O ultraimperialismo dos EUA e as duas Guerras Frias

Como se formou o “capitalismo evangélico”, baseado na militância do “eu”, conservador e ultraliberal, e na negação da racionalidade. A nova fase de guerras indefinidas e domínio algorítmico. De Bush a Biden, um panorama do poder imperial

Leia a primeira parte do texto:
Por que estudar o imperialismo hoje
As teorias de Lênin, Rosa Luxemburgo e Kautsky. Os métodos para ampliar mercados e pilhar países periféricos. As oligarquias locais coniventes. A busca por um sistema híbrido: capitalista, feudal e escravocrata. Sua nova fase de “guerra permamente”

1.

Para a norte-americana Ellen Meiksins Wood, a diferença entre o imperialismo clássico e o novo imperialismo reside no fato de que o primeiro era um misto de colonialismo e imperialismo capitalista em um mundo em que este último ainda não era o modo de produção realmente planetário; e o segundo, por sua vez, constitui-se como o imperialismo do sistema de múltiplos Estados, em um planeta plenamente capitalista, razão pela qual, em seu livro O império do capital (2014), escreveu o seguinte: “Estados Unidos saíram da Segunda Guerra Mundial como a maior potência militar e econômica e assumiram o comando de um novo imperialismo governado por imperativos econômicos e administrado por um sistema de múltiplos Estados”(WOOD, 2014, p. 100).

2.

Ainda em diálogo com Wood, o novo imperialismo capitalista estadunidense tornou-se hegemônico a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, tendo desde então passado por três fases: 1) uma primeira, de 1944 até o início da década de setenta do passado século, período em manteve controle das instituições e parâmetros legais do sistema Bretton Woods, constituído pelo FMI, o Banco Mundial e, um pouco mais tarde, pelo Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt); 2) uma segunda, inaugurada pela era Nixon, em que rompe com o padrão ouro, ao transformar o dólar em uma moeda fiduciária, lastreada, mais que no petróleo, em si mesma; 3) uma terceira, iniciada com o fim da União Soviética em 1991 e levada a cabo efetivamente por George Bush, a partir de 2001, por meio da “[…] guerra total e infinita – não necessariamente guerra contínua, mas uma guerra indefinida em termos de duração, objetivos, meios e alcance espacial”(WOOD, 2014, p.114).

3.

A primeira e a segunda fases brevemente descritas acima fazem parte do período de dominação estadunidense da Primeira Guerra Fria. A terceira, iniciada com a derrocada da União Soviética em 1991, é a da Segunda Guerra Fria, época cuja compreensão é fundamental para o conhecimento do mundo contemporâneo.

4.

Chamo de ultraimperialismo estadunidense o que Wood designou como novo imperialismo por um motivo fundamental: Estados Unidos produziram um capitalismo mundial à imagem e semelhança de si mesmos, ao transformar a cultura em um meio capitalista de produção, produtor de estilos de vida.

5.

O ultraimperialismo ianque tornou-se o produtor mundial não apenas de dólar sem lastro na economia real, mas antes de tudo de fetichismos, com lastro no fetichismo das mercadorias. A título de exemplo, um desenho animado como Mickey Mouse, como fetiche de um estilo de vida, transforma-se efetivamente em símbolo deste último, ao ser replicado, como fator publicitário, em roupas, produtos alimentícios, brinquedos, livros, cadernos, festas de aniversário, etc.

6.

Trata-se, com Guy Debord, de A sociedade do espetáculo (1967), pois produz imagens como quintessências de um mundo tornado reificado, como negação visível da vida, ao representar esta última pelo fetichismo do fetichismo, sem lastro na vida concreta, historicamente constituída, pois o “[…] o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda vida humana – isto é, social – como simples aparência (DEBORD, 1997, p. 16).

7.

A indústria cultural ianque, com seus monopólios, é o capitalismo que produz a aparência e a fetichiza, como “plena de sutilezas metafísicas e caprichos teológicos” (MARX, 2017, p.146), tendo como teatro (ou empresa cultural planetária) as culturas fetichizadas da Primeira e da Segunda Guerras Frias.

8.

As duas guerras frias tiveram e têm como desafio a mundialização ideológico-social do capitalismo estadunidense, com a finalidade, em diálogo com a obra A mais-valia ideológica (2013), do filósofo e poeta venezuelano Ludovico Silva, de produzir “[…] uma visão enganosa da realidade, uma visão que expressa, com frequência, o contrário do que ocorre na realidade” (SILVA, 2013, p.40).

9.

