A estratégia de Francisco e o Oriente Médio

Não foi acaso a imagem com cabeça apoiada no Muro da Segregação, lugar onde palestinos reivindicam, com grafite, a liberdade

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Não foi acaso a imagem com cabeça apoiada no Muro da Segregação, lugar onde palestinos reivindicam, com grafite, a liberdade

Por Washington Uranga, na Página12 | Tradução: Inês Castilho

Desde o começo de seu pontificado, Francisco elegeu a estratégia dos gestos para introduzir temas, abrir debates, estimular perspectivas. E esses gestos são logo seguidos de iniciativas políticas com sentido estratégico. Os exemplos são muitos. Diz que quer “uma Igreja pobre e dos pobres”. Sua primeira viagem foi a Lampedusa, para encontrar-se com os imigrantes ilegais que lutam para entrar na Europa. Prega a austeridade, mas também mostra austeridade pessoal em meio a um contexto – o Vaticano – que contradiz essa visão. Reafirma a ideia de colegialidade na Igreja e cria uma comissão de cardeais que, superando o formalismo das normas eclesiásticas, tem como atribuição pensar outros modos de governar a igreja.

“Façam bagunça”, disse aos jovens, no Rio, e ele mesmo “faz uma bagunça”, quando deixa transparecer mensagens pastorais que não se ajustam exatamente às regras rígidas da instituição católica. Pode-se concordar ou discordar do papa Bergoglio, concordar ou discordar de sua visão do mundo e da Igreja. Mas é inquestionável que Francisco sabe lidar com gestos e também com o tempo e a arte da política, que tem objetivos e está disposto a cumpri-los passo a passo, com disciplina estratégica, habilidade política (que inclui também o fator surpresa) e senso de oportunidade.

A viagem à Terra Santa não escapa a essa lógica. A imagem de Francisco com a cabeça apoiada no muro da segregação, em Belém, no mesmo lugar em que os palestinos reivindicam com grafite sua ânsia de liberdade, não pode ser pensado, de modo algum, como resultado de um improviso ou inspiração de momento. Não estava no itinerário oficial, mas é possível garantir, sem medo de errar, que Bergoglio imaginou esse instante, meditou sobre ele e executou-o com perfeição. Sonhou, talvez (e programou), diante do Muro das Lamentações, a oração conjunta e a cena resultante ao lado de seus amigos argentinos, o rabino Abraham Skorka e o muçulmano Omar Abboud. A exclamação com que os três selaram esse momento (“Conseguimos!) expressa claramente do propósito que os levou até ali.

Toda a viagem esteve marcada por alguns objetivos chaves: introduzir o tema de paz com justiça, ancorado no diálogo a partir da diferença, e consolidar o papel que as grandes religiões podem desempenhar na paz do mundo, em todos os cenários. Mesmo os mais conflituosos, em que tudo parece ser difícil. Para isso usou todas a sua habilidade para dizer e firmar posição sem ferir suscetibilidades em interlocutores sensibilizados. Nesse cenário, Francisco elegeu também uma estratégia discursiva: em vez de julgar, repreender e advertir, optou por pregar sempre a força do diálogo e centrar nessa capacidade humana a possibilidade de superar as diferenças.

Cinquenta anos atrás, Paulo VI chegou à Terra Santa para fomentar o diálogo inter-religioso. Francisco está convencido de que, no mundo atual, as grandes religiões têm um papel fundamental para construir e consolidar a paz. A viagem à Terra Santa se inscreve nesse propósito. Um objetivo que o papa traduziu também em ações concretas, como a participação ativa no caso da Síria e, agora, na proposta aos presidentes palestino e israelense, Mahmud Abbas e Shimon Peres, para irem ao Vaticano “rezar juntos”.

Francisco utiliza ainda o cenário midiático para desenvolver sua estratégia. Tem gestos que comprometem terceiros, consciente de que também o comprometem. Está convencido de que colaborar com a paz no mundo pode ser um aporte que a Igreja Católica e ele, como papa, podem levar à humanidade. É também um caminho para aumentar (resgatar? recuperar?) o prestígio da Igreja e crescer em seu próprio país, consolidando-se como líder e referência no cenário internacional. Para isso, seguirá afirmando que a busca da paz deve estar acima “das diferenças de ideias, línguas, cultura ou religião”. Este é seu lema, e ele fará novos gestos e outras ações na mesma linha.

