O novo expansionismo petrolífero dos EUA

Plano de anexar Canadá e Groenlândia, além de controlar o canal do Panamá vai além de bravatas. Revela a atual política externa de Trump: fazer do país um dos maiores exportadores globais de energia, influenciar preços e aumentar sua influência no Oriente Médio e a América Latina

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O texto a seguir integra o número 10 (março de 2025) do boletim do Observatório do Século XXI, parceiro editorial de Outras Palavras. A edição examina a história e as perspectivas geopolíticas e econômicas da América do Sul. Pode ser baixada e lida aqui.

“Drill, Baby, Drill”

A política externa do novo governo Trump tem adotado um tom agressivo e ofensivo, buscando defender o poder americano por meio do discurso da expansão territorial e do controle de regiões e de recursos
naturais estratégicos globais. As prioridades incluem disputas pelo Ártico, reforço da presença no Canal do Panamá e influência ampliada no Atlântico e na América do Norte, com possíveis tensões com aliados tradicionais e países vizinhos.

A política energética está no centro dos interesses geoeconômicos que movem essa política externa e está sendo norteada pela ampliação da exploração e produção doméstica de petróleo e gás. O governo americano deve seguir desregulamentando normas ambientais e facilitando investimentos em óleo e gás, promovendo a infraestrutura de oleodutos e gasodutos que fortaleça a competitividade americana no mercado global.

No segmento específico de petróleo e gás, Trump já indicou que incentivará a exploração em novas áreas, incluindo regiões offshore e o Ártico. Isso incluirá a redução de impostos para empresas do setor e a promoção de parcerias público-privadas.

Um dos primeiros atos assinados por Trump decretou estado de emergência energética nacional, o objetivo: revogar incentivos fiscais e financeiros do Inflation Reduction Act (IRA) para promover as energias renováveis e a eletrificação dos automóveis e promover a expansão dos leilões de arrendamento de terras federais e offshore para viabilizar a expansão da exploração e produção de petróleo e gás.

Adicionalmente, a busca por controle sobre reservas energéticas internacionais pode intensificar tensões diplomáticas e sanções petrolíferas sobre países ricos em hidrocarbonetos, prova disso é o fim do acordo firmado por Joe Biden entre EUA e Venezuela para ampliar as concessões de petróleo de empresas como a Chevron para operar no país sul-americano.

A política climática deste segundo governo Trump deverá seguir uma orientação negacionista, como evidencia a saída dos EUA do Acordo de Paris e a reversão das regras de captura de gases do efeito estufa, como gás carbônico e metano, o que deve reduzir o custo para as empresas produtoras. O governo também já está reduzindo incentivos governamentais para investimentos em energia renovável, a geração de energia solar e eólica tem sido alvo de pesadas críticas de Trump.

Em suma, ao que tudo indica, o segundo governo Trump buscará consolidar a primazia dos Estados Unidos no mercado mundial de petróleo como um instrumento estratégico de poder geopolítico e econômico. A administração anterior de Trump já priorizou a independência energética americana, promovendo a exploração de petróleo e gás de xisto.

Esse objetivo não só fortalece a economia interna, reduzindo a dependência de importações, mas também posiciona os Estados Unidos como um dos maiores exportadores globais de energia, capaz de influenciar os preços globais do petróleo e exercer pressão sobre países dependentes desse recurso, como China e União Europeia.

Além disso, dominar o mercado de petróleo permite aos Estados Unidos aumentar sua influência em regiões estratégicas, como o Oriente Médio e a América Latina, onde a competição com atores como Rússia e China é acirrada. Ao consolidar a liderança na produção e exportação de petróleo, o governo Trump pode utilizar sanções energéticas, como restrições ao fornecimento ou controle sobre preços, para moldar comportamentos de outros países em alinhamento com seus interesses geopolíticos.

Essa abordagem reforça o papel do petróleo não apenas como uma mercadoria econômica, mas também como uma ferramenta de poder para ampliar a hegemonia americana no sistema internacional. A estratégia não é nova e lembra as diretrizes para a política petrolífera da Era Reagan.