Duas perguntas emergem a propósito: se a Primeira e a Segunda Guerras Frias foram e são relações culturais, bélicas e sociais de produção capitalistas do ultraimperialismo, como podem ser ao mesmo tempo uma visão enganosa da realidade? Se são realidades ideológico-culturais produzidas, em um dado período, pelo conjunto da indústria cultural ianque, como realizam mais-valor, objetivo de qualquer empresa capitalista?

10.

A primeira pergunta deve ser respondida por meio da resposta à segunda. Novamente o diálogo com Ludovico Silva é indispensável, dessa vez tendo em vista a categoria do mais-valor ideológico, assim analisada pelo filósofo marxista venezuelano: “Do operário descrito por Marx em O capital era, ocultamente, subtraída a mais-valia material sem que ele o percebesse; do mesmo modo, da psique do homem médio do capitalismo é extraída a mais-valia ideológica que se traduz como escravidão inconsciente ao sistema. […] Trata-se, em síntese, de um excedente de energia mental do qual o capitalismo se apropria. (SILVA, 2013, p.182).

11.

Se, com Marx de Contribuição à crítica da economia política (1859), “[…] a produção não somente produz um objeto para um sujeito, mas também um sujeito para o objeto” (MARX, 2008.p. 348), a indústria ideológico-bélica do ultraimperialismo tem como objetivo econômico-cultural (uma coisa se torna a outra) produzir o sujeito como objeto, sob a forma da seguinte mercadoria sui generis de referência e autorreferida: o amarican way of life, esse excedente biopolítico-monopólico que condiciona uma escravidão inconsciente ao sistema, ao mesmo tempo em que se apropria da energia mental dos povos.

12.

Evidencia-se, desse modo, uma civilização do mais-valor ideológico como principal forma de captura do mais-valor do trabalho material dos povos, alienados de si mesmos, de suas histórias e desafios, na mesma proporção em que se americanizam, que se estilizam incorporando a cultura do fetichizado estilo ianque de ser; afirmação publicitária de toda vida humana como simples aparência.

13.

O filósofo italiano Maurizio Ferraris, em seu livro Manifesto del nuovo realismo (2012), ao analisar o período histórico da pós-modernidade como fundamentalmente antirrealista, assim a descreveu 1) Expressa-se pela dessublimação, palavra que deve ser compreendida como recusa à teoria, ao pensamento, à racionalidade, às ideias, por meio de um apego fetichista ao corpo, na pressuposição de que este último seja, como instância do desejo, a única verdade possível; 2) Expressa-se igualmente pela ironizarão, termo cujo sentido remete à crença pequeno-burguesa de que nada deva ser levado a sério, pois o melhor perfil humano possível é o do cínico e o do cético, por desconfiarem de tudo, sobretudo da racionalidade e da universalidade; 3) Expressa-se de igual maneira pela desobjetivação, palavra que deve ser interpretada como negação de toda e qualquer objetividade, então concebida como coisa de adulto, homem, branco, europeu, ao passo que a subjetividade pertenceria à juventude, à sensibilidade feminina, à sinceridade, à criação, à poesia, à vida.

14.

No entanto, o que Maurizio Ferraris designou como pós-modernidade, chamo de hegemonia da modernidade estadunidense, ancorada na apropriação do mais-valor ideológico dos povos. Acato, porém, a sua descrição. O mais-valor ideológico das duas guerras frias da modernidade do período hegemônico estadunidense se expressa, não sem fetichismo, pelo apego antirrealista à dessublimação, à ironização e à desobjetivação, no caso da Primeira Guerra Fria; e pela dessublimação e desobjetivação, se o referencial for a Segunda Guerra Fria, época atual em que a ironia foi expulsa da vida pelas razões que pretendo explicitar mais adiante.

15.

Dois outros traços comuns das duas guerras frias estadunidenses são o excepcionalismo e o destino manifesto. A dessublimação e a desobjetivação das duas culturas relativas ao período da dominação ianque apresentam-se como excepcionais, logo intocáveis e sagrados, porque se concebem como a quintessência da predestinação calvinista e, assim, do destino manifesto.

A Primeira Guerra Fria

1.

A Primeira Guerra Fria foi unilateralmente decretada pela Doutrina Truman em 1947, que ao mesmo tempo criou o Departamento de Defesa, o Estado-Maior Unificado, o Conselho de Segurança e a Agência de Inteligência, a CIA, instituições que decidiram os rumos do Sistema Bretton Wood, da OTAN e da divisão do mundo em ultraimperialismo estadunidense, subimperialismo europeu-japonês e países de terceiro mundo, incluindo os socialistas, como Cuba, URSS e a China.

