Assim se naturaliza o sequestro de um presidente
Exame de uma construção midiática. Na Venezuela, como no genocídio em Gaza ou no Iraque, apaga-se a barbárie, deslocando-se o foco para a “precariedade” da vítima e a “excelência técnica” do agressor. O que sobra é um mundo um pouco mais baixo, violento e cínico
Publicado 06/01/2026 às 17:43 - Atualizado 06/01/2026 às 17:46

Por Ricardo Queiroz Pinheiro
É sempre a mesma história. Quando veio à tona o sequestro de Maduro — uma operação que envolve a invasão de um país e a retirada forçada de um presidente eleito — grande parte do comentário político entrou em modo automático. Demora umas horas, um ajuste aqui, outro, mas a homogeneidade chega. Em programas da Globo News, UOL, CNN etc, e nesse circuito ampliado de análise e opinião, o enquadramento aparece rápido: um governo incompetente, um Exército dividido, uma estrutura frágil que teria facilitado a ação estadunidense. O gesto em si, grave, criminoso, perdeu centralidade. O foco deslocou-se para a suposta incapacidade do alvo e pela excelência do invasor.
Essa forma de leitura articula o cinema industrial, o discurso oficial e a prática concreta do Estado estadunidense. Trata-se de uma imaginação política consolidada, compartilhada entre cultura, poder e ação, que organiza previamente a maneira de perceber conflitos e intervenções. Aqui, a cultura não funciona como adereço ou cosmética ideológica: ela é parte estrutural das formas de dominação, moldando percepções, afetos e critérios de legitimidade. Hollywood ajudou a fixar esse repertório; o jornalismo o reapresenta como chave de leitura “técnica” dos acontecimentos, já reconhecível, naturalizada e difícil de confrontar.
É a partir dessa moldura que os fatos passam a circular. Eles já entram organizados. A tecnologia venezuelana seria precária e mal utilizada; a dependência de russos e chineses, sinal de improviso e subserviência; o aparato militar, permeável; o próprio campo bolivariano, internamente corroído. A operação estadunidense surge como demonstração de inteligência perspicaz: infiltração silenciosa, guerra cibernética, cooptação de frações do Estado, precisão cirúrgica. O sequestro deixa de ser ruptura de soberania e passa a circular como desfecho esperado e feliz.
Esse enquadramento se sustenta no debate público porque já circula há muito tempo. Ele vem sendo repetido, mastigado, reforçado por imagens, comentários, análises, climas de opinião. Não precisa de uma grande prova para funcionar. Quando alguém tenta puxar o fio, questionar o modo como o episódio foi apresentado, o estranhamento aparece rápido. Parece exagero, parece desvio, parece implicância. O problema deixa de ser o acontecimento em si e passa a ser o gesto de discordar. A discussão escorrega: já não é mais sobre o que aconteceu, mas sobre quem pode colocar isso em dúvida sem ser tratado como alguém fora do tom, fora do razoável.
É aí que a coisa pega na imprensa brasileira. O sequestro já chega acompanhado de explicação, de contexto, de leitura pronta. Não se discute muito o que aconteceu; discute-se por que aquilo era esperado. O governo seria frágil, o exército dividido, a tecnologia mal operada, o entorno corroído. A operação estadunidense entra em cena como demonstração de método, inteligência, competência. A conversa anda sobre esses trilhos. Quando alguém tenta puxar o foco de volta para o ato em si — a invasão, o sequestro, a ruptura — parece estar mudando de assunto. O centro já foi deslocado antes mesmo do debate começar.
Meses depois, às vezes anos, começam a aparecer documentos, investigações, versões que não fecham com a história inicial. Mas aí o centro já está fixado. A correção circula fraca, lateral, quase como nota de rodapé. O que fica é o sentido armado lá atrás. Foi assim no Iraque, foi assim na Síria, volta a acontecer agora. A violência vai saindo do foco, perde peso, enquanto ganha espaço a ideia de eficiência, de método, de racionalidade aplicada sobre um cenário previamente descrito como caótico.
No fim das contas, fica uma sensação estranha: parece que todo mundo está trabalhando para o mesmo filme, com roteiro fechado e data marcada. A imprensa vai montando a sinopse, os comentaristas vão ajeitando os personagens, os especialistas de ocasião entram para dar acabamento técnico. O vilão já vem pronto — tosco, imoral, desleal, corrupto, narcotraficante. Do outro lado, a operação aparece como método, precisão, inteligência. A história anda quase sozinha, reconhecível demais, como algo que a gente já viu antes e sabe exatamente para onde vai.
O que sobra é um mundo um pouco mais baixo, violento, mais cínico, mais disposto a aceitar o inaceitável como parte da paisagem.
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Gosto muito dos artigos de OUTRAS PALAVRAS. Sempre oportunos e adequados . Parabens a seu editor. Estou compartilhando ao mesmo tempo em manifesto a opinião: O BRASIL QUE SE CUIDE. OLHO VIVO. ESTAO VISANDO NOSSO TERRITÓRIO.