O Nakba e a reviravolta na política palestina

O horror israelense já dura 72 anos, mas o ataque à Sheikh Jarrah pode ter saído pela culatra. A Autoridade Palestina se mostrou fraca e impotente. Hamas ganha mais popularidade, apostando na luta unificada e resistência “mais contundente”

O bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, é o lar e o exílio de algumas famílias palestinas desde 1950, quando foram desalojados de suas casas em 1948, em decorrência dos confrontos violentos, conhecido como a Nakba (“catástrofe”). Muitos palestinos, de segunda e terceira geração, nasceram em Sheikh Jarrah. Para eles, Sheikh Jarrah sempre foi e sempre será o seu lar nacional.

A vitória israelense na guerra de 1948 determinou conquistas territoriais importantes e o deslocamento interno e externo de mais de 700 mil palestinos. Parte dos palestinos desalojados foram alocados nos Estados árabes vizinhos como a Jordânia, Síria, Líbano e Egito e outra parte para os territórios da Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Se do lado israelense, 1948 foi o ano de independência do Estado de Israel, do lado palestino, 1948 é a Nakba, um período marcado pela desintegração da sociedade palestina através da dispersão humana, dos massacres e da destruição da vida em sociedade. A Nakba está enraizada na memória e na história palestina como um ponto de ruptura e de mudanças irreversíveis.

O momento, definido pelos palestinos como catástrofe, paradoxalmente, marca o nascimento do lar nacional do povo judeu, o Estado de Israel, após uma década de perseguições e de extermínios da comunidade judaica da Europa promovido pelo nazismo. A criação do Estado de Israel representa, na memória coletiva judaica, o renascimento e a ressurreição do povo judeu.

Embora a sociedade palestina seja detentora de diversas identidades étnicas, culturais, políticas e religiosas, desde antes de 1948, a Nakba unificou a memória coletiva e a identidade nacional palestina. A Nakba é frequentemente invocada durante a eclosão de novos conflitos e de ciclos de violência nos territórios ocupados, em Israel e nos campos de refugiados. Isso ocorre porque muitos conflitos registrados na história palestina, como o Setembro Negro, na Jordânia, em 1971; os massacres nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano, e as Intifadas (de 1987 e 2000) nos territórios ocupados, não teriam acontecido se não fossem precedidos pela Nakba.

De um modo geral, a Nakba representa um trauma constante, uma injustiça irreparável. A Nakba não é apenas uma lembrança do passado, a Nakba está presente nas condições de vida de todos os palestinos dos territórios ocupados, em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Faixa de Gaza; nos campos de refugiados e na diáspora. A Nakba é traduzida pelo cerceamento da locomoção dos palestinos, nos inúmeros check in points, na precariedade dos campos de refugiados no mundo árabe e na legislação discriminatória em Israel. A Lei de Nacionalidade, aprovada pelo parlamento israelense em julho de 2018, estabeleceu que o exercício do direito de autodeterminação em Israel é exclusivo do povo judeu. Essa nova lei retirou o idioma árabe da categoria de língua cooficial do Estado de Israel.

Protesto em frente ao Consulado de Israel, em Los Angeles, nos EUA

Os palestinos vivem, até hoje, o seu exílio e o seu deslocamento permanente.

Para os palestinos, os lugares do período pré-Nakba não são apenas lugares de memória, mas, acima de tudo, um símbolo de tudo que foi perdido. Muitos refugiados palestinos ainda guardam as chaves de suas propriedades perdidas durante a Nakba. Para os palestinos, nascidos nos campos de refugiados e no exílio, a Palestina se resume à memória de seus pais e avós que lutam para que esta lembrança não seja esquecida e a Palestina não desapareça. A Palestina não é apenas um território geográfico, mas a memória dos palestinos exilados.

O caso de Sheikh Jarrah, particularmente, tornou-se dramático porque no mesmo mês em que os palestinos estavam sendo ameaçados de perderem suas casas para alguns israelenses que reclamavam na justiça o direito de posse de propriedade, perdida em 1948, aconteciam duas importantes celebrações do calendário religioso judaico e islâmico, o Iyyar e o Ramadã.

No início desse ano de 2021, a Suprema Corte israelense decidiu a favor de alguns colonos reaverem suas propriedades em Sheikh Jarrah, e outorgou até o dia 2 de maio para que as famílias palestinas de Sheikh Jarrah negociassem um acordo com esses colonos israelenses sobre a propriedade de suas casas. Diante do impasse, o Poder Judiciário israelense propôs um acordo, requereu que as famílias palestinas despejadas pagassem aluguel aos colonos pelas residências até que o título de propriedade fosse transferido aos cidadãos israelenses e não exatamente aos herdeiros, desalojados em 1948. O que é ilegal, de acordo com a lei internacional.

Ainda, no dia 10 de maio, aconteceu a controversa marcha anual do “Dia de Jerusalém”, que celebra a “reunificação” da cidade de Jerusalém, em decorrência da vitória israelense na guerra de Junho de 1967. Nessa manifestação, grupos nacionalistas israelenses costumam percorrerem os territórios palestinos, localizados na cidade velha de Jerusalém. Foi nesse mesmo dia que muitos muçulmanos palestinos celebravam o fim do mês sagrado do Ramadã, o Eid al-Fitr, no Haram al-Sharif, nos arredores da mesquita de Al-Aqsa, conhecido pelos judeus como o Monte do Templo.