2.

A indústria cultural desse período desfechou a sua artilharia de fetiches principalmente contra o chamado socialismo real. O objetivo era derrotá-lo em nome do império mundial do capital estadunidense. Para tal, contrapôs o estilo americano de vida, reino suposto da liberdade, ao reino da necessidade do eixo socialista.

3.

Foi um período semilaico de excedente criativo-comportamental da fase pós-guerra do Estado de bem-estar social, expressando-se de modo protoanarquista, irracional, sexualmente desreprimido. Tratou-se de fetichizar o reino da liberdade anarcoliberal (dessublimada e desobjetiva, além de irônica), como se pudesse estar totalmente desacoplado do reino das necessidades, na pressuposição bélico-publicitária de que o eixo socialista, sobretudo a URSS, fosse puro reino da necessidade; a suposta igualdade da pobreza, sem liberdade.

4.

O rock and roll foi seu gênero de mais-valor ideológico com maior impacto mundial, podendo ser interpretado como um simulacro anarcoliberal da luta de classes; uma verdadeira catarse libertária do corpo dessublimado e desobjetivado, devidamente armado de drogas contra a racionalidade, a abstração, a universalidade, a secularidade.

5.

Maio de 68 da França foi a sua revolução colorida inaugural, de fundo espetacular, protoanarquista, como rebelião da juventude contra o mundo adulto, pretexto para aplicar o regime change na França de Charles de Gaulle. Sua palavra de ordem, “É proibido proibir”, foi cantada por Caetano Veloso em música homônima no Festival Internacional da Canção, em 1968. A canção The Wall de Pink Floyd, de 1979, é o verdadeiro hino de mais-valor ideológico-estético-pedagógico dessa juventude mundialmente ianque, empoderada.

6.

A invenção da juventude foi, e em certo sentido continua a ser, a arma de guerra comportamental mais efetiva e onipresente do estilo americano de vida; uma verdadeira tecnologia biopolítica de poder que, ao dessublimar-se e desobjetivar-se, funciona como se fosse o seu destino manifesto encarnado, independente do passado das lutas de classes, na pressuposição de que o “aqui e o agora” não precisem de alhures, tampouco de algures.

7.

O impacto mundial da cultura da Primeira Guerra Fria sobressaltou o planeta inteiro, inclusive o eixo socialista. Nesse contexto, a Europa ocupou um papel importante, ainda que inconsciente, ao ser convocada a exercer o que pode ser chamado de subimperialismo estético-cultural e intelectual, com seus artistas e teóricos chancelando, como criadores e pensadores, a produção de mais-valor ideológico típico da cultura da Primeira Guerra Fria, questão que ultrapassa nomes isolados, como o de Adorno e Hannah Arendt, para alcançar o estatuto de campos epistemológicos, com o estruturalismo e o pós-estruturalismo, por exemplo.

8.

A esse respeito o livro Quem pagou a conta? A CIA e a Guerra Fria cultural(1999), da pesquisadora inglesa Frances Stonor Saunders, é obra de referência, porque fornece importantes subsídios para entender os motivos pelos quais a CIA escolheu a Europa de pós-guerra para ser a diluidora teórica dos estereótipos irracionalistas, subjetivistas e anarquistas da Primeira Guerra Fria, que são basicamente três: 1) Porque o mundo era eurocêntrico de modo que a captura de artistas e intelectuais europeus, como parceiros subimperialistas, tenderia impactar, pela influência, todo o planeta, como cartas de baralho, em um efeito dominó; 2) Porque a própria Europa deveria ser (con)vencida culturalmente; 3) Porque a principal estratégia hegemônica estadunidense se realiza por meio de guerras por procuração, inclusive intelectuais e estéticas, com objetivo de não ser surpreendida em “flagrante delito”, além de ser a melhor tática para enfraquecer os concorrentes.

A segunda Guerra Fria

1.

O lado semilaico da Primeira Guerra Fria e seu estímulo erótico-anarquista à comunhão mundial da juventude passaram a ser duramente criticados pelo establishment neoconservador estadunidense já na década de sessenta do passado século. O periódico trimestral The public interest, fundado em 1965 por Daniel Bell e Irving Kristol e só encerrado trinta anos depois, em 2005, consagrou-se como o principal meio de difusão, coesão e formação intelectual de novas gerações de burocratas e estrategistas ianques, preocupadas em resgatar o passado puritano e atualizá-lo como fator de mais-valor ideológico, de fundo religioso, com a finalidade de decretar o seguinte veredito: a história chegou ao fim e pertence à teocracia ianque.

