Venezuela e Groenlândia: o plano maior dos EUA

A nova disputa do poder global para além da cobiça por recursos naturais. Como o reposicionamento estratégico estadunidense resgata doutrina de controle do “Grande Caribe” e a Eurásia como linha de defesa à expansão comercial e geopolítica da China

Fuzileiros navais dos EUA durante um exercício de treinamento em Arroyo, Porto Rico. Ricardo Arduengo/Reuters
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Nas análises recorrentemente veiculadas sobre os fatores que influenciam as ações e ameaças sobre outros países empreendidas pelo governo Donald Trump, a busca por acesso a recursos naturais estratégicos vem sendo frequentemente abordada como elemento central. Mesmo questões políticas internas vêm sendo pouco mencionadas como fator motivador. Para além destes fatores e sem desprezar suas contribuições, esta Nota chama atenção para a necessidade de reposicionamento na disputa de poder global e para a relevância da posição geográfica de determinados territórios na estratégia dos Estados Unidos.

A centralidade atribuída ao petróleo nas ações dos EUA sobre a Venezuela tem produzido uma proliferação de análises de viés predominantemente economicista, inclusive no campo da geopolítica e da economia política internacional. Em particular, interpretações derivadas de certas leituras da teoria do imperialismo tendem a reduzir os conflitos interestatais à disputa por territórios econômicos, recursos e mercados. De forma complementar e sinérgica, este texto aponta para a importância da disputa entre Grandes Potências pelo acúmulo e vantagem relativa de poder no âmbito global, bem como o papel estruturante dos fatores geográficos — espaço e localização estratégica de territórios ou áreas — na formulação das estratégias estatais, inclusive para a segurança e sobrevivência dos Estados. Essa abordagem dialoga com o programa de pesquisa do Poder Global, inaugurado por José Luís Fiori, que enfatiza a dinâmica competitiva e expansiva pelo poder nas relações interestatais e na geopolítica do capitalismo, especialmente olhando para os Estados em posição superior. Ao mesmo tempo, dialoga e recupera elementos do pensamento geopolítico clássico, em especial do próprio pensamento geoestratégico estadunidense, no qual o valor estratégico de territórios e regiões não se limita à presença de recursos naturais, mas envolve considerações fundamentais de segurança e balança de poder.

Nessa perspectiva, o argumento desenvolvido para o caso venezuelano é ampliado para o chamado “Grande Caribe” ou “América Mediterrânea” — que abrange Venezuela, Colômbia, países da América Central e Caribe, até o México — e para as ilhas transoceânicas do Atlântico Norte e do Pacífico Norte, entre as quais se destaca a Groenlândia. A maior parte das análises aqui apresentadas estão presentes em textos como “O pensamento geoestratégico e os documentos estratégicos dos Estados Unidos no pós Guerra Fria” e “Trump e a América Latina no início de seu mandato”, publicados pelo autor em 2018 e 2025, respectivamente *.

A posição ou localização geográfica estratégica

Conforme apontado em Padula (2025), no atual governo Trump, o foco no hemisférico ocidental da política externa dos EUA teria especial atenção voltada ao “Grande Caribe” (incluindo Colômbia e Venezuela), combinando-se ao estabelecimento de linhas de defesa avançadas transatlânticas e transpacíficas. Esta política seria instrumentalizada por meio da guerra comercial-tarifária e do uso da percepção de “novas ameaças” do pós Guerra Fria, que seriam o narcotráfico, a imigração, o crime transnacional, associados ao “terrorismo” e à criminalidade no território dos EUA, podendo ser associados a grupos ou Estados hostis externos ou dentro do hemisfério.

Uma motivação estratégica fundamental para a ação dos EUA se encontra na localização ou posição geográfica estratégica dos territórios da Venezuela e da Groelândia, do ponto de vista da segurança do território estadunidense. Conforme sistematizado em Padula (2018), na visão geoestratégica do EUA, o “Grande Caribe” é composto pelo Mar do Caribe e Golfo do México, incluindo o México, estados da América Central e Caribe (como Cuba), indo até a Colômbia e Venezuela, no norte da América do Sul. O Grande Caribe é um ponto de passagem marítimo fundamental (choque-point) não só do ponto de vista comercial, mas também militar, visto que o controle da região permite à Marinha estadunidense se articular para reunir em um único ponto ou costa a defesa de seu território, e também negar passagem a rivais ou auferir influência sobre potencias aliados que desejem utilizar esta rota. Ainda, a posição do território da Venezuela é relevante na articulação do escudo guianense com a área amazônica e o restante da América do Sul, e, juntamente com a Colômbia, na articulação Atlântico-Pacífico do Grande Caribe e na área amazônica, sendo esta uma área dotada de recursos naturais estratégicos.