“Make America Great Again”

Recentemente, Trump manifestou interesse em anexar territórios como a Groenlândia e o Canadá, além de assumir o controle do Canal do Panamá e rebatizar o Golfo do México como “Golfo da América”. As recentes declarações do presidente eleito dos Estados Unidos sinalizam uma guinada expansionista que também perpassa os interesses da política energética americana. E tais ambições expansionistas estão intrinsecamente ligadas aos interesses estratégicos dos EUA no setor de petróleo e gás.

A Groenlândia, por exemplo, possui vastas reservas de recursos naturais, incluindo petróleo e minerais raros, que se tornam mais acessíveis com o derretimento das camadas de gelo devido às mudanças climáticas. O controle sobre a ilha poderia garantir aos EUA uma posição privilegiada na exploração desses recursos, além de fortalecer sua presença no Ártico, uma região de crescente importância geopolítica.

No caso do Canadá, um dos principais fornecedores de petróleo para os EUA, a proposta de anexação reflete o desejo de Trump de consolidar o domínio americano sobre as vastas reservas energéticas canadenses. Embora a ideia de incorporar o Canadá como o 51º estado tenha sido recebida com ceticismo e rejeição por líderes canadenses, a pressão econômica e diplomática pode intensificar as relações bilaterais, especialmente no que tange à política energética.

O Canal do Panamá, por sua vez, é uma rota vital para o transporte de petróleo e gás entre os oceanos Atlântico e Pacífico. O controle sobre o canal permitiria aos EUA influenciar significativamente o comércio global de energia, assegurando vantagens estratégicas e econômicas. As declarações de Trump sobre retomar o controle do canal, mesmo sugerindo o uso de força militar, geraram preocupações internacionais e tensões diplomáticas com o Panamá.

A proposta de renomear o Golfo do México para “Golfo da América” pode parecer simbólica, mas carrega implicações sobre a soberania e os direitos de exploração dos recursos energéticos na região. O golfo é uma área rica em petróleo e gás, e tal mudança poderia ser interpretada como uma tentativa de afirmar domínio exclusivo dos EUA sobre esses recursos, em detrimento dos interesses de países vizinhos como o México e Cuba.

Por todos esses exemplos, se percebe que o retorno de Donald Trump ao governo dos Estados Unidos provavelmente trará uma ênfase renovada na projeção de poder em sua região de influência imediata. Em um momento em que o epicentro global se desloca para o Pacífico e que a Europa e o Oriente Médio vivem intensificação de guerras e tensões, os EUA dedicam atenção redobrada à reafirmação de sua dominância atlântica.

O Atlântico continua sendo uma área crucial para o comércio global, segurança marítima e alianças militares, e os EUA parecem querer exercer seu domínio sobre a região independentemente até mesmo da OTAN.

Do ponto de vista econômico, o Atlântico é um corredor vital para o comércio transatlântico entre os Estados Unidos e a Europa, além de abrigar importantes recursos naturais, como petróleo e gás, nas costas da África Ocidental, no Atlântico Sul e no Atlântico Norte. O atual governo Trump pode adotar uma postura agressiva para garantir o acesso americano a essas riquezas. Além disso, Trump pode promover acordos bilaterais de comércio que reflitam sua visão protecionista, buscando fortalecer indústrias americanas e reduzir déficits comerciais com parceiros atlânticos.

Em resumo, as tendências do próximo governo Trump indicam uma política agressiva de expansão territorial e controle de recursos energéticos, com implicações profundas para a geopolítica global e para o setor de petróleo e gás. Embora parte da viabilidade dessas iniciativas seja questionável, suas declarações já estão provocando reações significativas no cenário internacional, sinalizando um período de possíveis turbulências nas relações exteriores e energéticas dos Estados Unidos.

A reafirmação do poder petrolífero e do poder atlântico serão duas dimensões constitutivas da estratégia dos EUA levadas à cabo neste segundo governo Trump.

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