2.

A Primeira Guerra Fria foi uma concessão à história, compreendida como processo aberto. Era fundamental eternizá-la, a história, como infinito presente de hegemonia ianque. Não foi por acaso, nesse contexto, que Daniel Bell publicou em 1960 o livro O fim da ideologia, tampouco a fama que alcançou a obra de Fukuyama, O fim da história e o último homem, de 1992, sem contar e já contando a importância de um título como Uma orientação especial: a política externa norte-americana e sua influência no mundo, de Walter Russell Mead, publicado em 2002, com edição brasileira de 2006, com o selo, pasmem, da Editora do Exército brasileiro; obra que retém em si o mais-valor ideológico por excelência da atualidade: a fé como o fundamento biopolítico da política externa ianque.

3.

Os fatores internos da hegemonia econômico-cultural estadunidense são sempre inseparáveis dos externos. A esse respeito, o livro A Segunda Guerra Fria: geopolítica e dimensão estratégica de Estados Unidos (2013), de Luiz Alberto Moniz Bandeira, é obra fundamental, pois identifica o início da atual fase na política imperialista no mandato de James Carter (1977-1981), sob a orientação de seu assessor de Segurança Nacional, Sbigniew Brzezinski. Este, referendando-se na conferência apresentada pelo geógrafo inglês, John Mackinder, na Royal Geographical Society de Londres, no início do século XX, intitulada The Geographical Pivot of History, acatou a premissa de que para dominar o mundo era necessário dominar o coração da Eurásia, o Heartland, seja por ser uma região que abriga uma diversidade étnica e religiosa sem precedentes, seja por ser uma área constituída por países com imensas reservas de gás e petróleo, além de ser circundada pela então URSS (hoje pela Rússia), por China, Índia, Afeganistão e Irã.

4.

Os conselhos de Sbigniew Brzezinski foram efetivados no teatro de guerra com a chamada Operação Ciclone, por meio da qual a CIA treinou, financiou e armou os mujahideen ou os guerreiros santos, usando-os, por meio da guerra indireta, para combater as tropas soviéticas que ocuparam o Afeganistão entre 1979 e 1989. Tratou-se, efetivamente, da militarização imperialista do islã com objetivo não apenas de enfraquecer a URSS, mas também de realizar um regime change contra o governo laico e socialista de Afeganistão do período, presidido por Babrak Karmal.

5.

A partir daí, a ficha caiu. A melhor forma de combater não apenas o socialismo, mas também governos soberanos (ou que desejam sê-lo) é militarizando a religião, ao levar a cabo guerras santas contra os supostos “satãs” laicos.

6.

Os neoconservadores tornaram-se hegemônicos. É a Segunda Guerra Fria. Seu objetivo é produzir uma cultura religiosa em escala planetária, com duas vertentes antinômicas: 1) a de um novo perfil para o estilo americano publicitário e puritano de ser; 2) a de um novo perfil não publicitário e neopentecostal de ser. Ambos são dessublimados e desobjetivados, embora não sejam irônicos, porque se fundamentam religiosamente.

7.

O primeiro perfil ianque é publicitário e puritano porque deve representar a suposta democracia étnica e de gênero estadunidense; o reino da liberdade desacoplado do reino da necessidade. Funciona pela captura e normatização oligárquica de alteridades de gênero, étnica e mesmo de classe. Seu fundamento religioso e metafísico se expressa pela fórmula sionista e divisionista do “eu sou”, que significa simplesmente “eu sou gay estadunidense, puritano”, “eu sou negro estadunidense, puritano”, “eu sou mulher estadunidense, puritana”, e assim por diante.

8.

Ainda sobre esse primeiro perfil biopolítico e publicitário de ser estadunidense, a versão da Segunda Guerra Fria do american way of life, é possível dizer: existe para substituir a militância ancorada na classe social porque milita exclusivamente para si mesmo. E nem adianta falar, a propósito, que pode ser diferente, em uma perspectiva de interseção de gênero, ética e classe, citando direta ou indiretamente Angela Davis, porque o seu espírito puritano dessublimado e desobjetivado do excepcionalismo de si mesmo, como destino manifesto para si e consigo, inviabiliza na prática a interseção com a luta de classes como o motor da história.

9.