No caso das ilhas transoceânicas do Atlântico Norte, como a Groelândia, estas são observadas como conexões e bases avançadas para defesa do território estadunidense diante da possibilidade de projeções de poder de rivais provenientes da extremidade ocidental da Eurásia. Com o degelo e possibilidade de acesso a rotas marítimas comerciais e militares, além da exploração de recursos estratégicos no Ártico, sua posição geográfica ganha ainda maior valor estratégico. Vamos aos fundamentos no pensamento geoestratégico estadunidense.

Mesmo antes da formação de um pensamento especificamente geopolítico, um dos pais-fundadores dos EUA, Alexander Hamilton, apontou a união das treze colônias deveria formar um Estado capaz de equilibrar as relações de poder no Atlântico Norte e ditar os termos das relações entre o Velho e o Novo Mundo. A Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente estadunidense em 1823, explicitou a preocupação com a projeção de potências externas no hemisfério ocidental, e assim o perímetro de segurança dos EUA.

No debate da geopolítica clássica, no fim do século XIX, o almirante estadunidense Alfred Mahan (1890) destacou a importância do domínio de ilhas transoceânicas, de passagens estratégicas e portos continentais para o controle de rotas marítimas estratégicas. Este seria o pilar da supremacia britânica, que deveria ser perseguido pelos EUA na sua projeção global. Mahan destacou a importância da construção e controle de um canal no istmo do Panamá para que os EUA assegurassem capacidade de articulação comercial e principalmente militar (de segurança) entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Ainda, ressaltou que tal passagem despertaria o interesse e projeção de outras potências, e que os EUA deveriam se preparar para assegurar seu controle. Assim, Mahan destacou o Grande Caribe (Mar do Caribe e Golfo do México) como uma área estratégica para a segurança dos EUA. De forma complementar, o autor destacou a importância do domínio do triangulo Panamá-Havaí-Alasca, para a defesa dos EUA no Pacífico. Nesta linha de ação estratégica, com o presidente William McKinley (1897-1901), tão citado como inspiração por Trump, e no âmbito da Guerra Hispano-Americana (1898), os EUA emergiram como uma potência global e adquiriram vários territórios no Pacífico e no Caribe, incluindo Havaí, Guam, Porto Rico e Filipinas. Mais adiante, com o Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe, os EUA promoveram a secessão do Panamá em relação à Colômbia, seguida da construção e arrendamento do Canal do Panamá, e estabeleceram Cuba como um protetorado e garantiram o arrendamento permanente da Baía de Guantánamo em 1903. 

Mas foi Nicholas Spykman (em America’s Strategy in World Politics, 1942) que sintetizou a geoestratégia estadunidense, partindo de sua posição geográfica, justificando a combinação entre o intervencionismo na Eurásia e a supremacia no hemisfério ocidental. Para ele, os EUA seriam uma ilha bioceânica cercada pela Eurásia. Assim, deveriam atuar permanentemente para que nenhuma potência ou aliança dominasse a Eurásia, além avançar seu controle para as ilhas transatlânticas – Groelândia e Islândia – e transpacíficas – Havaí, Alasca e Ilhas Aleutas, – devido a sua posição de interconexão e proximidade com as extremidades eurasiáticas. No hemisfério ocidental, a supremacia estadunidense não poderia ser ameaçada. De forma similar o Grande Caribe de Mahan, Spykman denomina “América Mediterrânea” como a área geopolítica formada pelo Mar do Caribe e Golfo do México, incluindo Venezuela e Colômbia. Nesta visão, Venezuela e Colômbia possuem uma dinâmica econômica, demográfica, cultural e política voltada para o Norte, e estão apartadas geograficamente da América do Sul pelos obstáculos da Amazônia e das cordilheiras andinas. Reafirmando Mahan, Spykman aponta que esta é uma área onde seus Estados devem ser sempre fracos e dependentes dos EUA, por razões estratégicas, e o controle do Grande Caribe deve ser resguardado a sete chaves. Enquanto a “zona equidistante meridional” (ou América do Sul) seria uma região geopolítica ao sul do Amazonas, que merecia atenção permanente dos EUA.  

