A Venezuela sob ataque e o chavismo na encruzilhada

Após o sequestro de Maduro, Trump indica aceitar um governo liderado por Delcy Rodríguez, desde que o controle do petróleo venezuelano seja transferido a empresas dos EUA. A decisão não será fácil. O Estado venezuelano encontra-se por um triz

Delcy Rodriguez, a presidente em exercício, diante do retrato de Simón Bolivar
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Por Rômulo Paes de Sousa

Após semanas de agressões militares pontuais na costa venezuelana, na madrugada de 3 de janeiro de 2026 cerca de 150 aeronaves norte-americanas bombardearam alvos militares em Caracas e Higuerote, culminando no sequestro do presidente do país e de sua esposa. A ação, rápida e devastadora, deixou o mundo perplexo. Embora os Estados Unidos possuam um longo histórico de intervenções na América do Sul — inclusive na própria Venezuela —, esta foi a primeira vez que utilizaram diretamente suas tropas em uma ação militar dessa natureza. Até então, sua atuação se dava sobretudo por meio do financiamento e do apoio a forças políticas direitistas locais. O episódio também sinaliza que o presidente Donald Trump abandonou definitivamente a diretriz proclamada em seu primeiro mandato, segundo a qual buscaria encerrar guerras, e não promovê-las.

Próximo às 14 horas (horário de Brasília), no mesmo dia da captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, o presidente Trump, acompanhado dos secretários Marco Rubio (Estado) e Peter Hegseth (Defesa), além do general Dan Caine (chefe do Estado-Maior Conjunto), concedeu uma coletiva para esclarecer as motivações do ataque e indicar os próximos passos da ação na Venezuela. Em uma leitura autoindulgente e vacilante, marcada por uma argumentação confusa, as autoridades civis transmitiram quatro mensagens centrais: (1) tratou-se de uma operação de captura, razão pela qual não teria sido necessária autorização do Congresso norte-americano; ainda assim, as tropas permaneceriam no país pelo tempo considerado necessário para garantir uma “transição justa”; (2) os custos da intervenção, de caráter prolongado, seriam financiados pela exploração do petróleo venezuelano, o que também permitiria compensar supostos prejuízos sofridos pelos EUA e por seus cidadãos em decorrência de expropriações realizadas por governos venezuelanos; (3) a solução político-administrativa para evitar um vácuo de poder não passaria pela líder da oposição, Maria Corina Machado, considerada desprovida de respaldo interno; nesse contexto, foi feito um aceno à então presidente interina Delcy Rodríguez, desde que aceitasse os termos impostos pela nova e desinstitucionalizada Pax Americana; (4) os Estados Unidos, amparados por sua força econômica, política, cultural e militar, se arrogam o direito de definir unilateralmente onde, quando e como agir para garantir seus interesses nacionais.

A comparação com a guerra do Iraque é inevitável: uma justificativa falsa para a intervenção, a expectativa de rápida estabilização política e uma confiança excessiva na superioridade bélica como instrumento garantidor dessa estabilidade, em flagrante desconhecimento das complexidades sociopolíticas locais.

Assim como no Iraque, a intervenção na Venezuela removeu de forma célere o topo da direção política do país. Diferentemente do caso iraquiano, contudo, Trump sinaliza disposição para negociar com as forças hegemônicas locais. Indica aceitar um governo liderado por Delcy Rodríguez, desde que o controle da exploração de todo o petróleo venezuelano seja transferido à Chevron e a empresas associadas. O principal problema dessa proposta reside na reação dos diversos atores políticos internos, incluindo setores mais radicalizados do chavismo e a ludibriada oposição. Ao descartar Maria Corina Machado de um eventual governo de transição, Trump envia aos chavistas o sinal de que está disposto a pagar o preço necessário para manter o regime em funcionamento, desde que seus interesses estratégicos sejam preservados.

O ano de 2026 começou de forma turbulenta no continente americano. O Congresso dos Estados Unidos foi reduzido a uma instância meramente homologadora de um presidente que opera acima da lei. A governança global encontra-se em frangalhos, tanto pela incapacidade das instituições criadas no pós-guerra de mediar conflitos regionais quanto pelo apoio explícito de vários países da América Latina a uma ação militar que viola a soberania de um país vizinho. Caso essa empreitada tenha êxito, o que impediria os EUA de se apropriarem, amanhã, das reservas da Guiana? O Judiciário norte-americano ainda poderá enfrentar uma situação embaraçosa: julgar Maduro e Flores por narcoterrorismo enquanto o remanescente aparato chavista seguiria governando a Venezuela em colaboração com Washington.

Para o Brasil, os riscos são múltiplos. Mais uma vez, o país se mostra dividido quanto à leitura de riscos à sua soberania. A oposição oscila entre o apoio aberto à intervenção norte-americana e uma condenação discreta, acompanhada da responsabilização dos governos petistas pela sobrevida do chavismo. O governo brasileiro, por sua vez, vê sua autoridade regional contestada e enfrenta dificuldades para confrontar as ações dos EUA, em um contexto de enfraquecimento do bloco de países soberanos da região. Contudo, há um papel que o Brasil poderá vir a desempenhar na crise venezuelana. Por ser o maior país da América Latina e vizinho do país sob ataque, o governo do Brasil pode funcionar como mediador para a reorganização política da Venezuela. O demais grandes países sul-americanos, Argentina e Colômbia, estão agastados demais com alguma das partes para ocupar esse papel.

Os editoriais dos principais jornais brasileiros condenaram a agressão à Venezuela, elogiaram a postura do presidente Lula e defenderam a realização imediata de eleições. Quem acompanhou atentamente as entrevistas das autoridades norte-americanas, desde 3 de janeiro, percebeu que a democracia não integra o roteiro traçado pela administração Trump para a Venezuela. O país encontra-se quase paralisado, à espera dos desdobramentos dos próximos dias. O chavismo está diante de uma encruzilhada histórica: colaborar para sobreviver ou se lançar em desvantagem em uma guerra assimétrica. A decisão não será fácil, nem pode tardar. O frágil Estado venezuelano encontra-se por um triz.

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