Racismo no futebol e os que resistem

Lélia Gonzales dizia: há papéis sociais atribuídos positivamente aos negros. O de futebolista é um deles. São maioria nas equipes brasileiras. E 41% deles já sofreram racismo. Mas muitos hoje se insurgem por justiça, desafiando quem os vê como meros “objeto de entretenimento”

Imagem: Politize
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Numa partida de futebol válida pela Copa Libertadores da América sub-20, Luighi Hanri Sousa Santos, atleta do Palmeiras, foi vítima de ofensas racistas pela torcida de um time paraguaio. Seria só mais uma afronta racista em estádios de futebol, caso não fosse o forte depoimento do jovem jogador ao término da partida. Assim, entre lágrimas e voz embargada, desabafou Luighi: “É sério isso? Você não vai perguntar sobre o ato de racismo que fizeram comigo. É sério? Até quando a gente vai passar por isso? Até quando? Me fala, até quanto a gente vai passar isso? O que fizeram comigo foi um crime, pô. Você ainda vai perguntar isso? Você vai perguntar sobre o jogo mesmo?”. Ele bradou contra o crime de racismo tão presente no futebol, um dos esportes mais populares do mundo.

A manifestação de Luighi se soma a de outros futebolistas discriminados. É fato. Alguns poucos se revoltam, outros ficam calados e a maioria prefere só “jogar futebol”. Entre os que se indignam contra atos racistas, outro jogador brasileiro tem ganhado destaque internacional. Trata-se de Vinicius Júnior, atacante do lendário time Real Madrid, da Espanha, e personagem frequente nas convocações da seleção brasileira de futebol. Nos principais estádios da Europa ele vem encantando amantes da bola, mas, mesmo assim, também tem sido repetidamente vítima de ofensas racistas. O que tem incomodado muita gente é que Vinicius Júnior não se calou e resolveu atuar na linha de frente contra atos racistas. Destaca-se que a persistência dele em chamar atenção para o problema já culminou em condenações de torcedores acusados de racismo.

Luighi ainda é um jovem jogador, no início da carreira. Já Vinicius Júnior é profissional consolidado e bem remunerado. Embora em dois momentos distintos da carreira, inclusive em realidades distantes, ambos compartilham o estigma do racismo. Note-se que as ofensas racistas não possuem fronteiras, pois da América do Sul à Europa, atletas são ofendidos como se isso fosse parte do jogo. Aliás, há quem diga que alcunhar um jogador de macaco não seja agressão, mas mera força de expressão no meio da torcida. Ou seja, seria algo anedótico, como xingar a mãe do juiz. Parte do show, portanto.

O racismo soa como uma espécie de antijogo. Com ofensas racistas, o objetivo de torcedores e, até de próprios atletas no gramado, é inferiorizar e desestabilizar o adversário. Já que pela bola não seja possível levar a melhor, com uma jogada criminosa, ataca-se o adversário via a verborragia racista. Com efeito, se o jogador negro ganhar, pode ser rebaixado por seus méritos; se ele perder, pode ser humilhado por suas falhas. O curioso é que nesse meio o racismo mostra sua efetividade, pois tudo acaba diluído na temperatura do jogo. Daí torcedores, jogadores, e, até mesmo muitos atletas negros, não enxergam o racismo nas competições de futebol, mas tão só dissabores do espetáculo.

O racismo é parte da história do futebol. No Brasil, por exemplo, o esporte surgiu elitista e racista no final de século 19, ainda na esteira da abolição da escravatura. São conhecidas as histórias de exclusão e discriminação de jogadores negros nos primórdios dos times brasileiros. Todavia, a bola foi se tornando paixão nacional e, gradativamente, jogadores pretos e pobres foram driblando as barreiras. Aliás, o esporte se tornou numa possibilidade de ascensão social para jovens negros. Daí, nos dias de hoje, os jogadores negros e pardos são a maioria nas equipes do país, mas mesmo assim são alvos do racismo. Note-se, em recente pesquisa do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, ficou apurado que 41% dos jogadores das principais competições do país foram vítimas de ofensas racistas.

É fato. Embora seja meio de inserção social, o futebol ainda é marcado pelo racismo. Em campo ou fora dele, o atleta negro precisa driblar discriminações até se destacar. Ressalta-se que, apesar da maioria dos jogadores no Brasil ser negro ou pardo, ainda ocupar o posto de técnico de futebol é exceção. Nesse caso, Roger Machado, técnico do Internacional e atual campeão gaúcho, é um dos poucos que se encontra na elite do futebol nacional, sendo também expressiva liderança na luta contra o racismo. Roger Machado, certa vez, destacou os desafios de sua condição de negro no exercício da profissão de técnico: “Um ex-atleta branco consegue se esconder e eu não consigo. Minha cor me denuncia”. Ele criticava o fato de que, no mercado de técnico, ex-atletas brancos enfrentam menos obstáculos do que os congêneres negros.

Entretanto política, religião e futebol não se discutem; segundo a expressão popular. Por qual motivo não se discute? Talvez porque poucos estejam dispostos a discutir as idiossincrasias da política, religião e futebol. Ora, é melhor não tratar de golpes na política, de extremismos na religião e de racismo no futebol. Assim, manifestações como a do jogador Luighi e Vinicius Junior, bem como a do técnico Roger Machado, são vistas como mero “mi mi mi”. Não se pode insurgir contra o racismo no futebol, ainda mais quando seus profissionais são bem pagos para simplesmente jogar bola.

Como já apontou a ativista e intelectual do movimento negro Lélia Gonzales, há papéis sociais atribuídos positivamente aos negros e um deles é o de jogador de futebol. Nessa imagem, o futebolista negro é visto como um objeto de entretenimento, logo não lhe cabe assumir postura contestatória. Portanto, falar de racismo no futebol não é parte do jogo. A questão é que há futebolistas que escolhem enfrentar as injustiças e encaixar o racismo também como assunto de futebol. No passado e no presente, tais personagens simbolizam que, por meio do esporte, pode se jogar contra o racismo.

Por fim, atos racistas não podem ficar dissolvidos em meio a dribles, gritos de gol, emoções das torcidas, conquistas. O racismo, no campo ou fora dele, é crime e deve ser tratado como tal pelas autoridades, jogadores, torcedores, imprensa e interessados no esporte. Do contrário, violências étnico-raciais persistirão no mundo da bola e a pergunta do jogador Luighi continuará ecoando em tom de revolta para além das quatro linhas do campo. Até quando?

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