Portanto, do ponto de vista geoestratégico estadunidense, tanto o “Grande Caribe” quanto as ilhas transatlânticas do Atlântico Norte (incluindo a Groelândia) devem ser objeto de controle, influência e intervenção permanente dos EUA.

A disputa de poder global

Do ponto de vista sistêmico, a conjuntura atual de intensificação da competição pelo poder interestatal e de tendência à multipolaridade impõe aos EUA como questão central a necessidade de buscar seu reposicionamento estratégico diante das potências rivais. No seu retorno ao poder, Trump anunciou o deslocamento do foco da política externa e de segurança dos EUA para a reafirmação de sua supremacia no Hemisfério Ocidental, articulada ao seu posicionamento global. Essa estratégia combina o esforço de contenção da influência de potências externas no hemisfério — com destaque para a China — com a redução seletiva do engajamento direto dos EUA na Eurásia, preservando ações e intervenções pontuais consideradas estratégicas.

Nesse contexto, a China se afirmou como principal desafiante à supremacia global dos EUA no século XXI, utilizando instrumentos econômicos com claros efeitos geopolíticos, como a Iniciativa Cinturão e Rota. A crescente presença chinesa na América do Sul e no Grande Caribe, particularmente em áreas sensíveis como a região do Canal do Panamá e na Venezuela, reforça a percepção de ameaça estratégica por parte de Washington. Paralelamente, o desfecho da guerra na Ucrânia, interpretado como uma vitória da Rússia e uma derrota estratégica dos EUA e da Europa, intensificou a necessidade, do ponto de vista estadunidense, de redefinir prioridades, concentrando esforços no fortalecimento de seu perímetro imediato de segurança, expandindo-se para uma zona tampão de segurança nas ilhas transoceânicas do Pacífico e Atlântico Norte.

A América do Sul passou a ocupar um lugar de maior relevância nesse cenário em razão da combinação entre a perda de protagonismo regional do Brasil na segunda década do século XXI e a expansão da presença econômica e política da China. A região tornou-se, assim, um espaço de projeção de poder e de disputa entre potências externas. A Venezuela emerge como caso emblemático, ao articular e intensificar relações estratégicas com China e Rússia em uma área de elevada importância geográfica, situada no Grande Caribe e na interface com a Amazônia, além de concentrar vastos recursos naturais. A intensificação das sanções econômicas impostas pelos EUA, sobretudo a partir do primeiro governo Trump, aprofundou esse movimento, levando Caracas a buscar e aprofundar alternativas financeiras e comerciais fora do circuito dominado pelo dólar, em especial nas exportações de petróleo para a China. Ainda que essas iniciativas tenham caráter defensivo, elas se inserem em um contexto mais amplo de contestação à supremacia monetário-financeira dos EUA. Historicamente, a exclusão da influência dos EUA na Venezuela e no seu petróleo, combinada à crescente presença sino-russa, a atuação e influência da Exxon e dos EUA na Guiana a partir de 2015, além da presença de petroleiras americanas na Colômbia e Suriname, faziam da Venezuela um enclave estratégico no norte da América do Sul. A recente reversão na política externa colombiana, tradicionalmente alinhada aos EUA, colocaram também o país em foco, para que os EUA possam completar o domínio do arco norte da América do Sul. Cabe lembrar que, embora a redução da produção de petróleo decorrente das sanções tenha impossibilitado a Venezuela de utilizar seu petróleo como instrumento de projeção externa, e mesmo a levou a anunciar o fim das exportações para países da Petrocaribe, o abastecimento de Cuba foi mantido.

No caso da Groelândia, deve-se considerar a conjuntura atual de fraqueza política e militar da Europa e de sua dependência militar da OTAN, organização cujo controle permite aos EUA manter sua influência na região (chegando ao Leste), em um contexto de vitória russa na Ucrânia. Diante desse quadro, a anexação da Groenlândia pode ser avaliada pelos estrategistas estadunidenses a partir de um cálculo custo-benefício favorável, por ser tanto uma demonstração de capacidade expansionista quanto como afirmação de poder em uma área de elevado valor geoestratégico. O degelo progressivo do Ártico, ao ampliar o acesso a novas rotas marítimas e a recursos estratégicos, tende a reforçar esse cálculo. Além disso, na prioridade atribuída ao hemisfério ocidental, a consolidação de uma base estratégica avançada pode representar uma opção racional do ponto de vista geopolítico, em favor do fortalecimento da posição dos EUA na disputa pelo poder global.

