Lixeiras cheias, barrigas vazias
O desperdício é um outro lado da fome. Do campo aos circuitos de consumo, mais de dois bilhões de toneladas de alimentos são descartados. No Sul global, o drama é acentuado na agricultura: camponeses, sem acesso a tecnologias, perdem boa parte da produção
Publicado 29/01/2026 às 19:17 - Atualizado 29/01/2026 às 19:18

Por Sergio Ferrari | Tradução: Rose Lima
Atualmente, 13,2% dos alimentos — o equivalente a 1,25 bilhão de toneladas — são perdidos após a colheita e antes de chegarem ao varejo. Somente em 2022, 1 bilhão de toneladas (19% do total de desperdícios) foram desperdiçadas em residências, em locais que servem alimentação e no comércio varejista.
Por outro lado, aproximadamente 673 milhões de pessoas — 8,2% da população mundial — sofreram de fome em 2024 e outras 2,6 bilhões não conseguiram ter acesso a uma dieta saudável.
De acordo com a Rede de Bancos de Alimentos do México (BAMX), o país asteca é o que mais desperdiça na América Latina: cerca de 30 milhões de toneladas em boas condições e seguras para consumo humano, aproximadamente 40% dos alimentos que produz. Enquanto isso, na Argentina, cada pessoa desperdiça em média 72 quilos de alimentos por ano. Se falarmos de uma família média, esse número sobe para 198 quilos por ano.
Na União Europeia, uma média anual de 132 quilos é desperdiçada por pessoa. Mais da metade ocorre em residências, quase o dobro do que é perdido durante a produção e o processamento de alimentos. As diferenças dentro dessa região são significativas: 286 quilos por ano por pessoa em Chipre, 261 quilos na Dinamarca e 24 quilos na Espanha, o país que menos desperdiça.
Todos esses números e porcentagens projetam rostos humanos em um contexto muito alarmante. E traduzem um novo fracasso da civilização quando se sabe que, há poucos anos, as nações se propuseram a eliminar a fome no máximo até 2030. A pouco mais de quatro anos antes desse horizonte — definido por consenso em 2015 nas Nações Unidas — a dívida social é mais preocupante do que nunca devido a metas não cumpridas, assim como ao impacto do desperdício na degradação ambiental. A evidência para esse outro lado da moeda é inquestionável: o desperdício de alimentos que acabam no “lixo” (aterros sanitários) emite metano abundante, um gás de efeito estufa com potencial de aquecimento muito maior que o dióxido de carbono (CO2).
Um mau exemplo
No caso específico da Suíça, a realidade não é muito diferente. De acordo com o Relatório Intermédio de Monitoramento de Perdas Alimentares de 2025, em 2024 o desperdício por pessoa em todas as etapas da cadeia de produção e consumo de alimentos foi de 310 quilos, o que equivale a 800 dólares desperdiçados per capita. Apenas 5% a menos (330 quilos) do que em 2017. Com esses números, o país está longe de sua intenção de reduzir o desperdício pela metade até 2030. Nas condições atuais, alcançar esse objetivo parece altamente improvável, para não dizer impossível.
Após a falta inicial de medidas e metas concretas, em 2022 o governo suíço finalmente lançou seu Plano de Ação contra o Desperdício de Alimentos, um programa que abrange todos os atores do setor alimentício, a própria Confederação e seus cantões e municípios. Além de reduzir o formidável custo financeiro causado pelo desperdício, o Plano visa reduzir em 11% o seu impacto igualmente dramático na saúde ambiental.
De acordo com a Organização Não Governamental Fundo Mundial para a Natureza (World Wide Fund for Nature, WWF), desperdício consiste em “descartar alimentos que normalmente estão destinados ao consumo” em qualquer etapa da cadeia de produção e de consumo: cultivo, armazenamento, processamento, venda e consumo. As razões para o descarte de alimentos são incontáveis: produtos vegetais, por exemplo, considerados deformados ou muito pequenos, ou de qualidade inferior segundo as exigências do mercado.