Em meio às celebrações religiosas do calendário judaico e islâmico, foi deflagrado uma guerra entre jovens palestinos e israelenses no bairro de Sheikh Jarrah. Os ataques à mesquita de Al-Aqsa, durante as celebrações do fim do mês sagrado do Ramadã, provocaram a fúria dos grupos de resistência palestina. Os foguetes do Hamas, dessa vez, alcançaram cidades importantes de Israel, chegando a atingir os arredores de Jerusalém e de Tel Aviv, provocando medo entre a população israelense, além de pôr em cheque o sistema de defesa aérea, o Iron Dome.

A decisão de retaliação aos ataques do Hamas em Israel deu projeção ao premiê israelense, Benjamin Netanyahu, que, até então, vivia um momento político conturbado. Netanyahu fracassou na formação de um governo em Israel, além de, atualmente, enfrentar alguns processos judiciais por corrupção, fraude e abuso de poder. Do lado palestino, o presidente da autoridade palestina, Mahmoud Abbas, cada vez mais impotente e enfraquecido e que se perpetua no poder há mais de 12 anos, adiou mais uma vez as eleições palestinas, diante da nova crise instalada.

O novo ciclo de violência, deflagrado em Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza, fortaleceram os dois extremos: o ministro Benjamin Netanyahu e o grupo Hamas. Os projetos políticos de ambos se sobrepõem à existência e à narrativa do outro.

Benjamin Netanyahu nunca reconheceu o Estado palestino. Ao longo de sua gestão, em Israel, Netanyahu anexou territórios palestinos por intermédio de construção de assentamentos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. Em dezembro de 2017, em apoio ao atual premiê israelense, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a transferência da embaixada dos Estados Unidos, da cidade de Tel Aviv para Jerusalém, de modo a reconhecer oficialmente Jerusalém como a capital indivisível do Estado de Israel e, assim, inviabilizar o projeto de tornar Jerusalém Oriental a capital de um futuro Estado palestino. O gesto do governo americano influenciou outros Estados, como a Sérvia e a Guatemala, a transferirem suas embaixadas.

O grupo Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), por outra parte, é cada vez mais popular entre os palestinos, sobretudo na Faixa de Gaza. A gradual popularidade do Hamas ocorre basicamente por duas razões. O grupo islamita mantém inúmeros programas sociais, culturais e religiosos, capazes de aproximar os palestinos, sobretudo os mais pobres, de sua ideologia. Além disso, o fracasso dos Acordos de Paz de Oslo (1993), combinado com a progressiva brutalidade da ocupação israelense provocou, ao longo do tempo, o ceticismo de muitos palestinos pelas iniciativas de diálogos com o governo de Israel.

A permanência da Nakba, refletida nos contínuos ataques em Gaza e nos últimos acontecimentos em Sheikh Jarrah, sequestraram o movimento nacional e secular palestino. O Hamas passou a ser reconhecido como o “campeão” da resistência palestina, ao enfrentar arduamente o inimigo israelense. Diante de uma autoridade palestina extremamente impopular e enfraquecida, o Hamas passou a controlar a narrativa palestina e a garantir a sua popularidade frente ao partido al-Fatah, de Mahmoud Abbas, e, do mesmo modo, entre as comunidades da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental. Muitos estudiosos, como o professor de Ciências Políticas da Universidade de Bar Ilan, Ariel Zellman, acredita, inclusive, que o cancelamento das eleições na palestina se deveu ao receio da autoridade palestina pelas chances reais de vitória do Hamas.

Além da sobreposição de narrativas, os últimos confrontos comprovaram que o Hamas está belicamente mais forte. Os foguetes lançados contra Israel são mais potentes e sofisticados. Mesmo assim, os 11 dias de pesados bombardeios israelenses deixou 232 palestinos mortos, entre as vítimas fatais haviam 65 crianças, 39 mulheres e 17 idosos. O número de vítimas palestinas escancara publicamente a força militar desproporcional de Israel frente ao seu adversário palestino.

Centenas de palestinos e ativistas judeus protestam contra o despejo de residentes palestinos de Sheikh Jarrah para Jerusalém Oriental, em 16 de abril de 2021. (Imagem: Yonatan Sindel / Flash90)

O fortalecimento de dois adversários que não se reconhecem mutuamente é especialmente trágico, pois tende a sinalizar para mais confrontos violentos. Os eventos em Sheikh Jarrah e na Faixa de Gaza refletem a fragmentação da sociedade palestina desde a Nakba e reafirma a face cruel e desumana de Israel, representada pelo atual governo. Além disso, os interesses políticos dos governos israelense e palestino abafam as inúmeras tentativas de aproximação e de diálogo entre as sociedades civis israelense e palestina. A ocupação da Palestina, desde a Nakba, impediu e ainda impede o encontro de muitos palestinos e israelenses que se recusam a ser inimigos. Contudo, apesar das dificuldades, durante os eventos violentos em Sheikh Jarrah houve manifestações conjuntas em 30 cidades israelenses. “A luta é política, entre os que querem a ocupação e a supremacia e aqueles que desejam a paz e a igualdade”, afirmou publicamente o deputado palestino Ayman Odeh, em uma grande manifestação na cidade de Tel Aviv. A conciliação acontecerá entre palestinos e israelenses quando os palestinos passarem a viver com dignidade. Enquanto houver Nakba a paz estará longe de ser alcançada ….

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