Recorrendo ao debate geoestratégico estadunidense, as visões e ações engendradas por Donald Trump podem ser interpretadas à luz do realismo de John Mearsheimer e Stephen Walt, bem como das formulações de Robert Kaplan, este autor fortemente influenciado por Samuel Huntington. Mearsheimer e Walt, ao desenvolverem a noção de offshore balancing, argumentam que os EUA deveriam concentrar seus recursos militares, políticos e econômicos na consolidação do domínio hemisférico, reduzindo seu envolvimento direto em conflitos na Eurásia. Essa estratégia permitiria poupar recursos e vidas, ao mesmo tempo em que fortaleceria a posição dos EUA para a disputa de poder global. Nesse enquadramento, insere-se a defesa da redução dos gastos com a segurança europeia e a revisão da participação na OTAN. A atuação estadunidense no balanço de poder eurasiático deveria ocorrer prioritariamente por meio de aliados, com intervenções diretas apenas em situações pontuais consideradas estratégicas, especialmente na área da Ásia-Pacífico, onde a ascensão da China inevitavelmente colidiria de forma direta com os interesses dos EUA. Já Robert Kaplan sustenta a necessidade de os EUA concentrarem esforços no hemisfério ocidental, buscando integrá-lo sob sua esfera de influência e priorizando temas como migração e narcotráfico. Em sua interpretação, a estabilidade do espaço hemisférico é condição essencial para a preservação da identidade histórica e da coesão interna dos EUA, o que tornaria inviável a convivência com Estados falidos ou narcoestados em sua vizinhança. Ademais, a política de Trump também pode ser interpretada à luz da visão estratégica de Henry Kissinger, fundamentada na lógica da geopolítica triangular. Nessa abordagem, Kissinger defende que, na conjuntura atual, os EUA deveriam buscar uma negociação estratégica com a Rússia, reconhecendo seu status de grande potência nuclear, com o objetivo de afastá-la da China (explorando rivalidades históricas) e, assim, isolar o terceiro vértice do triângulo. Tal movimento teria ainda como efeito colateral desejado o enfraquecimento do BRICS. Para Kissinger, profundas diferenças políticas, estratégicas e culturais entre Washington e Pequim limitariam a possibilidade de uma negociação mutuamente vantajosa, e, assim, tornariam improvável a possibilidade de conciliação de interesses no âmbito da disputa pelo poder global.

Fazendo menção aos recursos estratégicos, mas de forma associada à disputa de poder global, faz-se importante lembrar a Doutrina Carter, anunciada em 1979, focada no Oriente Próximo, como uma reação à invasão soviética ao Afeganistão e à Revolução Islâmica no Irã, ambos países localizados em áreas energéticas estratégicas na disputa bipolar e especialmente pela Eurásia. A doutrina formulada por Zbigniew Brzezinski pode ser interpretada de forma mais ampla, não só como a busca pelo controle de recursos estratégicos (vitais) para aproveitamento dos EUA, mas também pela busca por negar acesso a rivais e, ao mesmo tempo, pela manutenção do poder de barganha dos EUA sobre outros países, atuando como garantidor do acesso ou funcionamento do “mercado” destes recursos. Para o cientista político Michael Klare, os EUA praticam a Doutrina Carter desde 1943 e esta não se resume a recursos energéticos, mas envolve qualquer recurso considerado estratégico. A Declaração de Emergência de Energia Nacional dos EUA, firmada pelo Presidente Trump no seu primeiro dia de governo, menciona a exploração e uso de bens energéticos como um instrumento de política externa, argumentando a necessidade de aproveitá-los em países parceiros e antagonizar a atuação de Estados rivais no tema. Assim, a questão do petróleo na Venezuela deve ser observada do ponto de vista da disputa de poder global, e não somente como um negócio lucrativo para empresas e a economia estadunidenses.

Diante deste cenário, a busca por autonomia, segurança e desenvolvimento nos países da América do Sul passa inevitavelmente por arranjos de integração entre países da região e pela articulação Sul-Sul frente à estratégia hemisférica dos EUA, mas reconhecendo o Grande Caribe como uma área de sensibilidade estratégica. A articulação de um bloco de integração passa inevitavelmente pela atuação do Brasil e de sua diplomacia, e sua capacidade para atrair os demais países da região.

Referências:


PADULA, R. “O pensamento geoestratégico e os documentos estratégicos dos Estados Unidos no pós Guerra Fria”. Revista Carta Internacional, Belo Horizonte, v. 13, n. 2, 2018, p. 31-55.

PADULA, R. “Trump e a América Latina…”. Observatório Internacional do Século XXI. Março de 2025.

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