De modo geral, explica a WWF, faz-se uma distinção entre perdas evitáveis e inevitáveis. As primeiras abrangem alimentos comestíveis que não chegam à mesa por nenhum dos motivos mencionados. As últimas incluem cascas, ossos e alimentos contaminados por patógenos, apesar das condições adequadas de armazenamento.
Além de ser moralmente reprovável, esse desperdício representa perdas econômicas e familiares significativas e um desperdício de recursos valiosos: terras cultiváveis, água, energia, entre outros. Nesse país europeu, a perda total de alimentos em 2025 é estimada em 2,8 milhões de toneladas, com a seguinte distribuição direta de responsabilidade pelo impacto negativo no meio ambiente: agricultura, 13%; processamento, 27%; comércio atacadista e varejista, 8%; consumo em estabelecimentos, 14%, e consumidor final, 38%.
Esse desperdício poderia ser substancialmente reduzido se houvesse vontade de fazê-lo. Por exemplo, se todos os atores envolvidos evitassem pelo menos um terço do desperdício atual, a quantidade de CO2 reduzida seria equivalente às emissões produzidas por 500 mil carros.
Conscientizar e conscientizar-se
A luta contra o desperdício de alimentos, que a Organização Internacional para Alimentação e Agricultura (FAO) descreve como um “desafio” de grande proporção, exige informação e consciência pessoal e coletiva. Em um quiz interativo recente em seu site intitulado “O Desafio da Perda e do Desperdício de Alimentos”, a FAO pergunta ao leitor: “Quanto [você] sabe sobre perda e desperdício de alimentos?” E propõe que os leitores “descubram” por meio de jogos e perguntas que testam o que sabem sobre o assunto, em três níveis, de “inexperientes” a “gênios”. Com exemplos muito específicos de desperdício — como tomates caídos de uma planta que estragam ou uma geladeira onde a comida deve ser ordenada corretamente para evitar perdas, até sobras de um prato que vão para o lixo ou produtos mal conservados atingidos pela chuva — o “teste” leva a um jogo de memória com figuras que motivam a encontrar exemplos ou situações semelhantes (no melhor estilo de um jogo da memória). Tudo isso é acompanhado de ilustrações, mensagens e dicas apropriadas para aumentar a conscientização e ajudar a reduzir o desperdício alimentar. (NdT: O link do site da FAO com esse quis não está disponível em português. Informo o link em espanhol, considerando que, no Brasil, um número significativo de pessoas consegue compreender esse idioma).
A FAO desafia seus leitores a compartilharem esse quiz-entretenimento nas redes sociais para “desafiar seus amigos”. E recorda que, diariamente, todos os lares desperdiçam mais de um bilhão de pratos de comida, o que equivale a 1,3 refeições por dia para cada pessoa que sofre com fome em todo o mundo hoje.
Pura falácia
A alegação de que a fome se deve à falta de comida é um mito. Na verdade, hoje no mundo se produzem alimentos suficientes para suprir as necessidades de todos os seus habitantes. A verdadeira razão para essa praga são algumas distorções importantes: a má distribuição de alimentos e o desperdício. As estatísticas comprovam isso: quase um quinto de todos os comestíveis produzidos anualmente é desperdiçado ou perdido antes de ser consumido.
Em muitos países desenvolvidos ou enriquecidos, esse desperdício ocorre no momento em que os alimentos são preparados, parte dos quais não é consumida ou se deteriora em geladeiras e armários. Para milhões de pessoas em países em desenvolvimento, esse desperdício ocorre na época da colheita. Instalações de armazenamento deficientes causam pragas e mofo, arruinando a colheita. De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, a falta de acesso à tecnologia e aos mercados força muitos agricultores a assistirem impotentes “enquanto suas plantações apodrecem nos campos, pois muitas vezes não têm mão de obra e investimento financeiro para colhê-las”. O desperdício de comida se manifesta como um drama humano que consome vidas sem piedade. Além de ser um golpe baixo diário contra o meio ambiente, que paga em carne própria um preço alto pelo desperdício.
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