O segundo perfil neopentecostal de ser representa, sob o ponto de vista biopolítico, a verdadeira mundialização do capitalismo evangélico estadunidense. É a cultura pragmática da teoria da prosperidade e da atualização do mais-valor ideológico do Antigo Testamento. É dessublimado e desobjetivo de uma forma diversa porque corporifica-se e desobjetiva-se no desejo sem limites ao dólar como o “novo espírito do capitalismo”.

10.

É um perfil que representa a aliança entre o judaísmo e o cristianismo, a partir do retorno da mística do Antigo Testamento, com Cristo subsumido pelo pai, por Deus, em nome do qual é preciso travar uma ilimitada guerra santa contra os laicos, logo contra o nacionalismo independentista, o socialismo e o comunismo, a secularidade.

11.

Os dois perfis são semelhantes porque ambos eliminam a figura de classe social. Ninguém mais é trabalhador. Ou se é mulher, puritana, nunca uma mulher operária; ou se é negro, puritano; jamais um negro operário; ou se é evangélico, desejando ser patrão, porque este passa a ser concebido como o representante de Deus na Terra; e assim jamais um operário.

12.

Os dois perfis são antinômicos porque existem para acionar guerras santas no coração do cotidiano e tudo funciona e retoma uma dinâmica maniqueísta entre o céu e a Terra (o inferno). Os puritanos são terráqueos no romantismo reacionário do corpo dessublimado incorruptível na fé em si mesmos; os neopentecostais são incorruptíveis porque a fé deles independe das obras comuns, na Terra, de modo que estão livres para a usura sem limites.

Brevíssima conclusão

1.

O recém-eleito presidente, Joe Biden, escreveu um curioso e sugestivo livro, Promessa de pai. Trata-se de uma parábola biográfica entre o pai e o filho. Entre, pois, a origem, Deus, e a descendência divina, o filho, embora invertida, porque é obra em que o filho moribundo pede ao pai, isto é, a Deus, isto é, a Biden, que prometa seguir em frente, sem esmorecer, com Deus, isto é, com o destino manifesto.

2 .

E o que significa seguir em frente com a promessa? Significa regime change político e econômico, em nova versão, a da Segunda Guerra Fria, levada a cabo pelos novos marines fundamentalistas ianques contra o mundo laico. Biden, na obra, rejubila-se da promessa cumprida: ter seguido em frente com as novas revoluções coloridas ao estilo de Primaveras Árabes, incluindo todos os bastidores que desencadearam o golpe de Estado no Brasil em 2016.

3.

Obama esteve no Brasil no ano passado para lançar a sua biografia, Uma terra prometida (2020). Precisa dizer mais?

4.

Tendo em vista o cenário da Segunda Guerra Fria, qual a diferença entre Trump e Biden? De perfil antagônico?

5.

A doutrina Bush da guerra infinita é mais-valor ideológico fundamentalista no coração do cotidiano, disseminado pela indústria cultural do estado de exceção da função algorítmica, deus ex machina da atualidade, que também tem o nome de Facebook, Google, Amazon, Youtube, Whatsapp, Netflix, monopólios da era tecnotrônica, para fazer uma referência ao livro de Brzezinski, Between two antes: America´s role int the technetronic era (1970).

Referência:

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e dimensão estratégica de Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

BELL, Daniel. The end of ideology: on the exhaustion of polical ideas in the fifties. New York: Free Press, 1960.

BIDEN, Joe. Promessa de pai: um ano de sofrimento, esperança e determinação. Trad. Alexandre Raposo, Bruno Casotti, Jaime Biaggo, Rio de Janeiro, intrínseca, 2

BRZEZINSKI, Zbigniew. Between two ages – America’s role in the Technetronic Era. New York: The Viking Press, 1970.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Trad. Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

FUKUYAMA, Francis. The end of history and the last man. New York: The Free Press, 1992.

MARX, Karl. O capital. Livro I. Crítica da economia política. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

FERRARIS, Maurizio. Manifesto del nuevo realismo. Santiago: Ariadna Ediciones, 2012.

MEAD, Walter Russell. Uma orientação especial: a política externa norte-americana e sua influência no mundo. Trad. Ulisses Lisboa Perazzo Lannes. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército: 2006.

OBAMA, Barack. Uma terra prometida. Trad. Berilo Vargas, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann, Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

SAUNDERS, Frances Stonor. Quem pagou a conta? A CIA e a Guerra Fria da cultura. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Record, 2008.

SILVA, Ludovico. A mais-valia ideológica. Trad. Maria Ceci Araújo Mosocsky. Florianópolis: Editora Insular, 2013.

WOOD, Ellen Meiksins. O império do capital. Trad. Paulo Cézar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2014.

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