le rapport du Bureau International du Travail rendu par Olivier Favereau (2016).

[2] Nunca é demais ressaltar que o desenvolvimento das finanças vem dos riscos que foram criados pelos próprios financiadores: assim, os famosos derivativos nascem desse desejo de se proteger contra as variações das taxas de juros e da taxa de câmbio que os financiadores (e alguns economistas) queriam. A variabilidade desses dois preços (taxa de juros e taxa de câmbio) fez surgir uma nova área de especulação.

On ne rappellera jamais assez que le développement de la finance provient de risques qui ont été créés pour les les financiers eux-mêmes : ainsi, les fameux produits dérivés sont nés de cette volonté de se protéger contre les variations de taux d’intérêt et de taux de change que les financiers (et certains économistes) appelaient de leurs vœux. La variabilité de ces deux prix (taux d’intérêt et taux de change) faisait émerger un nouvel espace de spéculation.

[3] Todos os ativos devem ser avaliados num mercado que se tornou universal, com cotações contínuas em todo o mundo, permitindo que eles comprem ou revendam a qualquer momento.

L’ensemble des actifs doivent être évalués sur un marché devenu universel, avec des cotations en continu partout sur la planète, ce qui permet d’acheter ou de revendre à tout moment.

[4] Numerosas razões podem explicar essa abundância de poupança: o envelhecimento da população nos países desenvolvidos, a decolagem dos países emergentes ou a abundância de liquidez dos países produtores de petróleo.

De nombreuses raisons peuvent expliquer cette abondance de l’épargne : le vieillissement de la population dans les pays développés, le décollage des pays émergents, ou l’abondance de liquidités des pays producteurs de pétrole.

[5] A multiplicação de recompras de ações foi permitida nos Estados Unidos após a nomeação pelo presidente Reagan, em 1982, do ex-banqueiro John Shad para chefiar a Securities and Exchange Commission (SEC). Pela Regra 10b-18, a SEC autorizou a recompra de ações nos mercados, uma prática anteriormente proibida como manipulação de preços de ações.

La multiplication des rachats d’actions a été permise aux États-Unis suite à la nomination en 1982 par le président Reagan de l’ancien banquier John Shad à la tête de la Securities and Exchange Commission (SEC), le gendarme financier américain. Par la Règle 10b-18, la SEC a autorisé les rachats d’actions sur les marchés, pratique qui était jusqu’alors interdite car considérée comme de la manipulation des cours boursiers.

[6] Trata-se certamente do “melhor” no sentido dos negócios: temos uma lógica do chamado social, fiscal ou regulatório.

Il s’agit bien sûr du « meilleur » au sens des entreprises : on a bien une logique du moins-disant social, fiscal ou règlementaire.

[7] Deve-se notar, no entanto, que sua capacidade de exercer pressão sobre os executivos não é nula: eles ainda podem, através da ameaça de venda massiva de títulos, obter essas distribuições de dividendos, a administração com medo do que resultaria dessas vendas.

Il est cependant à noter que leur capacité à faire pression sur les dirigeants n’est pas nulle pour autant : ils peuvent encore, par la menace de ventes massives de titres, obtenir ces distributions de dividendes, le management pouvant prendre peur de la baisse du cours qui résulterait de ces ventes.

[8] Simplesmente não há direito (Robé, 1999).

Il n’y en a tout simplement pas en droit (Robé, 1999).

[9] A principal fonte de financiamento continua a ser, de longe, o autofinanciamento, isto é, a renda que o coletivo “empresa” separa para preparar seu futuro.

La source principale de financement reste, de très loin, l’autofinancement, c’est-à-dire le revenu que le collectif « entreprise » met de côté pour préparer son avenir.

[10] A ação de investimento é feita por empresas que aumentam ou/e aprimoram seus equipamentos produtivos. No máximo, pode-se dizer que os acionistas financiam parte do investimento, mas apenas quando assinam uma nova emissão de ações.

L’action d’investissement est faite par les entreprises qui augmentent ou/et améliorent leur équipement productif. Tout au plus, on peut dire que les actionnaires financent une partie de l’investissement, mais uniquement lorsqu’ils souscrivent à une émission d’actions nouvelles.

[11] Especialmente porque os acionistas conseguiram institucionalizar as práticas de distribuição de dividendos, mesmo na ausência de lucros, quando a lógica da remuneração variável gostaria que os dividendos baixassem quando os lucros caíssem … Além disso, os funcionários também carregam um risco: o de perder o emprego.

Surtout que les actionnaires ont réussi à institutionnaliser des pratiques consistant à des distributions de dividendes, même en l’absence de profits, là où la logique de la rémunération variable voudrait que les dividendes baissent quand les profits baissent… Par ailleurs, les salariés portent aussi un risque : celui de perdre leur emploi.

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Tristan Auvray, Thomas Dallery e Sandra Rigot são membros dos “Economistas decepcionados” e autores de A empresa liquidada. Finanças contra Investimento, Michalon, março de 2016.

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Um comentario para "Como livrar as empresas da ditadura das finanças"

  1. Frank Gramt disse:

    Bonita alternativa da ATTAC: como para moralizar o capitalismo, rendendo seus excessos menos visíveis e conservar a escravidão. “Chapeau ATTAC”.

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