 

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8 comentários para "A estratégia de Francisco e o Oriente Médio"

  1. Augusto Santos Mascarenhas disse:

    Se ele quer uma igreja pobre e dos pobres deveria começar a doar a maior parte do patrimônio bilionário da igreja para os necessitados. Por que ainda não começou a fazer isso? Para ser coerente com o discurso do Papa Francisco, a Igreja Católica deveria ficar apenas com o patrimônio estritamente necessário para as suas funções religiosas, para ser coerente com o discurso do Papa Francisco.

    • Fran disse:

      Mas você é tolo? Ele faz parte de uma Instituição que é mais capaz de ajudar aos outros através do trabalho conjunto do que doando todos os seus bens e ele sabe disso.

      • Augusto Santos Mascarenhas disse:

        Fran, além de responder de um modo um tanto agressivo, você parece não ter lido direito o meu comentário. O que eu afirmei foi que “Para ser coerente com o discurso do Papa Francisco, a Igreja Católica deveria ficar apenas com o patrimônio estritamente necessário para as suas funções religiosas”. Isto significa que, aqueles bens que forem realmente necessários para que a Igreja desempenhe as suas funções religiosas (incluindo as de ajudar outras pessoas), poderiam ser mantidos, e aí existiria coerência com o discurso do Papa.
        Mas o fato é que a Igreja tem um patrimônio que inclui muito ouro e terras, dentre outros bens ociosos, que não têm utilidade alguma para o serviço ao próximo. A manutenção destes últimos bens torna o discurso do Papa incoerente.

    • Janailson Ramos disse:

      Meu amigo você já ouviu falar do Tratado de Latrão?

  2. Alfredo Spínola de Mello Neto disse:

    Para mim, é o cúmulo do absurdo um veículo sério como este publicar constantemente relatos enaltecedores do papa. “O último rei enforcado nas tripas do último padre”, e só então a humanidade será feliz, disse o padre ateu Jean Meslier no século XVIII. Mas ainda há quem se regale com notícias da realeza e do clero. Lamentável. Em termos de fábulas, sou mais La Fontaine.

  3. Arkdoken disse:

    Achar-se que um papa que foi entronizado há alguns meses pode de repente dispor de todos os bens da Igreja é no mínimo primarismo. Nenhum chefe de governo tem esse poder. Acontece também que a Igreja Católica é um Governo mundial, quer dizer, atua em todas as partes do mundo, deve precisar gastar mais que qualquer outro Governo nessa missão. E eu acho que se deve sim enaltecer quem se dispõe a trabalhar pela Paz e pelos pobres, seja ele papa, presidente ou pagé. Já a intolerância raramente conduz a bons resultados para a Humanidade. A propósito, sou materialista.

    • Augusto Santos Mascarenhas disse:

      Arkdoken, você, da mesma forma que a Fran acima, não leu direito o que eu escrevi. O que eu afirmei foi que “Para ser coerente com o discurso do Papa Francisco, A IGREJA CATÓLICA deveria ficar apenas com o patrimônio estritamente necessário para as suas funções religiosas”.
      A expressão “a Igreja Católica” inclui, portanto, todos aqueles que têm poder de decisão dentro daquela instituição, não apenas o Papa. Ou seja, não afirmei que o Papa poderia dispor de todos os bens da Igreja. Logo, você entendeu errado.
      Agora, o fato é que o próprio Papa afirmou que quer uma Igreja pobre (leia a notícia acima). Então, por uma razão de simples lógica e coerência, ele tem a obrigação de abrir o debate dentro e fora a Igreja sobre a doação dos inúmeros e bilionários bens da Igreja (em ouro, terras etc) que estão imobilizados e não ajudam em nada os necessitados e nem o serviço religioso.
      Se a sua afirmação sobre intolerância religiosa se dirige a mim ela é sem razão. Intolerância é agredir injustificadamente as crenças e práticas religiosas alheias e eu não fiz nada disso. Apenas pontuei, educadamente, uma incoerência no discurso do Papa, sendo que, inclusive, a opulência material da Igreja Católica é incoerente até mesmo com a vida de Jesus Cristo, pois este era desapegado dos bens materiais. Usar a razão para debater questões relevantes, do modo respeitoso como fiz, não configura intolerância religiosa. Na dúvida você pode pesquisar a doutrina constitucional sobre o direito fundamental à liberdade de expressão do pensamento.

    • Alfredo Spínola de Mello Neto disse:

      Sobre paJés, sou mais o do Bernardo Guimarães: http://pt.wikisource.org/wiki/O_Elixir_do_Paj%C3%A9

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